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Morena atrás do bar

Author: Leti DB
last update publish date: 2026-09-10 08:11:38

DORIAN

Henrique estava ridiculamente feliz.

Eu não usaria aquelas palavras diante dele, naturalmente. Algumas amizades só sobreviviam porque os homens aprendiam cedo a não verbalizar certas coisas.

Mas sem dúvidas ele estava.

Feliz de um jeito quase constrangedor.

De pé no nível principal da nossa boate, a Black Owl, com uma das mãos na cintura de Cecília e a outra segurando um copo que ele mal tocava, meu melhor amigo sorria para qualquer pessoa que atravessasse seu campo de visão como se tivesse acabado de descobrir pessoalmente o significado da vida.

Henrique estava de terno escuro, mas já tinha abandonado a gravata em algum ponto entre o brinde e a segunda rodada de cumprimentos. Cecília, ao lado dele, usava um vestido claro de corte simples e elegante, comprido o suficiente para transformar qualquer tentativa de Henrique de puxá-la pela cintura em risco calculado.

Ela tinha passado meses organizando aquilo.

Ele tinha passado meses dizendo que qualquer coisa que ela escolhesse estaria ótima.

Um método surpreendentemente eficiente de continuar vivo até o casamento.

O noivado aparentemente fazia aquilo com as pessoas.

Ainda bem que comigo não. Isso nunca aconteceria.

— Para de olhar para ele desse jeito — Amália comentou ao meu lado.

Amália afastou uma mecha dos cabelos loiros muito claros, que naquela noite caíam em ondas pelas costas. A semelhança entre nós sempre começava pelos cabelos e pelos olhos. Terminava normalmente quando ela sorria.

Os mesmos olhos azul-claros que em mim costumavam intimidar gente demais pareciam permanentemente mais acessíveis nela.

Até seu perfume era assim: floral, limpo, discreto. Muito Amália.

Desviei os olhos de Henrique para minha irmã.

— Que jeito?

Ela ergueu uma sobrancelha.

Era impressionante como, dividindo o mesmo útero por nove meses, Amália tinha saído de lá convencida de que também havia adquirido acesso irrestrito aos meus pensamentos.

— Como se estivesse analisando os sintomas de uma doença rara.

— Felicidade excessiva pode ser sintoma de alguma coisa. Olha pra eles.

— Está com inveja Dori?

— Não. Nem pensar.

Peguei meu copo.

— Você não está trabalhando hoje?

— Não.

— Uma pena.

Ela sorriu.

A Black Owl estava cheia, embora Henrique e Cecília tivessem restringido o evento a amigos, familiares e alguns convidados do nosso círculo profissional. Na prática, significava gente demais pro meu gosto.

Cecília tinha conseguido mudar o aspecto da boate sem tentar esconder o que ela era.

As estruturas escuras da Black Owl continuavam aparentes, mas luzes âmbar substituíam parte da iluminação habitual. Rosas brancas, folhagens verde-escuras e pequenos pontos dourados ocupavam mesas e balcões. Velas protegidas por cilindros de vidro acompanhavam as laterais do salão e, no nível principal, um painel com as iniciais de Henrique e Cecília marcava o espaço reservado para fotografias.

No bar, além do cardápio habitual, tinham criado dois coquetéis para a noite. Um mais seco, escolhido por Henrique. Outro vermelho, doce demais, feito com cereja porque Cecília gostava.

Eu havia criticado os nomes de ambos.

Henrique tinha mandado eu cuidar da minha vida.

A boate ajudava a dispersar o volume.

Três níveis interligados, pé-direito alto, mezaninos que permitiam enxergar o salão central, corredores laterais e iluminação baixa o suficiente para transformar qualquer pessoa em uma versão ligeiramente mais interessante de si mesma.

Eu conhecia cada metro daquele lugar.

Henrique conhecia melhor.

Era dele a maior parcela sentimental da Black Owl. Eu me limitava a investimento, decisões estratégicas e a lembrá-lo de que entusiasmo não substituía fluxo de caixa.

Tinha saído do hospital pouco depois das sete. Passei em casa, tomei banho, troquei de roupa e cheguei mais tarde do que prometera, mas ainda a tempo do brinde.

E pretendia ficar.

Era o noivado do meu melhor amigo.

Por ele, eu conseguia sacrificar algumas horas de sono. Afinal meu corpo aguentava muito mais que isso.

Meu olhar atravessou o salão novamente.

Uma mulher loira, próxima ao bar superior, encontrou meus olhos e sustentou o contato.

Bonita.

Muito.

Vestido vermelho, postura segura, provavelmente perto dos trinta. Eu a conhecia de algum lugar, embora não lembrasse de onde.

Ela sorriu.

Eu conhecia aquele tipo de sorriso.

Não havia promessa, expectativa ou complicação. Era uma linguagem bastante simples.

Fácil.

Talvez, mais tarde.

— Já escolheu?

Olhei para Amália.

— Do que você está falando?

— Você não me engana Dori. Você claramente tem um padrão. De mulher e de comportamento. E dizendo isso, não estou dizendo que acho certo e que concordo.

— Não escolhi ninguém.

— Claro. Você não me engana, sabe disso né?

Ela tomou um gole de espumante.

— Só está examinando as candidatas.

— Candidatas a quê?

— Você sabe.

— Não.

— Dorian, você olha para mulheres como quem escolhe um apartamento.

— Apartamentos costumam exigir mais detalhes e compromisso.

Ela soltou uma risada.

— Um dia você vai encontrar alguém que faça você se arrepender de falar essas coisas.

— Tenho trinta e cinco anos. Se ainda não aconteceu, as probabilidades estão a meu favor.

— Estatística não funciona assim.

Ela abriu a boca para responder, mas não ouvi.

