LOGINPor um instante, tudo o que consigo ouvir é a minha própria respiração.
Tomada pelo desejo e por uma coragem insana, levo minhas mãos à gola de seu blazer cinza e o puxo para um beijo.
Gabriel não hesita.
O beijo começa de forma urgente.
Logo ele pede passagem com a língua e eu cedo, entregando-me por completo.
Toda a tensão e a pose formal que nos rodeavam se dissipam, restando apenas o desejo.
Sinto a mão dele em minha cintura, me apertando contra seu corpo com força, enquanto a outra desliza da minha nuca para pousar na curva do meu quadril, me trazendo ainda mais para perto.
Levo minha mão direita à sua nuca, arranhando de leve a sua pele, que agora irradia um calor febril sob os meus dedos.
Passam-se minutos — ou segundos, já não sei mais dizer —, e quando o fôlego finalmente nos faz falta, nos separamos lentamente.
Ainda completamente atordoada pela intensidade daquele contato, sinto a mão dele afrouxar na minha cintura.
Dou um passo trêmulo para trás, tentando recuperar o ar.
Quando abro a boca, prestes a dizer qualquer coisa, nosso transe é quebrado por uma voz que vem do fundo da varanda.
— Gabriel, está na hora do discurso. Precisamos de você no palco.
A voz de Victor é acompanhada por um tom cheio de insinuações implícitas.
Afasto-me mais um passo, finalmente reunindo coragem para olhar nos olhos de Gabriel.
A imensidão escura deles ainda está lá, brilhando com uma intensidade perigosa.
Gabriel parece enfim acordar do transe.
Ele olha para o amigo por cima dos meus ombros, fazendo um sinal sutil de que já está indo.
Mas, antes de se afastar, ele dá um passo na minha direção.
Curva-se sobre mim, levando os lábios até a curva do meu ouvido.
Sinto um arrepio elétrico subir direto pela minha coluna quando ele sussurra, com a voz rouca, para que apenas eu possa ouvir:
— Te espero em quarenta minutos. No carro preto em frente à saída lateral.
Ele se afasta e se retira do terraço com passos firmes, deixando-me ali, de boca aberta e com o coração batendo descompassado contra o peito.
Preciso de alguns minutos sozinha para me recuperar antes de criar coragem e entrar de volta no salão.
Quando passo pelas portas de vidro, o vejo subindo os degraus do palco sob os aplausos da plateia.
Meu único pensamento lúcido é que seria uma loucura absoluta aceitar o seu convite.
Eu deveria ir embora, pegar um táxi e esquecer que tudo isso aconteceu.
Mas…
Algo em mim anseia por mais.
Gabriel inicia o discurso com a firmeza de sempre.
Em determinado momento, seu olhar percorre o salão.
Alguns segundos depois… ele para em mim.
Logo sou tirada do meu transe por uma Summer animada ao meu lado, fazendo perguntas e contando alguma coisa à qual sequer presto atenção.
Minha mente só consegue voltar no sussurro rouco e cheio de desejo de Gabriel.
E no carro que me aguarda na saída lateral.
— Sum, eu preciso ir embora. Acabei de ter uma excelente ideia para um novo quadro e, se não a colocar na tela o mais rápido possível, vou acabar perdendo a inspiração — interrompo bruscamente o falatório animado de minha amiga sobre alguma fofoca interna do escritório.
Summer cruza os braços e me encara com aquele olhar desconfiado de quem não acreditou em uma única palavra.
— Clara, minha amiga, eu te conheço melhor do que qualquer um nesta cidade. Não minta para mim, você nunca me engana. Alguma coisa aconteceu...
— Não aconteceu nada, Summer. Só quero ir para casa mesmo — tento parecer o mais convincente possível, mas a minha voz vacila. Diante do seu silêncio inquisidor, percebo que não vou conseguir sustentar essa mentira. Suspiro, derrotada, decidindo apelar para uma meia-verdade: — Ok, você venceu. Eu conheci um cara. Vou sair para tomar alguma coisa com ele.
