LOGINA noite caiu pesada sobre a cidade, trazendo uma chuva fina que deixava o asfalto do estacionamento subterrâneo da Apex espelhado e sombrio.
Ajustei as mangas do moletom escuro enquanto caminhava em direção à saída de serviço. Meus sentidos estavam no nível máximo de alerta. O ar frio do subsolo cheirava a pneu queimado, umidade e... óleo de arma barato.
Duas sombras se moveram entre as colunas de concreto a quinze metros de distância. Passos abafados, postura rígida, mãos dentro dos casacos.
Batedores da máfia secundária.
Respirei fundo, sentindo o clique frio na minha mente. A timidez, o olhar doce e os ombros encurvados do universitário de 21 anos sumiram instantaneamente. A postura ereta e calculista do Limpador nº 1 tomou o lugar. Meus olhos verdes varreram o perímetro, medindo distância, tempo e os ângulos mortos das câmeras de segurança. Eu estava pronto para levar os dois para o escuro e acabar com aquilo em dez segundos.
Foi quando o som grave de um motor V8 ecoou pelo subsolo.
Os faróis de LED de um Porsche preto cortaram a penumbra, iluminando os dois homens antes que eles pudessem se esconder totalmente. O carro parou com um sussurro de pneus a poucos metros de mim. A porta do motorista se abriu e Bernardo saltou, segurando uma pasta de couro e o paletó do terno jogado no braço.
Ele me viu parado ali e franziu o cenho, a arrogância habitual retornando ao rosto esculpido.
— Lucca? O que você ainda está fazendo aqui a esta hora? — Bernardo perguntou, a voz aveludada sobressaindo ao ruído da chuva lá fora. Ele caminhou na minha direção com a postura imponente de sempre. — Achei que já tinha ido para casa.
Minha mente trabalhou a milissegundos por segundo. Bernardo estava no raio de ação dos homens. Se a máfia disparasse ali, ele seria atingido por estar ao meu lado.
— Sr. Bernardo... — minha voz tentou voltar ao tom suave e hesitante, mas a adrenalina congelou a fachada. — O senhor não deveria estar aqui. Volte para o carro.
Bernardo parou, surpreso com o tom seco e imperioso que eu usei. Ele ergueu uma sobrancelha, um sorriso provocativo e arrogante surgindo nos lábios.
— Como é? Você está me dando ordens agora, garoto?
— Agora! — rosnei, a voz saindo grave e fria, num tom que ele jamais tinha ouvido de mim.
Antes que Bernardo pudesse processar a mudança brutal na minha atitude, o metálico de um cão de pistola sendo engatado ecoou atrás de uma das colunas.
— Ora, ora... o garoto de recados do chefe afinal não morreu — debochou uma voz rouca surgindo das sombras. Dois homens armados saíram de trás das colunas, apontando pistolas diretamente para nós. — O chefe da Máfia do Leste mandou lembranças, 'Limpador'. Ele quer você vivo ou em pedaços. E o seu chefe mauricinho aí vai junto de brinde pra não ter testemunhas.
A expressão de Bernardo mudou de choque para fúria corporativa.
— Quem são vocês? Vocês têm noção de quem eu sou?! — Bernardo deu um passo à frente, tentando usar sua autoridade. — Saiam do meu prédio antes que eu chame a polícia!
— Bernardo, cale a boca e fique atrás de mim! — ordenei, sem olhar para ele.
— O quê?! — Bernardo me encarou, incrédulo.
Os homens da máfia deram um passo à frente, rindo. O da esquerda ergueu a arma, mirando na cabeça de Bernardo.
Erro fatal.
A chave virou por completo. A aura fofa e tímida evaporou. Em um movimento fluido e quase invisível a olho nu, dei um passo largo e cruzei a distância até o homem da esquerda. Minha mão esquerda travou o ferrolho da arma dele, impedindo o disparo, enquanto meu cotovelo direito colidiu com uma força brutal contra a sua garganta.
O som do osso estalando ecoou no estacionamento deserto.
