LOGINDurante todo o caminho, Carolina esteve inquieta.A fábrica química do Grupo Nogueira Lima ficava num subúrbio afastado, praticamente no meio do nada. Por ali, havia só uma dúzia de famílias da zona rural e alguns trechos de lavoura.Carolina conversou com os moradores, reuniu as reclamações, recolheu evidências e ainda coletou amostras da água dos canais de irrigação e das valas que cortavam as terras vizinhas.Passou o dia inteiro investigando os arredores da fábrica, indo de um lado para o outro, até sentir as pernas quase cederem.Nenhum advogado queria pegar aquele caso. O custo era um dos principais motivos.No fim, os honorários que ela receberia não chegavam a ser grande coisa. Em compensação, a ação podia se arrastar por meses, talvez anos. E, para levantar provas, ainda teria de bancar do próprio bolso todo tipo de análise laboratorial e perícia.Quando terminou, já era noite. Carolina pegou o transporte de volta daquele subúrbio remoto.Ao sair da estação de metrô, já passav
Afinal, os colegas de faculdade conheciam bem a história dos dois. Foram quatro anos juntos. Se aparecessem lá, virariam assunto na certa.— Henrique… A gente não pode ser um casal. E também não dá pra ser amigo. — Carolina falou sério, quase num pedido. — O melhor é a gente parar de se ver.— A gente pode não ser um casal, nem amigo… Mas a Nova Capital não é tão grande assim. Uma hora ou outra, vai acabar se esbarrando.— Continuar se encontrando desse jeito não faz bem pra nenhum dos dois.— Se é pra matar a saudade… Como é que isso pode fazer mal?A expressão atingiu Carolina em cheio.O nariz ardeu, o peito apertou. De repente, até o ar pareceu ficar pesado. As lágrimas vieram na mesma hora.Ela sabia que Henrique estava sofrendo.E ela também.Mas… O que podia fazer?A culpa não era dela, só que a realidade era cruel.Henrique teria que escolher: a carreira ou ela.E Carolina jamais permitiria que ele abrisse mão dos próprios sonhos, muito menos de um futuro tão grandioso na área
Com medo de que ele saísse do banheiro só enrolado na toalha, Carolina voltou rápido para a cama. Apagou a luz, se virou de lado e se cobriu com o lençol leve, mantendo os olhos fechados.Quando a visão desaparece, os outros sentidos se aguçam.E ela não conseguia evitar.Toda a sua atenção estava voltada para ele.Logo, ouviu a porta do banheiro se abrir.Passos descalços, firmes, silenciosos, se aproximaram. Ele passou ao lado da cama, e o cheiro suave de sabonete recém usado se espalhou no ar.Leve… Quase como um sopro roçando sua respiração.O coração falhou um instante.Ele saiu do quarto e foi até a sala.Alguns minutos depois, uma batida na porta. Henrique voltou com as coisas.Dessa vez, havia o som de chinelos.Entrou novamente no banheiro, vestiu a cueca e a roupa de dormir, terminou de se arrumar e saiu.Em seguida, se deitou.O quarto mergulhou outra vez no silêncio.Só se ouviam as respirações suaves dos dois… E os dois corações inquietos.Carolina não tomou o remédio para
No quarto mergulhado na penumbra, Carolina encarava a silhueta alta diante dela. O coração disparou sem aviso, e a respiração perdeu o ritmo.Ele falava aquilo com a maior naturalidade… Enquanto soltava o cinto bem na frente dela.Carolina sabia que Henrique não era o tipo de homem que forçaria uma situação. Não tinha medo de que ele simplesmente avançasse.Mas aquilo…Era provocação.Clara. Calculada.Ela passou a língua pelos lábios, tentando manter a firmeza na voz:— Vamos fazer o seguinte… Cada um cede um pouco. Deixa em 26 graus, pode ser?— Pode. — Ele respondeu na hora e seguiu, no escuro, em direção ao banheiro. — Vou tomar um banho. Pede pra entregar aqui uma roupa de dormir e uma cueca pra mim. Carolina se sentou na cama de um salto.— Henrique, você tá passando dos limites! Eu deixei você dormir aqui uma noite e você já quer abusar? Agora vai tomar banho aqui e ainda quer que eu compre cueca pra você?Henrique empurrou a porta do banheiro e acendeu a luz. O brilho quente i
