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Finalmente

Author: Leti DB
last update publish date: 2026-09-10 08:27:32

MARIANA

Eu tinha uma única obrigação naquela noite.

Beber de graça.

E eu pretendia cumprir com dedicação.

Na minha mão estava um dos drinks especiais do noivado, vermelho-escuro, cheio de gelo e com gosto suficiente de cereja para esconder quase completamente o álcool.

Perigoso.

Bonito.

Exatamente o tipo de bebida que fazia uma pessoa acreditar que estava tomando suco até tentar levantar rápido demais.

Uma.

Chegar bonita, abraçar Cecília, dizer que a decoração estava perfeita, tirar algumas fotos, comer coisas caras em porções ridiculamente pequenas e aproveitar o fato raro de estar numa festa sem precisar trabalhar nela. Por uma vez na vida em muito tempo.

E estava mesmo.

Cecília tinha feito o que eu considerava quase impossível: decorado uma boate sem transformar o lugar num casamento temático.

Rosas brancas apareciam entre folhagens escuras, velas refletiam nos detalhes metálicos das mesas e a luz âmbar deixava os três andares da Black Owl mais quentes. Do mezanino, dava para enxergar o painel com as iniciais dos noivos e uma mesa de doces que provavelmente tinha custado o equivalente a vários meses do meu mercado.

Não perguntei o valor.

Certas informações estragam a sobremesa.

Quarenta minutos depois, eu estava atrás do bar.

Minha capacidade de respeitar os próprios planos merecia uma investigação científica.

— Mari, eu te amo — Cecília tinha dito.

Nunca confie numa pessoa que começa um pedido assim.

— Isso é manipulação emocional.

— O Felipe faltou.

— Sinto muito.

— E o Jonas está quase chorando.

— Apoio terapia.

— Uma hora.

— Cecília...

— Uma hora.

Foi assim que o meu vestido preto, escolhido com a intenção específica de não parecer uniforme de evento, acabou atrás de um balcão.

A única vantagem?

Dorian Eisenberg estava na festa. Mais uma de várias onde eu observaria ele de longe.

E eu sabia disso desde o instante em que ele entrou.

Claro que sabia.

Meu cérebro podia esquecer senha, horário, garrafa de água e até onde eu tinha colocado meus próprios óculos enquanto eles estavam na minha cara.

Mas reconheceria aquele homem num incêndio, do outro lado do salão.

Treze meses.

Treze meses desde a primeira vez que o vi.

Não que eu estivesse contando.

Eu só sabia porque era janeiro outra vez.

Completamente diferente.

Muito menos humilhante.

Ele estava ainda mais bonito. Como alguém fica cada vez mais bonito?

Isso me parece uma afronta pessoal.

Camisa preta. Calça escura. Blazer grafite. Cabelo loiro claro caindo até quase os ombros, parte preso para trás. Alto demais para qualquer ambiente parecer proporcional quando ele entrava.

E aqueles olhos.

Azuis tão claros que deveriam vir acompanhados de alguma advertência.

Eu já o tinha visto outras vezes depois daquela primeira festa.

No Black owl.

Em eventos.

Em fotos.

Sempre de longe.

Sempre cercado de gente bonita. Do estilo dele.

E algumas vezes acompanhado de mulheres que faziam meu amor-próprio pedir demissão.

Nunca tinha falado com ele.

Até agora.

— Água com gás.

Quase derrubei a garrafa.

Quase.

Porque sou profissional.

Ou pelo menos gosto de espalhar essa informação. E manter a compostura.

Levantei os olhos.

Dorian estava na minha frente.

De perto ele era pior.

Muito pior.

Porque fotografias não explicavam tamanho.

Eu tinha um metro e setenta e raramente me sentia pequena.

Diante dele, me senti. Pequena. Minúscula.

O homem devia ter um metro e noventa e dois, talvez mais de cem quilos distribuídos em ombros que pareciam ter sido projetados por alguém com raiva de portas estreitas.

— Só isso? — perguntei.

A voz saiu normal. Gagueira não estava no script definitivamente.

Vitória.

— Isso.

Peguei a água.

Ele perguntou se eu trabalhava ali.

Respondi.

Ele continuou conversando.

