Se connecterO parque da cidade repousava em um silêncio quase solene àquela hora do fim de tarde. O vento brando agitava a folhagem alaranjada das velhas árvores, fazendo com que as sombras no chão de pedra se movessem ritmicamente. Os ruídos do tráfego urbano e do burburinho mercantil chegavam até ali abafados, como se o tempo tivesse desacelerado para ambos.
Dante caminhava ao lado de Leolina havia longos e densos minutos. O silêncio que os envolvia não era confortável; era pesado, carregado de uma expectativa palpável. Ele parecia procurar as palavras exatas, recalculando cada frase em sua mente. Leolina, observando a rigidez do maxilar dele, já começava a suspeitar de que o marquês perdera a coragem no último segundo.
Até que ele estancou a caminhada.
— Preciso que case comigo.
Leolina também parou, sob a sombra de um frondoso carvalho. Piscou. Uma vez. Duas. Encarou a expressão absolutamente séria daquele homem e, de repente, uma gargalhada curta e desacreditada escapou de seus lábios.
— É isso?
Dante franziu o cenho, surpreso com a reação dela.
— Isso o quê?
— Esse é o grande assunto de vital importância que precisava ser tratado no parque? — Ela levou a mão à boca, tentando em vão conter o riso que ameaçava desarmá-la. — Você reaparece depois de sete longos anos de silêncio, surge na propriedade onde trabalho, me segue pelo meio do mercado como um fantasma obsessivo, exige que eu converse com você... — Ela abriu os braços, indicando o absurdo da situação. — E então, simplesmente solta um "Preciso que case comigo"?
Dante pareceu considerar a estrutura do próprio argumento por um momento.
— Sim — respondeu ele, com uma gravidade quase ingênua.
Leolina riu ainda mais alto, balançando a cabeça.
— Você é absolutamente inacreditável, Dante.
— Minha mãe quer que eu me case — acrescentou ele, tentando dar uma justificativa prática.
O sorriso no rosto de Leolina começou a vacilar.
Dante desviou o olhar para o alto das árvores, o tom de voz mudando de tom.
— Ela quer que eu garanta um herdeiro. Um título precisa de continuidade. — Ele fez uma pausa dolorosa. — Mas eu não quero colocar outra mulher na minha vida apenas para...
Ele se interrompeu. Leolina prendeu a respiração, esperando.
— Para quebrar meu coração outra vez — concluiu ele, em um murmúrio quase inaudível.
A brincadeira e a ironia desapareceram completamente do rosto dela. O ar entre os dois pareceu esfriar de golpe.
Dante soltou o ar ruidosamente, encarando os próprios sapatos antes de voltar os olhos para ela.
— Manuela morreu há sete anos. — Sua voz era agora baixa, arranhada por uma dor antiga e mal cicatrizada. — Eu não tenho forças para passar por um luto daqueles novamente.
Leolina sentiu um nó apertar dolorosamente no fundo do peito.
Então era aquilo. Não se tratava de um amor guardado em segredo ao longo dos anos. Não era saudade acumulada. Não era o desejo ardente de reconquistá-la. Era medo. Apenas o puro e simples medo de sofrer de novo.
E, de repente, uma onda quente de indignação começou a se acender nas entranhas de Leolina. Ele atravessou o país para me dizer que eu sou a opção inofensiva e segura?
Ela cruzou os braços contra o peito, a postura subitamente rígida.
— E foi por isso que você veio até o interior da Espanha atrás da sua amiga de infância?
Dante assentiu, firme.
— Sim.
— Para propor que eu me case com você?
— Sim.
She o encarou, a incredulidade transbordando de seu olhar.
— Por quê, Dante? Por que eu?
Ele respondeu com uma simplicidade aterradora, desprovida de qualquer tato social:
— Porque era você ou eu permaneceria solteiro para sempre.
Leolina sentiu o sangue subir-lhe ao rosto instantaneamente. Ficou vermelha — de raiva, de vergonha e de choque.
Dante, notando apenas que ela emudecera subitamente, deu meio passo à frente.
— O que foi?
— Nada — respondeu ela, virando o rosto bruscamente.
"Era você ou eu ficava solteiro."
Aquilo deveria soar como uma declaração romântica ou um elogio? Não. Definitivamente, não. Era algo perigosamente próximo de uma ofensa delicadamente polida.
Ela apertou os lábios com força antes de encará-lo novamente, os olhos faiscando.
— Que declaração profundamente encantadora, marquês.
Dante voltou a franzir o cenho, genuinamente confuso.
— Eu apenas estava sendo sincero com você.
— Esse é exatamente o problema!
Ele abriu as mãos, transparecendo uma perplexidade quase infantil.
— Você não quer?
Leolina fitou aquele homem por longos segundos. Aquele aristocrata acostumado a comandar que havia atravessado metade do reino para encontrá-la, que descobrira seu paradeiro, trouxera a própria filha pequena a tiracolo e enfrentara as pressões da mãe... e agora estava ali, parado diante dela em um parque público, propondo matrimônio com a mesma frieza emotiva com que negociaria a compra de uma nova propriedade.
