LOGINAcordei com a luz do sol batendo direto no meu rosto.
A cortina havia ficado aberta. Adormeci na sala, jogada no sofá. Como não houve casamento, a licença também não aconteceu. Eu precisava voltar ao trabalho — o que, para mim, seria até uma espécie de terapia. Sou workaholic assumida. Não sei fazer outra coisa da vida além de trabalhar. Levantei ainda com a cabeça doendo e fui direto para o banho. A água quente escorrendo pelo corpo ajudou a organizar os pensamentos. Vesti um vestido preto, justo, com um decote fatal. Não era exatamente roupa de trabalho, mas eu precisava mostrar — para mim mesma — que estava bem. Como assessora da Diretoria, quase ninguém me veria. Não havia reuniões marcadas. Aproveitaria para adiantar o serviço da semana seguinte. Haveria um coquetel de apresentação do novo diretor de marketing. Se eu estivesse de licença, estaria completamente em cima de tudo…, mas nada acontece por acaso. Chamei um carro por aplicativo. O motorista não tirava os olhos do retrovisor, tentando flertar comigo. Ignorei. Desci do carro e entrei na empresa. — Bom dia, Srta. Ester! — Morais, o recepcionista, me cumprimentou. — Bom dia! Alguma coisa para mim? — Já subi com as correspondências. — Obrigada! Apertei o botão do elevador. Quando ele chegou e a porta se abriu, havia um jovem homem lá dentro, falando ao celular, de cabeça baixa. Entrei e fiquei à frente. Pelo tom da conversa, parecia discutir com uma namorada… ou algo parecido. Quando o elevador chegou ao meu andar, desci. E não é que ele desceu também? Entrei na minha sala — a antessala das diretorias. O homem do elevador parecia meio perdido. — Bom dia! — ele disse. Olhei para ele com mais atenção. Era um homem bonito. Moreno claro, cabelos lisos castanhos, penteados de lado, olhos castanhos intensos, barba cerrada, nariz afilado e uma boca carnuda, bem desenhada. Usava uma camisa claramente dois números menores, esticada pelos bíceps e tríceps. O peitoral… impossível não notar. Eu, de salto, tenho 1,72. Ele devia ter perto de 1,90. — B-bom dia — respondi, meio atrapalhada. — A sala do diretor de marketing… qual é, por favor? Sorri, tentando manter a compostura. — Ele ainda não chegou. Posso ajudar? — Pelo visto, a senhorita não sabe quem eu sou. — Deveria saber? — Eu sou… Nesse momento, o diretor financeiro, Dr. Carlos Etiene, chegou cumprimentando o jovem com um aperto de mão firme. — Você já chegou? Venha, vamos para a minha sala. — Claro, Etiene. — Ester, como você está linda hoje! — ele comentou. — Peça um café pra gente, por favor. E depois entre, preciso falar com você. Eu não entendi nada. Quem era aquele rapaz? Bonito ele era — e muito. Solicitei o café na copa e, quando a copeira trouxe, fiz questão de levar pessoalmente até a sala do Dr. Etiene. Bati na porta. — Com licença. Ao me abaixar para servir o café, senti o olhar do rapaz cravado no meu decote. Não tive dúvidas: ele viu meus seios. — Srta. Ester, este é o Adam. Adam Smith, nosso mais novo diretor de marketing — anunciou o Dr. Etiene. — Oi… quer dizer… prazer, Sr. Adam. Seja bem-vindo. Estendi a mão para cumprimentá-lo. Ele a virou delicadamente e a beijou. — Adam, a Ester é nossa assessora. Muito dedicada. É o braço direito da diretoria. Você pode contar com ela. Adam me olhou com algo perigoso no olhar. Um quê descarado. — Tenho certeza do quanto ela é dedicada. Fiquei completamente sem chão. O que ele quis dizer com aquilo? E como eu iria trabalhar com aquela tentação diária? A química entre nós era inegável. Nunca tivemos diretores jovens na empresa — e eu trabalho aqui há dez anos. — Bem… já vou voltar para minha sala. Se precisarem de mim… Adam respondeu com um sorrisinho de lado. Algum tempo depois, ele saiu da sala do Dr. Etiene. — E agora? Pode me mostrar a sala do diretor de marketing? — Claro. Desculpe… é que você é tão… — Interessante? — ele riu. — Eu ia dizer jovem. — Então venha. Me leve até lá. Fiz questão de andar à frente, rebolando de propósito. Sentia claramente o olhar dele queimando minhas costas. Abri a porta da sala e ele entrou. — Você não vai entrar? Preciso saber onde ficam os documentos. Desconfiei. Claro que