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CAPÍTULO 07

last update publish date: 2021-09-06 21:45:49

      Cidade de “FT”, 13 de janeiro, segunda-feira.

      Foi recebido por uma mulher branca, alta, magra, com peitos fenomenais e tatuagens. Usava um longo vestido preto.

      Seria ela?, indagou para si mesmo, profundamente surpreso.

      → Ana? → ousou perguntar, após refazer-se do choque.

      → Sim. Sou eu mesma. Entre, policial.

      Obedeceu, completamente desnorteado.

      Entrou numa sala enorme, de teto alto. Tudo ali era extremamente limpo e luxuoso. A estante. O tapete. Os sofás. As poltronas. O bar. O lustre, com suas doze lâmpadas. O piso de ladrilho. As cortinas. As luzes. A mesinha-de-centro.

      Ela.

      → Sente-se. Quer tomar alguma coisa?

      Sentou-se no sofá maior.

      → Não, obrigado.

      Ela foi ao bar → localizado ao lado da estante → e encheu uma taça com Martini e gelo. Voltou e sentou-se na poltrona, diante dele. Cruzou as pernas, deixando parte das coxas à mostra. Bebericou o Martini. Lançou sobre ele um olhar... lascivo... ou curioso... ou... não soube precisar.

      → Não bebe em serviço, policial?

      → Não.

      Depositou a taça sobre o tampo da mesinha. Não era bonita de rosto. Simpática, com belos lábios grossos e olhos castanhos escuros. No entanto, possuía um corpo realmente sexy e...

      → Sou a Ana, sim. Posso saber como me encontrou?

      Procurou fixar os olhos no rosto dela.

      Esqueça aqueles seios e aquelas pernas, pensou.

      → Fácil. Você esteve na pensão do “Ameba” duas vezes. Uma moradora ouviu duas palavras: Ana e Rasputin. Mais a sua descrição. Ciente de que o “Ameba” ou Nestor, como queira, costumava frequentar as casas da rua Marselhantes, fui à referida rua, localizei a boate Rasputin e conversei com a dona.

      → Sei → murmurou, sem demonstrar ira ou surpresa.

      → Você é a dona desta casa?

      → Sou.

      → Como é seu nome completo?

      → Ana Pertom Bass.

      Anotou na caderneta.

      → Por que aceitou trabalhar como garçonete, se é rica?

      Ela refletiu por alguns segundos. Depois, explicou:

      → Você pode até achar que eu esteja mentindo ou que esteja louca, mas a explicação é: simplesmente por que eu queria viver emoções novas. Emoções novas, entende? Queria ralar, sentir na pele a dificuldade de se trabalhar num lugar como aquele.

      → Tédio?

      → Digamos que sim. → Sorriu.

      → Solidão?

      → Absolutamente não.

      → E teu marido?

      → Sou viúva.

      → Há quanto tempo?       

      → Há dez anos. E antes que pergunte ou investigue, vou dizer: meu marido que, na época, era quarenta anos mais velho que eu, morreu de ataque cardíaco.

      → Ele era rico?

      → Aonde quer chegar, policial?

      → Foi apenas uma pergunta.

      → Ele era milionário, sim, se quer saber. Um milionário solitário, viúvo e sem filhos, que se apaixonou profundamente por mim. Tivemos um relacionamento intenso e feliz. Depois da morte dele, herdei o comando das empresas, um iate, duas fazendas, quatro carros, uma casa de praia e esta mansão. No ano seguinte ao da morte dele, percebendo que não tinha o dom para ser empresária, vendi as empresas, o iate, as fazendas e os carros, depositei o dinheiro em três bancos e hoje vivo dos juros → suspirou →. Mas quero que saiba que não dei o golpe dó baú. Não mesmo. Eu gostava realmente do meu falecido marido. Uma pena ter morrido tão cedo...

      Mudou de assunto.

      → Qual tua religião?        

      Ela pareceu surpresa.

      → Não tenho religião, policial.

      → Mas acredita em Deus?

      → Acredito numa força superior.

      → Não frequenta igrejas?

