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CAPÍTULO 7 — SÓ ANA

last update publish date: 2026-10-04 09:22:44

— E foi justamente nesse período — continuei, aproveitando que a mesa inteira parecia presa a cada palavra — que Juan Fran ficou diferente do homem que eu conhecia. Não foi uma transformação cinematográfica, dessas em que a pessoa muda o corte de cabelo e começa a ouvir música romântica. Foi pior: ele passou a sorrir sozinho para o celular. Juan Fran. O sujeito que tratava notificações como interrupções administrativas agora encarava a tela como se ali estivesse a resposta para todos os mistérios da medicina moderna.

— Diferente como? — perguntou Marta, ainda segurando a taça vazia sem perceber. — Mais simpático? Menos sério?

— Mais ausente. Ele, que respondia às minhas mensagens em cinco minutos mesmo durante um plantão, começou a desaparecer por horas. Quando eu perguntava se estava tudo bem, recebia alguma variação de “estava resolvendo uma coisa”. Uma vez fiquei realmente preocupado e mandei três mensagens seguidas. A resposta chegou perto da meia-noite: “Tudo ótimo. Te ligo mais tarde.” A ligação nunca veio. No dia seguinte, encontrei o sujeito descansado, barbeado e com uma expressão satisfeita demais para alguém supostamente soterrado de trabalho.

Fiz uma pausa e balancei a cabeça, hoje capaz de enxergar com uma clareza quase ofensiva os sinais que, naquela época, me passaram diante do rosto agitando bandeiras.

— “Resolvendo uma coisa.” Eu devia ter desconfiado. Em vez disso, concluí que ele estava sobrecarregado. Ofereci ajuda para organizar a agenda do hospital, sugeri que trocasse um plantão e cheguei a recomendar vitaminas. Vitaminas! O homem estava apaixonado, e eu tentava tratar o caso com complexo B.

A mesa riu. Javier, ainda traumatizado pelo palpite errado que dera antes, limitou-se a erguer as duas mãos, deixando claro que não arriscaria diagnóstico nenhum.

— Foi também nessa fase que ele começou a falar dela. No início, era sempre “uma pessoa”, “alguém que conheci”, “uma mulher complicada”. Juan Fran parecia prestar depoimento: fornecia apenas o indispensável e jamais respondia à pergunta seguinte. Até que, numa noite, depois de um plantão especialmente longo, sentamos num bar perto do hospital. Ele estava cansado o suficiente para baixar a guarda e disse, olhando para a espuma da cerveja: “A Ana acha que eu sou sério demais.”

Marta inclinou-se para a frente.

— Espera. Então, quando ele falava dessa tal Ana, você ainda não tinha entendido que era a sua irmã?

— Nem por um segundo — respondi. — Para mim, minha irmã era Anamaria. Sempre tinha sido. Anamaria quando minha mãe a chamava para jantar, Anamaria na escola, Anamaria nas festas da colheita, Anamaria até quando meu pai estava irritado demais para pronunciar mais de duas sílabas. O nome vinha inteiro, como o sobrenome, a vinícola e todo o resto da tradição familiar.

Fora de Alella, porém, ela escolhera ser apenas Ana. Não era só uma abreviação. Era quase uma porta de saída. Anamaria carregava o peso dos Menendez, as expectativas dos meus pais e a sensação de que todos já sabiam quem ela deveria ser. Ana podia entrar num bar de estudantes, morar num apartamento de sofá vermelho, abandonar um curso, começar outro e conhecer um homem na rua sem que ele soubesse nada sobre a família dela.

— E você nunca perguntou o sobrenome? — perguntou Tomás.

— Perguntei. Várias vezes. Ele desconversava. Dizia que ainda era cedo, que não queria expor a vida dela, que eu era fofoqueiro. As três coisas eram verdade. E, como eu conhecia umas seis Anas em Barcelona, o nome não me pareceu pista de nada. Ana é o tipo de nome que se perde no meio de uma conversa. Se ele tivesse dito Anamaria, eu teria derrubado a cerveja na mesma hora.

O mais absurdo é que Juan Fran começou a pedir conselhos. Primeiro, de maneira indireta: “Você acha que responder rápido demais parece desespero?” Depois, sem nenhuma vergonha: “Se uma mulher diz que não liga para restaurantes sofisticados, isso significa que ela realmente não liga ou que está testando você?” Eu deveria ter reconhecido minha irmã só pela segunda pergunta. Em vez disso, considerei o problema com a seriedade de uma consulta.

