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Capítulo 3

Author: JFiore
last update publish date: 2026-09-11 10:57:52

Por um instante, tudo o que consigo ouvir é a minha própria respiração.

Tomada pelo desejo e por uma coragem insana, levo minhas mãos à gola de seu blazer cinza e o puxo para um beijo.

Gabriel não hesita.

O beijo começa de forma urgente.

Logo ele pede passagem com a língua e eu cedo, entregando-me por completo.

Toda a tensão e a pose formal que nos rodeavam se dissipam, restando apenas o desejo.

Sinto a mão dele em minha cintura, me apertando contra seu corpo com força, enquanto a outra desliza da minha nuca para pousar na curva do meu quadril, me trazendo ainda mais para perto.

Levo minha mão direita à sua nuca, arranhando de leve a sua pele, que agora irradia um calor febril sob os meus dedos.

Passam-se minutos — ou segundos, já não sei mais dizer —, e quando o fôlego finalmente nos faz falta, nos separamos lentamente.

Ainda completamente atordoada pela intensidade daquele contato, sinto a mão dele afrouxar na minha cintura.

Dou um passo trêmulo para trás, tentando recuperar o ar.

Quando abro a boca, prestes a dizer qualquer coisa, nosso transe é quebrado por uma voz que vem do fundo da varanda.

— Gabriel, está na hora do discurso. Precisamos de você no palco.

A voz de Victor é acompanhada por um tom cheio de insinuações implícitas.

Afasto-me mais um passo, finalmente reunindo coragem para olhar nos olhos de Gabriel.

A imensidão escura deles ainda está lá, brilhando com uma intensidade perigosa.

Gabriel parece enfim acordar do transe.

Ele olha para o amigo por cima dos meus ombros, fazendo um sinal sutil de que já está indo.

Mas, antes de se afastar, ele dá um passo na minha direção.

Curva-se sobre mim, levando os lábios até a curva do meu ouvido.

Sinto um arrepio elétrico subir direto pela minha coluna quando ele sussurra, com a voz rouca, para que apenas eu possa ouvir:

— Te espero em quarenta minutos. No carro preto em frente à saída lateral.

Ele se afasta e se retira do terraço com passos firmes, deixando-me ali, de boca aberta e com o coração batendo descompassado contra o peito.

Preciso de alguns minutos sozinha para me recuperar antes de criar coragem e entrar de volta no salão.

Quando passo pelas portas de vidro, o vejo subindo os degraus do palco sob os aplausos da plateia.

Meu único pensamento lúcido é que seria uma loucura absoluta aceitar o seu convite.

Eu deveria ir embora, pegar um táxi e esquecer que tudo isso aconteceu.

Mas…

Algo em mim anseia por mais.

Gabriel inicia o discurso com a firmeza de sempre.

Em determinado momento, seu olhar percorre o salão.

Alguns segundos depois… ele para em mim.

Logo sou tirada do meu transe por uma Summer animada ao meu lado, fazendo perguntas e contando alguma coisa à qual sequer presto atenção.

Minha mente só consegue voltar no sussurro rouco e cheio de desejo de Gabriel.

E no carro que me aguarda na saída lateral.

— Sum, eu preciso ir embora. Acabei de ter uma excelente ideia para um novo quadro e, se não a colocar na tela o mais rápido possível, vou acabar perdendo a inspiração — interrompo bruscamente o falatório animado de minha amiga sobre alguma fofoca interna do escritório.

Summer cruza os braços e me encara com aquele olhar desconfiado de quem não acreditou em uma única palavra.

— Clara, minha amiga, eu te conheço melhor do que qualquer um nesta cidade. Não minta para mim, você nunca me engana. Alguma coisa aconteceu...

— Não aconteceu nada, Summer. Só quero ir para casa mesmo — tento parecer o mais convincente possível, mas a minha voz vacila. Diante do seu silêncio inquisidor, percebo que não vou conseguir sustentar essa mentira. Suspiro, derrotada, decidindo apelar para uma meia-verdade: — Ok, você venceu. Eu conheci um cara. Vou sair para tomar alguma coisa com ele.

Os olhos de Summer quase saltam das órbitas.

— Não acredito! Quem é? De qual setor? É gostoso? Eu quero saber tudo!

Pelo meu olhar periférico, observo de longe a figura de Gabriel abrir espaço pela multidão no salão e caminhar em direção à saída, mantendo os olhos fixos em mim por cima do ombro.

Meu estômago se revira.

Não faço ideia do motivo...

Mas tenho a sensação de que aquele olhar é um convite silencioso.

Engulo em seco e volto a atenção para a minha amiga.

— Sum, eu não sei esses detalhes. Mas sim, ele é bem bonito... nada fora do padrão, sabe? Só queria espairecer um pouco e ele me pareceu uma boa companhia.

Antes que ela possa iniciar um terceiro grau de perguntas, dou um beijo rápido em sua bochecha, deixando-a ali com um olhar chocado e uma taça na mão.

Saio quase correndo para não dar chance de Summer me alcançar.

Com o coração disparado na garganta, ando apressadamente pelos corredores internos em direção à saída lateral indicada.

Cada segundo parece uma eternidade e, a cada passo, minha mente racional tenta me convencer de que isso é uma loucura.

Mas basta lembrar da sensação da boca dele contra a minha para que aquela onda de coragem insana assuma o controle.

Empurro a porta de saída e o ar fresco da noite me atinge.

Olhando ao redor, vejo uma grande SUV preta parada a poucos metros, com apenas uma fresta do vidro traseiro escurecido aberta.

Assim que dou os primeiros passos na direção do veículo, a porta traseira é aberta por um homem de terno escuro, revelando o interior luxuoso e a silhueta imponente que me aguarda lá dentro.

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