Os olhos de Summer quase saltam das órbitas.
— Não acredito! Quem é? De qual setor? É gostoso? Eu quero saber tudo!
Pelo meu olhar periférico, observo de longe a figura de Gabriel abrir espaço pela multidão no salão e caminhar em direção à saída, mantendo os olhos fixos em mim por cima do ombro.
Meu estômago se revira.
Não faço ideia do motivo...
Mas tenho a sensação de que aquele olhar é um convite silencioso.
Engulo em seco e volto a atenção para a minha amiga.
— Sum, eu não sei esses detalhes. Mas sim, ele é bem bonito... nada fora do padrão, sabe? Só queria espairecer um pouco e ele me pareceu uma boa companhia.
Antes que ela possa iniciar um terceiro grau de perguntas, dou um beijo rápido em sua bochecha, deixando-a ali com um olhar chocado e uma taça na mão.
Saio quase correndo para não dar chance de Summer me alcançar.
Com o coração disparado na garganta, ando apressadamente pelos corredores internos em direção à saída lateral indicada.
Cada segundo parece uma eternidade e, a cada passo, minha mente racional tenta me convencer de que isso é uma loucura.
Mas basta lembrar da sensação da boca dele contra a minha para que aquela onda de coragem insana assuma o controle.
Empurro a porta de saída e o ar fresco da noite me atinge.
Olhando ao redor, vejo uma grande SUV preta parada a poucos metros, com apenas uma fresta do vidro traseiro escurecido aberta.
Assim que dou os primeiros passos na direção do veículo, a porta traseira é aberta por um homem de terno escuro, revelando o interior luxuoso e a silhueta imponente que me aguarda lá dentro.
Já fazem três semanas desde a reunião, e eu continuo sem uma resposta sobre meu apartamento.Gabriel está me dando o exato espaço que precisava.Nunca tocou neste assunto.Mas ainda não me sinto pronta para abrir mão daquele lugar.Resolvi que hoje é o meu prazo final para decisão.E estou prestes a contar isso pro Gabriel.Ele agora está tomando seu café para ir para seu trabalho.— Hmhm. — Chamo sua atenção. — Estou pensando em ir hoje para meu apartamento, preciso tomar uma decisão até esta noite sobre o que fazer…Ele arregala levemente seus olhos.— Ahmm, isso parece bom, quer companhia? Posso sair mais cedo e te levar até lá.— Acho que não, esta é uma decisão minha, vou fazer sozinha. — Ele me olha com certa dúvida.— Você sabe que não pode mais de forma alguma fazer esforços, não é? E se ela decidir vir enquanto você está sozinha por lá?— Então eu te ligo, você já está com as malas no carro há um mês mesmo. — Dou de ombros e solto uma leve risada.— Sou um homem preparado, Cl
Já fazem meses desde que Julian nos recordou do contrato.Seguimos sem tocar no assunto.Minha gravidez está avançando rápido.Ontem foi minha consulta de 36 semanas.A médica nos disse que está tudo bem e que, pelas próximas semanas, podemos começar a deixar as nossas coisas prontas.Ontem Victor nos acompanhou pela primeira vez.E eu tenho certeza que o vi chorar.Ele nega, claro.Os dias vêm sendo tranquilos.O que não diminui em nada minha ansiedade com o parto.Gabriel está lendo para nossa filha quase toda noite, e ela é a única que escuta, sempre durmo nos primeiros minutos.Ele também descobriu vídeos de partos em casa.Temos um novo trauma, pode-se dizer que ele lida muito melhor com números do que com sangue, entre outras coisas.Hoje combinei de almoçar com Summer para lhe entregar uma foto 3D da consulta de ontem.Ela brigou com Victor sobre quem deveria ir, e ele ganhou por nunca ter ido antes.Ela, claro, contestou que este mesmo argumento poderia ser o suficiente para q
