Se connecterDário não ligou para Augusto ao sair do hotel. A vontade veio antes de entrar no carro. Queria colocar a cópia incompleta sobre a mesa e obrigar o tio a olhar para o que entregara. Mas já conhecia o resultado de perguntas feitas a alguém que escolhia primeiro o que os outros poderiam saber. Mandou a Celina a conversa em que Augusto comentara a visita à transportadora. Depois voltou ao apartamento. Na manhã seguinte, recebeu os documentos preparados após a reunião com Jandira e a orientação que buscara por conta própria. O pedido ainda precisaria seguir seu caminho. Não havia um divórcio concluído dentro daquele arquivo. Havia, pela primeira vez, o lugar onde ele deveria assinar para deixar de transformar a recusa numa espera para Zaira. Dário leu tudo. Não encontrou uma surpresa. Isso não tornou mais fácil. Pegou a caneta. O nome dela aparecia algumas linhas acima. Pensou em telefonar. Queria perguntar se estava pronta, se ainda havia alguma coisa que pudessem conversar
No saguão do Mirante Imperial, uma funcionária perguntou o nome de Zaira e olhou para a tela. — Senhora Seabra? Ela sentiu a mão apertar a alça da bolsa. — Zaira. Vim falar com a inspetora Celina. A moça corrigiu a postura, sem saber o que tinha feito de errado, e pediu que aguardasse. No carro, antes de chegarem, Afonso lhe oferecera uma bala de hortelã. Zaira aceitara e ficara girando o papel entre os dedos. — O senhor pode esperar na recepção, se demorar. O patrão mantivera os olhos na rua. — Eu também trabalhei naquela retirada. Não vim passear. Ela deixara de apertar o papel. A presença dele não era uma autorização para fraquejar nem uma obrigação de parecer forte. Era alguém que conhecia a mesma noite por uma razão simples. Tinham feito um serviço. Não tinham entrado numa família, numa investigação ou num casamento. Ao descer do carro, Zaira jogara a embalagem numa lixeira e conferira se levava o documento. Queria responder pelo que sabia. Não pelo que os outros
Heloísa pediu que Zaira escolhesse o lugar. A mensagem não falava em Dário. Não incluía uma frase sobre pensar melhor, ter calma ou lembrar do sofrimento que a família atravessava. Zaira deixou o telefone na gaveta e terminou o expediente. Só respondeu quando conseguiu decidir sem a irritação fazendo o trabalho por ela. Marcaram num café perto da transportadora. Heloísa chegou. Ao vê-la, não olhou para sua mão. A ausência do gesto foi tão evidente que Zaira baixou os olhos para conferir o próprio dedo. Sentou com a bolsa no colo. — Não vim falar do divórcio — disse Heloísa. — Então pode falar. A mulher tirou o celular da bolsa. Mostrou uma mensagem enviada à pessoa que publicara a primeira notícia sobre o casamento. Pedia a retirada das informações pessoais e que não houvesse novos contatos em nome da família. Não havia detalhes sobre a separação. Nenhum comentário sobre o que Zaira sentia. Ela devolveu o aparelho. — Era isso? Heloísa guardou o telefone. — Não. Ped
Zaira quase mandou a moça da câmera ir embora. Afonso percebeu antes que dissesse qualquer coisa. — É a Bruna, da página do bairro. Veio fazer a matéria sobre a transportadora. A visitante segurava um celular preso num suporte pequeno. Não parecia preparada para entrevistar uma celebridade. Trouxera uma bolsa grande, uma garrafa de água e uma lista amassada de perguntas. Isso não bastou para tranquilizar Zaira. — Não vou falar do meu casamento. Bruna olhou para Afonso, confusa, e voltou a encará-la. — Eu vim saber como funciona uma mudança. Ele disse que você trabalha aqui há nove anos. Zaira manteve os braços cruzados. — Então pergunta sobre isso. Afonso se afastou para atender um cliente. Não ficou ao lado da câmera esperando uma resposta bonita. Bruna começou perguntando o que mais dava errado numa entrega. Zaira respondeu antes de pensar. — A frase cabe tranquilo. A moça riu. — Por quê? — Porque normalmente é dita por alguém que nunca mediu a porta. A conversa p
Zaira chegou ao escritório antes das dez. A recepcionista ofereceu água. Ela aceitou e sentou perto da janela, com a bolsa sobre os joelhos. Já conhecia a sala de Jandira. Na consulta individual da semana anterior, conseguira contar o que precisava sem ouvir conselhos sobre dar tempo ao amor. Naquela manhã, porém, Dário também estaria ali. Não sabia onde colocar as mãos. A porta do elevador abriu. Ela reconheceu os passos e permaneceu olhando para o copo até ele chegar à recepção. — Bom dia. Zaira respondeu. Dário confirmou o nome, olhou para as cadeiras e escolheu a que ficava do outro lado. Não sentou ao lado dela como se o lugar continuasse reservado. O cuidado doeu de um jeito que não esperava. Jandira veio buscá-los. Explicou que aquela reunião serviria para esclarecer as intenções dos dois e organizar o encaminhamento, sem assinarem o pedido de divórcio ali. Dário poderia buscar sua própria orientação antes de receber os documentos finais para conferência. Zaira ou
Áurea não abraçou Dário quando chegou ao café. Puxou a cadeira, colocou a bolsa sobre a mesa e olhou para ele. — Antes de começar: não vim perguntar se sua mulher já voltou a falar com você. Dário soltou o ar pelo nariz. — Bom saber. — Vim porque sua mãe quer me usar como remédio. Ele ficou sério. O garçom se aproximou. Áurea pediu café, pão e esperou que ele saísse. — Ela me convidou para acompanhar você num jantar. Falou como se já tivesse combinado com os dois. Dário encostou as costas na cadeira. — Não combinou comigo. — Imaginei. Mesmo assim, quero dizer isso olhando para você: não estou esperando uma vaga. A frase o fez erguer o rosto. Áurea sustentou o olhar. Tinham passado anos juntos. Não precisava escolher uma versão delicada de cada coisa para que ele conseguisse ouvir. — Eu nunca pensei que estivesse — respondeu. — Então não deixe sua família contar uma história diferente. Dário olhou para o movimento da rua. Uma mulher tentava atravessar com uma sacola r







