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Capítulo 1

last update publish date: 2026-10-07 04:00:21

Suspiro fundo e peço silenciosamente, mais uma vez, a proteção de Deus. Verifico se está tudo de acordo com o planejado e repasso as instruções costumeiras aos meus agentes pelo rádio comunicador.

— Ao meu comando, após o três, vamos avançar e dar início à operação. Mantenham-se todos em suas posições, em alerta e com suas armas em punho.

— E nem um passo sem o meu aval. Entendido?

— Positivo.

Ouço a confirmação dos agentes e fico satisfeita.

Sou firme e intolerante. Irrito-me com desobediência e não suporto insubordinação! Saiu da linha, sofreu as consequências.

Por essa razão, sempre que estou conduzindo qualquer operação e, por conseguinte, me encontro na linha de frente, busco comandar de forma firme, decidida e precisa ao dar instruções, para que, em contrapartida, não haja motivos para falhas, nada saia do controle e, por fim, não reste dúvida de quem está no comando.

Não vou negar: a carga é grande e há uma responsabilidade enorme junto com a minha posição. Meu cargo é intrincado, fatigante e requer pulso firme, bom senso para a tomada de decisões, capacidade de lidar com situações sob pressão e habilidade para resolver situações adversas com equilíbrio, eficiência e sabedoria.

Dessa forma, resguardo aos cidadãos o direito à justiça e à segurança, zelando pela proteção e pelo bem-estar das pessoas e das comunidades em geral. Seja ela rica ou pobre, todos carecem da efetividade do trabalho da Polícia.

Por isso, desde que assumi o cargo de delegada, coloquei minha melhor armadura de mulher de ferro: séria, fria, autoritária e forte.

Não permito brechas. Quero deixar cristalino e demonstrado a todos que minha coragem e meu idealismo por justiça são reais e levados muito a sério. Por isso, sou uma pessoa exigente e meticulosa, que não dá moleza para subordinado algum. Sendo assim, todos devem desempenhar suas tarefas de forma responsável e perfeitamente dentro da lei e sob meus comandos, evitando falhas, abusos, ilegalidades, desleixo e, muito menos, desobediência.

Vocês devem imaginar como é, para mim, ter que chefiar uma equipe de agentes, certo?

É extremamente complicado. Embora a maioria seja correta e respeite as regras, há sempre aqueles que são machistas e preconceituosos, que relutam em aceitar ordens de uma mulher, embora não externem isso.

É a mais pura e triste realidade.

Bom, por isso precisei me impor logo para adquirir o respeito e instituir ordem e disciplina, não deixando dúvidas de quem comandava a delegacia: era eu.

E não importava a minha cor, meu sexo, meu credo religioso, nada. Incontestavelmente, eu é que sou a autoridade aqui.

E, nesses dois anos em que venho comandando essa delegacia, ninguém nunca contestou uma ordem sequer. Então, acredito ter conquistado o respeito dos meus subordinados.

Mas, segundo minha amiga Cecília, que é escrivã, eles não só me respeitam como também têm medo de mim.

Assim seja!

Saber que sou temida e que, de alguma maneira, exerço o “controle” sobre as pessoas, sabendo que minhas ordens serão sempre acatadas, faz com que eu me sinta satisfeita.

Mas deixo bem claro aqui: odeio bajulações. Eu não suporto.

Quero e espero que todos me respeitem para que eu possa, assim, fazer a diferença no meu trabalho, na minha profissão.

Hoje estou estressada ao mais alto nível.

Depois dessa operação que acabamos de fazer, tive que tomar vários depoimentos e conduzir muitos interrogatórios. Já estávamos há alguns meses no encalço dessa quadrilha especializada em tráfico de entorpecentes, roubos, sequestros, entre outras coisas que não vou citar todas aqui, senão passo o dia inteiro só passando a ficha desses criminosos.

