LOGINDORIAN
Mariana Beckham era um problema.
Não um problema real.
Eu lidava com problemas reais diariamente.
Diagnósticos ruins.
Famílias assustadas.
Decisões que tinham consequências.
Mariana era apenas uma mulher.
Uma mulher de vinte e três anos, óculos pretos, respostas rápidas e um péssimo hábito de olhar para minha boca como se estivesse considerando fazer alguma coisa a respeito.
Isso não deveria exigir análise.
Ainda assim, quinze minutos depois de nossa conversa, eu continuava sabendo exatamente em que parte da boate ela estava.
— Isso está ficando divertido.
Gustavo sentou-se ao meu lado.
Tinha abandonado o paletó havia algum tempo e dobrado as mangas da camisa até os antebraços. Gustavo possuía a inquietação de quem precisava estar fazendo alguma coisa mesmo quando não havia absolutamente nada para fazer: girava a chave do carro entre os dedos, interrompia conversas, levantava, sentava e provavelmente já tinha contado a mesma história para três grupos diferentes naquela noite.
— O quê?
Ele apontou discretamente com o copo.
Mariana conversava com duas amigas perto da escada.
— Aquilo.
— Não sei do que está falando.
— Claro que não.
Henrique apareceu logo depois.
— Deixa ele.
— Eu não fiz nada.
— Ainda — Gustavo respondeu.
Amália, do outro lado, lançou a ele um olhar de advertência.
— Gustavo.
— O quê?
— Nada.
Eu conhecia aquele “nada”.
Significava que ele estava prestes a fazer alguma coisa idiota.
— Ela é bonita — Henrique comentou.
— Sim. Mas diferente.
Os três olharam para mim.
Franzi a testa.
— O quê?
Gustavo abriu um sorriso.
— Ele admitiu.
— Tenho olhos.
— E aparentemente estão funcionando muito bem hoje.
Ignorei.
Mariana riu de alguma coisa que uma das amigas disse.
O grave da música fazia vibrar discretamente a mesa sob meu copo. Garçons circulavam entre nós com bandejas de espumante e pequenos pratos de comida que ninguém do nosso grupo parecia lembrar de comer.
Mariana ainda segurava aquele coquetel vermelho.
Cereja, provavelmente.
Doce demais até de longe.
Minha atenção foi para ela novamente.
— Essa eu quero ver — Gustavo falou.
— Ver o quê?
— Você beijando a morena.
Olhei para ele.
— Por quê?
— Porque não vai.
— Que raciocínio brilhante.
— Estou falando sério.
— Esse é o problema.
Henrique balançou a cabeça.
— Guto, deixa quieto.
Mas Gustavo já procurava a carteira.
Amália se aproximou.
— Nem pensa.
Ele tirou uma nota de cem reais.
Verde-azulada, nova demais e completamente ridícula no meio das taças, flores e garrafas que custavam muitas vezes aquilo.
Foi talvez essa discrepância que tornou a brincadeira ainda mais idiota.
— Cem.
Olhei para a nota.
Depois para ele.
— Você tem trinta e cinco anos.
— Trinta e quatro.
— Pior ainda.
— Cem reais que você não beija aquela mulher na boca antes de ela ir embora.
Não senti nenhuma vontade de rir.
— Cara, não, não estou apostando.
— Então não tem risco.
Ele colocou a nota sobre a mesa.
Henrique soltou um suspiro.
— Guarda isso.
— É brincadeira.
— Uma brincadeira estúpida — Amália respondeu.
Gustavo levantou as mãos.
— Ele já disse que não vai participar.
Amália olhou para mim.
— Manda guardar.
— Eu já disse que não estou participando.
— Às vezes não participar exige fazer alguma coisa pra acabar com isso.
Sustentei o olhar da minha irmã.
Ela tinha razão.
O que me irritou.
— Gustavo, guarda. Pára com isso.
— Está bem. Mas tô dizendo que aí tem...
Ele pegou a nota.
Ou pensei que tivesse pegado.
Naquele momento, Mariana passou por nós.
Não olhou diretamente para mim.
Mas diminuiu o passo.
— Boa noite, Mariana — Henrique disse.
Ela sorriu.
— Ainda não fui embora.
— Foi modo de dizer.
— Precisamos melhorar tua comunicação.
Cecília apareceu e roubou Henrique.
Mariana ficou parada perto da mesa.
Gustavo abriu a boca.
Olhei para ele.
Fechou novamente.
Boa decisão.
— Você sempre fica tão sério numa festa? — Mariana perguntou.