Foi quando a vi.

Do outro lado do salão.

Vestido preto.

Óculos de armação escura.

Cabelos castanhos caindo soltos pelas costas.

O vestido marcava uma cintura estreita antes de acompanhar curvas que definitivamente não combinavam com a palavra discreta. Coxas fortes. Quadris largos. Braços torneados.

Nada nela lembrava o padrão alto e extremamente produzido que normalmente atraía meu olhar primeiro.

Ainda assim, meu olhar ficou.

Ela estava conversando com Cecília perto de uma das escadas, inclinando o rosto enquanto escutava alguma coisa. Depois riu.

Não foi exatamente sua aparência que prendeu meu olhar.

Foi o reconhecimento.

Eu já tinha visto aquela mulher.

Franzi a testa.

Mas onde?

Ela levantou uma mão para empurrar os óculos mais para cima e virou o rosto.

Nossos olhos se encontraram.

Por um segundo, nenhum dos dois desviou.

Ela fez isso primeiro.

— Hmm.

Ouvi Amália.

— O quê foi Dori? Quem você esta encarando agora?

— Ninguém mana, relaxa.

— Você falou “hmm”.

— Não falei nada, tem muito barulho aqui.

— Aquela você não está olhando como olha as outras.

Voltei a encará-la.

— Estou olhando exatamente da mesma maneira.

— Não está. Eu te conheço.

— E desde quando você classifica meus olhares?

— Desde sempre.

Ignorei.

Quando procurei a mulher novamente, ela havia desaparecido.

Melhor assim. Ela não fazia o meu estilo de qualquer forma.

Aceitei os cumprimentos de duas pessoas, conversei alguns minutos com um empresário que Henrique insistia em aproximar de nós e sobrevivi a uma discussão sobre expansão do grupo para outra cidade.

Vinte minutos depois, fui buscar água.

E a encontrei atrás do bar.

A mesma mulher.

O vestido preto continuava ali, mas agora os cabelos estavam presos de qualquer jeito e ela trabalhava como se tivesse sido contratada para aquilo.

Recebia pedidos.

Passava comandas.

Chamava alguém pelo nome.

Organizava copos.

Entregava uma garrafa para um funcionário e, simultaneamente, explicava alguma coisa para uma garota que parecia perdida.

Fiquei observando mais tempo do que havia planejado.

Ela não parecia nervosa.

Parecia irritantemente competente.

— Água com gás.

Ela virou.

Os olhos castanhos encontraram os meus através dos óculos.

Houve uma pequena pausa.

Tão pequena que qualquer outra pessoa talvez não percebesse.

Eu percebi.

— Só isso?

— Isso.

Ela pegou uma garrafa.

— Você trabalha aqui?

Enquanto abria a água, levantou os olhos.

— Geralmente sim, hoje, aparentemente por alguns minutos.

— Aparentemente?

— Vim como convidada na verdade.

Entregou a garrafa. E sorriu um sorriso leve. Definitivamente não aqueles que eu estou acostumado a receber das mulheres a minha volta.

Nossos dedos quase se tocaram.

— Mas a incompetência alheia alterou meus planos.

Olhei para os funcionários atrás dela.

— Parece grave.

— Uma ausência, dois atrasos e uma pessoa que ainda não descobriu para que serve uma comanda. Prognóstico reservado.

Eu dei um sorriso assentindo. Porque achei aquilo engraçado mesmo?

— Você trabalha com eventos?

— Geralmente quando me pagam, sim.

— E hoje?

Ela inclinou a cabeça.

— Hoje eu estou sendo vítima da minha própria incapacidade de ver uma coisa dando errado e não me meter.

Aquilo, por alguma razão, me divertiu.

— Então é trabalho voluntário.

— Poderia chamar dessa forma talvez.

Antes que eu respondesse, alguém chamou por ela.

— Mariana!

Ela virou o rosto.

Mariana.

Guardei o nome.

Quando voltou para mim, ergueu uma sobrancelha.

— Mais alguma coisa?

— Não.

— Ótimo. Porque tem sete pessoas prestes a me odiar bem atrás de você.

Peguei a água que tinha deixado no balcão.

— Boa sorte.

— Eu não acredito em sorte.

— Em quê você acredita?

Ela já se afastava.

Olhou para trás.

— Em planejamento. E em ameaças discretas quando planejamento falha.

Eu tive que rir, de novo.

Baixo.

Mas ri.

Voltei para Amália.

Minha irmã nem fingiu que não estava me observando.

— Mariana — eu disse.

— O quê?

— O nome dela.

Um sorriso lento apareceu no rosto de Amália.

— Eu sei.

— Claro que sabe.

— Conheço a Cecília. Já vi Mariana algumas vezes.

Olhei novamente para o bar.

— Como assim já viu ela? Quem é ela?

Amália apoiou o copo no balcão.

— Interessante.

— O quê?

— Há cinco minutos você não estava olhando.

— Amália só estou curioso.

Ela sorriu ainda mais.

— Estudante da UFSM. Amiga da Cecília. Trabalha com eventos. E, pelo jeito, conseguiu fazer meu irmão perguntar quem é uma mulher antes de perguntar se ela está solteira.

— Eu não ia perguntar isso. Ela não faz meu estilo.

— Claro. Bonita, trabalhadora, simpática, independente. E definitivamente não interessada em cair nos teus braços.

Ignorei.

Mas meus olhos voltaram para o bar.

Mariana estava rindo de alguma coisa que um dos funcionários havia dito. Próximo demais.

Ela não olhava para mim. Esperava o próximo para atender.

Aquilo me incomodou numa proporção completamente desnecessária.

— Quem é ela? — repeti.

E Amália, evidentemente, percebeu.

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