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Capítulo 6

Author: Sem Asas
No dia seguinte, Carolina acabara de encerrar o que estava fazendo quando pegou o celular e enviou uma mensagem para Larissa.

[Lari, já acordou?]

[Já.]

[E você e o Leandro, como ficaram?]

[Conversamos. Ele cedeu. O casamento vai acontecer na data prevista.]

[Desculpa, Lari… Surgiu um caso muito importante pra mim. Talvez eu precise viajar a trabalho no mês que vem. Não vou conseguir ser sua madrinha. Você consegue me perdoar?]

[As duas pessoas mais bonitas do time de padrinhos e madrinhas dizendo que não vêm… Vocês combinaram isso?]

[Como assim?]

[O Henrique também disse que tem coisa pra resolver e não pode vir.]

"Provavelmente, Henrique também não queria me ver."

O coração de Carolina ficou pesado, como se algo afundasse lentamente dentro do peito…

Porto Velho era grande, com muita gente. Quando duas pessoas realmente queriam evitar uma à outra, era praticamente impossível que se encontrassem de novo.

Ela estava ocupada. Henrique também.

Eram como duas linhas paralelas, existindo lado a lado, sem jamais se cruzar.

E, na verdade, Carolina estava mesmo se esquivando dele de propósito.

Todos os jantares que Larissa e Leandro marcavam juntos, ela recusava com alguma desculpa. Sempre que amigos a convidavam para sair, perguntava antes quem estaria presente, certificando-se de que Henrique não estaria ali. Fazia de tudo para evitar um novo encontro.

Até que, quinze dias depois.

O diretor Felipe entrou em seu escritório com uma pasta de documentos na mão.

— Carolina, tem um caso que pediu especificamente para você assumir.

Carolina pegou a pasta, abriu-a e deu apenas uma olhada rápida.

— Infração de marca registrada? Felipe, você sabe que isso não é minha especialidade. Eu sempre cuido da área social e de interesse público. Casos comerciais são com vocês.

— Mas o cliente fez questão da advogada Carolina. — Felipe ajustou os óculos de armação preta e suspirou, visivelmente animado. — Honorários de trinta por cento. Como é que eu não vou me empolgar?

— Isso é…

— Eu confio na sua capacidade.

Carolina ficou em silêncio por um instante.

— Eu posso tentar.

— Ótimo. O endereço residencial do cliente está aqui. Você pode ir direto até lá.

— Na casa do cliente?

— Isso. Na casa mesmo…

Vila Azul Prime.

Um dos condomínios de alto padrão mais famosos de Porto Velho. Toda a região era um polo de profissionais de elite e ficava a apenas dez minutos de carro do Instituto Aeroespacial.

A segurança era rigorosa. Cadastro, conferência de documentos, telefonema de confirmação. Só depois disso o portão se abria.

Carolina finalmente conseguiu entrar. Parou diante da porta e apertou a campainha.

No instante em que a porta se abriu, ela ficou paralisada, incrédula.

Era Lílian.

Vestia um camisão de seda. Os cabelos longos caíam soltos sobre os ombros. A maquiagem era pesada, o charme calculado, tornando-a ainda mais sedutora.

— Entra. Deixa a porta aberta.

Um caso comercial pedindo, por nome, uma advogada da área social?

Antes, Carolina até achara estranho.

Agora, tudo fazia sentido.

Lílian só queria uma oportunidade para dificultar as coisas, constrangê-la, humilhá-la. Nada além disso.

Mas, já que tinha vindo até ali, Carolina queria ver até onde ela pretendia ir.

Entrou.

Seu olhar caiu imediatamente sobre um par de chinelos masculinos pretos diante do armário de sapatos. O modelo combinava perfeitamente com os que Lílian usava nos pés. Um par de casal, sem dúvida.

O tom de Lílian era casual, quase displicente.

— Os chinelos são do Rick. Pega um novo no armário.

"Henrique… Morando com ela?"

A ideia atravessou a mente de Carolina num lampejo, atingindo-a como uma fisgada seca no peito.

Mas chinelos não deveriam estar guardados no armário?

Deixá-los ali, tão visíveis, parecia deliberado. Era óbvio que Lílian queria que ela visse.

Carolina respirou fundo e manteve a compostura. Abriu o armário, pegou um par novo e trocou os sapatos.

— Srta. Lílian, eu sou...

Ela ainda tentava assumir um tom profissional quando foi interrompida, sem espaço para concluir.

— Não precisa se apresentar, nem perder tempo com conversa inútil. Sente-se.

