Se connecterDante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.
Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.
Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.
Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos desgastante.
— A fada está brava com você — declarou uma voz miúda ao seu lado.
Dante desviou o olhar da paisagem que corria fora da carruagem para encarar a filha. Beatriz estava confortavelmente acomodada no estofado de veludo, balançando as perninhas curtas enquanto devorava um pequeno doce de ameixa.
— Eu percebi — murmurou ele, soltando um suspiro pesado.
— Muito brava.
— É, também notei esse detalhe.
— Você fez alguma coisa ruim para ela?
Dante guardou silêncio por um momento, encarando o olhar curioso e límpido da menina.
— Não sei, querida.
Beatriz inclinou a cabeça, ponderando com a gravidade que só as crianças conseguem demonstrar diante de grandes dilemas.
— Se não sabe, então fez.
Ele não pôde conter uma risada curta, abafando o som com o dorso da mão.
— Você está ficando perigosamente parecida com a sua avó.
— Isso é ruim?
— Extremamente ruim.
Quando a carruagem finalmente estancou diante da imponente propriedade de Doña Inés naquela tarde, Dante descobriu que o destino reservava mais um percalço para o seu dia. As netas da senhora estavam hospedadas na casa. E ambas pareciam ter chegado à conclusão de que um marquês viúvo, de trinta e poucos anos, com título nobre e postura impecável, era precisamente o arranjo perfeito que faltava para abrilhantar suas vidas.
— Meu senhor! Já teve o prazer de conhecer minha neta Catalina? — indagou a senhora, indicando uma jovem de postura ereta ao lado do piano.
— Ainda não, senhora — respondeu Dante, mantendo a polidez que a etiqueta exigia.
— Ela é uma pianista excepcional. Toca peças de uma complexidade exemplar.
— Que maravilha.
— E esta é Isabel — continuou a avó, apontando para a outra moça, que sorria timidamente sobre um bastidor. — Borda com uma graciosidade incomparável.
— Não tenho dúvidas.
Dante sustentou o diálogo com a firmeza estóica de um soldado diante de uma linha de frente prestes a ser invadida.
— Meu senhor — aproximou-se uma das jovens, batendo os cílios com uma afeição ensaiada —, o dia está agradável. Talvez pudesse nos honrar com sua companhia em um passeio pelo jardim?
— Infelizmente, verei-me obrigado a recusar — declarou Dante, sem vacilar. — Tenho um assunto extremamente urgente para resolver.
— Um assunto urgente? — a moça piscou, surpresa. — Qual seria?
Dante voltou os olhos para a porta de saída, o semblante imperturbável.
— Uma abelha.
Antes que as moças pudessem trocar olhares de pura perplexidade ou articular qualquer pergunta, o marquês cruzou o portal e desapareceu corridors afora.
Encontrou Leolina alguns minutos mais tarde perto dos estábulos. Sob a sombra das árvores, ela conferia uma prancheta cheia de papéis e folhas de contas na companhia de um dos criados. Quando ouviu os passos firmes sobre o cascalho, ergueu o rosto e percebeu a aproximação dele.
— Não — disse ela de imediato, antes mesmo que ele encurtasse a distância.
Dante parou a poucos passos.
— Eu nem sequer abri a boca.
— Mas eu conheço essa sua expressão — respondeu ela, voltando a atenção para os números anotados. — E não quero problemas.
— Leolina, precisamos conversar.
— Já conversamos.
— Não o suficiente.
Ela soltou um suspiro audível, fechando o livro de registros com um baque seco.
— Dante...
Ele deu um passo à frente e baixou a voz, despindo-se do tom aristocrático:
— Por favor.
A mudança no tom surtiu efeito. Leolina finalmente o encarou de frente. Havia algo visivelmente diferente na postura dele — a rigidez habitual dera lugar a uma vulnerabilidade urgente.
— Sobre o quê? — perguntou ela, mantendo a guarda alta.
Dante abriu a boca. Por um breve e perigoso instante, considerou dizer a verdade sem rodeios: Quero me casar com você. Vim até aqui para pedir sua mão. Mas a ideia soava quase absurda depois de sete anos de silêncio e distância. Escolheu, portanto, a vereda mais segura.
