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Treze meses

Author: Leti DB
last update publish date: 2026-09-12 22:13:18

MARIANA

Eu precisava de ar.

Não porque estivesse passando mal.

Porque Dorian Eisenberg tinha uma capacidade irritante de ocupar oxigênio demais num ambiente.

Subi para o corredor lateral do mezanino, onde a música chegava abafada e o fluxo de pessoas era menor.

A iluminação ali era mais baixa que no salão principal. Fitas de luz âmbar acompanhavam a parede e o metal escuro do guarda-corpo refletia pontos dourados da decoração lá embaixo.

Mesmo afastada das caixas de som, eu sentia o grave da música vibrar pelo piso.

Apoiei as mãos no metal.

Gelado apesar do calor de janeiro.

Pelo menos alguma coisa naquela noite sabia manter a temperatura normal.

Encostei no parapeito.

Respirei.

— Excelente, Mariana.

Falar sozinha era um hábito perfeitamente saudável quando ninguém estava perto para responder.

— Vinte e três anos nas costas e agindo como adolescente.

— Costuma conversar consigo mesma?

Fechei os olhos.

Claro.

Virei.

Dorian estava alguns metros atrás de mim.

— Você está me seguindo?

— Sim. Vamos ser um casal de madrinha e padrinho certo. Precisamos nos conhecer.

A resposta veio tão facilmente que me desarmou.

— Ah.

Ele se aproximou.

— Esperava que eu negasse?

— Pessoas normais costumam fingir.

— Nunca aleguei normalidade.

— Isso explica algumas coisas.

Ele parou diante de mim.

O corredor pareceu diminuir.

O perfume chegou primeiro. Madeira, alguma coisa cítrica e o cheiro muito discreto de bebida.

Depois veio o restante.

A sombra dele praticamente cobriu a minha sob a luz lateral.

Precisava mesmo ter um metro e noventa e dois?

Um metro e oitenta já teria causado problemas suficientes.

O homem era grande.

Não grande de academia feita para fotografia.

Grande de verdade.

Ombros largos, braços grossos sob a camisa, altura suficiente para me obrigar a erguer bastante o rosto.

E eu tive uma ideia péssima. Muito péssima.

Queria saber como seria ficar ainda mais perto.

A resposta veio tão fácil que me desarmou.

Ele se aproximou.

— Esperava que eu negasse?

— Pessoas normais costumam fingir.

— Nunca aleguei normalidade.

— Isso explica algumas coisas.

Ele parou diante de mim.

— Você disse que já me viu antes.

— Disse.

— Quantas vezes?

— Não fiz uma planilha.

— Você faz Relações Públicas. Esperava dados melhores.

— Muito engraçado.

— Há quanto tempo você me observa?

Pronto.

A pergunta que eu não queria responder.

Desviei os olhos para o salão.

— Um tempo.

— Mariana.

— Você sempre precisa de números exatos?

— Quando alguém claramente está tentando escondê-los, sim.

Suspirei.

— Treze meses.

Ele ficou em silêncio.

— Treze?

— Não faz essa cara.

— Que cara?

— A de quem acabou de descobrir que tem uma stalker.

O canto da boca dele subiu.

— Eu não ia usar essa palavra.

— Mas pensou.

— Talvez.

— Então você lembra da primeira vez?

— Lembro.

— Eu estava onde?

— Numa festa.

— E eu falei com você?

Ri sem humor.

— Não. Você nem percebeu que eu existia.

Mas não exatamente porque ele não lembrava.

Porque eu lembrava demais.

— Eu estava trabalhando — falei. —você estava... existindo.

— Parece uma atividade pouco produtiva.

— Você foi muito eficiente nela.

Os olhos dele ficaram presos nos meus.

Calor subiu pelo meu pescoço.

Continuei antes de perder coragem.

— Depois eu te vi outras vezes.

— Aqui na Black owl?

— Algumas.

— E prestou atenção em mim.

— Observação faz parte de Relações Públicas.

— Claro.

— Não ri.

— Não estou rindo.

— Está, por dentro.

Ele realmente sorriu.

Balancei a cabeça.

— Insuportável.

— O que exatamente você observou? Me conta.

Essa pergunta era uma armadilha. Eu queria cair?

— Nada relevante.

— Mariana.

— Está certo. Hum, Você costuma ir embora acompanhado. Muito lindamente bem acompanhado.

A sobrancelha dele subiu.

Parabéns esperta.

Eu tinha acabado de revelar o nível da pesquisa.

— Isso te interessou?

— Não particularmente.

Mentira número dois.

— E?

— E o quê?

— Você falou como se tivesse continuação.

Olhei para a boca dele.

Droga.

Dorian percebeu.

De novo.

— Só nunca vi você beijar nenhuma delas.

Silêncio.

