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Capítulo 3

Author: Júlia Fontes
— Agora aprendeu a lição? — Alan me olhou com uma expressão de quem parecia pensar que eu deveria ter percebido aquilo há muito tempo. — Às vezes, saber a hora de parar é a escolha mais sensata.

— É. — Respondi, assentindo com a cabeça. — Está mesmo na hora de parar.

Ele pareceu satisfeito com a minha reação e, pela primeira vez, chegou até a me elogiar.

— Seria bom se você fosse sempre sensata assim.

Depois de pagar a conta, saímos do restaurante.

Sob a luz dos postes, uma garoa fina começou a cair.

Camila e eu estávamos lado a lado, enquanto Alan se posicionava à frente dela, protegendo-a do vento.

O vento cortante golpeava meu rosto como uma lâmina. Comecei a tremer incontrolavelmente por causa do frio.

Alan abotoou o último botão do casaco de Camila e, em seguida, veio até mim. Tirou o próprio cachecol e o colocou em volta do meu pescoço.

— Já está ficando tarde. Não é seguro para a Camila voltar sozinha, então vou levá-la para casa. Quando chegar em casa, arrume suas coisas e vá dormir. Não precisa me esperar.

Camila morava na direção oposta à minha, mas a distância era praticamente a mesma.

— Alan. — Hesitei por um instante antes de chamá-lo.

Ele segurou a mão de Camila e desceu os degraus.

Minha voz foi engolida pelo uivo do vento.

A rua estava molhada e extremamente escorregadia.

O trajeto tinha apenas um quilômetro, e nenhum motorista aceitava a corrida.

Sem outra alternativa, decidi voltar para casa a pé.

Um quilômetro não era muito longe. Mas, com a garoa fina caindo, o vento gelado soprando e o chão molhado e escorregadio, aquele percurso se tornou especialmente difícil.

Meus cabelos se encharcavam, enquanto o vento fazia meu rosto arder de dor.

Eu caía, me levantava e voltava a cair. Perdi a conta de quantas vezes isso aconteceu.

Minhas mãos e meu corpo doíam de tanto cair.

Por fim, cheguei à entrada do condomínio.

Mal havia atravessado o portão, escorreguei e caí novamente.

Esperei um pouco, até recuperar o fôlego.

Estava prestes a me levantar quando meu celular tocou.

Tirei o aparelho do bolso e vi que era uma ligação de Alan.

— Lavínia, a estrada está molhada e escorregadia. Se eu não estivesse com a Camila, sabe-se lá quantas vezes ela já teria caído.

Meus olhos arderam, e as lágrimas ameaçaram transbordar.

— Ela decidiu ficar em um hotel só para passar a noite. Não é seguro uma mulher ficar sozinha em um hotel, então preciso ficar com ela. Só estou ligando para avisar. Não fique me esperando.

— Alan, vem me ajudar a secar o cabelo. — A voz de Camila chegou aos meus ouvidos através do telefone.

— Alan... — Minha voz embargou involuntariamente. A pergunta que eu não havia conseguido fazer na frente da churrascaria finalmente escapou dos meus lábios. — Você já parou para pensar que eu também sou uma mulher? E que sou sua namorada? Já pensou se é seguro para mim andar sozinha à noite, em ruas molhadas e escorregadias? Se eu posso acabar caindo?

A única resposta foi o uivo do vento.

Camila pediu que ele a ajudasse a secar o cabelo e, sem se importar com o fato de eu ainda não ter terminado de falar, Alan simplesmente desligou.

Apoiei as duas mãos no chão encharcado. A garoa caía sobre mim, misturando-se às lágrimas que escorriam pelo meu rosto.

Meu celular tocou novamente. Era minha mãe.

— Lavi, você não disse que traria seu namorado amanhã para almoçar conosco? Quero saber o que ele gosta de comer, para a mamãe ir às compras logo cedo.

Tapei a boca com força, tentando impedir que meus soluços escapassem.

— Lavi?

Só depois de um bom tempo consegui me recompor.

— Mãe, ele não vai mais.

Durante o almoço, contei aos meus pais que havia decidido aceitar a transferência para a Suíça.

Ao ouvirem aquilo, os dois ficaram visivelmente surpresos.

Depois de alguns instantes, se recuperaram do choque.

— Assim, tão de repente?

Na verdade, não era nada repentino. Quando o projeto foi aprovado, seis meses atrás, eu já era a candidata mais indicada para a transferência. Eu só não havia aceitado até então por causa do Alan.

— Por quanto tempo você vai ficar fora? — Perguntou um deles.

— Três anos.

Por um instante, ninguém disse nada.

— Lavi, será que seu namorado não concordou com essa transferência e vocês brigaram? Foi por isso que ele não veio com você? — Minha mãe olhou para mim, com uma expressão preocupada.

— Só pode ser isso. — Meu pai franziu a testa e soltou um suspiro discreto. — É compreensível que ele não concorde. Você é uma mulher jovem e vai ficar sozinha em um país estrangeiro. São três anos longe de casa. É natural que ele fique preocupado.

Alan se preocupava com Camila andando sozinha à noite e ficando sozinha em um hotel, mas nunca lhe ocorria que eu também precisava de alguém que se preocupasse comigo.

Meu celular tocou. Era Alan ligando.

Hesitei por um instante, mas acabei atendendo.

— Onde você está?

— Na casa dos meus pais.

Do outro lado da linha, ele ficou em silêncio por um instante.

— Não tínhamos combinado de ir juntos?

Olhei rapidamente para a hora.

Tínhamos combinado de sair às oito da manhã. Já eram quase onze, e só agora ele se lembrava de que deveria ter ido comigo.

— A Camila pegou um resfriado, então a levei ao hospital. Depois que ela terminou de tomar o soro, voltamos para casa e eu preparei uma sopa para ela. Acabei perdendo a noção do tempo. Peça desculpas aos seus pais por mim. No Ano-Novo, vou com você visitá-los.

— Está bem.

Desliguei e, naquele instante, apareceu uma notificação de nova publicação da Camila no Instagram.

Não havia legenda, apenas uma fotografia.

Os pais de Camila estavam sentados lado a lado no sofá, enquanto Alan e Camila estavam bem próximos, encostados nos ombros deles.

Pareciam, sem dúvida alguma, uma família.

Não demorou muito para que os comentários começassem a aparecer:

[Retrato de família?]

[Vocês dois reataram?]

[A Lavínia deve estar arrasada!]

Eu não chorei. Levei a mão ao peito, mas não senti dor alguma.

Meu celular vibrou mais uma vez. Desta vez, era uma mensagem do Sr. Francisco com as informações do voo.

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