Olho para Gabriel e ele parece tão surpreso com a pontuação do assunto quanto eu.— Claro… — Gabriel arruma sua postura. — Sobre o que efetivamente?Me arrumo em meu assento e Julian se senta na cadeira ao meu lado.Ele abre seu tablet e parece levar horas para encontrar o que queria.— Bom, o primeiro ponto é que nosso contrato não especifica fim da relação ou momento de vencimento do contrato, e acredito que com o avanço da gestação seria de bom tom conferir. — Olho para Gabriel e ele está concentrado em seu advogado. — Outro ponto importante é que nós definimos que o Sr. cuidaria da moradia da mãe e da criança, mas nunca especificamos onde seria, como sabemos o apartamento da Srta. Clara sob nossos cuidados, pensamos em reavaliar o contrato e o substituir por um atual, incluindo endereço de moradia, assim vocês ficam livres para arrumar todos os pertences e separar os móveis para os quartos.Não consigo encontrar palavras para responder a Julian.Parece que minha mente não consegue
POV Clara SmithAcordo sentindo uma respiração muito próxima à minha cabeça. Logo percebo também que estou abraçada a um corpo familiar. Abro levemente os olhos e vejo o rosto sereno de Gabriel dormindo.Fico alguns segundos apenas o observando, e quando finalmente me levanto o ouço reclamar.— Estava melhor quando estava apenas pensando se saía ou não daqui… — Ele abre apenas um olho.— Então você sabia que eu estava acordada. — De olhos fechados ele apenas balança a cabeça em concordância. — Saio de sua cama e vou em direção à porta.— Não tem mesmo chances de você voltar para dormir mais um pouco?— Nenhuma, você tem que se levantar antes que perca o horário para o trabalho. — Me retiro antes que ele tenha chance de me chamar de volta para cama.Me arrumo e vou para cozinha onde já encontro um Gabriel parcialmente arrumado e preparando o café.— Então você se levantou… — Brinco com ele.— Não tive muitas opções, não é? — Ele me olha e sorri; sinto minha barriga gelar apenas com a
Ao chegarmos no apartamento, Clara vai para seu quarto tomar banho.Eu resolvo fazer o mesmo.Assim que saí do banheiro, senti um leve aroma de temperos.Vou em direção à cozinha e a encontrei concentrada em frente ao fogão.— O que está fazendo? — Ela se vira assustada.— O nosso jantar. — Ela aponta para as panelas em sua frente. — Macarrão com almôndegas.— Posso te ajudar? — mesmo sem sua resposta, me aproximo para avaliar o que está no fogo.— Claro, pode picar algumas ervas frescas pra mim, por favor? — Ela mostra com as mãos a bancada atrás dela que já está preparada para os cortes.Começo a picar algumas folhas quando ela acaba trombando em minhas costas.— Opa, acho que esta cozinha está ficando pequena pra nós dois — ela dá uma risada espontânea e o som faz com que me sinta em casa.Vou mais para o lado e percebo que ainda posso atrapalhar sua locomoção.— E se eu fizesse meu trabalho aí do lado, fica melhor? — Ela olha para a bancada vazia à sua direita e concorda.— Acho q
POV Gabriel De LucaO desenho é realmente lindo.Os traços limpos e firmes, as cores destacam a silhueta concentrada.Parece que estou me olhando por outro olhar.Na imagem, estou concentrado, mas tudo ao meu redor parece mais claro.Por um segundo, me pergunto se essa é a imagem que ela tem de mim.E se meus sentimentos são recíprocos.Há alguns meses, eu não imaginaria um cenário em que meu escritório não fosse um espaço só meu.Sem distrações.Sem cores.E, mais importante, sem companhia.Mas algo em como seus materiais de pintura espalhados na mesa parecem preencher uma lacuna que nunca tinha percebido.Sua respiração mais forte quando erra um traço não é um som incômodo, é meu som preferido nessa tarde.Algo em como sua presença preenche o espaço de uma maneira única.E em como as cores de sua arte agora me remetem ao lar.Antes, meu apartamento era quase uma sentença.Um lugar vazio.Escuro.Agora ele é o lugar em que mais desejo chegar e de onde nunca quero sair.Clara não o do







