LOGINCidade de “MJ”, 16 de janeiro, quinta-feira.
Contou dezoito pessoas na espaçosa sala. Todos usavam roupas pretas. Todos de pé. Alguns com copos de bebidas na mão.
O velho Sérgio estava lá.
O dono do bar Lintox.
A Viviane Selly → conhecida como Branca → também.
O que estava acontecendo?
De repente, um homem entrou na sala. Segurava uma taça de vidro. Todos abriram passagem para ele.
Sentiu o arrepio do medo corroer suas entranhas!
→ Boa noite, Macto. → ele disse.
Homem moreno, magro e alto, que aparentava ter entre quarenta e cinquenta anos. Familiar demais.
Não conseguiu esconder a surpresa!
→ O que o senhor faz aqui, delegado?
Subitamente, alguém atingiu sua cabeça, por trás.
Dor! Não viu mais nada.
Cidade de “MJ”, 16 de janeiro, quinta-feira.
Quando acordou, viu-se deitado sobre algo duro.
Movimentando a cabeça, notou → estarrecido! → que se encontrava deitado numa imensa cruz de madeira.
Haviam tirado suas roupas. No lugar, um lençol branco, utilizado como se fosse fralda. Braços e pernas presos por cordas, bem como o torso, na região da barriga. Nenhum prego... ainda. Mexeu-se, mas não conseguiu se soltar.
Sentia-se tonto, como que subjugado por algum tipo de droga. Tonto e com a visão turva! Apesar disso, conseguiu avistar o prédio da fazenda → iluminado → a cerca de cinquenta metros.
Lá em cima, as estrelas brilhantes!
Ao seu redor, todos aqueles malditos fanáticos!
Olhavam para ele, em silêncio.
O delegado Haroldo, então, tomou a iniciativa. Inspirou o ar da madrugada, agachou-se e disse:
→ Lembra o que eu disse sobre a magia negra? Pois é. Como você pode ver, meu grandioso auxiliar, eu havia dito a verdade. Infelizmente subestimei sua inteligência. Tudo porque a Ana caiu na besteira de proferir a palavra “rasputin” na pensão. Um erro crasso e que quase estragou nossos negócios.
Pausa.
Ele não parecia constrangido.
Na verdade, seus olhos emitiam um brilho insano!
→ Pensei que você iria prender o “Minhoca”, acusando-o de ser o autor da morte do “Ameba”. Dei-lhe o dossiê do caso justamente para que seguisse essa pista. Seria a lógica! Não imaginei que iria alcançar e desconfiar da Ana. Foi uma surpresa. Até tentei convencê-lo a ir atrás do “Minhoca”, dizendo que a Ana era apenas uma namoradinha do “Ameba”, mas você não me deu ouvidos. Parabéns por sua perspicácia. Mas não era para ser assim. Não era para ser assim...
Pausa.
O maluco decidiu sentar no chão, perto da cruz.
→ Com relação ao nosso trabalho, no qual acredito muito, decidimos sacrificar alguém, para que Asmodeu, que você já deve conhecer, nos ajudasse a conseguir riqueza. Uma alma em troca de riqueza e prosperidade. Asmodeu, sim. E por que não? Se Deus existe, o diabo também existe. Se Deus é poderoso, o diabo é mil vezes mais forte. Se Deus faz milagres, Asmodeu cria situações para que seus súditos fiquem ricos. Isso é vida! É fato real! Está na bíblia. O sobrenatural faz parte do nosso dia-a-dia, acredite. Somos, sim, discípulos de Asmodeu.
→ ASMODEU! ASMODEU! → todos gritaram, como que petrificados, como que hipnotizados por uma força maligna.
Estremeceu!
Viu-se diante de um bando de loucos.
Pessoas completamente fora da realidade.
Psicopatas!
→ E não pense que eu pretendia trabalhar naquela delegacia nojenta para o resto da vida. Não mesmo! Detesto aquele trabalho, se quer saber! É mal remunerado e chato. Depois da morte de “Ameba”, eu e essa turma aqui → apontou o grupo → juntamos nossos capitais e montamos quatro empresas. Quatro empresas fenomenais, após estudos minuciosos do mercado. Acredito que dentro de cinco, seis meses estaremos auferindo lucros satisfatórios, sob a proteção de Asmodeu.
→ ASMODEU! ASMODEU! → Todos tornaram a gritar.
Meu Deus, pensou, apavorado. Estou cercado por um bando de malucos. Estou ferrado!
→ Bem, colocando nosso plano em prática, a Ana arrumou o emprego de garçonete na casa da nossa amiga Branca, apenas com o objetivo de fisgar o homem ideal. E esse homem surgiu. O “Ameba” era um frequentador assíduo da “Boate Rasputin”. Apesar de atraente, era um homem inútil, um vagabundo, um marginal, um ser abjeto que não merecia viver. Quem sentiria sua falta? Solitário e carente, deixou-se envolver pelos encantos da Ana, que, além de garçonete, também saía com os clientes. Para dar verossimilhança ao relacionamento dos dois, a Ana teve, inclusive, que ir até a pensão onde o “Ameba” morava duas vezes. Deu certo. Ele estava no papo. Depois, foi fácil atraí-lo para cá.
