MasukRiuk
Segurei-a até ela voltar, e quando abriu os olhos, meu coração pareceu parar. Ela ainda tremia nos meus braços, os dedos finos pressionando a camisa como se quisesse segurar algo que escapava.
"Rubi?" chamei baixo, mas ela não respondeu. O pânico me tomou. Peguei-a no colo e a levei até o sofá no canto da sala, sem pensar em mais nada.
"Rubi, olha pra mim..." murmurei, ajoelhando ao lado dela. Toquei seu rosto, buscando qualquer sinal de resposta. Fria demais. Pálida demais.
"Riuk..." A voz saiu trêmula, quase um sussurro.
Soltei o aparelho de imediato e levei a outra mão ao rosto dela, afastando uma mecha de cabelo grudada na pele suada.
Ela piscou devagar, respirando com dificuldade. "Só... ficou tudo escuro por um momento."
Respirei fundo, tentando controlar o impulso de envolvê-la de novo nos braços. "Você desmaiou. Seu corpo está esgotado... ou foi adrenalina demais."
Me inclinei um pouco mais, o polegar roçando sua bochecha.
"Não..." sussurrou. "Estou bem, já está passando."
"Você já sentiu isso antes?" perguntei.
Ela pareceu pensar. "Uma ou duas vezes. Meus pais me levaram a médicos, mas faz anos que não tenho nada."
Voltei a me levantar, observando-a atentamente.
Ela piscou, surpresa com a pergunta simples.
"Você se lembra, não é?" sentei ao lado dela, a observando de perto. "Olha, sei lá o que é isso, mas acho que vou te levar ao médico. Não é normal alguém simplesmente desmaiar e..."
Ela segurou minha mão, e eu parei.
"Na casa de uma amiga, no centro", respondeu em voz baixa. "Não precisa se preocupar."
"Impossível." bufei. "Vamos fazer assim: hoje você vai ficar comigo. Se passar mal de novo, te levo pro hospital na mesma hora."
O não saltou dos lábios dela tão rápido que quase pareceu um instinto de sobrevivência.
"Eu não posso..."
Ri um pouco, sem humor. "Isso não é questionável. Você vai, sim. Pode avisar sua amiga para ir lá te ver também. Mas hoje eu ficarei de olho em você. Você pode se considerar uma humana, mas não é normal, Rubi. Não é comum. E se passar mal num hospital humano, o que eles vão fazer com suas amostras de sangue?"
Ela empalideceu. Não porque estava cedendo, mas porque a realidade finalmente a alcançava.
"Vou com você buscar suas coisas", concluí. "Depois vamos para o meu apartamento. Sem discussão, a não ser que queira que eu ligue para seus pais virem te buscar."
"Eu não sou criança." ela bufou, a cor voltando ao rosto.
"Mas está agindo como uma."
Sua irritação é óbvia. "Vou com você. Eu vou... mas assim que a Laura sair do serviço, volto para o apartamento dela."
"Que seja."
A ajudei a se levantar e saímos da sala. Avançamos pelo corredor, e os olhares recaíram sobre ela com curiosidade — humanos farejando drama. Descemos até a garagem. Entrei no carro, ela no banco do passageiro. Quando fechei a porta, o silêncio pareceu ainda mais pesado.
Não falei nada. Não confiava na minha voz para não sair errada.
Dirigi rápido, rápido demais para um humano, mas ainda controlado. Ela observava a cidade de Sydney passar pelas janelas como um borrão vibrante. O som do mar se aproximou quando contornamos a orla. O porto iluminado sempre foi um dos meus pontos de fuga... não sei por que a trouxe para perto disso.
"Riuk... para o carro, por favor."
A voz dela saiu baixa, decidida. Freiei sem questionar.
"O que vai fazer?" perguntei, sem entender.
"Algo para encerrar de uma vez o que ainda dói aqui." Ela apontou para o coração, e apertei o volante.
Rubi desceu, e por um segundo achei que fosse fugir. Mas ela caminhou até a grade de proteção diante do mar. Enfiou a mão no bolso do casaco.
E então eu vi.
O anel.
O anel de companheira destinada.
Ela o segurou por longos segundos, respirando como se estivesse prestes a emergir depois de muito tempo presa.
A joia sumiu entre as ondas, e algo pareceu brilhar à sua volta.
Fiquei no carro, observando de longe. Não me aproximei. Não ofereci consolo. Emoções antigas não pertencem a este lugar — muito menos a este momento. Desde o dia em que o vínculo destinado foi decidido, eu enterrei o que existia.
Ou forcei a acreditar nisso.
