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Voyeur

Author: D'Leosha
last update publish date: 2026-09-05 03:48:18

Respirei fundo antes de voltar para a mesa.

Ainda conseguia sentir aquele estranho desconforto causado por Joseph. Talvez eu estivesse exagerando. Talvez tivesse interpretado errado seus gestos, seus olhares e aquela proximidade que, até então, eu não conseguia explicar.

Puxei a cadeira e me sentei novamente ao lado de Pietro.

Eleonora foi a primeira a falar.

— Finalmente. Estávamos começando a pensar que havia se perdido na cozinha.

Ela disse aquilo com um sorriso educado, mas havia uma pequena provocação em sua voz.

— Desculpe. Eu só precisava de alguns minutos.

Não expliquei mais nada.

Joseph, sentado do outro lado da mesa, apenas sorriu. Aquele mesmo sorriso malicioso de antes.

— Ela precisava respirar um pouco — comentou.

Pietro olhou para o irmão.

Joseph continuou:

— Afinal, talvez o Pietro tenha tirado o fôlego dela.

Algumas pessoas sorriram.

Eu senti meu rosto esquentar.

Pietro, porém, não achou graça.

Seu olhar ficou sério.

— Joseph.

— O quê? Foi só uma brincadeira.

Ele levantou as mãos em rendição e depois olhou para mim.

— Desculpa, Sara. Não queria ofender.

O sorriso que acompanhou o pedido de desculpas fez com que parecesse muito menos inocente do que suas palavras.

— Tudo bem — respondi.

Voltamos a comer.

Por alguns minutos, a conversa seguiu normalmente. Mas, aos poucos, o assunto mudou.

Negócios.

Finanças.

Empresas.

Investimentos.

Eu permaneci em silêncio, tentando acompanhar uma conversa que parecia ter pouco a ver comigo. Eles falavam sobre movimentações financeiras, decisões empresariais e algumas questões relacionadas aos negócios da família.

Não mencionavam nada muito específico, mas havia algo estranho na forma como falavam.

Era como se todos soubessem exatamente do que estavam tratando, menos eu.

Até que Pietro mudou de postura.

— Acho que podemos conversar sobre isso depois.

Sua voz não estava agressiva, mas havia firmeza suficiente para fazer todos entenderem.

Vittorio olhou para o filho.

— Estamos apenas conversando.

— Eu sei.

Pietro respirou fundo.

— Só acho que existem assuntos mais apropriados para outro momento.

Ninguém respondeu imediatamente.

Olhei para ele.

Pietro não parecia querer esconder alguma coisa de mim. Pelo menos era o que eu queria acreditar. Mas aquela maneira de interromper o assunto deixou uma sensação estranha.

Ele estava me apresentando à família.

Então por que parecia tão preocupado com o que eu poderia ouvir?

Eleonora percebeu a tensão e mudou o assunto.

Começaram a falar de maneira mais genérica sobre economia, mercado e sobre como administrar uma empresa em tempos de incerteza.

A conversa voltou a fluir.

Pouco depois, o jantar terminou.

Pietro segurou minha mão enquanto caminhávamos para o quarto.

Assim que fechamos a porta, finalmente pude respirar.

— Você está bem? — ele perguntou.

— Estou.

— Tem certeza?

Sorri.

— Sua família é... interessante.

Ele soltou uma pequena risada.

— Essa é uma maneira muito educada de dizer que eles são complicados.

— Talvez.

Pietro se aproximou e passou os braços pela minha cintura.

— Sinto muito pelo que aconteceu hoje.

— Não precisa pedir desculpas por eles.

— Preciso, sim.

Ele beijou minha testa.

Depois minha bochecha.

Então meus lábios.

Era sempre assim com Pietro.

Ele nunca tinha pressa.

Nunca me fazia sentir como se eu precisasse corresponder a alguma expectativa. Tratava-me como se eu fosse algo precioso, algo que deveria ser cuidado.

Com ele, eu me sentia protegida.

Amada.

Desejada.

E, acima de tudo, segura.

Seus braços me envolveram enquanto nossos beijos se tornavam mais demorados. As palavras foram desaparecendo aos poucos, substituídas por carícias, abraços e pela intimidade que já conhecíamos tão bem.

Pietro tinha uma maneira delicada de me conduzir para perto dele. Mesmo quando o desejo aumentava, havia carinho em cada gesto.

Naquela noite, não existia família, negócios ou perguntas sem respostas.

Existíamos apenas nós dois.

Entre beijos e sussurros, deixei que ele me levasse para a cama.

A noite se tornou íntima, quente e cheia de carinho. Pietro me fazia sentir desejada sem jamais deixar de me fazer sentir amada. Seus beijos percorriam meu corpo com delicadeza, e eu me entregava àquele momento com a tranquilidade de quem conhecia cada gesto do homem que amava.

Por alguns instantes, esqueci completamente onde estávamos.

Até sentir algo.

Abri os olhos.

A sensação veio de repente.

Como se alguém estivesse olhando.

Parei.

— Pietro...

Ele imediatamente percebeu.

— O que foi?

Olhei para o quarto.

— Você não sente isso?

