LOGINNa tarde anterior ao casamento, Dante praticamente virou a sombra incansável de Leolina.
— Você sempre anda assim tão perto de todo mundo? — perguntou ela, mantendo a pena erguida e sem sequer levantar os olhos da lista meticulosa que carregava nas mãos.
Dante ajeitou o Gibão, mantendo os olhos fixos na linha do pescoço dela.
— Só das pessoas que dão a nítida impressão de que vão
Os pesados portões de ferro forjado do Palácio de Valdeolmos se abriram ranger lentamente, emitindo um som agudo que ecoou pela alamedas de ciprestes.Dentro da carruagem, Leolina ergueu os olhos e aproximou-se da cortina de veludo. Aquela fachada colossal de pedra dourada ainda existia exatamente como em seus pesadelos e memórias de infância. As mesmas janelas altas de arco ogival, as mesmas torres severas, o mesmo vasto jardim frontal por onde ela e Dante haviam corrido descalços quando o mundo parecia simples.Contudo, tudo parecia estranhamente menor do que nas lembranças de sua juventude. Menor e infinitamente menos acolhedor.A carruagem mal estancou diante da imensa escadaria de mármore quando a porta principal de carvalho foi aberta por dois lacaios de libré. No topo dos degraus, Doña Constanza já os esperava.Imóvel como uma estátua de gelo. Vestida de um preto rig
Na tarde anterior ao casamento, Dante praticamente virou a sombra incansável de Leolina.— Você sempre anda assim tão perto de todo mundo? — perguntou ela, mantendo a pena erguida e sem sequer levantar os olhos da lista meticulosa que carregava nas mãos.Dante ajeitou o Gibão, mantendo os olhos fixos na linha do pescoço dela.— Só das pessoas que dão a nítida impressão de que vão fugir a qualquer momento.— Eu não vou fugir — retrucou ela, riscando mais um item com uma caligrafia firme e desenhada. — A menos, é claro, que o tempo vire. E, ainda bem, o padre já confirmou a disponibilidade.Dante soltou um longo suspiro, recostando-se na mureta de pedra. Ela realmente havia organizado absolutamente tudo. Não havia um único detalhe solto ou entregue ao acaso. Havia uma daminha entusiasmada, testemunhas loca
No terceiro dia, Dante apareceu à porta da casa principal antes mesmo de o padeiro do vilarejo terminar de assar a primeira fornada do alvorecer.O marquês vestia um gibão de veludo negro tão impecável, de linhas tão severas e sóbrias, que parecia ter saído diretamente de um evento de luto ou de um funeral de estado. Estava hígido, ereto, mas a névoa fria da manhã denunciava o vapor contínuo de sua respiração acelerada.Doña Inés abriu a porta com lentidão calculada. Olhou para o homem. Depois, inclinou a cabeça e contemplou o céu, que mal começava a tingir-se de tons de violeta e cinza.— Ainda nem amanheceu direito, senhor marquês — observou a senhora, com uma sobrancelha erguida.— Eu sei — respondeu ele, a voz ríspida pela falta de uso nas últimas horas.— Do
Quando Leolina finalmente retornou à casa principal, encontrou Doña Inés acomodada em sua poltrona favorita na sala de estar. A senhora ostentava uma postura impecável, o leque repousando no colo e uma expressão no olhar que dizia, com clareza cristalina, que estivera pacientemente à espera da fofoca.— Então? — disparou a senhora, antes mesmo que a moça terminasse de fechar a porta.Leolina estancou no vestíbulo.— Então o quê, senhora?— Não faça essa cara de ingênua para mim, menina. — Doña Inés ajeitou-se na cadeira, inclinando o corpo para a frente. — O marquês passou um bom tempo conversando a sós com você no parque. Tenho olhos na cidade inteira.Leolina tentou passar por ela, desviando o caminho.— Precisamos supervisionar a preparação do jantar...
O parque da cidade repousava em um silêncio quase solene àquela hora do fim de tarde. O vento brando agitava a folhagem alaranjada das velhas árvores, fazendo com que as sombras no chão de pedra se movessem ritmicamente. Os ruídos do tráfego urbano e do burburinho mercantil chegavam até ali abafados, como se o tempo tivesse desacelerado para ambos.Dante caminhava ao lado de Leolina havia longos e densos minutos. O silêncio que os envolvia não era confortável; era pesado, carregado de uma expectativa palpável. Ele parecia procurar as palavras exatas, recalculando cada frase em sua mente. Leolina, observando a rigidez do maxilar dele, já começava a suspeitar de que o marquês perdera a coragem no último segundo.Até que ele estancou a caminhada.— Preciso que case comigo.Leolina também parou, sob a sombra de um frondoso carvalho. Piscou
Dante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos des







