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Capitulo 4

Auteur: Mary Bela
last update Date de publication: 2026-10-19 09:30:55

Dante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.

Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.

Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.

Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos desgastante.

— A fada está brava com você — declarou uma voz miúda ao seu lado.

Dante desviou o olhar da paisagem que corria fora da carruagem para encarar a filha. Beatriz estava confortavelmente acomodada no estofado de veludo, balançando as perninhas curtas enquanto devorava um pequeno doce de ameixa.

— Eu percebi — murmurou ele, soltando um suspiro pesado.

— Muito brava.

— É, também notei esse detalhe.

— Você fez alguma coisa ruim para ela?

Dante guardou silêncio por um momento, encarando o olhar curioso e límpido da menina.

— Não sei, querida.

Beatriz inclinou a cabeça, ponderando com a gravidade que só as crianças conseguem demonstrar diante de grandes dilemas.

— Se não sabe, então fez.

Ele não pôde conter uma risada curta, abafando o som com o dorso da mão.

— Você está ficando perigosamente parecida com a sua avó.

— Isso é ruim?

— Extremamente ruim.

Quando a carruagem finalmente estancou diante da imponente propriedade de Doña Inés naquela tarde, Dante descobriu que o destino reservava mais um percalço para o seu dia. As netas da senhora estavam hospedadas na casa. E ambas pareciam ter chegado à conclusão de que um marquês viúvo, de trinta e poucos anos, com título nobre e postura impecável, era precisamente o arranjo perfeito que faltava para abrilhantar suas vidas.

— Meu senhor! Já teve o prazer de conhecer minha neta Catalina? — indagou a senhora, indicando uma jovem de postura ereta ao lado do piano.

— Ainda não, senhora — respondeu Dante, mantendo a polidez que a etiqueta exigia.

— Ela é uma pianista excepcional. Toca peças de uma complexidade exemplar.

— Que maravilha.

— E esta é Isabel — continuou a avó, apontando para a outra moça, que sorria timidamente sobre um bastidor. — Borda com uma graciosidade incomparável.

— Não tenho dúvidas.

Dante sustentou o diálogo com a firmeza estóica de um soldado diante de uma linha de frente prestes a ser invadida.

— Meu senhor — aproximou-se uma das jovens, batendo os cílios com uma afeição ensaiada —, o dia está agradável. Talvez pudesse nos honrar com sua companhia em um passeio pelo jardim?

— Infelizmente, verei-me obrigado a recusar — declarou Dante, sem vacilar. — Tenho um assunto extremamente urgente para resolver.

— Um assunto urgente? — a moça piscou, surpresa. — Qual seria?

Dante voltou os olhos para a porta de saída, o semblante imperturbável.

— Uma abelha.

Antes que as moças pudessem trocar olhares de pura perplexidade ou articular qualquer pergunta, o marquês cruzou o portal e desapareceu corridors afora.

Encontrou Leolina alguns minutos mais tarde perto dos estábulos. Sob a sombra das árvores, ela conferia uma prancheta cheia de papéis e folhas de contas na companhia de um dos criados. Quando ouviu os passos firmes sobre o cascalho, ergueu o rosto e percebeu a aproximação dele.

— Não — disse ela de imediato, antes mesmo que ele encurtasse a distância.

Dante parou a poucos passos.

— Eu nem sequer abri a boca.

— Mas eu conheço essa sua expressão — respondeu ela, voltando a atenção para os números anotados. — E não quero problemas.

— Leolina, precisamos conversar.

— Já conversamos.

— Não o suficiente.

Ela soltou um suspiro audível, fechando o livro de registros com um baque seco.

— Dante...

Ele deu um passo à frente e baixou a voz, despindo-se do tom aristocrático:

— Por favor.

A mudança no tom surtiu efeito. Leolina finalmente o encarou de frente. Havia algo visivelmente diferente na postura dele — a rigidez habitual dera lugar a uma vulnerabilidade urgente.

— Sobre o quê? — perguntou ela, mantendo a guarda alta.

Dante abriu a boca. Por um breve e perigoso instante, considerou dizer a verdade sem rodeios: Quero me casar com você. Vim até aqui para pedir sua mão. Mas a ideia soava quase absurda depois de sete anos de silêncio e distância. Escolheu, portanto, a vereda mais segura.