— Dante... — Ela respirou fundo, tentando reorganizar os pensamentos. — Você tem consciência de que um casamento não é um remédio para o seu medo, não tem?
Ele permaneceu em silêncio, a mandíbula tensa.
— Eu não quero ser a mulher que você escolheu simplesmente porque tem pavor de se apaixonar por qualquer outra.
Dessa vez, algo profundo e visível estremeceu na fisionomia de Dante. Ele deu um passo largo na direção dela, desfazendo a distância.
— Não foi isso o que eu quis dizer, Leolina!
— Mas foi exatamente o que você disse.
Ele abriu a boca para rebater. Fechou-a em seguida. Pela primeira vez desde que ela o conhecia, o homem arrogante e resoluto, que sempre parecia ter o controle absoluto de qualquer situação, não tinha uma única resposta articulada para dar.
Leolina deu-lhe as costas e começou a caminhar na direção da saída.
— Pense melhor sobre o assunto, marquês.
Dante girou sobre os calcanhares, acompanhando-a com o olhar desesperado.
— Eu já pensei o bastante!
Ela estancou os passos sem se voltar imediatamente.
— Então pense mais um pouco.
E voltou a andar.
Dante permaneceu imóvel no centro da alameda deserta. Passou a mão pelo rosto e soltou um suspiro pesado e derrotado. Talvez pedir Leolina em casamento se revelasse uma batalha incomensuravelmente mais complexa do que qualquer campanha que já enfrentara. E, pela primeira vez na vida, começou a suspeitar de que sua mãe talvez estivesse coberta de razão sobre um ponto crucial: ele realmente não tinha a menor ideia de como falar com uma mulher.
Leolina deu mais alguns passos em silêncio. Sentia os passos hesitantes de Dante mantendo uma distância cautelosa atrás dela. Finalmente, ela parou de caminhar e virou-se devagar.
— Calma.
Dante ergueu os olhos, surpreso.
— Calma?
— Preciso de um tempo — declarou ela.
O marquizou franziu o cenho instantaneamente.
— Quanto tempo?
Leolina quase deixou escapar um sorriso diante da impaciência pueril dele.
— Três dias.
— Três dias?
— Três dias — reafirmou ela, virando-se completamente para encará-lo de frente. — Eu preciso pensar.
Dante cruzou os braços, a guarda novamente levantada.
— Pensar em quê, exatamente?
— Em absolutamente tudo! — respondeu ela, contando nos dedos. — No casamento. Em você. Na sua filha fofa. Na sua família intimidadora. No que diabos aconteceria com a minha vida e com a minha liberdade depois disso.
Dante permaneceu em silêncio, ouvindo cada palavra.
— E, principalmente — acrescentou ela, suavizando o tom, mas mantendo a firmeza no olhar —, preciso descobrir se você realmente quer se casar comigo ou se quer apenas uma mulher segura que não faça o seu coração correr o risco de sentir algo de verdade.
Aquelas palavras o atingiram com a precisão de uma lâmina.
— Leolina...
— Três dias, Dante — disse ela, com uma brandura inédita na voz. — Eu não estou dizendo não.
Ele a encarou por alguns instantes longos e intensos, absorvendo o impacto.
— Você está dizendo talvez.
Um pequeno e verdadeiro sorriso despontou nos lábios dela.
— Estou dizendo que, pela primeira vez na sua vida, você vai precisar ter paciência e esperar por mim.
Dante soltou o ar em um suspiro resignado, mas uma centelha de esperança brilhou em seus olhos.
— Três dias.
— Três.
— E depois desse prazo você me dará uma resposta definitiva?
Leolina hesitou por um breve momento antes de aquiescer.
— Sim.
Ele assentiu, aceitando os termos.
— Está bem.
Ela deu meia-volta e começou a se afastar pela calçada.
— Leolina — chamou ele.
Ela olhou por cima do ombro.
— Sim?
Dante demorou um instante antes de articular a pergunta, parecendo subitamente hesitante:
— Eu posso... posso vê-la durante esses três dias?
Leolina sorriu de canto, os olhos brilhando com uma réstia de diversão.
— Isso vai depender exclusivamente de uma coisa.
— Do quê?
— De você conseguir se comportar estritamente como o meu amigo.
Dante soltou uma risada baixa, desacreditada.
— Eu nunca fui particularmente bom nisso.
— Eu sei bem disso — respondeu ela.
E continuou seu caminho, sem olhar para trás.
Dante permaneceu parado, acompanhando a figura dela até que desaparecesse por completo entre as sombras das árvores do parque.
Três dias. Para um homem habituado a tomar decisões de vida ou morte em questão de minutos, setenta e duas horas pareciam um século inteiro. Mas, pela primeira vez em muitos anos, ele não se importou com a espera.
Porque três dias significavam que Leolina ainda considerava a possibilidade de caminhar ao seu lado.
