LOGINO quarto estava mergulhado na escuridão.Carolina ouviu, ao longe, alguém bater à porta. Afastou o cobertor e, com as mãos trêmulas, procurou o celular. Os olhos ainda úmidos mal focaram a tela.Já passava das dez da noite.As batidas cessaram. Em seguida, a voz baixa de Henrique soou do outro lado da porta:— Carol, abre.O corpo dela tremia sem controle. O estômago se contraía em espasmos dolorosos, como se algo a estivesse rasgando por dentro. Estava gelada, entorpecida, e as lágrimas não paravam de cair. Não queria que Henrique a visse daquele jeito, tão frágil, tão devastada.Com a ponta dos dedos tremendo, digitou apenas três palavras no WhatsApp:[Vou dormir agora.]Assim que a mensagem foi enviada, o lado de fora mergulhou em silêncio.Carolina largou o celular, segurou a cabeça latejante e se encolheu contra a cabeceira. Cerrou os dentes, tentando aguentar na marra aquela tortura que a consumia por dentro.Quanto mais tentava conter, mais o ar lhe faltava.Ela se odiava.Odiav
Larissa enxugou as lágrimas mais uma vez e abaixou o olhar.Os olhos de Henrique estavam vermelhos. O rosto, completamente molhado. O punho cerrado tremia, as veias saltadas. A dor estampada nele era evidente e, ainda assim, ele continuava ouvindo, sem desviar a atenção.— Henrique… Antes eu não entendia por que a Carol sofria tanto. Agora eu entendo. — Larissa respirou fundo. — Ela é como um gatinho que cresceu sem carinho nenhum, deixado num canto, como se não importasse pra ninguém. E, de repente, alguém aparece e a ama de verdade. Com intensidade. Ela saiu de um lugar vazio pra um lugar cheio de afeto… Passou a ser cuidada, protegida, tratada como alguém importante. Como se fosse tudo.Fez uma pausa curta.— E não foi por pouco tempo. Foram quatro anos. Depois disso… Não dá simplesmente pra voltar ao que era antes.Ela engoliu em seco.— A segunda vez que ela piorou foi quando você estava prestes a voltar pra Nova Capital… E, ao mesmo tempo, o pedido de revisão do caso do pai dela
— Esse tipo de diagnóstico pode envolver diferentes quadros, mas, na maioria dos casos, está ligado ao estado emocional. Numa avaliação mais clínica, isso pode estar relacionado à depressão, ao transtorno bipolar, ao estresse pós-traumático, entre outros quadros. — O médico respondeu com calma.— Entendi. Obrigado. — Henrique encerrou a ligação.Ficou parado, olhando para os livros espalhados sobre a mesa. O rosto, fechado, pesado.Algo dentro dele parecia afundar, como se caísse num abismo escuro, sem fim. Um medo desconhecido começou a se instalar.Ele girou a cadeira de rodas e saiu do quarto.Não foi até o quarto de Carolina.Parou diante da porta de Larissa.Bateu.Ela abriu, surpresa.— Henrique? A essa hora… Aconteceu alguma coisa?Ele foi direto ao ponto, sem rodeios. A voz, firme. Dura.— Que doença a Carolina tem?Larissa travou por um instante. O olhar vacilou. As mãos se fecharam na barra da roupa. Hesitou.Não respondeu.A paciência de Henrique acabou.O punho se fechou co
A noite já tinha tomado conta da cidade, e o trânsito avançava a passos lentos, quase parando.O carro entrou no fluxo pesado de lanternas vermelhas, como se mergulhasse num rio de luzes rubras. Lá dentro, o silêncio pesava.Henrique mantinha o rosto fechado. Sentado ereto, não dizia uma palavra.Carolina, esgotada, encostou a cabeça no vidro e ficou olhando a cidade passar. Por dentro, tentava organizar os pensamentos, procurando uma forma de começar… De explicar.Ele não ia perguntar nada?Não ia dizer nada?O ar parecia denso demais. Difícil até de respirar.Meia hora depois, o carro entrou no C&H.O motorista tirou a cadeira de rodas do porta-malas. Henrique se apoiou na porta, desceu e se acomodou nela. Depois de encerrar o serviço, o motorista se despediu e foi embora.Sob a luz amarelada do jardim, Carolina ficou ao lado dele em silêncio. Observava o perfil rígido, distante. Apertava a alça da bolsa entre os dedos, enquanto uma pressão invisível apertava seu peito.— Rick… — Ela