— Sobre nós.

Ela permaneceu imóvel.

— Nós?

— A nossa amizade.

Leolina arqueou uma das sobrancelhas, o olhar afiado.

— Não sabia que ainda existia algo a que pudéssemos dar esse nome.

Dante fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso das palavras dela.

— É justamente por esse motivo que precisamos conversar.

Ele ensaiou dar mais um passo, mas Leolina recuou imediatamente na mesma proporção, mantendo o espaço entre eles.

— É altamente inapropriado que uma dama e um homem fiquem a sós nestas circunstâncias.

Dante soltou o ar ruidosamente pelo nariz, demonstrando impaciência.

— Estamos ao ar livre, no meio de uma propriedade repleta de criados indo e vindo.

— Ainda assim. As regras não mudam.

— Leolina.

— Dante.

Ele passou a mão pelo rosto, frustrado.

— Você está fazendo isso de propósito.

— Fazendo o quê, exatamente?

— Tornando tudo perfeitamente impossível.

Um pequeno sorriso de canto despontou nos lábios dela.

— Talvez.

Dante sentiu o impulso de sorrir também. Quase cedeu. Mas a memória do propósito que o trouxera até ali o fez recuperar a gravidade.

— Eu vim até aqui porque quero resolver essa situação.

— Que situação?

Ele a encarou fixamente.

— Você.

Leolina piscou, surpresa com a escolha de palavras, antes de cruzar os braços.

— Eu não sou um problema a ser resolvido, marquês.

Dante percebeu o deslize no mesmo instante.

— Não foi isso que eu quis dizer...

— Mas pareceu bastante. — Ela ajeitou a prancheta debaixo do braço. — Se já terminou o seu discurso, tenho trabalho a fazer.

— Eu não terminei.

Ela suspirou fundo, derrotada pela insistência dele.

— Então fale de uma vez.

Dante tomou o ar nos pulmões. Dessa vez, decidiu encarar a tempestade.

— Quero que você volte para a minha vida — disse ele, com firmeza. — E quero encontrar uma maneira de fazer isso da forma certa.

Leolina emudeceu. A provocação desapareceu de seu rosto, dando lugar a um silêncio denso.

A alguma distância dali, por trás das cortinas de uma das janelas do andar superior da casa principal, uma pequena cabeça de fios dourados observava a cena. Beatriz acompanhava a conversa dos dois com olhos atentos. E, ao perceber que o pai finalmente conseguira deter a fada para uma conversa de verdade, um sorriso radiante surgiu em seu rosto.

Dante ainda não suspeitava, mas a filha já tomara uma decisão definitiva: queria Leolina como sua madrasta e não mediria esforços para ajudar o pai a alcançar esse objetivo.

Mais tarde naquele mesmo dia, Dante a encontrou novamente, desta vez no centro da vila. Leolina caminhava pela calçada de pedra com uma cesta de vime pendurada no braço, aparentando uma ocupação extrema que a impedia de notar o marquês que a seguia a passos largos.

— Leolina — chamou ele.

Ela manteve o ritmo, ignorando-o.

— Leolina!

Nenhuma resposta. Dante apertou o passo e emparelhou com ela.

— Você está deliberadamente me ignorando?

— Talvez — respondeu ela, sem olhar para o lado.

Ele prendeu o riso diante da ousadia.

— Nós precisamos conversar de verdade.

Leolina finalmente estancou os passos. Voltou-se para ele, medindo-o da cabeça aos pés com um olhar calculista. Em seguida, estendeu a mão aberta em sua direção.

— O seu cartão de apresentação, por favor.

Dante encarou a mão enluvada da mulher, confuso.

— O meu quê?

— O seu cartão de visita.

— Você só pode estar brincando.

— Não estou — disse ela, enquanto os cantos de seus lábios começavam a ceder ao riso. — Falo completamente a sério.

— Para que você quer meu cartão?