      → Não.

      → Usa drogas?

      → Só Martini e cerveja → sorriu.

      → Filhos?

      → Não tenho.

      → Como conheceu o “Ameba”?

      Pegou a taça. Bebeu uma dose. Tornou a largar a taça.

      Os enormes seios balançaram.

      Divinais!

      Convidativos!

      → Primeiro, direi como era minha rotina de trabalho. Eu costumava chegar na boate Rasputin geralmente às nove e cinquenta, uma vez que meu expediente se iniciava às dez. Trabalhava, atendendo os pedidos dos clientes, até às três ou três e meia da madrugada. Discretamente, sem me envolver com ninguém. Acredito que a Branca deve ter dito algo para você, a esse respeito. Saía cinco ou dez minutos depois. E exercia minha função somente três dias por semana: nas quintas, sextas e sábados, que era quando o clube tinha o maior movimento. Apesar de não estar acostumada com aquelas atividades intensas e alucinadas, passei a gostar do serviço. Afinal, aquilo foi uma coisa nova em minha vida. Uma aventura radical, digamos assim. Além do mais, nunca fui de dormir muito, mesmo → sorriu →. Mas respondendo a sua pergunta, numa das minhas saídas, numa sexta-feira fria, topei com o Nestor, bêbado e sujo, caído na calçada. Parecia um mendigo. Mas gostei dele e decidi, naquela madrugada, levá-lo para minha casa, de táxi.

      Não pôde ocultar a surpresa, ante a informação.

      → Sério? Deixa eu ver se entendi. Você saiu da boate às três e quarenta da madrugada, viu um sujeito estranho caído na sarjeta e decidiu levá-lo para sua casa. Para esta casa. É isso mesmo?

      → Exatamente. Acredite, se quiser, mas é verdade. Aquele homem sujo me atraiu de tal forma, que decidi... sei lá... fazer algo diferente. Sei que corri riscos, mas decidi encarar.

      → Nossa!

      → Eu já estava correndo risco em ter aceitado um trabalho de garçonete, na zona de baixo meretrício. Por que não enfrentar outra emoção? Por que não usufruir de outra emoção? E se você me perguntar se fiz amor com ele, a resposta é uma só: fiz, sim. E foi maravilhoso! Inesquecível! O Nestor, sóbrio e depois do banho, se mostrou um homem extremamente carinhoso.

      Não soube o que dizer. O olhar dela era frio, misterioso, como se ocultasse segredos inconfessáveis.

      → Acha que sou louca, policial? → Sorriu.

      → Todos nós temos um pouco de loucura, em nossas mentes.

      → Então você acha realmente que eu esteja louca.

      → Não posso afirmar isso, pois não a conheço.

      → Mas talvez eu esteja louca, sim. → Mais um sorriso, algo constante, naquele belo rosto.

      → Você sabia que ele era traficante de drogas?

      → Não. Não sabia. E mesmo que soubesse, iria ficar com ele assim mesmo.

      → Não teve medo de ser roubada ou assassinada?

      → Pelo Nestor?

      → Sim.

      → Não. Não tenho medo de nada, na verdade. O medo não faz parte da minha filosofia de vida, policial.

      Teria os olhos dela brilhado, ao pronunciar tais palavras?

      Uma mulher estranha, refletiu.

      → Você passou a cultivar um romance com ele?

      → Uma amizade colorida seria a terminologia correta. Passamos a nos ver, de vez em quando. Encontros prazerosos e sem nenhum tipo de cobrança.

      → E agora ele está morto.

      → Sim. Infelizmente, sim.

      → Tem ideia de quem possa ter feito isso?

      → Não.

      → Não foi você? → Olhou-a fixamente.

      Ela não respondeu de imediato. Antes, tomou outra dose do Martini. Suas mãos não tremiam. Seu olhar, apesar de sério, demonstrava normalidade. Devolveu → lentamente → a taça à mesinha. E quando falou, sua voz soou firme:

      → Tenho cara de assassina, policial?

      → Quem sabe?

      → Sou suspeita? Vai me prender?

