MasukEle ficou o tempo todo deitado, fingindo que não ouvia.Mas Elena xingava em alto e bom som, com a voz firme, cheia de força. Estava tomada de raiva... e nem assim caiu.— Foi por causa da Ayla. Hoje ela foi atrás da Ayla. — Selina falou friamente.Quando receberam a ligação, Elena já tinha sido levada para o hospital mais próximo do lugar onde tudo aconteceu.Só depois, perguntando às pessoas que estavam com ela, Selina descobriu que ela tinha ido procurar Ayla.— Sua avó fez isso por sua causa. Ela não suportava ver a Ayla pisando em você desse jeito e queria descontar tudo nela, queria defender você. Só que ela não imaginava...— Eu vou atrás dela!Os olhos de Gustavo ficaram vermelhos de raiva. Selina ainda não tinha terminado de falar, e ele já tentou se levantar à força. Mas, nos últimos dias, ele mal comeu direito. O corpo estava tão fraco que ele tremia só de ficar de pé, quanto mais sair para acertar contas com alguém.— Vai acertar contas com quem? Você por acaso sabe que a A
Ayla desviou o olhar da janela e se virou para abraçar Daniel.Daniel sempre tratava a própria dor como se não fosse nada, mas, quando se tratava daquilo que lhe era importante, reagia como se cada ameaça lhe acendesse os nervos.Agora, porém, ele tinha ela.E Ayla seria o remédio capaz de apaziguar aquele homem, a presença que o puxaria de volta sempre que a escuridão tentasse prendê-lo por tempo demais.— Tudo bem. Eu lhe obedeço.Daniel assentiu. O cuidado dela foi desfazendo, pouco a pouco, a frieza que ele usava havia tantos anos para se defender do mundo, até transformá-la em ternura.Ele roçou o rosto entre o pescoço e a orelha dela, sentindo sua respiração morna, como se toda a vida finalmente tivesse encontrado onde repousar.Mesmo com a noite caindo devagar e a chuva se arrastando lá fora, não havia mais solidão dentro dele....A notícia de que Elena tinha sido levada às pressas para o hospital logo chegou à família Siqueira.Quando Gustavo apareceu, já era alta madrugada.V
Tomada pelo desespero, Elena deixou escapar o que realmente pensava. Mas logo se deu conta de que não podia se indispor com o homem ao lado de Ayla.— Amor? O Gustavo não me ama. Ele é só o filho obediente que a família Siqueira criou para servir vocês. Igual a todos aí dentro, ele não sabe amar. Nem o mínimo de decência como ser humano ele tem. E, além disso...Ayla voltou para o lado de Daniel, segurou com firmeza o braço dele, e sua voz de repente se abrandou.— Agora eu já tenho... o amor mais perfeito do mundo.Ela ergueu o rosto, e seus olhos, pousados em Daniel, brilhavam com um orgulho sereno.Foi só depois de conhecer o que os Siqueira e Gustavo eram de verdade que ela entendeu com clareza a vida que queria para si.Queria alguém capaz de completar o que faltava em sua alma.Queria um parceiro com quem pudesse olhar o mundo de frente e atravessar, lado a lado, qualquer dificuldade.Queria aquilo para onde o coração sempre corria, a alegria viva de se apaixonar de novo e de nov
Elena mergulhou num choque sem fim.— Filha da família Fonseca? Como isso seria possível...? Como a Ayla poderia...?Cada palavra saía nítida da boca do outro lado, mas, aos ouvidos de Elena, soava estranha demais para fazer sentido.Ela repetia aquelas palavras sem parar, o corpo tremendo com violência, o rosto já manchado, entre o lívido e o arroxeado.Como aquilo podia ser real?A órfã sem ninguém no mundo que passou dois anos como nora da família Siqueira... como podia, de uma hora para outra, se tornar filha do homem mais rico da cidade?A mesma órfã que só podia se apoiar em Gustavo, que se agarrou aos Siqueira para sobreviver, que vivia pisando em ovos e ainda dependia da proteção dela...Como podia ser filha do homem mais rico?...Mas, algum tempo antes, Elena de fato ouviu comentários. A família Fonseca realmente tinha encontrado a filha desaparecida e, pelas datas, aquilo parecia ter acontecido mais ou menos na mesma época em que Ayla saiu da família Siqueira.O olhar de Elen