— Não estou sério.
Ela olhou para meu rosto.
— Então, fico preocupada com sua versão séria.
— Você sempre fala tanto?
— Nem pensar.
Esperei.
Ela bebeu um gole do próprio copo.
Olhou para mim.
— Pensando bem... provavelmente.
Sorri.
— Isso parece contraditório.
— Chama-se flexibilidade.
— Chama-se mudar de opinião em menos de três segundos.
— Pessoas inteligentes revisam decisões com novas informações.
— E quais foram as novas informações?
Ela olhou para mim de cima a baixo.
Sem qualquer tentativa de esconder.
— Ainda estou avaliando.
Meu corpo reagiu de uma forma previsível.
Minha cabeça, nem tanto.
— Você é sempre assim?
— Assim como?
— Provocadora.
Ela pareceu pensar.
— Não, nem pensar…
Pausa.
— Bom, pensando bem...
Ri.
Ela também.
Depois alguém a chamou do piso superior.
Mariana apontou para a escada.
— Preciso ir.
— Claro, vai.
Ela deu dois passos.
Parou.
Olhou por cima do ombro.
— Você manda em todo mundo assim?
— Como assim. Não. Mandei.
— “Vá.”
— Você disse que precisava ir.
— Poderia ter dito “até daqui a pouco”.
— Até daqui a pouco, Mariana.
Ela sorriu.
Subiu.
Fiquei olhando. Não queria ter sido grosso com ela. Mas me senti estranho com o Gustavo só de olho em mim a partir daquele momento. Devia saber que essa tentativa de aposta dele me daria dor de cabeça.
Henrique retornou alguns segundos depois.
— Você está ferrado.
— Não dramatize.
— Conheço essa tua cara.
— Que cara?
— A de quando alguma coisa não saiu como tu planejou. Uma mistura de frustrado, bravo e triste.
Peguei meu copo.
— Nada aconteceu.
— E esse é o problema, não é?
Olhei para o mezanino.
Mariana tinha parado junto à lateral, sozinha por um instante, observando o salão abaixo.
Henrique acompanhou meu olhar.
— Vai atrás?
— Não.
Ele não respondeu.
Não precisava.
Eu tinha acabado de dar uma resposta definitiva.
O problema foi perceber, alguns segundos depois, que não tinha qualquer motivo real para mantê-la.
Coloquei o copo sobre a mesa.
— Pensando bem.
Henrique começou a rir antes mesmo que eu terminasse de me afastar.
DORIANNa sexta-feira, às seis e vinte da tarde, uma mãe me perguntou pela terceira vez se eu tinha certeza de que o filho podia ir para casa.Eu tinha.Ela não.E eram coisas diferentes.— A febre cedeu, ele está hidratando, os exames melhoraram e vocês têm orientação de retorno — expliquei. — Se alguma coisa mudar, volta.Ela olhou para o menino careca dormindo de lado, abraçado a um dinossauro verde.— Eu vou ficar olhando ele respirar a noite inteira.— Faz parte, mas tenha confiança que tudo ficará bem.A mulher me encarou. Haviam vários estágios de resiliência de familiares. A gente conhecia bem todos eles aqui.Quando saí do quarto, encontrei uma placa nova presa provisoriamente à parede do corredor.Fundo claro.Seta grande.Duas palavras.COLETA DE EXAMES.Sem parágrafo.Sem três logotipos.Sem a necessidade de diploma para entender.Parei.Bruna, da Comunicação, apareceu carregando fita e um bloco.— Teste — explicou.— Mariana?— A ideia da hierarquia visual foi dela. A equ
MARIANAMarço chegou com uma crueldade muito específica.Segunda-feira.Primeiro dia de aula.Sete da manhã.Eu tinha passado fevereiro inteiro dizendo que estava com saudade da universidade a plenos pulmões.Às sete e cinco, diante do espelho do quarto, concluí que a Mariana de fevereiro era uma mentirosa sem qualquer compromisso com a Mariana de março.— Não quero ir.Valentina, ainda enrolada no lençol:— Mentira Mari, era tu que tava animada pras aulas voltarem…— Hoje não é mais uma verdade.— Você ama a faculdade.— Amo depois das nove.— São sete e seis.— Exatamente esse o meu argumento.Minha mochila parecia conter tijolos.Notebook.Caderno.Carregador.Garrafa de água.Estojo.Um texto impresso que eu tinha jurado ler no domingo para me auxiliary no projeto do hospital e convenientemente esquecido em cima da mesa até onze da noite.Ajustei o relógio.O bracelete de Dorian brilhou ao lado.Parei. Dei uma boa olhada.Ainda não estava acostumada.Mas ganhar um presente era tão