Cláudio deu de ombros, com a expressão mais inocente do mundo.— Eu? Nada. Minha advogada desmaiou no meio da audiência. Trouxe você pra cá pra ser atendida, simples assim. Ainda mais considerando que a equipe médica daqui é de primeira. Em hospital, médico mal tem tempo… Quando muito, três minutos por paciente. Não dá nem pra comparar.Carolina mordeu o lábio, lançando-lhe um olhar cortante. A irritação fervia por dentro.Sem entender o que ele realmente queria, calçou os sapatos, pegou a bolsa e saiu sem dizer mais nada.Cláudio foi atrás.— O médico disse que você está bem debilitada. Fica aqui e descansa direito…Ela fingiu que não ouviu. Desceu as escadas apressada e, ao atravessar a sala, viu Lílian sentada no sofá, distraída com o celular.Lílian levantou os olhos devagar, com aquele ar de superioridade de sempre, e sorriu de canto.— Carolina… Sinceramente, eu não esperava menos de você. Depois de tantos anos, continua com esse hábito de não largar um lado nem outro. Antes era
Em seguida, ele se afastou alguns passos, fez uma ligação e voltou poucos minutos depois.— Seu nome… E o número do distintivo?— Enrico Queiroz. O número é…Bruno repetiu tudo ao telefone. Ficou em silêncio, escutando. Aos poucos, o rosto perdeu a cor. Quando desligaram do outro lado, ele ainda permaneceu imóvel por um instante, olhando para Enrico como se não entendesse o que estava acontecendo.Engoliu em seco. A postura firme de antes simplesmente desmoronou.Virou-se para o segurança:— Abre o portão.Ao lado, Carolina soltou o ar que nem percebia que estava prendendo. Pelo visto, o tão falado "guarda-chuva" do Grupo Nogueira Lima não era tão à prova de falhas assim.Foi assim que Enrico entrou na fábrica química, ao lado dela, sem esconder nada. Alegando suspeita de produção ilegal de drogas, recolheu amostras da água residual e do solo, além de seguir a tubulação para rastrear o destino do esgoto.Desta vez, as provas eram muito mais numerosas, e sólidas, do que na invasão cland
Deixa para lá.As mentiras que ela inventara naquela época para conseguir terminar o relacionamento não eram em nada inferiores às de Marcelo.Carolina sabia muito bem. Ela se valeu dele. Usou Marcelo como ferramenta para conseguir se separar sem obstáculos.Falando sem rodeios, a amizade entre Marc
— Obrigada.Carolina finalmente parou de insistir em recusar. Estava profundamente grata.Henrique pegou o celular e olhou a hora. Já passava da meia-noite.— Já está muito tarde. Vá dormir.— Ok. — Ela respondeu baixinho.Henrique então acrescentou, em tom tranquilo, quase como uma orientação:— Le
O chicote cortava o ar de forma caótica, atingindo seus braços e pulsos.A camisa branca de Carolina logo foi marcada por faixas vermelho-vivo de sangue.Ela tremia de dor, o corpo inteiro sacudindo, mas continuava segurando a faca com todas as forças. Lágrimas enchiam seus olhos, e ela não ousava p
Henrique ficou levemente surpreso.Seu olhar caiu sobre as costas de Carolina enquanto ele soltava um suspiro quente e levantava devagar a parte de trás da camisola dela.Na noite anterior, tinha sido a enfermeira quem limpara e tratara as feridas.Era a primeira vez que ele realmente via os machuca