      → Vou ser sincero. Você é suspeita, sim. Teve um envolvimento com o morto e foi vista com ele duas vezes, na pensão onde residia. Mas não irei prendê-la. Não tenho provas nem motivo. Além disso, estou apenas começando minhas investigações. Só lhe peço que não saia da cidade, até que eu termine de investigar. Pode ser?

      → Você é do tipo durão? → A voz dela se tornou lânguida.

      De repente, descruzou e tornou a cruzar das pernas.

      Maliciosamente...

      Os seios tremeram.

      Maliciosamente...

      Procurou encarar os olhos dela, para não perder o foco.

      → Durão? Nem tanto. Considero-me apenas um homem que detesta criminosos e que faz o possível para tirá-los de circulação. Só isso. A propósito, desculpe-me pela curiosidade, mas você tem quantos anos?

      → Minha idade? Quantos anos acha que tenho?

      → Não sei.

      → Tente acertar, policial.

      → Sei lá. Uns trinta e dois, trinta e três anos.

      → Quem me dera. Na verdade, tenho trinta e oito anos.

      → Parece mais jovem.

      → Obrigada.

      → No período em que esteve com ele, o Nestor disse alguma coisa que possa ajudar a solucionar esse caso?

      → Como assim?

      → Citou o nome de alguém ou uma situação de conflito em que tenha se envolvido, por exemplo?

      → Não.

      → Quando o viu pela última vez?

      → Ele esteve aqui numa noite de sábado. Saiu às oito horas do domingo. Depois, desapareceu. Nunca mais o vi.

      → Você procurou por ele? Ligou para ele?

      → Eu havia comprado um celular para ele. Nosso relacionamento funcionava da seguinte forma: combinamos de nos ver sempre nas sextas ou nos sábados. Após os encontros, eu ligaria para ele nas quartas-feiras, à noite, para definirmos os próximos encontros. Era sempre assim.

      → E você ligou na quarta?

      → Liguei, mas o celular dele estava fora de área.

      → E o que fez?

      → Liguei também na quinta e na sexta.

      → E?

      → Como também deu fora de área, pensei que o Nestor havia dado um basta na relação.

      → Não ficou preocupada, com a súbita ausência dele?

      → Nem um pouco. Fiquei foi chateada, achando que havia levado um “fora”, sem explicações. Esperei que ele me ligasse, um dia, para se justificar. E foi aí que vi a notícia nos jornais.

      → Como reagiu?

      → Fiquei chocada e triste. No fim das contas, o coitado do Nestor não tinha me rejeitado. E morreu horrivelmente!

      Decidiu encerrar o diálogo.

      Levantou-se.

      → Acabou, policial?

      → Sim. Acabei, por enquanto. Quer dizer, a não ser que você tenha algo mais a me dizer.

      → Uma confissão, por exemplo?

      Encarou-a.

      → Estou brincando, policial. Percebo que está tenso. → Ela também se levantou, sorrindo. → Minha presença o perturba?

      Sentiu seu perfume.

      Discreto.

      Enfeitiçador!

      Etéreo!

      → Engana-se → respondeu, olhando para o nariz dela, fins ocultar o desejo. → Não estou tenso.

      Retirou o cartão e o entregou.

      → Tenho que ir. Caso recorde de alguma coisa que possa nos ajudar, por favor, ligue para esse número, sim?

      → Tudo bem. E se você um dia quiser me visitar, para um bate papo informal, estou à disposição... Macto. → Ela piscou os olhos, ainda sorrindo. → Não é esse seu nome?

      → Sim.

      Ignorando o malicioso convite, dirigiu-se para a saída.

      Ela abriu a porta.    

      Parou e voltou a encará-la.

      → Muito obrigado pela atenção. E não se esqueça: não saia da cidade até que tenhamos prendido o assassino.

      → Não esquecerei. E caso queira me visitar...

      → Tchau!

      Entrou no Corsa → antes que a vontade que sentiu de beijar aqueles lábios aumentasse → e abandonou a residência.

      Desconfiado!

      Sentindo o cheiro de mutretagem no ar.

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