— Sobre nós.
Ela permaneceu imóvel.
— Nós?
— A nossa amizade.
Leolina arqueou uma das sobrancelhas, o olhar afiado.
— Não sabia que ainda existia algo a que pudéssemos dar esse nome.
Dante fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso das palavras dela.
— É justamente por esse motivo que precisamos conversar.
Ele ensaiou dar mais um passo, mas Leolina recuou imediatamente na mesma proporção, mantendo o espaço entre eles.
— É altamente inapropriado que uma dama e um homem fiquem a sós nestas circunstâncias.
Dante soltou o ar ruidosamente pelo nariz, demonstrando impaciência.
— Estamos ao ar livre, no meio de uma propriedade repleta de criados indo e vindo.
— Ainda assim. As regras não mudam.
— Leolina.
— Dante.
Ele passou a mão pelo rosto, frustrado.
— Você está fazendo isso de propósito.
— Fazendo o quê, exatamente?
— Tornando tudo perfeitamente impossível.
Um pequeno sorriso de canto despontou nos lábios dela.
— Talvez.
Dante sentiu o impulso de sorrir também. Quase cedeu. Mas a memória do propósito que o trouxera até ali o fez recuperar a gravidade.
— Eu vim até aqui porque quero resolver essa situação.
— Que situação?
Ele a encarou fixamente.
— Você.
Leolina piscou, surpresa com a escolha de palavras, antes de cruzar os braços.
— Eu não sou um problema a ser resolvido, marquês.
Dante percebeu o deslize no mesmo instante.
— Não foi isso que eu quis dizer...
— Mas pareceu bastante. — Ela ajeitou a prancheta debaixo do braço. — Se já terminou o seu discurso, tenho trabalho a fazer.
— Eu não terminei.
Ela suspirou fundo, derrotada pela insistência dele.
— Então fale de uma vez.
Dante tomou o ar nos pulmões. Dessa vez, decidiu encarar a tempestade.
— Quero que você volte para a minha vida — disse ele, com firmeza. — E quero encontrar uma maneira de fazer isso da forma certa.
Leolina emudeceu. A provocação desapareceu de seu rosto, dando lugar a um silêncio denso.
A alguma distância dali, por trás das cortinas de uma das janelas do andar superior da casa principal, uma pequena cabeça de fios dourados observava a cena. Beatriz acompanhava a conversa dos dois com olhos atentos. E, ao perceber que o pai finalmente conseguira deter a fada para uma conversa de verdade, um sorriso radiante surgiu em seu rosto.
Dante ainda não suspeitava, mas a filha já tomara uma decisão definitiva: queria Leolina como sua madrasta e não mediria esforços para ajudar o pai a alcançar esse objetivo.
Mais tarde naquele mesmo dia, Dante a encontrou novamente, desta vez no centro da vila. Leolina caminhava pela calçada de pedra com uma cesta de vime pendurada no braço, aparentando uma ocupação extrema que a impedia de notar o marquês que a seguia a passos largos.
— Leolina — chamou ele.
Ela manteve o ritmo, ignorando-o.
— Leolina!
Nenhuma resposta. Dante apertou o passo e emparelhou com ela.
— Você está deliberadamente me ignorando?
— Talvez — respondeu ela, sem olhar para o lado.
Ele prendeu o riso diante da ousadia.
— Nós precisamos conversar de verdade.
Leolina finalmente estancou os passos. Voltou-se para ele, medindo-o da cabeça aos pés com um olhar calculista. Em seguida, estendeu a mão aberta em sua direção.
— O seu cartão de apresentação, por favor.
Dante encarou a mão enluvada da mulher, confuso.
— O meu quê?
— O seu cartão de visita.
— Você só pode estar brincando.
— Não estou — disse ela, enquanto os cantos de seus lábios começavam a ceder ao riso. — Falo completamente a sério.
— Para que você quer meu cartão?
— Porque você é um marquês caminhando em plena luz do dia atrás de uma dama solteira, exigindo conversas particulares — explicou ela, indicando discretamente com a cabeça dois grupos de moradoras que observavam a cena a pouca distância. — As pessoas desta cidade nutrem uma afeição especial por fofocas, e a minha reputação costuma ser o alvo favorito.