Eu continuei respirando.

Outra vitória.

Quando ele foi embora, precisei de três segundos olhando fixamente para as garrafas.

— Meu Deus — murmurei.

Jonas apareceu.

— O quê?

— Nada.

— Você está vermelha.

— Calor.

— O ar está em vinte graus.

— Trabalha, Jonas. As pessoas precisam beber hoje a noite.

Depois daquele momento, comecei a perceber uma coisa ainda mais problemática.

Dorian estava olhando para mim.

Uma vez podia ser acaso.

Duas, coincidência.

Na quinta, comecei a considerar a possibilidade de que eu tivesse algum objeto preso no cabelo.

Passei a mão discretamente.

Nada.

Olhei para trás.

Nada.

Quando voltei, ele ainda estava olhando.

Meu estômago deu aquela contraída desagradável e deliciosa que eu odiava admitir que existia.

— Não olha — sussurrei para mim mesma.

Olhei.

Claro que olhei.

Ele não desviou.

— Mariana!

Cecília apareceu.

Ela finalmente parecia uma noiva em vez da produtora de eventos que tinha passado parte da noite fiscalizando a própria festa. O vestido claro acompanhava seu corpo sem excesso de brilho e ela tinha abandonado o salto em algum momento, carregando-o por uma das tiras.

Conhecendo Cecília, aquilo significava que a festa oficialmente tinha começado.

— Terminou tua hora, sai daí.

— Amiga mas a menina ainda não entendeu metade do fluxo aqui.

— Vem comigo.

— Por quê?

O sorriso dela me deixou imediatamente desconfiada.

— Quero te apresentar uma pessoa.

— Não.

— Nem sabe quem é.

— Justamente. Não gosto disso.

Ela segurou meu braço.

Quando percebi para onde estávamos indo, tentei parar.

— Cecília.

— O quê?

— Não.

— Mariana.

— Eu estou suada.

— Não está.

— Meu cabelo está horrível.

— Está lindo.

— Posso ter um infarto.

— Ele é médico.

— Ui nossa, isso não ajuda nesse caso!

Henrique nos viu aproximar e abriu um sorriso.

Ao lado dele estava Dorian.

E uma mulher loira lindíssima que eu sabia ser irmã dele.

Amália.

De perto, a semelhança dos dois era impossível de ignorar.

Mesmos cabelos muito claros.

Mesmos olhos azuis quase transparentes.

Só que Amália parecia uma versão ensolarada do irmão. Os cabelos longos estavam soltos em ondas leves, o sorriso surgia fácil e havia nela uma delicadeza que Dorian definitivamente não se esforçava para oferecer ao mundo.

Ele parecia inverno.

Ela parecia a parte do dia em que o sol resolve aparecer.

Sim.

Eu tinha feito pesquisa.

Já tinha conversado com ela em algum dos churrascos de domingo do pessoal.

Pesquisa é socialmente aceitável.

I*******m público também não era crime. Eles não precisariam saber quantas vezes por dia eu olhava.

— Finalmente conseguimos reunir vocês dois — Cecília disse, satisfeita demais consigo mesma. — Dorian, essa é Mariana. Mariana, Dorian. Então, finalmente, madrinha e padrinho se conhecem.

Virei o rosto para ela tão rápido que quase precisei conferir se meus óculos ainda estavam no lugar.

— Amiga, como assim? Você não tinha me falado quem seria o padrinho junto comigo.

Cecília abriu um sorriso inocente que não enganaria nem uma criança de cinco anos.

— Devo ter esquecido.

— Você não esquece nem a cor dos guardanapos da festa.

Henrique tossiu, disfarçando uma risada.

Traidor do caralho.

Foi então que Dorian estendeu a mão.

— Dorian Eisenberg.

Olhei para a mão dele antes de aceitar, sentindo o ar escapar dos pulmões por uma razão absolutamente ridícula.

Senti que todos me olhavam. Todos mesmo. Eu não estava acostumada com isso.

A mão dele era grande.

Indiscutivelmente bonita.

Dedos longos, palma larga, veias discretamente marcadas no dorso. A mão de alguém que conseguia envolver praticamente a minha inteira sem esforço.

Ótimo.