— N-Não... impossível... como isso seria possível...?Elena murmurou, em choque, já com a respiração descompassada.As pessoas que vieram com ela correram para acalmá-la, tentando impedir que perdesse o controle.Elena, porém, afastou quem estava ao lado com um empurrão e se obrigou a ficar de pé, embora o corpo tremesse visivelmente.— Você está mentindo. Como você poderia...?Vendo que ela se recusava a acreditar, o chefe da segurança deu um passo à frente.— A identidade dos moradores normalmente é mantida em sigilo, mas, já que o Sr. Daniel se pronunciou, não nos cabe mais esconder nada. Senhora, o homem diante da senhora é o atual presidente do Grupo Cardoso, o Sr. Daniel. E os dois são, sim, legalmente casados; apenas sempre mantiveram tudo com discrição...Fez uma breve pausa antes de continuar:— Quanto a este condomínio e a esta administradora, ambos também pertencem ao Grupo Cardoso. Se a Srta. Ayla mora aqui, como poderia estar usando dinheiro da família Siqueira? Isso chega
— Então é isso que a família Siqueira chama de bênção? Enganar uma mulher para casar, trair, manipular, fraudar, humilhar os outros sem o menor pudor... e ainda esperar que a vítima agradeça? Se é uma sorte tão grande assim, por que a senhora não fica com ela?Como se acolhesse um gatinho assustado, Daniel puxou Ayla inteira para dentro dos braços.A mão dele subiu devagar até a cabeça dela, num gesto de cuidado, como se quisesse barrar ali mesmo toda a sujeira que vinha atingindo seus ouvidos.Em outros dias, ainda fosse.Mas hoje ele estava ali.E, estando ali, como aceitaria ver Ayla lidando sozinha com gente daquela laia?Bastava pensar no que ela suportou durante todos aqueles anos para a dor e a revolta crescerem juntas dentro dele.O rastro de sorriso desapareceu por completo.Quando ergueu os olhos para Elena, o frio no olhar dele fez a velha estremecer por dentro.Mesmo assim, ao vê-lo protegendo Ayla daquele jeito, agarrado a ela diante de todos, Elena só se enfureceu ainda m
— Lalá? Você já fez drama o suficiente, não? Já se passaram vários dias. Tá querendo nunca mais falar comigo é? — A ligação finalmente foi atendida, e a voz de Gustavo invadiu os ouvidos de Daniel.A expressão de Daniel escureceu na hora.Ayla estava prestes a se tornar sua esposa, mas para aquele h
Ao ouvir a voz de Daniel perto do ouvido, Ayla respondeu com um leve murmúrio.— Você não estava dormindo? — A voz dele soou mais grave ao lembrar de como ela se aninhava contra o peito dele.— Até estava... não conseguia nem manter os olhos abertos. Mas eu sabia que você tinha chegado. — Ela ergueu
— Srta. Bianca, por favor, não seja indelicada com a nossa convidada de honra! — Disse o recepcionista ao lado, impedindo-a de avançar.— Convidada de honra? Ela? Uma gerentezinha de projeto que só conseguiu subir graças ao Grupo Siqueira e ainda por cima cospe no prato que comeu... Que tipo de conv
Mais cedo, ela havia sentido uma cicatriz redonda no ombro esquerdo de Daniel. Achou que tinha sido engano, mas agora que ele colocava a camisa, conseguia ver nitidamente.Não era grande, mas parecia profunda.Para alguém como Daniel, nascido em berço de ouro, uma cicatriz dessas era algo raro.— Um