— Porque você é um marquês caminhando em plena luz do dia atrás de uma dama solteira, exigindo conversas particulares — explicou ela, indicando discretamente com a cabeça dois grupos de moradoras que observavam a cena a pouca distância. — As pessoas desta cidade nutrem uma afeição especial por fofocas, e a minha reputação costuma ser o alvo favorito.

Dante olhou ao redor, percebendo os cochichos velados.

— E daí?

— E daí que eu não pretendo dar mais lenha para esse fogo — retrucou Leolina, mantendo a mão firme e estendida. — Siga o protocolo da boa etiqueta, marquês.

Dante bufou, contrariado, mas levou a mão ao bolso interno de seu casaco de corte impecável. Tirou dali um pequeno cartão de papel encorpado, gravado em relevo, e o depositou na mão dela.

Leolina leu em tom baixo e pausado:

— Marquês Dante de Aranda, senhor de Valdeolmos... — Ergueu os olhos, fascinada pela pompa. — Impressionante.

— Ótimo. Agora pode me devolver.

Ela deu um sorriso triunfante.

— OBRIGADA. Valeu a pena.

— Leolina...

— O quê?

— Isso não pertence a você.

Com um movimento ágil, ela deslizou o cartão para dentro da manga do vestido.

— Agora pertence.

Dante soltou uma risada incrédula, balançando a cabeça.

— Você pretende genuinamente guardar o meu cartão?

— Mas é claro que sim.

— E posso saber o motivo?

Ela retomou a caminhada, e ele viu-se obrigado a acompanhá-la.

— Para ter uma prova concreta de que realmente conheço um marquês importante.

— Você me conhece desde quando éramos duas crianças correndo pelos campos!

— Exatamente — disse ela, lançando-lhe um olhar de soslaio. — Preciso de uma prova documental de que você cresceu, virou um nobre pomposo e se tornou alguém relevante.

— Você é uma criatura absolutamente terrível.

— E, ainda assim, você continua me seguindo.

Dante guardou silêncio. Não havia argumento contra fatos: ela estava coberta de razão.

Após alguns metros de caminhada em conjunto, ele indicou com o queixo a alameda arborizada que se abria logo à frente.

— Vamos até o parque.

Leolina estreitou os olhos, desconfiada.

— Por qual razão?

— Porque lá poderemos conversar sem que você encontre uma desculpa esfarrapada para fugir.

— Eu não fujo de ninguém.

— Ontem à tarde você praticamente se evadiu pela porta dos fundos da propriedade.

— Aquilo foi uma necessidade de trabalho.

— E a sua atitude de hoje?

Ela o olhou de soslaio, compenetrada.

— Hoje estou apenas avaliando as minhas opções de fuga.

Dante não conteve um sorriso genuíno.

— Então venha comigo.

Leolina soltou um suspiro rendido, mas ajustou a cesta no braço e seguiu ao lado dele.

O parque da cidade ficava a poucos minutos do centro comercial, emoldurado por carvalhos antigos e cortado por alamedas pontilhadas por bancos de pedra. Dante mantinha o passo calmo e silencioso. Leolina o acompanhava no mesmo ritmo, até que levou a mão à manga e retirou novamente o pequeno cartão de papel.

Olhou para o nome gravado em letras elegantes. Por alguma razão velada, a visão daquele título fez a leveza de seu sorriso desvanecer aos poucos.

Dante de Aranda.

O menino com quem dividira infância e segredos. O homem que um dia juntara suas coisas e partira sem olhar para trás. O marquês viúvo que retornava sete anos depois, caminhando ao seu lado com a naturalidade de quem jamais se ausentara.

Ela guardou o cartão no bolso do vestido, recobrando a postura.

— Pois bem, marquês...

Dante voltou o rosto para ela.

— Sim?

— O que exatamente você veio fazer nesta cidade?

Ele parou de caminhar. Leolina estancou ao seu lado. Desta vez, a aura de provocação dissipara-se por completo; não havia margem para brincadeiras no rosto de nenhum dos dois.

— Eu vim até aqui para falar sobre o nosso futuro — declarou ele, a voz firme e límpida.

Leolina empalideceu levemente, a expressão tornando-se séria.

— Nosso?

Dante sustentou o olhar dela e assentiu com certeza:

— Nosso.

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