LOGINMilena O cano prateado do revólver brilhava de forma mortal bem na minha frente, e o cheiro de suor e loucura da minha tia tomava conta do altar. Ela estava com o dedo trêmulo no gatilho, os olhos arregalados de puro ódio, pronta para acabar com a minha vida e com o meu bebê ali mesmo. Mas, em vez de recuar, de chorar ou de me encolher de pavor como ela esperava, eu fiz exatamente o oposto.Ergui o meu queixo, respirei fundo e deixei escapar nos meus lábios um sorriso calmo, irônico e supremamente vitorioso.A tia paralisou o movimento por um segundo, totalmente confusa com a minha reação, franzindo a testa com raiva.— Você tá rindo de quê, sua menina idiota e desgraçada?! — ela berrou, empurrando a arma mais para a frente, a centímetros do meu peito. — Você perdeu o juízo por completo?! Eu vou te matar agora mesmo! Por que diabos você tá sorrindo?!— Você acha mesmo, titia... — comecei a falar com a voz firme, clara e ecoando por toda a capela vazia, cruzando os braços por cima do
Milena O som pesado da marcha nupcial ecoava pelas caixas de som escondidas nas paredes daquela capela luxuosa, fazendo o meu coração bater no ritmo de um tambor desgovernado. Com o buquê de flores brancas tremendo levemente nas minhas mãos, comecei a caminhar pelo longo tapete vermelho estendido no meio do salão.Ao meu redor, dezenas de convidados elegantes ocupavam os bancos de madeira escura, sorrindo e aplaudindo discretamente a minha entrada. Eu usava todas as forças que me restavam para manter no rosto uma expressão de noiva radiante, calma e profundamente apaixonada, embora por dentro o meu estômago estivesse revirando de pavor.Cada passo em direção ao altar parecia uma caminhada rumo ao desconhecido.Quando finalmente cheguei ao topo da escadaria de mármore, encontrei o Ulisses me esperando. Ele vestia o terno preto impecável, com o cabelo perfeitamente alinhado e um sorriso lindo nos lábios. Assim que alcancei o seu lado, Ulisses esticou a mão firme, pegou os meus dedos ge
Milena Dois meses compridos e intensos tinham se passado desde que a poeira daquela confusão toda finalmente baixou. A minha barriga ainda estava retinha, escondendo o segredo mais precioso da nossa vida, mas o clima ao nosso redor estava longe de ser calmo. O ar estava pesado, carregado de uma eletricidade invisível que fazia a minha pele inteira se arrepiar.Eu estava trancada no quarto da nossa nova casa, vestida com um luxuoso e pesado vestido de noiva branco, todo bordado com pedrarias reluzentes.Caminhava de um lado para o outro em cima do tapete aveludado, com o coração disparado batendo na boca, incapaz de ficar parada por um único segundo. O meu vestido farfalhava a cada passo rápido que eu dava no piso de madeira. As minhas mãos tremiam tanto que eu nem conseguia ajeitar o véu transparente que caía sobre os meus ombros.Meu Deus do céu... será que essa loucura vai dar certo mesmo?! — pensei comigo mesma, mordendo os lábios de nervosismo, sentindo o estômago revirar de pavo
Milena A felicidade de saber que eu estava esperando um filho do Ulisses parecia flutuar no ar como uma nuvem cor-de-rosa. O mundo ao meu redor tinha virado um lugar leve, seguro e cheio de esperança. Naquela tarde de sol, enquanto o Ulisses estava ocupado resolvendo algumas pendências urgentes na diretoria da empresa, decidi dar uma passada numa loja de roupas infantis de luxo na alameda mais charmosa da cidade.Eu estava completamente boba, olhando para umas roupinhas minúsculas de algodão branco, imaginando o rostinho do nosso bebê, quando decidi dar uma olhada na vitrine para ver a rua movimentada.Foi aí que os meus olhos pararam numa cena na calçada da rua oposta que fez o meu sorriso congelar na hora.Sentada no chão frio, escorada na parede cinzenta de uma loja fechada, com uma mochila velha, rasgada e suja abraçada ao peito, estava uma figura que eu jamais imaginei encontrar naquele estado. Cabelos embaraçados sem lavar, roupas rasgadas, o rosto magro e marcado pelo sol e pe
Milena Alguns meses compridos e tranquilos se passaram desde aquele dia esquisito no hotel, aquele dia em que a porta bateu, o bilhete misterioso escorregou por baixo da fresta e o meu coração quase parou de pavor. Fiquei sentada no sofá macio da nossa nova casa, eu me sentia finalmente segura, o condomínio que escolhemos tinha tanta segurança que nem um esquilo passaria despercebido. Encarando aquele mesmo pedaço de papel amassado que eu guardava escondido dentro da minha caixinha de recordações.Passei os dedos pelas letras pretas e tortas da frase que dizia: "Você não merece as coisas que tem."— Será que... será que aquilo foi só uma brincadeira idiota de mau gosto de algum hóspede do hotel? — murmurei baixinho para mim mesma, olhando para o papel com a testa franzida.Desde aquela noite, nada mais de estranho tinha acontecido na nossa vida. Os dias passaram em uma paz tão grande que parecia até mentira. O Pedro Henrique tinha virado cinzas, a polícia já tinha encerrado o caso,
Milena Um mês inteiro tinha se passado desde aquela noite terrível de incêndio, caos e fumaça que quase acabou com as nossas vidas. Trinta dias compridos dentro daquele quarto de hospital, com cheiro de medicação, agulhas e curativos que pareciam não ter fim. Mas hoje, finalmente, o médico olhou para mim, sorriu e me deu a tão sonhada alta médica.A sensação de colocar uma roupa normal de novo, tirar aquela camisola sem graça de paciente e respirar o ar puro da rua foi uma das melhores coisas do mundo.Assim que pisei no saguão do hospital, vi o Ulisses me esperando perto do carro blindado. Ele estava impecável num terno escuro feito sob medida, com a pele corada, os olhos azuis brilhando de vida e sem nenhuma marca daquele veneno desgraçado que quase tirou a vida dele. O meu coração deu aquele mesmo pulo doido de quando me apaixonei por ele. Nos abraçamos ali mesmo, no meio de todo mundo, num abraço demorado, apertado, cheio de saudades e de uma gratidão sem tamanho.Como a nossa ma