Dante olhou ao redor, percebendo os cochichos velados.
— E daí?
— E daí que eu não pretendo dar mais lenha para esse fogo — retrucou Leolina, mantendo a mão firme e estendida. — Siga o protocolo da boa etiqueta, marquês.
Dante bufou, contrariado, mas levou a mão ao bolso interno de seu casaco de corte impecável. Tirou dali um pequeno cartão de papel encorpado, gravado em relevo, e o depositou na mão dela.
Leolina leu em tom baixo e pausado:
— Marquês Dante de Aranda, senhor de Valdeolmos... — Ergueu os olhos, fascinada pela pompa. — Impressionante.
— Ótimo. Agora pode me devolver.
Ela deu um sorriso triunfante.
— OBRIGADA. Valeu a pena.
— Leolina...
— O quê?
— Isso não pertence a você.
Com um movimento ágil, ela deslizou o cartão para dentro da manga do vestido.
— Agora pertence.
Dante soltou uma risada incrédula, balançando a cabeça.
— Você pretende genuinamente guardar o meu cartão?
— Mas é claro que sim.
— E posso saber o motivo?
Ela retomou a caminhada, e ele viu-se obrigado a acompanhá-la.
— Para ter uma prova concreta de que realmente conheço um marquês importante.
— Você me conhece desde quando éramos duas crianças correndo pelos campos!
— Exatamente — disse ela, lançando-lhe um olhar de soslaio. — Preciso de uma prova documental de que você cresceu, virou um nobre pomposo e se tornou alguém relevante.
— Você é uma criatura absolutamente terrível.
— E, ainda assim, você continua me seguindo.
Dante guardou silêncio. Não havia argumento contra fatos: ela estava coberta de razão.
Após alguns metros de caminhada em conjunto, ele indicou com o queixo a alameda arborizada que se abria logo à frente.
— Vamos até o parque.
Leolina estreitou os olhos, desconfiada.
— Por qual razão?
— Porque lá poderemos conversar sem que você encontre uma desculpa esfarrapada para fugir.
— Eu não fujo de ninguém.
— Ontem à tarde você praticamente se evadiu pela porta dos fundos da propriedade.
— Aquilo foi uma necessidade de trabalho.
— E a sua atitude de hoje?
Ela o olhou de soslaio, compenetrada.
— Hoje estou apenas avaliando as minhas opções de fuga.
Dante não conteve um sorriso genuíno.
— Então venha comigo.
Leolina soltou um suspiro rendido, mas ajustou a cesta no braço e seguiu ao lado dele.
O parque da cidade ficava a poucos minutos do centro comercial, emoldurado por carvalhos antigos e cortado por alamedas pontilhadas por bancos de pedra. Dante mantinha o passo calmo e silencioso. Leolina o acompanhava no mesmo ritmo, até que levou a mão à manga e retirou novamente o pequeno cartão de papel.
Olhou para o nome gravado em letras elegantes. Por alguma razão velada, a visão daquele título fez a leveza de seu sorriso desvanecer aos poucos.
Dante de Aranda.
O menino com quem dividira infância e segredos. O homem que um dia juntara suas coisas e partira sem olhar para trás. O marquês viúvo que retornava sete anos depois, caminhando ao seu lado com a naturalidade de quem jamais se ausentara.
Ela guardou o cartão no bolso do vestido, recobrando a postura.
— Pois bem, marquês...
Dante voltou o rosto para ela.
— Sim?
— O que exatamente você veio fazer nesta cidade?
Ele parou de caminhar. Leolina estancou ao seu lado. Desta vez, a aura de provocação dissipara-se por completo; não havia margem para brincadeiras no rosto de nenhum dos dois.
— Eu vim até aqui para falar sobre o nosso futuro — declarou ele, a voz firme e límpida.
Leolina empalideceu levemente, a expressão tornando-se séria.
— Nosso?
Dante sustentou o olhar dela e assentiu com certeza:
— Nosso.