O celular vibrou no meu bolso. A tela iluminou o interior do carro.
Mãe.
Atendi.
Mas foi a voz do meu pai que saiu do outro lado, grave e autoritária.
"Isso já está ficando chato, o senhor tem meu número."
"Um que você nunca atende."
"Já te desbloqueei, pai. Pode me ligar sempre que quiser."
"Isso é bom, sinto sua falta, filho. Mas estou ligando porque seu irmão percebeu o erro que cometeu. A separação pode custar o futuro da alcateia. Ele está indo para Sydney atrás dela. Nos ajude a localizar a Rubi."
Meu maxilar travou.
Não respondi de imediato.
Rubi voltou para o carro, o rosto limpo, determinado de um jeito que eu nunca tinha visto. Entrou, fechou a porta e me encarou. E por um segundo — um único segundo —, aqueles olhos me pediram para que eu não a entregasse.
E eu fiz algo imperdoável.
Atendi ao pedido dela.
"Te aviso se descobrir algo", disse ao Alfa, apenas isso. " Mas acho que Eron só precisa de tempo. Nada mais."
Desliguei antes que ele pudesse interferir.
"Era seu pai de novo?"
"Era. Parece que Eron caiu na real e está vindo pra cá fazer as pazes com você." Meu lobo resmungou frustrado.
"Ele sempre percebe o erro quando algo atrapalha o futuro brilhante dele." Ela cruzou os braços e se virou para a janela.
Dirigi até meu apartamento em silêncio absoluto. Rubi mantinha as mãos entrelaçadas no colo, encarando a cidade, perdida entre liberdade e medo. Quando chegamos, entrou como quem pisa em território inimigo.
"Fique à vontade. Vou pedir pra trazerem algo pra você comer. Não costumo ter visitas em casa e não como aqui regularmente. É só um lugar pra dormir." Larguei as chaves sobre a mesa.
"Não se preocupe com isso. Já estou bem, sei que posso ir embora..."
Voltei a me aproximar.
"Você não parece nada bem, Rubi. Seja como for, hoje você fica aqui."
Ela bufou, e eu a guiei até o quarto de visitas.
Assim que a porta se fechou, caminhei até a sacada e encarei meu novo lar, o refúgio que escolhi pra me proteger da dor e do desespero.
Mas agora...
Meu celular vibrou de novo. Uma mensagem de Eron.
"Sei que estamos brigados, mas preciso da sua ajuda. Eu perdi a Rubi. Estou chegando em Sydney e espero que possa me ajudar a conquistá-la novamente."
TieranEu nunca tinha sentido o tempo desse jeito.O sol africano se espalhava pelo pátio como ouro líquido, aquecendo a pedra sob meus pés, e ainda assim havia algo diferente em mim. Não era só o lugar. Era… pertencimento. Raiz. Algo que eu nunca soube que poderia existir fora da minha própria terra.Eu estava diferente.Não porque o mundo tinha mudado, mas porque eu tinha.Um ano.Um único ano tinha sido suficiente para transformar tudo.O vento trouxe o cheiro da savana misturado ao som distante de motores se aproximando. Sorri antes mesmo de vê-los. Aquela sensação no peito, firme, serena, era nova. Não ansiedade. Expectativa boa.Eles estavam chegando.Ao meu lado, Nari segurou minha mão, os dedos quentes, seguros. O brilho no olhar dela era tranquilo, nada parecido com a jovem assustada que chegou à América um ano atrás. Ela estava em casa. E eu também.“Eles chegaram”, ela murmurou.Os primeiros carros surgiram pelo caminho de terra batida, seguidos por outros. Uma comitiva gra
RaelO silêncio depois do acordo da Nari ainda pairava no ar quando dei um passo à frente.Senti todos os olhares recaírem sobre mim, supremos, alfas, pais, mães. Senti o peso de cada expectativa. E, mesmo assim, não hesitei.“Já que estamos aqui”, falei, a voz firme apesar do coração acelerado, “eu quero pedir algo também.”O pai da Maya ergueu o olhar devagar, atento.“Quero que o senhor me dê a honra de ser o companheiro da sua filha.”Maya prendeu a respiração ao meu lado.“Eu não a marquei”, continuei, sem desviar os olhos. “Não porque não a queira. Mas porque quero que ela tenha tudo o que merece. Escolha. Tempo. A presença da família dela. Eu sei o quanto isso é importante para ela e para o senhor.”Ela se aproximou um passo, visivelmente tensa.O pai dela contornou a mesa lentamente, como um predador avaliando terreno. Parou diante da própria filha.“É isso que você quer, Maya?” perguntou, direto. “Você sabe que o cunhado da sua irmã sempre nutriu sentimentos por você. Ele mor