Agora eu também tinha opinião sobre as mãos dele.

Minha pesquisa estava ficando preocupantemente específica.

E, quando envolveu a minha, surpreendentemente leve.

Isso sequer deveria ser uma categoria.

Mãos bonitas.

Eu precisava urgentemente rever meus critérios de sanidade.

— Mariana Beckham.

Quando levantei os olhos, encontrei os dele presos em mim.

Muito claros.

Muito atentos.

Muito perto.

Os olhos de Dorian se estreitaram levemente.

— Beckham?

— Não.

Ele ficou em silêncio.

— Eu nem falei nada.

— Ia perguntar se tenho parentesco com o Beckham tenho certeza.

Uma pausa.

— Ia.

— Não tenho. Somos a parte pobre da família.

Henrique riu primeiro.

Amália logo depois.

Mas foi Dorian que me fez esquecer os outros.

Porque ele riu.

De verdade.

Não aquele sorriso educado de homem rico que provavelmente aprendeu desde criança a parecer agradável em fotografias.

Riu.

Com som.

Uma risada curta, grave e espontânea.

E alguma coisa dentro de mim fez uma escolha questionável.

— Você faz isso sempre? — ele perguntou.

— O quê?

— Responder antes que perguntem?

— Economiza tempo.

— Pode gerar erros.

— Também economiza explicações.

— É, faz sentido.

— Não precisa parecer tão surpreso.

O canto da boca dele subiu.

Foi então que percebi uma coisa estranha acontecendo ao nosso redor.

Silêncio.

Não entre nós.

Nos outros.

Cecília olhou para Henrique.

Henrique olhou para Cecília.

Depois os dois olharam para Dorian.

Então para mim.

Como se tivessem acabado de presenciar algum fenômeno meteorológico raro.

— O que foi? — perguntei.

— Nada — Cecília respondeu rápido demais.

— Essa palavra nunca significa nada quando você fala assim. Estreitei os olhos tentando ler minha amiga.

— Eu só lembrei que preciso... — ela olhou ao redor, procurando desesperadamente alguma obrigação plausível. — Conferir uma coisa.

— Que coisa? Eu te ajudo amiga.

— Não, não uma coisa minha. Uma coisa da festa.

— Que específica.

Henrique já segurava o braço dela.

— Eu vou ajudar.

Olhei de um para o outro.

— Vocês são péssimos mentirosos.

— E você está em boas mãos — Cecília disse, ignorando completamente a acusação. — Já volto.

— Cecília.

Ela apenas me lançou aquele sorriso de amiga que significava depois você me conta tudo e saiu com Henrique.

As outras pessoas que estavam conosco também encontraram ocupações extremamente urgentes de uma hora para outra e desapareceram junto.

Fiquei olhando para um ponto fixo. Me senti a Dori procurando um mar sem Nemo.

— Eles acabaram de fugir?

— Parece que sim — Dorian respondeu.

Virei para ele.

— Isso acontece muito com você?

— Pessoas abandonarem conversas?

— Pessoas agirem como se estivessem deixando dois adolescentes sozinhos numa festa da escola.

O canto da boca dele se ergueu.

— Não recentemente.

— Reconfortante.

Só então percebi que Amália ainda estava alguns passos atrás.

Encostada no balcão.

Taça na mão.

Assistindo.

Ela encontrou meu olhar e sorriu como se não houvesse absolutamente nada suspeito em sua permanência.

— Pelo menos você ficou...

— Eu?

— Sim, você mesma.

— Claro, estou muito confortável aqui.

Dorian virou o rosto lentamente para a irmã.

— Amália.

— O quê?

— Vai embora.

Ela abriu um sorriso.

— Nem pensar.

— Amália.

— Estou bebendo.

— Pode beber em outro lugar.

Ela olhou para mim.

— Ele fica mandão quando está nervoso.

Dorian ficou imóvel.

Eu imediatamente olhei para ele.

— Nervoso?

— Não estou nervoso.

Amália tomou outro gole.

— Claro que não.

Precisei morder a parte interna da bochecha para não rir.

Dorian lançou à irmã um olhar que provavelmente já tinha feito residentes, funcionários e empresários reconsiderarem escolhas de vida.

Amália sequer piscou.