— Isso o quê?

Meu coração começou a acelerar.

— Parece que tem alguém olhando para mim.

Pietro franziu a testa.

— Sara, não tem ninguém aqui.

Puxei o lençol contra meu corpo.

— Eu sinto que tem.

Ele se levantou.

— Fica aqui.

Pietro caminhou até a porta.

Quando colocou a mão na maçaneta, hesitou.

A porta estava apenas encostada.

Não trancada.

Ele a abriu lentamente e olhou para o corredor.

Não havia ninguém.

— Viu? Não tem ninguém.

— Você lembra de ter trancado?

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Não lembro.

Aquilo não me tranquilizou.

— Nem eu.

Pietro voltou até mim e sentou-se na cama.

— Talvez tenhamos simplesmente esquecido.

Ele me abraçou.

— Está tudo bem.

Respirei fundo contra seu peito.

Aos poucos, aquela sensação desapareceu.

Talvez tivesse sido apenas impressão minha.

Talvez o cansaço, a tensão daquele jantar e tudo que havia acontecido com Joseph tivessem mexido comigo mais do que eu imaginava.

Pietro me beijou novamente.

E, pouco a pouco, o clima voltou.

Naquela noite, acabamos deixando para trás qualquer preocupação.

A madrugada passou entre carinho, intimidade e longos momentos nos braços um do outro.

Na manhã seguinte, acordei com uma sensação completamente diferente.

O sol entrava pelas grandes janelas do quarto.

Pietro já estava acordado.

— Bom dia, princesa.

Sorri.

— Bom dia.

Depois de nos arrumarmos, ele me levou para conhecer o jardim da propriedade.

Eu ainda não tinha visto aquela parte da casa.

E era simplesmente enorme.

Caminhamos entre árvores, flores e caminhos perfeitamente cuidados até chegarmos a um lago.

Havia peixes na água e alguns patos nadando tranquilamente.

Pietro me entregou um pouco de alimento.

— Vamos.

— Você faz isso sempre?

— Desde criança.

Começamos a alimentar os animais.

Rimos quando alguns patos praticamente correram em nossa direção.

Depois, Pietro me mostrou bicicletas.

Mas não eram bicicletas comuns.

Era uma bicicleta para duas pessoas.

— Você está brincando.

— Nunca.

— Eu vou cair.

— Eu não vou deixar.

Subimos juntos.

Pedalamos pelos caminhos da propriedade enquanto eu ria e reclamava que ele estava indo rápido demais.

Por alguns minutos, eu esqueci completamente a noite anterior.

Até que um funcionário se aproximou.

— Senhor Pietro, desculpe interromper.

Pietro parou.

— O que aconteceu?

— O senhor recebeu uma ligação importante. Disseram que é sobre negócios.

A mudança em seu rosto foi imediata.

Não parecia nervoso.

Apenas sério.

Ele respirou fundo.

— Tudo bem. Obrigado.

Depois olhou para mim.

— Me desculpe. Preciso resolver isso.

— Vá. Eu fico aqui.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ele beijou minha testa.

— Volto assim que puder.

Sentei-me na varanda enquanto esperava.

Peguei meu celular e comecei a responder algumas mensagens.

Entre elas, havia várias de Paulo.

Ele estava preocupado com os relatórios, planilhas e algumas entregas que precisavam ser organizadas.

Respondi rapidamente, tentando tranquilizá-lo.

Foi quando alguém se sentou ao meu lado.

Joseph.

— Trabalhando até no fim de semana?

Olhei para ele.

— Algumas coisas não podem esperar.

— Entendo.

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

Então começou a falar.

— É curioso como uma mulher pode mudar completamente a vida de um homem.

Não respondi.

— Meu irmão parece outra pessoa desde que você apareceu.

— Fico feliz por ele.

Joseph sorriu.

— Eu também.

Ele me observou por alguns segundos.

— Você é uma mulher... intensa.

— Intensa?

— Sim.

O sorriso dele aumentou.

— Atraente também. Mas não é apenas isso.

Não gostei da maneira como ele disse aquilo.

Parecia um elogio, mas havia algo por trás das palavras.

— Acho que não entendi.

— Não precisa entender.

Ele se levantou.

Antes de sair, virou-se para mim.

Seu sorriso voltou.

Aquele mesmo sorriso que parecia esconder alguma coisa.

— Gostei do sinal.

Franzi a testa.

— Que sinal?

Joseph apenas sorriu e foi embora.

Fiquei parada.

Então lembrei.

A noite anterior.

A sensação de estar sendo observada.

Meu corpo descoberto.

O medo de alguém estar olhando.

E então me lembrei de uma pequena marca que eu tinha na bunda 

Uma marca que Pietro conhecia.

Uma marca que Joseph jamais deveria conhecer.

Meu estômago se revirou.

Ele sabia.

Ele tinha visto.

Aquela porta não estava fechada.

Talvez não tivesse sido uma impressão.

Talvez realmente houvesse alguém observando.

E, naquele instante, uma pergunta atravessou minha mente:

Quem, afinal, era Joseph Bellini?

E eu estava realmente segura naquela casa?

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