O homem caiu de joelhos, sem ar. Antes que o segundo atirador pudesse reagir, desbanquei minha 9mm velada da cintura por baixo do moletom largo. Com dois movimentos frios e cirúrgicos, efetuei dois disparos abafados com silenciador.
Pfft. Pfft.
O segundo homem caiu no chão de concreto, desacordado e desarmado com tiros precisos nos ombros, sangrando sobre o piso limpo.
Tudo durou menos de quatro segundos.
O silêncio que se seguiu no estacionamento era ensurdecedor. Restavam apenas o ruído da chuva e a minha respiração compassada. Girei a pistola nos dedos com habilidade calejada, travando a arma e guardando-a de volta no coldre sob o casaco cinza folgado.
Virei-me devagar para encarar Bernardo.
O CEO impecável e arrogante estava paralisado ao lado de seu carro. Suas mãos seguravam a pasta de couro com força, a cor tendo sumido do seu rosto traçado. Seus olhos escuros estavam arregalados, fixos em mim — não com medo, mas com um choque e uma fascinação tão absolutos que pareciam queimar a penumbra.
Ele olhou para os dois homens no chão, depois para o meu rosto. Minha expressão era gélida, sem traço do garoto doce e assustado que servia café para ele todas as manhãs. Os meus olhos verdes brilhavam com uma autoridade letal.
— O que... — a voz de Bernardo falhou pela primeira vez desde que o conheci. Ele deu um passo lento na minha direção, o olhar descendo para as minhas mãos firmes e depois subindo para os meus olhos. — O que foi isso, Lucca? Quem é você?
Aproximei-me dele com passos calmos e predatórios, parando a centímetros de seu corpo. A diferença de altura parecia ter desaparecido; a energia que emanava de mim agora dominava completamente o espaço.
— Eu avisei para o senhor voltar para o carro — disse, a voz baixa, grave e perigosamente sedutora, sustentando o olhar atônito do CEO. — Agora o seu segredo de mangaká é o menor dos nossos problemas, Sr. Bernardo.
Seis meses se passaram desde a noite no bunker da baía. O submundo, despojado das peças que mantinham suas engrenagens de medo funcionando, silenciou. Para a Sombra Vermelha e para a Máfia Mãe, o nome do "Limpador nº 1" tornou-se uma lenda encerrada, um arquivo definitivamente arquivado.A manhã de domingo nasceu ensolarada sobre Tóquio. A luz dourava a varanda do duplex de Bernardo, onde o cheiro de café fresco e torradas quentes misturava-se à brisa suave.Bernardo estava sentado à mesa de centro, vestindo apenas uma calça de algodão e a camisa social branca desabotoada, os cabelos escuros caindo suavemente sobre a testa. Em seu colo, o tablet de última geração exibia o esboço de um novo projeto de mangá — não mais uma história sombria e violenta sobre assassinos e conspirações, mas uma trama onde um jovem de olhos intensos finalmente encontrava um refúgio.Eu me aproximei em silêncio, vestindo o meu velho moletom cinza folgado — que agora Bernardo se recusava a deixar eu jogar fora
A chuva fria voltou a cair sobre Tóquio, lavando as docas da baía e transformando o ar em uma bruma densa. O antigo bunker de munições da Segunda Guerra Mundial, meio submerso e esquecido pelo tempo, erguia-se como um monstro de concreto entre os guindastes enferrujados.Do alto de um contêiner a trezentos metros de distância, eu observava a entrada através da mira telescópica da minha sniper. O moletom cinza dera lugar ao meu traje tático preto e ajustado. Ao meu lado, Bernardo — que se recusara categoricamente a ficar no carro — vestia um sobretudo escuro e segurava um rádio de frequência fechada, acompanhado por Maya e Renan na van de comando.— Três guardas na entrada principal — sussurrei pelo rádio, a voz gélida e pausada. — Equipamento tático da Sombra Vermelha. Eles não estão para brincadeira.— O sinal da assinatura biométrica de Viktor está ativo no nível inferior do bunker — confirmou Maya pela escuta. — Ele está se preparando para evacuar a área assim que Kaelen trouxer a