desconfiei. Mas arrisquei. — Tudo bem… vou te mostrar a mesa e as gavetas. Caminhei até a mesa, abrindo as gavetas. — Vem aqui pra você ver… Adam se aproximou. Olhou nos meus olhos, segurou minhas mãos e as colocou sobre os ombros dele. Em seguida, segurou minha cintura e me sentou sobre a mesa. Levantou meu queixo e me beijou — um beijo intenso, faminto. Quando eu já estava quase sem fôlego, ele mordeu meus lábios devagar e voltou a me beijar. Suas mãos deslizaram para dentro do meu decote. Quando percebi, eu estava sentada, quase seminua, no colo dele, na cadeira do diretor de marketing. Saltei num impulso. — O que eu estou fazendo?! Ele sorriu, enquanto abotoava a camisa. — O que há de errado? Sentir prazer, tesão… é tão bom. Não estamos fazendo nada de errado com ninguém. — Aqui é meu local de trabalho. E… você é meu chefe! — Então, fora daqui a gente pode? A lembrança da promessa que fiz a mim mesma veio forte. Eu não queria relacionamento algum. Uma vez talvez não significasse nada… mas e se ele quisesse continuar? Sendo meu chefe? Não. Eu precisava acabar com aquilo. — Sr. Adam, nossa relação é estritamente profissional. Com licença. Se precisar de mim, estarei na sala ao lado. Saí dali morrendo de vergonha. Sentei na minha cadeira, o coração acelerado, pensando em tudo: no abandono do meu noivo… e em quase ter transado com o novo diretor de marketing — que, por sinal, era um gato. Comecei a entender que a vida tem fases. E eu estava entrando na fase de erguer a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Só não podia me apaixonar. O tempo passou. Durante o resto do dia, Adam — quer dizer, Sr. Adam — não me chamou. Terminei meu trabalho, avisei o Dr. Carlos que estava indo embora e passei na sala do novo diretor de marketing. Ele não atendeu. Peguei minha bolsa e segui para o elevador. No corredor, senti alguém muito próximo às minhas costas. Entrei no elevador. Quando olhei para trás, era Adam. — Posso te oferecer uma carona? — O quê? Não precisa… — Não se trata de precisar. Quer ou não? Ah, quer saber? Ele é lindo, e eu estou precisando de um carinho. — Tudo bem. Descemos até o estacionamento. Quando ele apertou o alarme, vi um Porsche preto reluzente. Entramos no carro. Dessa vez, fui eu quem se aproximou e lhe deu um beijo intenso. — Hum… agora gostei — ele disse, sorrindo. — Para onde vamos? — Para minha casa. Ele pousou a mão na minha coxa. Eu, no ombro dele.É verão em Nova York.Estou sentada sobre uma toalha xadrez, no Central Park, observando Adam jogar Diego para o alto. Aquelas brincadeiras que deixam qualquer mãe apreensiva — e que as crianças simplesmente adoram. Diego gargalha alto, solto, confiante. Para ele, o pai é um herói invencível.Adam brinca com nosso filho como se o mundo ao redor não existisse. Quando está com Diego, nada mais importa. E eu fico ali, observando, com o coração cheio demais para caber no peito.O parque está lotado. Todos querem aproveitar o sol, o calor, a vida pulsando. Diego está prestes a completar dois anos. Fala pelos cotovelos, corre para todos os lados. Não posso desgrudar os olhos dele nem por um segundo. Aqui não tenho babá. Somos apenas nós dois. Nós três.Adam realizou o sonho de abrir a filial da AVANCE nos Estados Unidos. Mas foi além: a sede da empresa agora é aqui. Nova York se tornou o centro de comando. O Brasil virou filial. A AVANCE cresceu, se impôs, ganhou o mundo.Nicole assumiu a f
*Ponto de Vista de Adam* O Arquiteto de um Novo Amanhã O batizado do Diego não era apenas um rito religioso para mim; era o encerramento de um ciclo de sombras. Eu queria que tudo fosse impecável, uma celebração da vida que quase nos foi tirada. Escolhi a casa dos meus pais por ser um terreno sagrado, um lugar onde as paredes guardavam a história da minha própria infância e onde, agora, meu filho receberia sua primeira benção. Ester organizou cada detalhe do buffet, do estrogonofe ao penne, com uma precisão que beirava a obsessão. Eu queria que Ester se sentisse em um santuário, cercada apenas por aqueles que realmente importavam. Estávamos todos de branco, uma unidade visual de paz que eu esperava que se refletisse em nossas almas. Na igreja, ver a luz filtrada pelos vitrais atingir o rosto do pequeno Diego, enquanto meu pai e Cristina o seguravam, foi o momento de maior clareza que já tive. Eu não era apenas o CEO da AVANCE; eu era o guardião de um legado. Diego não chor
