LOGIN— Enquanto isso — continuei —, Juan Fran vivia sua própria versão de estar perdido, só que com bem menos vocabulário disponível para admitir isso, mesmo para si mesmo. Homens sérios como ele, descobri ao longo dos anos, têm um talento particular para transformar sentimento em silêncio constrangido.
— Homens são péssimos nisso — comentou Núria, balançando a cabeça com a
— Pera, mas você e o Juan Fran já eram amigos antes de tudo isso, ou se conheceram por causa da Anamaria? — quis saber Manolo.— Antes, muito antes — respondi, sorrindo com aquele carinho automático que sempre me vem quando falo dele. — Juan Fran e eu somos amigos desde o primeiro ano de faculdade. Dividimos aula de anatomia, o mesmo sanduíche ruim de cantina, as mesmas provas impossíveis de decorar na última hora. Foi por isso, aliás, que a descoberta de que ele estava namorando minha irmã foi tão hilária — vocês devem lembrar, já contei essa parte lá atrás, no jantar em que ele confessou o sobrenome da namorada misteriosa sem fazer ideia de que estava confessando para o próprio irmão dela.— Lembramos, sim — riu Núria. — Foi uma das minhas partes favoritas até agora.— Pois &eacu
— E até quando a Anamaria aguentou isso calada? — perguntou Marta, cruzando os braços, já visivelmente do lado de Anamaria antes mesmo de eu continuar.— Menos do que você imagina — respondi, sorrindo diante daquela indignação antecipada. — Minha irmã sempre foi de temperamento forte, só precisava de um empurrão para deixar de engolir as farpas do pai e começar a devolvê-las.O empurrão veio um domingo à tarde, quando Danilo bateu à porta do quarto dela sem avisar, algo que ele raramente fazia.— Preciso falar com você — disse ele, entrando antes mesmo de ouvir resposta.Anamaria, sentada na cama com um livro aberto no colo, ergueu os olhos, já entre o cansaço e a irritação.— Se for sobre o Juan Fran de novo, pai, eu não quero ouvir.— É sobre o
— E como isso começou, exatamente? — perguntou Núria, servindo mais café para si mesma sem tirar os olhos de mim. — Um pai não muda de comportamento do dia para a noite sem dar nenhuma satisfação.— Ah, mas foi bem assim que começou — respondi, ajeitando-me de novo no sofá, com o desconforto de quem revisita uma parte da história que ainda dói um pouco. — Só que, no início, ninguém percebeu que aquilo era o começo de alguma coisa maior. Pareciam só reclamações soltas, do tipo que qualquer pai solta de vez em quando.A primeira ligação aconteceu menos de uma semana depois do jantar. Danilo telefonou para Anamaria bem no meio da tarde, alegando que precisava conversar sobre um assunto importante.— Você já pensou no que vai fazer se esse namoro der errado, filha? — pergunto
— Uma crise de nervos? — repetiu Marta, os olhos arregalados. — O Danilo? Aquele que você descreveu como o rei absoluto da compostura?— O mesmo — confirmei, deixando um sorriso pequeno escapar. — E, olhando em retrospecto, acho que foi ali, naquela noite, que vi minha primeira rachadura de verdade naquela fachada que ele levou a vida inteira construindo.Peguei o copo que tinha ficado esquecido na mesinha, girei o conteúdo distraidamente, e voltei àquela casa, algumas horas depois de o carro de Carmensita e Juan Fran ter desaparecido na estrada.Danilo tinha ficado sozinho na sala de visitas por um bom tempo antes de minha mãe aparecer. Mandara os empregados recolherem as taças e fecharem a cozinha mais cedo do que o habitual, dizendo que ele mesmo cuidaria do resto — um pedido que, na época, até acharam estranho porque quem cuidava dessas coisas sempre foi minha mãe, mas que era só mais uma peça do quebra-cabeça: ele queria estar sozinho, sem ninguém por perto para notar o que quer
— Espera aí — interrompeu Manolo, franzindo a testa. — Você disse que sabia que não era só cansaço. Como assim? O que você tinha percebido, exatamente?— Essa é a pergunta que eu mesmo passei dias tentando responder — respondi, ajeitando-me no sofá, a memória daquela noite ainda nítida como se tivesse acontecido na semana anterior. — Porque, naquele momento, eu não tinha provas de nada. Só tinha uma sensação inquieta, do tipo que a gente sente quando alguma coisa está errada, mas ainda não sabe apontar o dedo para onde.Deixei o copo na mesinha e voltei àquela noite, tentando organizar, para a plateia ali reunida, as peças soltas que só fizeram sentido muito tempo depois.A primeira coisa que me incomodou foi o jeito como meu pai interrogou Juan Fran. Na hora, parecia zelo paterno — todo pai quer saber quem é o rapaz que está namorando a filha, de onde vem, o que pretende fazer da vida. Mas havia algo na insistência dele, na forma como repetiu a pergunta sobre a origem da família, com
— Miguel, e a sobremesa? — quis saber Dulce, que parecia ter uma queda especial por detalhes de comida sempre que eu contava alguma cena de refeição. — Vocês, Menendez, nunca fazem nada simples.— Nunca mesmo — respondi, rindo. — E aquela noite não foi exceção.O jantar se encerrou com uma Crema Catalana que minha mãe fazia questão de servir a qualquer visitante importante, seguida da tradicional mudança de cômodo: café e licor na varanda dos fundos, onde as luzes baixas e a vista para as videiras costumavam suavizar qualquer tensão que a mesa de jantar tivesse acumulado.Não suavizaram tudo, dessa vez.Minha mãe, com uma taça pequena de licor de amêndoas na mão, puxou Carmensita para o canto mais afastado da varanda, os olhos brilhando com um interesse que ia muito além da cortesia de anfitriã.— Preciso confessar uma coisa — disse ela, baixando a voz como quem revela um segredo antigo. — Quando eu era mais nova, sonhava em estudar dança. Nunca cheguei nem perto, minha família não ti