Eu já tinha assistido Mariana apresentar o projeto.Tinha visto Helena fazer perguntas, a coordenadora da recepção anotar ideias e Mariana defender cada proposta sem olhar para mim uma única vez em busca de aprovação.Naquele dia, minha presença tinha sido necessária.Naquela quinta-feira, não.Às duas da tarde, ela assinaria a contratação e faria o primeiro alinhamento oficial com a equipe de Comunicação e Marketing do hospital. Cronograma, acesso aos setores, responsabilidades, primeiras demandas.Nada daquilo exigia o chefe da Pediatria sentado à mesa.Muito menos o homem que a tinha beijado na entrada do hospital e aparecido em uma fotografia local menos de dez minutos depois.Às treze e cinquenta e oito, passei pelo corredor onde ficava a sala de reuniões.Mesmo trabalhando em horarios flexíveis desde a manhã cedo, até início da tarde, sempre haviam demandas que me faziam permanecer mais tempo no hospital.Não desviei meu caminho para chegar ali.Tecnicamente.A porta estava fech
MARIANAAmália tinha uma teoria sobre plantas.— Gente que diz que mata qualquer coisa verde só nunca aprendeu a olhar.— Eu já matei um cacto.Ela parou no meio do corredor do viveiro.— Nossa Mari isso que é talento.— Obrigada.— Não foi elogio.O viveiro ficava afastado do centro, numa área onde o trânsito diminuía e o cheiro de asfalto começava a perder espaço para terra molhada. Era sábado de manhã, mas o sol já aquecia as telhas transparentes e fazia a umidade grudar na pele.Havia plantas por todos os lados.Folhas enormes.Vasos pequenos.Samambaias pendendo do teto.Ervas em bandejas.Flores que eu não saberia nomear nem sob ameaça.O cheiro me trouxe minha mãe antes que eu tivesse tempo de me preparar.Lia.As mãos sujas de terra.Latas de tinta transformadas em vaso.Alecrim na janela da cozinha.O hábito de salvar mudas que qualquer pessoa sensata teria jogado fora.Parei diante de uma bancada de temperos.Amália continuou dois passos antes de perceber.Voltou.— Lembrou
DORIANNa segunda-feira seguinte, um menino de nove anos decidiu que eu precisava saber o nome de todos os jogadores do Grêmio antes de permitir que eu escutasse seus pulmões.Eu sabia menos do que ele considerava aceitável.— Esse não conta — Miguel disse, cruzando os braços. — Você só sabe porque ele é famoso.— Isso parece injusto.— É regra.— Regra de quem?— Minha.A mãe dele riu pela primeira vez desde que eu entrara no quarto.Bom.Enquanto Miguel continuava o interrogatório esportivo, consegui examiná-lo sem que ele percebesse exatamente quando tínhamos mudado de assunto.Respiração melhor.Febre cedendo.Bom apetite.A internação começava a chegar ao fim.— Amanhã? — a mãe perguntou.— Se continuar assim, provavelmente.— Provavelmente de médico ou provavelmente de gente normal?Miguel perguntou com seriedade.— De médico.— Então quer dizer talvez.— Exatamente.Ele assentiu, satisfeito por finalmente termos chegado a uma linguagem comum.Quando saí do quarto, Helena, da Co
MARIANANa sexta-feira, eu descobri que confiança podia caber inteira numa tela acesa por três segundos.Também descobri que três segundos eram tempo suficiente para minha imaginação organizar um homicídio, um término de relacionamento que ainda nem existia e um discurso de dignidade que eu jamais conseguiria fazer sem chorar.Dorian estava no banho.Eu estava na cozinha da casa dele cortando limão para colocar na água porque, aparentemente, conviver com um médico fazia as pessoas começarem a hidratar melhor só para evitar sermão.Meu celular tocava uma playlist antiga sobre a bancada.O dele estava ao lado.A tela acendeu.Não mexi.Não precisava.A prévia apareceu inteira.Número não salvo.Foto de uma mulher loira.Sumido. Ainda lembra de mim?Meu estômago desceu alguns andares.A tela apagou.Fiquei encarando meu próprio reflexo escuro no vidro da janela.Racionalmente, eu sabia.Uma mensagem recebida não era conversa.Qualquer pessoa podia mandar qualquer coisa para qualquer outr