Depois de muita investigação, pistas e provas, tivemos o momento perfeito para o flagrante. Tive todo um trabalho de inteligência para montar a operação e, então, seguimos para a prática.

Lá, todos ficamos à espreita, apenas aguardando o momento exato para dar o bote.

Meu informante havia me dito que o cabeça do bando estaria lá. Então, tudo indicava que essa seria uma operação bem-sucedida.

No entanto, não saiu completamente como havíamos planejado e, infelizmente, não conseguimos pegar o cabeça, já que ele conseguiu se evadir do local.

Seus comparsas, porém, não tiveram a mesma sorte.

E eis o grande problema — e o motivo do meu grande e demasiado estresse: nenhum deles estava disposto a abrir a boca e entregar o malandro.

Mas, com minha grande habilidade de inquirir e persuadir, consegui fazer com que um deles me contasse como o esquema funciona.

Confesso que não foi fácil, pois esses bandidos são mais fiéis que cães ao chefão.

Com isso, pelo menos, tenho um norte para onde prosseguir com as investigações.

E mais: eu estava com uma certa desconfiança de que haviam facilitado a fuga dele do local.

Meu sexto sentido me diz que alguém — ou alguns dos agentes — se deixou corromper, atrapalhando a operação, deixando-a incompleta e com pontas soltas.

Ao meu ver, não havia chances de aquele pilantra fugir.

E ele conseguiu sem muita dificuldade.

E que isso estava estranho, estava!

Meu faro não me engana nunca!

Assim que terminou a sessão de interrogatórios e a tomada de depoimentos, chamei meus investigadores Theodoro, Henrique e Carlos, que eram responsáveis secundários por essa operação e pelas investigações desse caso, sob minha supervisão e comando, é claro. Afinal, nada acontecia sem o meu consentimento.

Eles coletavam dados e realizavam as investigações, enquanto eu articulava toda a operação de acordo com os parâmetros da lei, pois quem tem autoridade e poder para tal sou eu, no exercício do meu cargo.

E, logo que eles entraram no meu gabinete, fui logo interpelando-os:

— Vocês podem me explicar como é que uma operação dessas teve essa falha? Será possível que vocês não conseguem fazer o trabalho de vocês direito?

Como um cara desses conseguiu se evadir assim, do nada? No mínimo, é estranho, não acham?

Eles estão atônitos e com a cara assustada, mas permanecem em silêncio.

Eu, às vezes, provoco essas reações, principalmente quando estou irritada, como estou agora.

Olho para eles com minha carranca e dirijo a palavra ao Carlos, que é um dos investigadores mais competentes que tenho. Sem falar que é um grande amigo também. Mas, enfim, não misturo as coisas.

— Vamos, Carlos. Quero ouvir o que você tem para me dizer!

— Dra., eu sinceramente não sei como uma falha dessas pode ter acontecido, mas eu lhe prometo que não ocorrerá novamente. Eu vou descobrir a causa e irei corrigir.

— Nada de promessas, Carlos. Quero ação! Quero fatos, provas e atos!

— E vocês dois? O que têm a dizer a respeito?

Primeiro, você, Theodoro.

— Dra., isso não vai se repetir. Iremos investigar e descobriremos quem é e se há um traidor nessa corporação!

Theodoro falou e, logo em seguida, calou-se.

Passei a palavra ao Henrique, que começou a falar:

— Dra., nós...

Eu o interrompi:

— Sem mais. Não quero mais ouvir as mesmas desculpas esfarrapadas. Deixo claro, de antemão, que não admito erros como esses novamente. E eu quero resultados o mais rápido possível. Certezas, não suposições. Quero o nome e os detalhes de tudo, sem uma vírgula faltando. Estão me ouvindo?

Vocês, melhor do que ninguém, sabem o quanto trabalhamos nessa investigação. Foram meses, e essa operação era sigilosa, com interceptação telefônica e colhimento de provas...