Organizei o batizado de Diego com cuidado quase obsessivo. A celebração seria na casa dos avós paternos. Contratei um buffet completo, responsável por toda a estrutura do evento. Como o batizado aconteceria às onze da manhã, optamos por um almoço tradicional, leve e elegante. Entradas com tábuas de frios e frutas, finger foods variados. Nos pratos principais, saladas frescas, penne ao forno e estrogonofe de filé-mignon. Tudo em sistema self-service, para que os convidados ficassem à vontade. O buffet também cuidou da decoração e da equipe de garçons. Restringi a lista de convidados. Primeiro porque a casa não era minha. Segundo porque se tratava de um momento íntimo, familiar. Na igreja, tudo transcorreu em paz. Os padrinhos — minha irmã Cristina e o Dr. André, pai de Adam — conduziram Diego até a pia batismal. O padre disse palavras bonitas, profundas. Diego não chorou. Adam e eu nos emocionamos. A igreja estava cheia; outras crianças também seriam batizadas naquela manhã
O dia estava bonito demais para ficar em casa. O parque cheio, famílias espalhadas pelo gramado, corredores dividindo o espaço com carrinhos de bebê e bicicletas. Enquanto eu corria, Dona Aidê cuidava de Diego ali perto. Era o nosso pequeno ritual de normalidade. Minha garrafa ficou vazia. Fui até a fonte. Quase trombei com alguém. — Ops, desculpa. — Tudo bem. Pode encher primeiro. — Não, eu faço questão. Levantei o olhar. Ele era bonito. Bonito demais para ser ignorado com naturalidade. Corpo atlético, olhos verdes, sorriso largo, boca bem desenhada. Enquanto falava, eu me dei conta de que não estava ouvindo nada. Só observando. — Você vem sempre aqui? — Eu… sim. Corro quase todos os dias. — Legal. Até mais. — Até. Fiquei parada por um segundo, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Eu havia flertado. Eu, que tinha um marido atencioso, um homem que me amava, que me desejava, que me deu um filho saudável depois de tudo que pass
*O Ponto de Vista do Adam* A Ester estava exausta. Dava para ver nos olhos dela, no jeito que ela segurava o Diego como se fosse o único porto seguro em um mar de privação de sono. Quando ela me disse que a babá tinha vindo, mas que não sabia se precisava, eu nem dei espaço para discussão. Eu precisava da minha mulher de volta, e ela precisava de descanso. "Vou mandar colocar uma cama no quarto do Diego", decidi. Mal sabia eu o que estava colocando para dentro de casa. Naquela noite, tentei focar apenas na Ester. Dei banho nela, cuidei de cada detalhe com toda a paciência que eu ainda tinha, já que o resguardo estava testando meu autocontrole. Eu estava contido, mas o desejo por ela era uma chama constante. Na manhã seguinte, eu estava na cozinha preparando o café quando o interfone tocou. Tobias avisou que a Bruna havia chegado. Abri a porta e... uau. Eu esperava uma enfermeira padrão, talvez alguém com cara de avó. Em vez disso, vi uma mulher de vestido branco curto e u
Bruna era linda. Linda demais. Loira, cerca de um metro e setenta, corpo escultural, curvas bem desenhadas, cabelos longos que iam até a cintura. Técnica de enfermagem, especializada em cuidados com recém-nascidos. Perfeita no currículo. Excessiva na presença. E eu ia colocar essa mulher dentro da minha casa. Brincadeira, né? Cheguei a rir sozinha do absurdo — de nervoso, talvez. Até eu fiquei levemente afetada pela beleza dela. Ri, mas foi um riso desconfortável. — Então… o horário de trabalho — comecei tentando manter a postura. — Posso dormir no emprego, se desejar — respondeu com naturalidade. Aquilo soou íntimo demais. — Não sei se é uma boa ideia. Vamos fazer um período de teste. Tudo bem? — Claro. — Começamos amanhã. Ela foi embora. Quando Adam chegou, me encontrou descabelada, exausta, sentada na poltrona de amamentação com Diego no colo. — Então, amor… a babá veio? — Veio. Mas… não sei se preciso. — Claro que precisa — ele disse, olhan