Por mais que Carolina o sacudisse, Henrique não reagia.Ela não teve coragem de chamar a polícia. Fazer um escândalo daqueles seria humilhante demais e a ideia de vê-lo sendo levado para uma delegacia só para passar a bebedeira era ainda pior.Cansada, por dentro e por fora, acabou cedendo.Pegou um travesseiro.— Já que você não vai embora… Então dorme aqui hoje. Eu fico no sofá.Com o travesseiro nos braços, puxou o cobertor e o cobriu. Quando ia se virar para sair, Henrique, de repente, estendeu a mão e segurou seu pulso.Carolina parou.O calor do toque se espalhou pela pele, intenso, vivo, quase queimando. Ele não soltava.De repente, Henrique se sentou. De cabeça baixa, ainda meio grogue, falou num tom baixo:— Você fica na cama… Põe um colchonete pra mim aqui no chão. Eu durmo aqui hoje e amanhã vou embora. Não vou te atrapalhar.Carolina hesitou.Ela já tinha dificuldade para dormir e dependia de remédios. Passar a noite naquele sofá pequeno seria um castigo.No fim, cedeu de n
Foi então que o celular na mesa de cabeceira começou a tocar.Carolina se sobressaltou. Virou o rosto, olhou para o próprio telefone e, logo depois, para o de Henrique.Por impulso, foi até lá conferir. No visor, aparecia… O nome dele.Sem pensar duas vezes, desligou o aparelho e abriu o contato salvo como "A patroa".No instante seguinte, ficou imóvel.Uma sensação estranha atravessou seu peito, indefinida, quase íntima demais. O silêncio do quarto pareceu pesar.No celular de Henrique, o único número sem identificação… Era o dela?E ainda com aquele apelido esquisito.— Por que você me salvou como "A patroa"? — perguntou, já com o coração acelerado.Henrique apoiou as mãos na cama e ergueu o corpo devagar. Os olhos, levemente avermelhados, se fixaram nela. Um sorriso cheio de intenção surgiu no canto da boca.A voz saiu baixa, rouca, quase preguiçosa:— Mandona…A palavra fez o sangue de Carolina ferver na mesma hora.Seu corpo amoleceu por dentro, como se perdesse toda a firmeza.El
Larissa falou num tom sério, sem margem para negociação:— Se você não vier, eu não caso.Carolina riu, meio sem jeito, meio lisonjeada.— O Leandro vai querer me matar.— Então vê direitinho o que você vai fazer.Carolina apoiou a cabeça na mão e sorriu, aliviada.Ainda bem que, pelo menos, havia a
Quando Carolina chegou à casa de Larissa, os mais velhos estavam numa correria interminável.Larissa, por outro lado, ainda dormia tranquilamente, aproveitando o precioso sono de beleza.Maquiador, fotógrafo, madrinhas… Um após o outro iam chegando. A casa inteira começava a mergulhar naquele caos o
Depois de terminar o jantar, Carolina organizou a mesa e lavou pratos e talheres.Ao sair da cozinha, seu olhar pousou em Henrique quase sem perceber.Ele havia mudado para uma posição mais relaxada, apoiando a cabeça em uma das mãos, recostado de lado no sofá. Continuava completamente absorvido pel
Do lado de fora da janela, tudo era escuridão.O vento uivava com violência.Carolina se aproximou e puxou a cortina, isolando o quarto daquele caos.Em seguida, voltou-se para o guarda-roupa e o abriu.Havia, de fato, algumas roupas, mas poucas. Apenas dois vestidos de festa caros e uma camisola de







