LOGINCidade de “FT”, 13 de janeiro, segunda-feira.
Foi recebido por uma mulher branca, alta, magra, com peitos fenomenais e tatuagens. Usava um longo vestido preto.
Seria ela?, indagou para si mesmo, profundamente surpreso.
→ Ana? → ousou perguntar, após refazer-se do choque.
→ Sim. Sou eu mesma. Entre, policial.
Obedeceu, completamente desnorteado.
Entrou numa sala enorme, de teto alto. Tudo ali era extremamente limpo e luxuoso. A estante. O tapete. Os sofás. As poltronas. O bar. O lustre, com suas doze lâmpadas. O piso de ladrilho. As cortinas. As luzes. A mesinha-de-centro.
Ela.
→ Sente-se. Quer tomar alguma coisa?
Sentou-se no sofá maior.
→ Não, obrigado.
Ela foi ao bar → localizado ao lado da estante → e encheu uma taça com Martini e gelo. Voltou e sentou-se na poltrona, diante dele. Cruzou as pernas, deixando parte das coxas à mostra. Bebericou o Martini. Lançou sobre ele um olhar... lascivo... ou curioso... ou... não soube precisar.
→ Não bebe em serviço, policial?
→ Não.
Depositou a taça sobre o tampo da mesinha. Não era bonita de rosto. Simpática, com belos lábios grossos e olhos castanhos escuros. No entanto, possuía um corpo realmente sexy e...
→ Sou a Ana, sim. Posso saber como me encontrou?
Procurou fixar os olhos no rosto dela.
Esqueça aqueles seios e aquelas pernas, pensou.
→ Fácil. Você esteve na pensão do “Ameba” duas vezes. Uma moradora ouviu duas palavras: Ana e Rasputin. Mais a sua descrição. Ciente de que o “Ameba” ou Nestor, como queira, costumava frequentar as casas da rua Marselhantes, fui à referida rua, localizei a boate Rasputin e conversei com a dona.
→ Sei → murmurou, sem demonstrar ira ou surpresa.
→ Você é a dona desta casa?
→ Sou.
→ Como é seu nome completo?
→ Ana Pertom Bass.
Anotou na caderneta.
→ Por que aceitou trabalhar como garçonete, se é rica?
Ela refletiu por alguns segundos. Depois, explicou:
→ Você pode até achar que eu esteja mentindo ou que esteja louca, mas a explicação é: simplesmente por que eu queria viver emoções novas. Emoções novas, entende? Queria ralar, sentir na pele a dificuldade de se trabalhar num lugar como aquele.
→ Tédio?
→ Digamos que sim. → Sorriu.
→ Solidão?
→ Absolutamente não.
→ E teu marido?
→ Sou viúva.
→ Há quanto tempo?
→ Há dez anos. E antes que pergunte ou investigue, vou dizer: meu marido que, na época, era quarenta anos mais velho que eu, morreu de ataque cardíaco.
→ Ele era rico?
→ Aonde quer chegar, policial?
→ Foi apenas uma pergunta.
→ Ele era milionário, sim, se quer saber. Um milionário solitário, viúvo e sem filhos, que se apaixonou profundamente por mim. Tivemos um relacionamento intenso e feliz. Depois da morte dele, herdei o comando das empresas, um iate, duas fazendas, quatro carros, uma casa de praia e esta mansão. No ano seguinte ao da morte dele, percebendo que não tinha o dom para ser empresária, vendi as empresas, o iate, as fazendas e os carros, depositei o dinheiro em três bancos e hoje vivo dos juros → suspirou →. Mas quero que saiba que não dei o golpe dó baú. Não mesmo. Eu gostava realmente do meu falecido marido. Uma pena ter morrido tão cedo...
Mudou de assunto.
→ Qual tua religião?
Ela pareceu surpresa.
→ Não tenho religião, policial.
→ Mas acredita em Deus?