NariO ar ficou pesado no instante em que meu pai se levantou.Não foi só raiva. Foi presença. Pressão pura. Aquele tipo de força que sempre me fez abaixar a cabeça, calar, obedecer. Senti como se a sala tivesse encolhido ao redor de nós, como se tudo estivesse sendo empurrado para um único ponto: eu.Meu coração disparou. Eu conhecia aquele olhar. Conhecia aquele silêncio antes da explosão.Por um segundo, tive vontade de correr.Então senti a mão do Tieran apertar a minha. Firme. Quente. Ali.Ele não recuou.E isso… isso me deu força.Segurei a mão dele com as duas minhas, como se fosse a única coisa que me mantinha em pé, e dei um passo à frente, mesmo com as pernas tremendo.“Papai”, falei, a voz saindo mais firme do que eu esperava. “Nós somos companheiros destinados. A Deusa nos uniu. E o senhor não pode impedir isso.”O rosto dele mudou. Não foi surpresa. Foi fúria.“Não existe essa merda de destinados!”, ele explodiu, a voz ecoando pela sala. “Não na nossa alcateia. Você foi u
TieranEu não dormi.Ou talvez tenha dormido tão pouco que não valeu como descanso. Cada vez que fechava os olhos, a imagem da Nari surgia inteira diante de mim, o cheiro dela, o calor do corpo encostado no meu, o som da respiração tranquila que agora parecia pertencer a outra vida. Logo depois, vinham os rostos fechados, os rosnados contidos, o peso absoluto da marca que eu tinha feito… e do preço que ainda não tinha sido cobrado.Sentei na beira da cama antes mesmo do sol nascer, passando as mãos pelo rosto, tentando organizar pensamentos que não queriam ficar em ordem. O sermão do meu pai ainda ecoava na cabeça. Connor não levantou a voz em momento algum, e talvez isso tivesse sido o pior. Falou sobre responsabilidade, sobre consequências, sobre o que significava marcar alguém que carregava o peso político de uma nação inteira. Falou sobre honra. Sobre escolhas que não podem ser desfeitas.Minha mãe estava tão decepcionada, que mal olhava para mim e eu simplesmente não sabia o que
RaelO som da mordida ainda ecoava dentro de mim.Eu estava em choque.O Tieran tinha acabado de fazer o impensável. Não só por si, mas por todos nós. O laço tinha explodido no ar como um trovão silencioso, a energia ancestral vibrando pela sala, inegável, irrevogável.Meu coração ainda tentava acompanhar quando virei o rosto.E foi aí que eu vi.River e Lina.Eles não estavam discutindo. Não estavam com medo. Não estavam confusos.Eles estavam se encarando.Daquele jeito perigoso. Daquele jeito que eu conhecia desde criança. O jeito que antecede decisões que não voltam atrás.“Não.” A palavra saiu de mim antes que eu percebesse. Dei um passo à frente. “Não façam isso.”Mas já era tarde demais.River segurou o rosto da Lina com firmeza, não força, não violência. Decisão. Ela sorriu para ele, um sorriso calmo demais para o caos ao redor.E então aconteceu.River mordeu seu ombro. Lina não gritou. Não hesitou. Pelo contrário, sorriu mais ainda e mordeu de volta, marcando-o no mesmo inst
TieraEla desmoronou.Não foi aos poucos. Não foi bonito. Foi inteiro, cru, inevitável.Nari começou a chorar ali mesmo, no meio do salão, o corpo tremendo como se todo o autocontrole que ela carregou a vida inteira tivesse finalmente quebrado.“Ele vai vir me buscar”, disse entre soluços, os dedos agarrando minha camisa como se eu fosse a única coisa sólida naquele mundo. “Meu pai não vem pra conversar. Ele vem pra me tirar daqui. Pra nos separar.”Meu peito apertou com força.“Ei”, murmurei, segurando o rosto dela com cuidado. “Olha pra mim. Eu não vou deixar. Você está comigo agora.”Mas ela continuou, desesperada.“Você não conhece ele como eu conheço. Ele não aceita. Ele manda.” A voz falhou. “Ele já devia estar escolhendo alguém pra mim. Um pretendente. Isso aqui… isso aqui é só diplomacia. Eles vêm pra manter as aparências entre Supremos, não pra me ouvir.”O choro ficou mais forte.“Eles vão me levar, Tieran.”Meu lobo rosnou dentro de mim, furioso.Antes que eu pudesse respon