O refúgio no galpão desativado voltou a ser nosso centro de operações, mas a atmosfera desta vez era infinitamente mais densa e carregada.Maya operava três monitores simultaneamente, com linhas de código e servidores criptografados da Europa Central correndo pelas telas. Renan andava de um lado para o outro, mantendo a pistola pronta na cintura, enquanto Bernardo permanecia em pé ao meu lado, a mão repousando com firmeza em meu ombro. A presença dele ali não era apenas a de um protetor, mas a de um homem que se recusava a deixar que o meu passado me tragasse sozinho.— Vasculhei todas as missões da Sombra Vermelha entre os anos de 2018 e 2022 — disse Maya, ajustando os fones de ouvido e apontando para a tela central. — O Projeto Arcturus não é um software e nem um código de acesso corporativo, Lucca. É o nome de código de uma rede de agentes adormecidos e contas secretas criadas pelo alto escalão da organização para financiar um golpe interno.— E Zurique? — perguntei, a voz fria e a
O beijo na diretoria selava uma vitória que parecia absoluta. Durante três dias, a rotina na Apex Entertainment seguiu um ritmo suave, quase irreal. Pela primeira vez em anos, eu dormia oito horas seguidas sem acordar com o sobressalto de um pesadelo ou com o instinto de puxar uma lâmina sob o travesseiro.Mas a paz para um ex-Limpador é sempre uma ilusão temporária.No submundo, a Máfia Mãe podia ser o gigante que dominava as manchetes e o crime organizado de alto escalão, mas não era a única força a operar na escuridão. Antes que eu me tornasse o lendário "Limpador nº 1" do Don Vincenzo, existiam os anos de treinamento. Os anos de formação na Sombra Vermelha — um grupo mercenário independente, internacional e sem código de honra, especializado em execuções invisíveis e sabotagem corporativa.Para eles, a palavra "aposentadoria" simplesmente não constava no dicionário.Era final de tarde de uma sexta-feira. Bernardo estava em uma conferência online com investidores europeus na sala d
Algumas semanas se passaram desde a noite vitoriosa em Tóquio. Com a interferência da Máfia Mãe totalmente anulada e a autoridade financeira de Bernardo consolidada, a vida na Apex Entertainment havia entrado em um período de calmaria aparente.No entanto, o silêncio daquela manhã na diretoria tinha o peso exato da calmaria que antecede um temporal.Eu estava em pé ao lado da imensa mesa de mogno de Bernardo, devidamente trajado com o meu moletom cinza largo, os óculos de armação fina apoiados no nariz e a postura levemente encurvada de assistente atencioso. Bernardo, vestindo um terno sob medida cinza-chumbo, analisava relatórios financeiros na tela do computador enquanto bebericava seu café.Subitamente, a porta de vidro fosco da recepção se abriu sem qualquer aviso.Sabrina e Victor passaram pela entrada com passos pesados. Não havia mais o ar de superioridade refinada de semanas atrás. Sabrina parecia pálida, o maquiagem impecável quase não escondendo as olheiras de quem perdera o
Do palco principal, sob os holofotes reluzentes do World Mangaka Grand Prix, Bernardo não perdeu um único detalhe.Sua visão periférica captou o exato momento em que o garçom se aproximou e murmurou a mensagem no meu ouvido. Ele me viu fazer o sutil aceno de cabeça antes de me virar em direção aos elevadores privativos.O coração do CEO acelerou por uma fração de segundo, mas o controle absoluto que o consagrou como um dos maiores empresários do país prevaleceu. Ele não franziu a testa, não hesitou e nem interrompeu o fluxo impecável do seu discurso. Sua voz continuou ecoando firme, sedutora e imponente pelos alto-falantes do salão, prendendo a atenção da plateia e da imprensa enquanto seus olhos escuros registravam o momento exato em que as portas do elevador se fecharam atrás de mim.Bernardo manteve a calma. Ele sabia que um passo em falso ou uma reação exaltada ali entregaria nossa vulnerabilidade para os abutres no salão, como Sabrina e Victor. Ele confiava no meu treinamento — e