→ Acredito numa força superior.
→ Não frequenta igrejas?
→ Não.
→ Usa drogas?
→ Só Martini e cerveja → sorriu.
→ Filhos?
→ Não tenho.
→ Como conheceu o “Ameba”?
Pegou a taça. Bebeu uma dose. Tornou a largar a taça.
Os enormes seios balançaram.
Divinais!
Convidativos!
→ Primeiro, direi como era minha rotina de trabalho. Eu costumava chegar na boate Rasputin geralmente às nove e cinquenta, uma vez que meu expediente se iniciava às dez. Trabalhava, atendendo os pedidos dos clientes, até às três ou três e meia da madrugada. Discretamente, sem me envolver com ninguém. Acredito que a Branca deve ter dito algo para você, a esse respeito. Saía cinco ou dez minutos depois. E exercia minha função somente três dias por semana: nas quintas, sextas e sábados, que era quando o clube tinha o maior movimento. Apesar de não estar acostumada com aquelas atividades intensas e alucinadas, passei a gostar do serviço. Afinal, aquilo foi uma coisa nova em minha vida. Uma aventura radical, digamos assim. Além do mais, nunca fui de dormir muito, mesmo → sorriu →. Mas respondendo a sua pergunta, numa das minhas saídas, numa sexta-feira fria, topei com o Nestor, bêbado e sujo, caído na calçada. Parecia um mendigo. Mas gostei dele e decidi, naquela madrugada, levá-lo para minha casa, de táxi.
Não pôde ocultar a surpresa, ante a informação.
→ Sério? Deixa eu ver se entendi. Você saiu da boate às três e quarenta da madrugada, viu um sujeito estranho caído na sarjeta e decidiu levá-lo para sua casa. Para esta casa. É isso mesmo?
→ Exatamente. Acredite, se quiser, mas é verdade. Aquele homem sujo me atraiu de tal forma, que decidi... sei lá... fazer algo diferente. Sei que corri riscos, mas decidi encarar.
→ Nossa!
→ Eu já estava correndo risco em ter aceitado um trabalho de garçonete, na zona de baixo meretrício. Por que não enfrentar outra emoção? Por que não usufruir de outra emoção? E se você me perguntar se fiz amor com ele, a resposta é uma só: fiz, sim. E foi maravilhoso! Inesquecível! O Nestor, sóbrio e depois do banho, se mostrou um homem extremamente carinhoso.
Não soube o que dizer. O olhar dela era frio, misterioso, como se ocultasse segredos inconfessáveis.
→ Acha que sou louca, policial? → Sorriu.
→ Todos nós temos um pouco de loucura, em nossas mentes.
→ Então você acha realmente que eu esteja louca.
→ Não posso afirmar isso, pois não a conheço.
→ Mas talvez eu esteja louca, sim. → Mais um sorriso, algo constante, naquele belo rosto.
→ Você sabia que ele era traficante de drogas?
→ Não. Não sabia. E mesmo que soubesse, iria ficar com ele assim mesmo.
→ Não teve medo de ser roubada ou assassinada?
→ Pelo Nestor?
→ Sim.
→ Não. Não tenho medo de nada, na verdade. O medo não faz parte da minha filosofia de vida, policial.
Teria os olhos dela brilhado, ao pronunciar tais palavras?
Uma mulher estranha, refletiu.
→ Você passou a cultivar um romance com ele?
→ Uma amizade colorida seria a terminologia correta. Passamos a nos ver, de vez em quando. Encontros prazerosos e sem nenhum tipo de cobrança.
→ E agora ele está morto.
→ Sim. Infelizmente, sim.
→ Tem ideia de quem possa ter feito isso?
→ Não.
→ Não foi você? → Olhou-a fixamente.