Pausa.
Suas costas doíam, bem como seus neurônios.
Sentiu sede e vontade de urinar.
Trêmulo e quase sem forças, ousou perguntar:
→ O que vocês... p-pretendem fazer... comigo?
→ Infelizmente você, por ser inteligente demais, terá o mesmo destino do “Ameba”. A única diferença é que, dessa vez, o “Minhoca” levará a culpa. Iremos deixar seu corpo no morto do Palmor. Depois, irei escolher pessoalmente um investigador mais obtuso, que, com certeza, seguirá o rastro do traficante. Tudo em nome da prosperidade.
→ PROSPERIDADE! → mais gritos insanos. → ASMODEU! PROSPERIDADE! ASMODEU!
Aqueles gritos enlouquecidos deixavam seus nervos em pedaços! Não estava acreditando que pessoas inteligentes pudessem...
Nervoso, tentou uma última cartada:
→ Não dará certo! Vocês serão presos!
→ Será? Tem certeza?
→ Delegado, escute. Vocês e-estão cometendo um... erro! Vocês serão...
O delegado Haroldo se levantou, em silêncio.
De repente, alguém se aproximou, trazendo alguns objetos.
Estremeceu, ao ver o que era!
→ Não! Meu Deus, isso não! NÃÃÃOOO!!!
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Acordou quando faltavam dez minutos para as oito horas, segundo lhe informou a enfermeira. Ela, por sinal, lhe aplicara uma injeção e colocara o soro; porém não quis lhe dizer mais nada. Insistiu. No entanto, ela se mostrou irredutível. Ordens, havia dito. O médico também nada revelou. Permaneceu deitado, tomando soro e repleto de curiosidade. Curiosidade! A pergunta que lhe veio à mente era uma só: o que havia acontecido? Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Só foi saber das novidades
Cidade de “FT”, 20 de janeiro, segunda-feira. Subitamente, um objeto foi colocado sobre seu rosto. Macio, mas que, naquele instante, o sufocava. O que seria? Um travesseiro??? Óbvio! Um discreto e eficiente travesseiro! Não recebeu uma facada nem um tiro. E muito menos uma pancada na cabeça. Por quê? Com certeza para parecer que teria morrido de parada cardíaca. Assim procedendo, não causaria suspeitas. Sim! Era um bom plano. O delegado Haroldo → apesar de enlouquecido → ainda não tinha perdido a inteligência.&nbs
Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Isso porque, à meia-noite, depois que a enfermeira lhe aplicou uma injeção, recebeu uma inusitada e horripilante visita. A visita do demônio! Um homem entrou na sala. Usava o jaleco branco, típico dos médicos. No pescoço, um estetoscópio. Calça jeans. Sapatos pretos. Cabeça raspada. Bigode discreto. Óculos escuros. Manteve a luz apagada. Apenas a luz do corredor iluminava o quarto. Aproximou-se da cama. → Boa noite, Macto → ele murmurou, sério. Estremeceu, ao reconhecer aquela voz! Tentou gritar, mas nada sai
Cidade de “FT”, 18 de janeiro, sábado. Não sonhou. Não teve pesadelos. A escuridão → no entanto → permanecia ao seu redor, profunda, sinistra, dominando o ambiente. Mansidão. Imobilidade. As dores diminuíram. Cidade de “FT”, 19 de janeiro, domingo. Saiu da UTI, sendo conduzido a um dos quartos. Abriu, enfim, os olhos. Pôde perceber o quarto; os aparelhos; as paredes brancas. Havia bandagens em quase todo o seu corpo. Parecia uma múmia, como nos tempos medievais. Além do mais, foi obrig
Cidade de “MJ”, 17 de janeiro, sexta-feira. Sozinho! A dificuldade de respirar aumentava. Em delírio → com o cérebro atrofiado → já não sentia mais nada, não via mais nada, não pensava em mais nada. Sentiu o tenebroso manto da morte se acercando... o tétrico manto do verdugo negro... realizando um reconhecimento... analisando as possibilidades... cheirando seu corpo... cutucando sua alma... lambendo seu espírito... num frenesi alucinado!!! E não tinha forças para lutar contra ele! Seria o fim? O fim... o fim... o fim... As dores no estômago aumentaram! Urinou novamente
Cidade de “MJ”, 16 de janeiro, quinta-feira. Acordou nas trevas! Calculou ser nove ou dez horas de uma noite de vento brando, com a temperatura na faixa dos vinte e seis graus. A fazenda às escuras. A vontade de beber água ou qualquer líquido era insuportável. Suas mãos estavam horrivelmente inchadas. O sangue lhes dava um aspecto doentio. Seu rosto... pálido! Pálido como se não tivesse uma gota de sangue sequer! Pálido e quase em pânico. Sua pele evidenciava pequenas feridas, devido às queimaduras provocadas pelo sol. Defecou na fralda. Foi obrigado a se acostumar com o fedor.