LOGINMilena Ninguém respondeu ao meu sussurro na porta. O silêncio dentro daquele quarto gigante era tão pesado que dava para ouvir o som do meu próprio coração batendo descontrolado no peito. Dei mais um passo hesitante para a frente, empurrando a madeira pesada devagar. A porta se abriu sem fazer barulho, revelando um breu quase total. Apenas a luz fraca do luar entrava pela cortina semiaberta da varanda, desenhando sombras compridas pelo chão de madeira.— Ulisses?... — chamei de novo, num fio de voz trêmula, dando alguns passos na ponta dos pés.Eu estava tão nervosa e com tanta pressa de encontrar ele que nem pensei em procurar o interruptor na parede ao lado da entrada. Fui caminhando no escuro total, com os braços esticados para a frente como uma cega, tentando não fazer nenhum barulho para não assustar ele caso estivesse dormindo num sono profundo.O meu coração parecia que iria explodir de emoção. Dá para acreditar na loucura que eu estava fazendo? Estava invadindo o quarto do ho
Milena O tempo pareceu parar completamente dentro daquela sala gigante. As palavras do Ulisses continuavam flutuando no ar, ecoando dentro do meu cérebro como se fossem trovões altos num dia de tempestade. Fiquei um minuto inteiro em silêncio absoluto, piscando devagar e encarando aquele homem lindo na minha frente sem conseguir emitir um único som pela boca.A minha mente deu um nó tão grande que achei que ia enlouquecer. Eu tentava desesperadamente entender se aquilo tudo era um sonho maravilhoso ou se era a mais pura e perfeita realidade.— Ele quer ficar comigo... de verdade? — pensei, sentindo o meu peito dar saltos violentos de pura confusão.Era impossível de acreditar. O Ulisses, aquele homem poderoso, milionário, frio e inalcançável que sempre resolveu tudo com contratos e dinheiro, estava ali na minha frente, com os olhos brilhando de emoção, pedindo para rasgar o nosso acordo e viver um amor de verdade comigo. A menina simples que apanhou da vida, que foi humilhada pela pr
Milena O calor do pijama de algodão macio não conseguia espantar o frio congelante que ainda morava no fundo da minha alma. Já fazia dois dias inteiros desde que Ulisses me tirou daquele galpão imundo e me trouxe de volta para a mansão. Dois dias que pareceram um borrão confuso de memórias e pesadelos. Graças ao calmante forte que o médico da família Andrade me receitou logo na primeira noite, passei quase todo esse tempo apagada na cama, dormindo um sono pesado e cheio de sombras, tentando desesperadamente apagar da minha mente a dor do soco no meu rosto e o som daquela voz nojenta me ameaçando de morte.Sentada no sofá enorme da sala de estar, abraçava os meus próprios joelhos eu encarava o nada. A casa estava num silêncio absoluto, um silêncio pesado que só fazia os meus pensamentos gritarem mais alto.A minha cabeça não parava um segundo sequer. A polícia já tinha prendido todos os sequestradores e o chefe do bando, mas a verdadeira monstra por trás de todo esse pesadelo continua
Milena O couro do meu couro cabeludo parecia estar sendo rasgado direto da minha cabeça. A dor do puxão de cabelo me fez soltar um grito agudo que rasgou o silêncio daquela fábrica abandonada, me jogando de joelhos contra o cimento frio. O bandido que me segurava rosnava no meu ouvido com um hálito podre, levantando o outro braço pesado no ar para me acertar um soco no rosto.Eu fechei os meus olhos com toda a força do mundo, encolhendo o meu corpo e cobrindo o rosto com as duas mãos, esperando pelo impacto terrível que acabaria com as minhas forças.— Morre, sua vadia! — o homem berrou, descendo o punho na minha direção.Mas o golpe nunca chegou.O som seco e avassalador de um estalo de osso quebrando cortou o ar. Um urro de dor saiu da garganta do sequestrador, e o aperto violento no meu cabelo desapareceu num milissegundo.Abri os olhos desesperada, piscando através das lágrimas de pavor. O corpo gigante do bandido voou para o lado e desabou como uma montanha de pedra contra o chã
Milena O barulho da tranca de ferro estalando na porta da salinha soou como um tiro no meu peito. Fiquei congelada por um segundo, com a chave do capanga apertada com tanta força na minha mão que os meus nós dos dedos ficaram brancos. O silêncio do corredor durou pouco. Logo em seguida, o som de risadas altas e passos pesados ecoou pelo chão de cimento queimado, vindo na minha direção.O meu coração disparou descontroladamente. Olhei para os dois lados em busca de abrigo e vi um pequeno recuo na parede, um corredor lateral completamente escuro, coberto por entulhos e caixas de papelão mofadas.Corri de mansinho na ponta dos pés e me encolhi atrás de uma pilha de sacos de cimento velhos. Ajoelhei no chão sujo, cobrindo a minha boca com a mão livre para abafar o som da minha respiração afobada. Senti a chave de fenda pesando no meu bolso, pronta para ser usada se o pior acontecesse.Dois bandidos mascarados passaram bem na frente do meu esconderijo, caminhando devagar e carregando garr
Milena A poeira acumulada na caixa de madeira velha fez a minha garganta coçar, mas eu segurei o ar até os pulmões queimarem para não emitir o menor som. Arrastei o caixote de madeira bem devagar até deixá-lo alinhado logo abaixo daquela janela basculante no alto da parede. Cada pequeno atrito do caixote contra o cimento gelado soava como uma bomba no meu ouvido, me fazendo parar e olhar para a porta trancada a cada dois segundos.Antes de subir na caixa, passei a mão pelo interior dela no escuro, procurando qualquer coisa que pudesse me ajudar. Os meus dedos machucados e ensanguentados tocaram em uma peça de ferro pesada e fria.Puxei o objeto com cuidado. Era uma chave de fenda comprida, com o cabo de plástico grosso e uma ponta de metal pontiaguda e enferrujada.O meu coração deu um pulo no peito. Não pensei duas vezes: enfiei a chave de fenda direto no bolso do meu vestido florido, sentindo o peso do ferro bater contra a minha perna. Se algum daqueles monstros tentasse me encosta