Ela não respondeu de imediato. Antes, tomou outra dose do Martini. Suas mãos não tremiam. Seu olhar, apesar de sério, demonstrava normalidade. Devolveu → lentamente → a taça à mesinha. E quando falou, sua voz soou firme:
→ Tenho cara de assassina, policial?
→ Quem sabe?
→ Sou suspeita? Vai me prender?
→ Vou ser sincero. Você é suspeita, sim. Teve um envolvimento com o morto e foi vista com ele duas vezes, na pensão onde residia. Mas não irei prendê-la. Não tenho provas nem motivo. Além disso, estou apenas começando minhas investigações. Só lhe peço que não saia da cidade, até que eu termine de investigar. Pode ser?
→ Você é do tipo durão? → A voz dela se tornou lânguida.
De repente, descruzou e tornou a cruzar das pernas.
Maliciosamente...
Os seios tremeram.
Maliciosamente...
Procurou encarar os olhos dela, para não perder o foco.
→ Durão? Nem tanto. Considero-me apenas um homem que detesta criminosos e que faz o possível para tirá-los de circulação. Só isso. A propósito, desculpe-me pela curiosidade, mas você tem quantos anos?
→ Minha idade? Quantos anos acha que tenho?
→ Não sei.
→ Tente acertar, policial.
→ Sei lá. Uns trinta e dois, trinta e três anos.
→ Quem me dera. Na verdade, tenho trinta e oito anos.
→ Parece mais jovem.
→ Obrigada.
→ No período em que esteve com ele, o Nestor disse alguma coisa que possa ajudar a solucionar esse caso?
→ Como assim?
→ Citou o nome de alguém ou uma situação de conflito em que tenha se envolvido, por exemplo?
→ Não.
→ Quando o viu pela última vez?
→ Ele esteve aqui numa noite de sábado. Saiu às oito horas do domingo. Depois, desapareceu. Nunca mais o vi.
→ Você procurou por ele? Ligou para ele?
→ Eu havia comprado um celular para ele. Nosso relacionamento funcionava da seguinte forma: combinamos de nos ver sempre nas sextas ou nos sábados. Após os encontros, eu ligaria para ele nas quartas-feiras, à noite, para definirmos os próximos encontros. Era sempre assim.
→ E você ligou na quarta?
→ Liguei, mas o celular dele estava fora de área.
→ E o que fez?
→ Liguei também na quinta e na sexta.
→ E?
→ Como também deu fora de área, pensei que o Nestor havia dado um basta na relação.
→ Não ficou preocupada, com a súbita ausência dele?
→ Nem um pouco. Fiquei foi chateada, achando que havia levado um “fora”, sem explicações. Esperei que ele me ligasse, um dia, para se justificar. E foi aí que vi a notícia nos jornais.
→ Como reagiu?
→ Fiquei chocada e triste. No fim das contas, o coitado do Nestor não tinha me rejeitado. E morreu horrivelmente!
Decidiu encerrar o diálogo.
Levantou-se.
→ Acabou, policial?
→ Sim. Acabei, por enquanto. Quer dizer, a não ser que você tenha algo mais a me dizer.
→ Uma confissão, por exemplo?
Encarou-a.
→ Estou brincando, policial. Percebo que está tenso. → Ela também se levantou, sorrindo. → Minha presença o perturba?
Sentiu seu perfume.
Discreto.
Enfeitiçador!
Etéreo!
→ Engana-se → respondeu, olhando para o nariz dela, fins ocultar o desejo. → Não estou tenso.
Retirou o cartão e o entregou.
→ Tenho que ir. Caso recorde de alguma coisa que possa nos ajudar, por favor, ligue para esse número, sim?
→ Tudo bem. E se você um dia quiser me visitar, para um bate papo informal, estou à disposição... Macto. → Ela piscou os olhos, ainda sorrindo. → Não é esse seu nome?
→ Sim.
Ignorando o malicioso convite, dirigiu-se para a saída.
Ela abriu a porta.
Parou e voltou a encará-la.