Lílian se espreguiçou de lado no sofá, numa pose preguiçosa e provocante. As pernas estavam cruzadas com cuidado. Uma das mãos sustentava o rosto. Os longos cabelos ondulados escorriam pelo encosto.

Havia desprezo e arrogância em seus olhos. A frieza era explícita.

Carolina respirou fundo, controlando-se. Sentou-se, abriu o bloco de anotações e adotou um tom profissional.

— Srta. Lílian, sobre o caso de infração de marca...

— Bebe água. Já deixei ali.

Carolina olhou para a mesa.

Havia três copos.

Dois deles formavam claramente um par de casal.

A intenção óbvia, quase infantil, deixou Carolina sem palavras.

— Não bebe desse. Esse é o copo do Rick.

Lílian pegou um dos copos do casal e sorriu ao dar um pequeno gole. O olhar deslizou até o rosto de Carolina, saboreando cada reação.

Carolina apenas pressionou os lábios num leve sorriso. Inspirou fundo e decidiu que não toleraria mais aquela encenação barata.

— Srta. Lílian, chega de teatro. O caso é falso. Você me chamou aqui só pra me constranger. Esse é o seu verdadeiro objetivo, não é?

A máscara de Lílian caiu de imediato.

Ela soltou uma risada de desdém e olhou Carolina de cima a baixo, a voz carregada de veneno:

— Carolina, parece que o karma finalmente te alcançou. Uma mulherzinha sem caráter como você… Largou o Rick e, mesmo assim, não conseguiu se encostar em nenhum herdeiro rico. A famosa aluna brilhante da Economia, hoje reduzida a advogada de causas sociais num escritóriozinho qualquer. Deus realmente tem olhos.

Carolina a observou com calma, indiferente.

Lílian continuou, cada palavra mais ácida que a outra:

— Com uma origem tão baixa quanto a sua, o fato de o Rick ter te escolhido já foi um milagre pros seus antepassados. E você ainda teve a audácia de trair. Mereceu cair nesse buraco, sozinha, sem ninguém te querer. Desde que você saiu da vida dele, o Rick está comigo. Nós somos felizes. Muito felizes.

Carolina soltou uma risada suave. Havia algo quase piedoso naquele sorriso.

— Lílian… A régua com que você mede o mundo continua tão curta quanto antes.

— O que você quer dizer com isso?

O rosto de Lílian escureceu num instante.

Carolina respondeu sem pressa. O tom era calmo, irônico, cada palavra afiada:

— No seu mundo só existem homens, herdeiros ricos e status. Você é como uma formiga operária, sempre se gabando do tamanho do pedaço de esterco que conseguiu carregar. — Ela a encarou de frente. — Eu, daqui, enxergo outra coisa. Justiça processual. Demandas da base da sociedade. Casos reais capazes de empurrar o mundo um pouco pra frente.

O sorriso de Lílian desapareceu. O olhar tornou-se cortante, como lâmina.

— O meu valor não precisa ser provado me pendurando em homem nenhum. E daí se sou advogada de causas sociais? Cada processo que eu assumo ajuda a remendar a justiça deste país. E você… Além de se agarrar a um passado que eu já joguei fora e a esse homem… O que mais você tem?

O rosto de Lílian ficou lívido. Ela cerrou o punho e se levantou de um salto, fuzilando Carolina com os olhos.

Chamou aquela mulher até sua casa para humilhá-la.

Mas acabou sendo humilhada.

Nesse momento, passos soaram do lado de fora.

Lílian recompôs-se às pressas e correu até a porta.

Carolina guardou os documentos e o caderno na pasta.

A porta permanecia aberta, e as vozes do lado de fora chegavam nítidas demais.

— Rick, você já chegou do trabalho? Fiz um caldo e deixei separado pra você.

A voz de Henrique soou grave, baixa, inconfundível.

— Não precisa. Eu já jantei.

— Mas já está tudo pronto… Se você não comer, vai acabar jogando fora. Que desperdício. Passei o dia inteiro preparando. Usei ingredientes de primeira, deixei cozinhando em fogo baixo, é um caldo premium.

Carolina sentiu uma pontada de cansaço amargo.

Ela se esquivara por tanto tempo, evitando qualquer chance de voltar a encontrar Henrique.

Mas não tinha conseguido escapar de Lílian.

Levantou-se, pronta para ir embora.

Ao passar pelo sofá, seus olhos caíram, sem querer, no lixo no canto da sala.

A embalagem de um ensopado do Bistrô Dourado saltava à vista.

Henrique foi puxado por Lílian pelo braço e entrou.

No hall de entrada, deu de frente com Carolina.

No instante em que seus olhares se cruzaram, os dois ficaram completamente imóveis.
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