Não havia margem para falhas!

Droga!

— Por hoje, estão dispensados. E, da próxima vez que eu os chamar aqui a respeito deste assunto, quero respostas satisfatórias.

— Agora, retirem-se. Voltem ao trabalho de vocês e me deixem esfriar a cabeça!

Irritada ao extremo!

Ufa!

Depois dessa, estou sobrecarregada. Odeio casos inconclusivos e/ou incompletos.

Odeio ter meus planos frustrados!

Sei que muitas vezes é difícil ter tudo assim, perfeito e ordenado, mas aqui na minha delegacia 99% dos casos são bem-sucedidos e elucidados por inteiro.

Ah! Com todo esse ocorrido, acabei esquecendo que minha irmã mais nova, Mel, está chegando hoje de Fortaleza.

Justo hoje!

Que droga!

Vocês devem estar pensando que sou uma vaca insensível, de coração de gelo, ou que minha irmã é uma vaca insuportável, certo?

Deixem-me pôr tudo em pratos limpos, então.

Errado!

Não é nenhuma das duas opções acima, ok?

Eu amo minha irmã. Somos amigas e confidentes.

Pois é... E por que eu agiria assim ao me recordar da sua chegada?

Eis a questão.

Ela é muito alto-astral. Felicidade e amor o tempo inteiro, a ponto de chegar a me irritar às vezes...

E eu não quero ser desagradável com ela!

Isso mesmo. Ela é muito calma, passiva o tempo inteiro. Não se estressa, parece ser de outro mundo. Ela é completamente o meu oposto.

E ela tem uma mania de querer me acalmar, mandando eu me acalmar, o que me estressa ainda mais.

E, além do mais, eu não queria recebê-la nesse estado de raiva em que me encontro!

Ela não merece ter que presenciar meus estresses. Pode entender tudo errado, achando que não é bem-vinda e tal.

Às vezes, ela tem essas paranoias.

— Vamos... Expira, respira e relaxa! Pensa em coisas boas, divertidas. Pensa naqueles CEOs gatos dos livros.

Vocês devem estar pensando que eu, com todo esse meu jeito sério e frio, essa postura de mulher mandona, não iria querer perder meu tempo lendo esses livros de romance, não é?

Que eu sou frígida ou iria virar uma freira, certo?

Pensou errado!

Eu adoro ler esses livros.

Quem tem informação tem poder!

Eles me proporcionam viver e sentir o que, na vida real, seria impossível: um romance avassalador, quente e sincero, onde há reciprocidade entre os personagens e finais felizes.

Onde há aqueles homens lindos e perfeitos, deuses gregos, que só têm olhos para a mocinha do livro.

Mas, infelizmente, são apenas homens idealizados por mulheres românticas e iludidas como eu era...

Leio para desanuviar os pensamentos e entrar em uma realidade paralela.

Porque homem lindo, rico, fiel e apaixonado está mais difícil de encontrar do que ganhar na Mega-Sena. Uma em um milhão é contemplada com essa sorte.

Digo isso porque, apesar das minhas decepções com essa raça, sei da existência de apenas um homem perfeito aos meus olhos.

E ele já tem dona, tá!

Ele é o meu progenitor, o cara responsável pela minha existência, meu herói e salvador da raça masculina.

Nem meu irmão escapa dos gerais.

Esse é um cafajeste indomável.

Bom, e, diferentemente dos livros, na vida real os homens, precipuamente, são canalhas que pensam apenas com a cabeça de baixo!

Eles não sabem nos respeitar nem nos tratar como merecemos.

Entretanto, apesar de gostar desse tipo de leitura, não acredito na existência nem na veracidade de qualquer história dessas. É tudo fruto da imaginação e nada mais...

São como ficção científica aos meus olhos.

E vamos deixar de distrações, parar de pensar em pessoas fictícias e trabalhar, porque essa delegacia aqui não é bagunça!

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