→ Muito obrigado pela atenção. E não se esqueça: não saia da cidade até que tenhamos prendido o assassino.
→ Não esquecerei. E caso queira me visitar...
→ Tchau!
Entrou no Corsa → antes que a vontade que sentiu de beijar aqueles lábios aumentasse → e abandonou a residência.
Desconfiado!
Sentindo o cheiro de mutretagem no ar.
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Acordou quando faltavam dez minutos para as oito horas, segundo lhe informou a enfermeira. Ela, por sinal, lhe aplicara uma injeção e colocara o soro; porém não quis lhe dizer mais nada. Insistiu. No entanto, ela se mostrou irredutível. Ordens, havia dito. O médico também nada revelou. Permaneceu deitado, tomando soro e repleto de curiosidade. Curiosidade! A pergunta que lhe veio à mente era uma só: o que havia acontecido? Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Só foi saber das novidades
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Subitamente, um objeto foi colocado sobre seu rosto. Macio, mas que, naquele instante, o sufocava. O que seria? Um travesseiro??? Óbvio! Um discreto e eficiente travesseiro! Não recebeu uma facada nem um tiro. E muito menos uma pancada na cabeça. Por quê? Com certeza para parecer que teria morrido de parada cardíaca. Assim procedendo, não causaria suspeitas. Sim! Era um bom plano. O delegado Haroldo → apesar de enlouquecido → ainda não tinha perdido a inteligência.&nbs
Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Isso porque, à meia-noite, depois que a enfermeira lhe aplicou uma injeção, recebeu uma inusitada e horripilante visita. A visita do demônio! Um homem entrou na sala. Usava o jaleco branco, típico dos médicos. No pescoço, um estetoscópio. Calça jeans. Sapatos pretos. Cabeça raspada. Bigode discreto. Óculos escuros. Manteve a luz apagada. Apenas a luz do corredor iluminava o quarto. Aproximou-se da cama. → Boa noite, Macto → ele murmurou, sério. Estremeceu, ao reconhecer aquela voz! Tentou gritar, mas nada sai
Cidade de “FT”, 18 de janeiro, sábado. Não sonhou. Não teve pesadelos. A escuridão → no entanto → permanecia ao seu redor, profunda, sinistra, dominando o ambiente. Mansidão. Imobilidade. As dores diminuíram. Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Saiu da UTI, sendo conduzido a um dos quartos. Abriu, enfim, os olhos. Pôde perceber o quarto; os aparelhos; as paredes brancas. Havia bandagens em quase todo o seu corpo. Parecia uma múmia, como nos tempos medievais. Além do mais, foi obrig
Cidade de “MJ”, 17 de janeiro, sexta-feira. Sozinho! A dificuldade de respirar aumentava. Em delírio → com o cérebro atrofiado → já não sentia mais nada, não via mais nada, não pensava em mais nada. Sentiu o tenebroso manto da morte se acercando... o tétrico manto do verdugo negro... realizando um reconhecimento... analisando as possibilidades... cheirando seu corpo... cutucando sua alma... lambendo seu espírito... num frenesi alucinado!!! E não tinha forças para lutar contra ele! Seria o fim? O fim... o fim... o fim... As dores no estômago aumentaram! Urinou novamente
Cidade de “MJ”, 16 de janeiro, quinta-feira. Acordou nas trevas! Calculou ser nove ou dez horas de uma noite de vento brando, com a temperatura na faixa dos vinte e seis graus. A fazenda às escuras. A vontade de beber água ou qualquer líquido era insuportável. Suas mãos estavam horrivelmente inchadas. O sangue lhes dava um aspecto doentio. Seu rosto... pálido! Pálido como se não tivesse uma gota de sangue sequer! Pálido e quase em pânico. Sua pele evidenciava pequenas feridas, devido às queimaduras provocadas pelo sol. Defecou na fralda. Foi obrigado a se acostumar com o fedor.