O parque da cidade repousava em um silêncio quase solene àquela hora do fim de tarde. O vento brando agitava a folhagem alaranjada das velhas árvores, fazendo com que as sombras no chão de pedra se movessem ritmicamente. Os ruídos do tráfego urbano e do burburinho mercantil chegavam até ali abafados, como se o tempo tivesse desacelerado para ambos.Dante caminhava ao lado de Leolina havia longos e densos minutos. O silêncio que os envolvia não era confortável; era pesado, carregado de uma expectativa palpável. Ele parecia procurar as palavras exatas, recalculando cada frase em sua mente. Leolina, observando a rigidez do maxilar dele, já começava a suspeitar de que o marquês perdera a coragem no último segundo.Até que ele estancou a caminhada.— Preciso que case comigo.Leolina também parou, sob a sombra de um frondoso carvalho. Piscou
Dante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos des
Na manhã seguinte, Dante articulou uma justificativa vaga para prolongar sua estadia na vila.Alegou a Beatriz e à dama de companhia que pendências urgentes do marquesado exigiam sua presença na praça central. A garotinha, sem interromper o gesto de pentear sua boneca de pano, apenas retrucou com serenidade:— O senhor vai atrás da fada ruiva.Ele não se deu ao trabalho de formular uma negação lógica.O mercado da vila já fervilhava de vida quando o marquês alcançou a praça de pedra. Vendedores gritavam os preços de pescados e hortaliças, camponesas barganhavam tecidos e crianças perseguiam cães entre os cavalos. Pela primeira vez em anos, o título de Dante era uma irrelevância invisível no meio da multidão.Então, seus olhos a localizaram.Leolina sustentava uma cesta de vime no
A carta dobrada já ostentava vincos gastos de tanto ser manuseada.Dante a relera dezenas de vezes durante o trajeto. “Doña Leolina reside na propriedade rural de Doña Inés de Salvatierra.” Apenas isso. Nenhuma nota explicativa. Nenhum detalhe adicional.O destino parecia uma contradição satírica. Não era meramente o interior de Castela; era o isolamento absoluto. A estrada de terra batida estreitava-se a cada légua, ladeada por oliveiras seculares, campos de trigo ondulando sob o vento forte e lugarejos onde o tempo parecia haver estagnado.Dante apoiou o cotovelo no caixilho da janela da carruagem, a testa crispada.— Ainda falta muito?A dama de companhia sorriu, ajeitando as mantas no assento.— Meu senhor... a pequena Beatriz faz exatamente essa mesma pergunta a cada dez minutos.Beatriz projetou metade do corpo para fora da cortina de
A viagem de regresso a Valdeolmos pareceu significativamente mais longa do que o trajeto de ida.No interior da carruagem, o ranger ritmado das rodas de madeira contra a estrada de pedra servia de metrônomo para o silêncio de Dante. Com a fonte apoiada contra a janela fria, ele observava o relevo prateado das montanhas castelhanas sob a luz da lua.Onde estará Leolina?A indagação insistia em retornar, desafiando qualquer esforço de sua mente pragmática para catalogá-la como uma irrelevância do passado. Não se recordava da última vez em que pronunciara aquele nome. Sete anos. Talvez mais. Talvez o tivesse enterrado no mesmo dia em que jurou fidelidade a Manuela perante o altar.No entanto, bastara a menção irrefletida de Álvaro no baile para que as memórias irrompessem sem pedir licença.Uma garota de cabelos cor de cobre, invariave
Castela, Reino da Espanha — Ano de 1507.O salão do Palácio dos Aranda reluzia como uma gaiola de ouro e opulência.Centenas de velas de cera de abelha tremeluziam nos candelabros de ferro forjado, projetando sombras dinâmicas sobre o chão de pedra encerado. O aroma espesso de perfume de rosas misturava-se ao cheiro acre do suor contido sob corpetes e veludos pesados. A melodia cadenciada das vihuelas conduzia os casais em passos milimetricamente calculados, enquanto o murmúrio das conversas polidas ecoava pelas paredes tapeçadas.Dante observava a cena com a distância de quem examina uma equação que já decorou.Fórmula simples, pensou, girando o vinho no cálice. Sorrisos ensaiados somados a interesses políticos resultam em alianças convenientes.Havia sete anos frequentava as mesmas festas da nobreza, escut