O parque da cidade repousava em um silêncio quase solene àquela hora do fim de tarde. O vento brando agitava a folhagem alaranjada das velhas árvores, fazendo com que as sombras no chão de pedra se movessem ritmicamente. Os ruídos do tráfego urbano e do burburinho mercantil chegavam até ali abafados, como se o tempo tivesse desacelerado para ambos.Dante caminhava ao lado de Leolina havia longos e densos minutos. O silêncio que os envolvia não era confortável; era pesado, carregado de uma expectativa palpável. Ele parecia procurar as palavras exatas, recalculando cada frase em sua mente. Leolina, observando a rigidez do maxilar dele, já começava a suspeitar de que o marquês perdera a coragem no último segundo.Até que ele estancou a caminhada.— Preciso que case comigo.Leolina também parou, sob a sombra de um frondoso carvalho. Piscou
Dante não estava gostando do rumo que as coisas tomavam.Absolutamente nada saía conforme o planejado. Ele viajara até aquela província com um plano traçado de forma simples e pragmática: encontrar Leolina, conversar com a calma que os anos exigiam e avaliar se ainda existia qualquer possibilidade de um casamento entre eles. No entanto, o verdadeiro obstáculo atendia pelo nome de Leolina que parecia pessoalmente empenhada em transformar cada uma dessas etapas em um suplício.Primeiro, ela o acolhera com o entusiasmo reservado a um mau agouro. Depois, fizera questão de jogar sobre a mesa o incômodo fato de que ele simplesmente desaparecera durante sete longos anos. E agora? Agora fugia dele com a agilidade de um felino no instante em que ele apontava no horizonte.Dante começava a suspeitar de que negociar um tratado de paz com a corte francesa seria uma tarefa consideravelmente menos des
Na manhã seguinte, Dante articulou uma justificativa vaga para prolongar sua estadia na vila.Alegou a Beatriz e à dama de companhia que pendências urgentes do marquesado exigiam sua presença na praça central. A garotinha, sem interromper o gesto de pentear sua boneca de pano, apenas retrucou com serenidade:— O senhor vai atrás da fada ruiva.Ele não se deu ao trabalho de formular uma negação lógica.O mercado da vila já fervilhava de vida quando o marquês alcançou a praça de pedra. Vendedores gritavam os preços de pescados e hortaliças, camponesas barganhavam tecidos e crianças perseguiam cães entre os cavalos. Pela primeira vez em anos, o título de Dante era uma irrelevância invisível no meio da multidão.Então, seus olhos a localizaram.Leolina sustentava uma cesta de vime no
A carta dobrada já ostentava vincos gastos de tanto ser manuseada.Dante a relera dezenas de vezes durante o trajeto. “Doña Leolina reside na propriedade rural de Doña Inés de Salvatierra.” Apenas isso. Nenhuma nota explicativa. Nenhum detalhe adicional.O destino parecia uma contradição satírica. Não era meramente o interior de Castela; era o isolamento absoluto. A estrada de terra batida estreitava-se a cada légua, ladeada por oliveiras seculares, campos de trigo ondulando sob o vento forte e lugarejos onde o tempo parecia haver estagnado.Dante apoiou o cotovelo no caixilho da janela da carruagem, a testa crispada.— Ainda falta muito?A dama de companhia sorriu, ajeitando as mantas no assento.— Meu senhor... a pequena Beatriz faz exatamente essa mesma pergunta a cada dez minutos.Beatriz projetou metade do corpo para fora da cortina de
A viagem de regresso a Valdeolmos pareceu significativamente mais longa do que o trajeto de ida.No interior da carruagem, o ranger ritmado das rodas de madeira contra a estrada de pedra servia de metrônomo para o silêncio de Dante. Com a fonte apoiada contra a janela fria, ele observava o relevo prateado das montanhas castelhanas sob a luz da lua.Onde estará Leolina?A indagação insistia em retornar, desafiando qualquer esforço de sua mente pragmática para catalogá-la como uma irrelevância do passado. Não se recordava da última vez em que pronunciara aquele nome. Sete anos. Talvez mais. Talvez o tivesse enterrado no mesmo dia em que jurou fidelidade a Manuela perante o altar.No entanto, bastara a menção irrefletida de Álvaro no baile para que as memórias irrompessem sem pedir licença.Uma garota de cabelos cor de cobre, invariave
Castela, Reino da Espanha — Ano de 1507.O salão do Palácio dos Aranda reluzia como uma gaiola de ouro e opulência.Centenas de velas de cera de abelha tremeluziam nos candelabros de ferro forjado, projetando sombras dinâmicas sobre o chão de pedra encerado. O aroma espesso de perfume de rosas misturava-se ao cheiro acre do suor contido sob corpetes e veludos pesados. A melodia cadenciada das vihuelas conduzia os casais em passos milimetricamente calculados, enquanto o murmúrio das conversas polidas ecoava pelas paredes tapeçadas.Dante observava a cena com a distância de quem examina uma equação que já decorou.Fórmula simples, pensou, girando o vinho no cálice. Sorrisos ensaiados somados a interesses políticos resultam em alianças convenientes.Havia sete anos frequentava as mesmas festas da nobreza, escut







