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Capítulo 2

Author: Júlia Fontes
Depois de um instante, ele respondeu em um tom indiferente:

— Seu gosto é complicado demais. Nunca consigo me lembrar e sempre pego tudo errado. É melhor você fazer o seu próprio prato.

Na verdade, meu gosto não tinha nada de complicado. Eu só não gostava de pimenta.

Alan se lembrava das características exatas de quase dez acompanhamentos diferentes que Camila gostava, mas, sempre que preparava o meu prato, acabava acrescentando pimenta.

Quando voltei com o prato nas mãos, fiquei paralisada diante da mesa.

Camila estava sentada no lugar que, originalmente, era meu. Os dois conversavam e riam, e Alan foi o primeiro a perceber minha presença.

— A Camila está no período menstrual e não pode ficar exposta ao frio. Troque de lugar com ela.

Sentei-me devagar.

Uma corrente de ar frio subiu pelas minhas pernas e envolveu minhas panturrilhas. Uma dor aguda se espalhou pela parte inferior do meu abdômen, em ondas sucessivas.

Camila costumava dizer que éramos melhores amigas, tão próximas que até nossos ciclos menstruais coincidiam.

Meu celular acendeu com uma mensagem do Sr. Francisco:

[Lavínia, partiremos daqui a três dias. Tem problema?]

Ergui os olhos e vi Alan colocando no prato de Camila a linguiça que havia acabado de chegar.

Baixei a cabeça e digitei a resposta: [Nenhum problema.]

As fatias de picanha estavam prontas, e peguei o garfo para me servir de um pedaço.

— Você vai comer? — Perguntou Alan, com a expressão ligeiramente sombria.

— Hã? — Minha mão, que segurava um pedaço da picanha, parou no ar.

— É para a Camila. — Enquanto falava, ele pegou um prato limpo ao lado e colocou as fatias da picanha.

Olhou para mim e fez uma breve pausa. No instante seguinte, tirou também do meu garfo o pedaço que eu havia pegado e o colocou no prato.

— Aqui. — Ele colocou o prato abarrotado de carne para perto de Camila. — Você não disse que picanha é seu corte de carne favorito? Todas as fatias são suas. Ninguém vai tirar de você.

Camila tinha visto toda a cena, mas, ainda assim, não disse nada. Talvez não visse nada de errado naquilo. Estava acostumada a ser cuidada e mimada por Alan. Mesmo diante de mim, a atual namorada dele, considerava perfeitamente natural que fosse ela quem recebesse seus cuidados e sua atenção.

De repente, Alan colocou uma fatia de picanha de volta na chapa quente. Ao empurrá-la com um movimento brusco, acabou encostando no dorso da minha mão.

— Ai! — Recolhi a mão depressa, sentindo dor.

Quando olhei, vi que uma parte da pele estava vermelha.

No instante seguinte, meus dedos foram segurados com firmeza. Alan olhou para o dorso avermelhado da minha mão, franzindo a testa.

— Você não sabe sair da frente? Sempre faz com que os outros se preocupem com você. — Ele se levantou, mas não soltou minha mão.

Permaneci sentada por um instante, sentindo uma leve amargura se espalhar pelo peito.

— Quer esperar até sua mão ficar inchada? — Alan se virou para mim e me olhou de cima.

Levantei-me e o acompanhei até a pia.

Ele ajustou o fluxo da água e colocou minha mão sob o jato para resfriá-la, com movimentos extremamente delicados.

A água escorreu primeiro pelo dorso da minha mão, depois passou pelo dorso da mão de Alan e, por fim, caiu na pia.

— A picanha era para você. — Ele manteve os olhos fixos na minha pele avermelhada.

No instante em que ouvi aquelas palavras, abaixei a cabeça.

O ressentimento que vinha se acumulando dentro de mim parecia estar se desfazendo aos poucos.

Quando voltamos à mesa, Camila estava pegando a última fatia de picanha da chapa.

— Alan, a picanha está realmente incrível! Comi tudo!

— Quer mais? Posso pedir outra porção para você. — Alan pareceu satisfeito e ergueu os cantos dos lábios.

A chapa, que antes estava cheia de picanha, agora estava vazia.

Alan fez um sinal para o garçom, pedindo mais uma porção.

— Não precisa. — Camila engoliu o último pedaço e acenou com a mão. — Já comi demais. Se comer mais, vou acabar enjoando.

No lugar dos pedaços de carne que antes ocupavam a mesa, agora restava apenas a salada.

Lembrando-me do que Alan havia dito perto da pia, lancei um olhar para ele.

— O que foi? — Ele retribuiu o olhar com uma expressão confusa.

De repente, percebi que a pessoa capaz de fazer Alan entender tudo com apenas um olhar era Camila, não eu.

Eu queria perguntar por que eu não podia tocar na carne que ele havia separado para Camila, enquanto ela podia comer até o último pedaço da que ele havia separado para mim.

Por quê?

Ao ver a expressão confusa de Alan, finalmente entendi. Ele dedicava sua atenção genuína a Camila. Quanto a mim, eu era apenas algo secundário.

Eram apenas doze passos da pia até a mesa, mas, mesmo assim, ele já havia esquecido. E, se havia esquecido, que assim fosse. Não fazia sentido insistir no assunto.

— Não é nada. — Balancei a cabeça.

Deixei meus talheres alinhados ao lado do prato e notei que um pouco de arroz à grega havia aparecido no meu prato.

— Você não adora arroz à grega? Pegamos bastante. Coma mais.

Depois de falar, Alan se virou para o lado e usou um guardanapo para limpar o canto da boca de Camila.

Em silêncio, coloquei o arroz à grega no prato com restos ao lado. Quem gostava daquilo não era eu, era Camila.

Camila olhou na minha direção, e seu olhar pousou no meu prato, que estava impecavelmente limpo, sem uma única mancha de gordura.

— Lavi, você não gostou?

Alan também olhou para mim.

Eu mesma estava me fazendo a mesma pergunta.

Eu havia tirado o dia de folga de propósito e passado seis horas na fila, das duas às oito da noite, com a senha 3.601. Eu havia me esforçado tanto para conseguir aquela refeição, mas, quando finalmente me sentei para comer, percebi uma coisa.

Por que aquilo não era tão delicioso quanto eu havia imaginado?

Na verdade, era até difícil de engolir.

Senti uma vontade urgente, desesperada, de simplesmente me levantar e ir embora dali.

Os sacrifícios que eu havia feito para ficar com Alan eram inúmeras vezes maiores do que o esforço para conseguir comer naquele restaurante. E a decepção de ver minhas antigas esperanças e expectativas desmoronarem também era muito maior do que aquela que eu sentia diante daquela refeição.

Contive a amargura que sentia no fundo do peito e esbocei um sorriso.

— Talvez simplesmente não seja para mim.

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