— Eu disse para ele mandar mensagem primeiro. Disse para parar de responder tudo com frases de quatro palavras. Sugeri que a levasse a um lugar onde pudessem conversar sem competir com música alta. E, como se isso ainda não fosse suficiente, indiquei um restaurante pequeno e bonito para o segundo encontro. Descobri mais tarde que ficava a duas quadras do apartamento da minha irmã. Em resumo, ofereci ao meu melhor amigo um curso intensivo sobre como conquistar Anamaria Menendez sem perceber que era esse o projeto.

A gargalhada veio de uma vez. Lúcia apoiou a testa no ombro de Javier, Marta bateu a mão na mesa e até a senhora de idade na ponta do semicírculo ergueu a taça em minha homenagem, como se eu tivesse realizado um feito admirável em vez de uma demonstração histórica de falta de percepção.

— Isso é maravilhoso — disse Lúcia, enxugando os olhos.

— Maravilhoso para vocês — corrigi. — Para mim, é uma humilhação que atravessa gerações. Enquanto eu ensinava Juan Fran a não parecer frio, Anamaria dizia às amigas que o médico chato estava começando a melhorar. Quando eu sugeria que ele demonstrasse interesse, ela comemorava a mensagem inesperada. E nenhum dos dois mencionava detalhes suficientes para que eu ligasse uma coisa à outra. Bastaram um nome abreviado, um sobrenome omitido e duas pessoas muito discretas para me transformar no cúmplice involuntário do romance.

Houve ainda uma noite em que Juan Fran me telefonou para perguntar se flores eram exagero. Eu disse que dependia da mulher. Ele respondeu que Ana detestava gestos óbvios, mas gostava de coisas escolhidas com atenção. Sugeri um livro. Dias depois, encontrei Anamaria no apartamento dela e vi, sobre a mesa, um romance com uma dedicatória dobrada para dentro. Perguntei de onde tinha vindo. Ela fechou o livro depressa e respondeu: “De uma pessoa.” Eu aceitei aquilo sem discutir. Hoje considero esse momento uma ofensa pessoal à minha formação médica.

— Você viu o presente e ouviu a mesma desculpa dos dois? — perguntou Javier.

— Vi. Ouvi. E não associei. Na época, achei que respeitar a privacidade alheia era sinal de maturidade. Descobri depois que era apenas falta de curiosidade no momento errado.

A senhora de idade riu baixinho.

— Isso é clássico demais para não ser verdade — comentou ela. — O irmão aconselha, o amigo esconde e a moça usa outro nome. Só falta você ter descoberto tudo diante de uma plateia.

— Quase — respondi. — Antes da plateia, houve mais algumas semanas em que continuei ajudando os dois sem saber. Juan Fran me perguntava como lidar com a teimosia de Ana; Anamaria me perguntava, em conversas separadas, se homens muito sérios eram incapazes de demonstrar afeto ou apenas lentos. Eu entregava respostas diferentes para o mesmo relacionamento. Para ele, dizia que desse espaço. Para ela, dizia que tivesse paciência. Se eu cobrasse honorários de ambos, talvez pelo menos tivesse lucrado com a própria cegueira.

O curioso é que eu conhecia os dois bem demais e, ainda assim, não reconhecia nenhum deles nas descrições. Juan Fran falava de uma mulher espontânea, orgulhosa e imprevisível, como se essas características não definissem minha irmã desde a infância. Anamaria falava de um médico reservado, obstinado e excessivamente pontual, como se eu não tivesse dividido provas, plantões e incontáveis cervejas com um homem exatamente assim. Talvez a proximidade também cegue: a gente acredita conhecer tão bem uma pessoa que deixa de enxergá-la quando ela aparece fora do papel habitual.

Levantei a taça e observei o círculo de rostos atentos. A essa altura, ninguém parecia mais interessado na música, nos doces ou nos noivos que ainda circulavam pelo jardim. Todos queriam saber quando a ficha finalmente cairia. Eu também gostaria de poder dizer que descobri por inteligência, por instinto de irmão ou por uma investigação brilhante. Não foi nada disso. A verdade chegou até mim por acaso, durante uma conversa banal, com a delicadeza de um prato quebrando no chão.

— E acreditem: a parte em que eu finalmente descubro quem era Ana é uma das melhores desta história. Mas, antes de chegar lá, vocês precisam entender o quanto os dois já tinham se envolvido enquanto eu continuava, muito satisfeito comigo mesmo, sem perceber absolutamente nada.

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