— Vou ficar ali — disse, apontando para uma mesa a poucos metros. — Tecnicamente longe. Emocionalmente presente.

— Você é insuportável.

— Gêmeos.

Ela deu de ombros.

— O problema é compartilhado.

E finalmente se afastou.

Pouco.

Muito pouco.

O suficiente para fingir que estava nos dando privacidade.

Não o suficiente para perder absolutamente nada.

Olhei para Dorian.

— Sua irmã vai analisar essa conversa depois?

— Em detalhes.

— Ótimo. Sem pressão.

— Podemos cobrar ingresso.

— Cinquenta por cento para mim.

— Você negocia rápido.

— Relações Públicas.

— Falando nisso... Relações Públicas, certo?

Meu coração fez uma pequena parada.

— Como sabe disso?

— Ouvi por aí.

Olhei rapidamente para Amália.

Ela tinha exatamente a expressão de alguém assistindo a um espetáculo pelo qual não precisou pagar.

— Ahm... é. Relações Públicas.

— Trabalha aqui?

— Às vezes — falei.

Não queria soar desesperada por alongar aquela conversa.

Mesmo estando.

— Tenho a impressão de que já te vi antes.

Tentei parecer casual.

— Talvez.

Ele inclinou um pouco a cabeça.

— Onde?

— Em algumas festas.

— E nunca falou comigo?

Arregalei levemente os olhos.

A audácia daquele homem.

Como se fosse perfeitamente normal eu simplesmente atravessar uma festa e puxar conversa com Dorian Eisenberg.

— Você também nunca falou comigo.

Silêncio.

Ponto para mim.

Dorian me observou por alguns segundos.

— Tá. Ok. É justo.

Conversamos mais alguns minutos.

Sobre a universidade.

Sobre eventos.

Sobre o hospital.

Descobri que ele ficava ainda mais sério quando falava de trabalho e, para meu desespero, isso também era atraente.

Eu tinha problemas.

Muitos.

E aparentemente um deles media mais de um metro e noventa.

Em algum momento, Amália se afastou um pouco mais.

Não percebi exatamente quando.

Talvez tenha desistido de fingir que não estava espionando.

Ou talvez simplesmente tivesse concluído que o irmão não precisava de supervisão adulta.

De repente, éramos apenas nós dois.

De verdade.

— Então você já me conhecia — Dorian disse.

— Conhecia é uma palavra forte.

— Sabia quem eu era.

— Santa Maria não é exatamente uma metrópole anônima.

— Isso não responde.

Inclinei a cabeça.

— Você sempre insiste tanto?

— Quando quero uma resposta, sim.

— Péssimo hábito.

— Funciona para mim.

Ele sorriu.

E foi aí que cometi o erro.

Olhei para a boca dele. Inclinei um pouco a cabeça como quem analisa.

Um segundo.

Talvez menos.

Voltei aos olhos imediatamente.

Tarde demais.

Dorian tinha percebido.

Eu soube pela pequena mudança em sua expressão.

Quase nada.

Mas estava ali.

Ele baixou a voz.

— Você está olhando para minha boca.

— Ahmm. Não. Não estou.

— Estava sim.

— Talvez sua autoestima precise de supervisão profissional.

Ele se aproximou apenas o suficiente para o perfume dele chegar até mim.

Meu corpo percebeu antes da minha cabeça. Senti tremores nos braços, frio agora? Que momento.

— Mariana.

— Dorian.

— Você estava olhando sim, não negue.

Engoli em seco. Pega em flagrante sua burra do caralho. Eu sempre falava palavrão quando ficava nervosa. Ou se não podia falar, podia pelo menos pensar. Merda.

— Não posso controlar as conclusões erradas que você tira sobre mim.

— Mas você pode controlar para onde olha, não é?!

Meu corpo inteiro pareceu lembrar que eu tinha esperado treze meses pra ver aquela boca mais de perto.

Olhei diretamente para ela outra vez.

Depois para os olhos.

— Talvez eu não queira controlar nada hoje.

Dessa vez, quem ficou em silêncio foi ele. Inesperadamente sério.

E eu descobri, com uma satisfação perigosíssima, que Dorian Eisenberg também podia ser pego desprevenido.

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