O ar pareceu mudar.

— Você realmente prestou atenção. Mas acontece Mariana, que eu não beijo.

Ele deu meio passo em minha direção. Tentei raciocinar sobre essa resposta dele. Não deu tempo.

Não recuei.

Talvez devesse.

— E isso? — perguntou.

— Isso o quê?

— O fato de eu não beijar.

Meu coração acelerou.

— O que tem?

— Você reparou.

— Reparei.

— E ficou curiosa.

— Talvez. Com certeza depois você deve ter sido muito produtivo com elas.

Boa Mariana, não devia ter dito isso.

Dorian inclinou levemente o rosto.

Minha respiração ficou superficial.

— E se eu disser que nada daquilo teve importância?

Eu podia sentir o perfume dele.

A proximidade.

O calor.

Treze meses.

Treze meses imaginando uma coisa tão idiota quanto a boca de um homem.

Eu não estava apaixonada.

Não conhecia Dorian o suficiente para isso.

Mas queria beijá-lo. Uma necessidade que parecia sede.

Queria beijá-lo desde antes que ele soubesse meu nome. Ou de saber sequer que eu existia.

E naquele momento me ocorreu uma coisa simples:

se eu esperasse que ele fizesse alguma coisa, talvez passasse outros treze meses inventando hipóteses.

Então parei de pensar.

Segurei a frente da camisa dele.

Dorian olhou para minha mão.

Depois para mim. Ao invés de fechar abriu levemente os olhos. Susto? Peguei ele desprevenido? Eu não podia recuar.

Por uma fração de segundo, ele não se moveu.

Senti os lábios frios contra os meus. Os olhos dele ainda abertos, presos nos meus, como se Dorian precisasse de um segundo inteiro para acreditar no que eu tinha acabado de fazer.

Meu coração despencou.

Talvez fosse isso.

O fim da minha ilusão.

Então uma mão grande encontrou minha cintura.

Puxei o ar enquanto ainda pude.

Porque, no segundo seguinte, Dorian respondeu.

De verdade.

A mão em minha cintura apertou e ele me puxou contra o corpo, fazendo-me recuar até minhas costas encontrarem o guarda-corpo do mezanino.

O metal pressionou minhas costas através do tecido fino do vestido.

Frio atrás.

Dorian inteiro quente na frente.

Péssima combinação para qualquer tentativa de raciocínio.

Atrás de mim, o salão inteiro da Black Owl se abria lá embaixo.

Luzes.

Gente.

Música.

Olhares que podiam subir de qualquer um dos níveis inferiores e encontrar justamente nós dois ali, expostos na borda interna do mezanino.

E havia ainda os outros andares acima, passarelas e sacadas voltadas para o salão central.

Em resumo: provavelmente metade da boate podia nos ver.

Lá embaixo, o salão continuava dourado e cheio. Vi uma bandeja passar, flashes perto do painel dos noivos, gente se movimentando entre as mesas.

Alguma pessoa provavelmente tinha olhado para cima.

Talvez várias.

Nem pensar que eu pararia por isso.

Pensando bem, se eu já estava cometendo uma idiotice, pelo menos faria direito.

Naquele momento, eu não me importei.

O mundo não parou.

A música continuou.

Pessoas continuaram existindo.

Só que Dorian Eisenberg estava me beijando de volta.

E isso pareceu importante o suficiente para que todo o resto virasse apenas cenário.

A boca dele era muito quente, firme, muito menos controlada do que eu imaginara. Ele mordia meus lábios como se fosse fruta e eu quis derreter. Mas aguentei firme para prolongar esse momento ao máximo. Parecia que a gente estava em camera lenta.

Quando nos afastamos, percebi que ainda segurava a camisa dele. Senti meus lábios muito vívidos e presentes. Pelo visto eu beijei com força. Toda a que eu tinha pelo menos.

Soltei.

— Desculpa.

Dorian respirava um pouco mais fundo. Olhar parecia levemente irritado. Ou talvez intrigado?

— Pelo quê?

Olhei para o tecido amassado entre nós.

— Sua camisa.

Ele baixou os olhos.

— Vou sobreviver.

Ri nervosamente.

Ele ficou me encarando no que pareceu longos 10 minutos. Será que ele não acreditava na minha audácia?

Silêncio.

— Então...

Nenhum dos dois parecia especialmente inteligente naquele momento.

— Mariana.

— Sim?

Ele me olhava de um jeito diferente.

Eu queria perguntar se tinha sido ruim.

Se ele estava arrependido.

Se eu tinha acabado de ultrapassar aquela regra. Quando ele disse eu não beijo, não pensei sobre isso. Estava inundada em coragem e desejo e não recuei.

Mas a coragem usada no beijo aparentemente tinha se acabado agora que ele me olhava dessa forma.

— Preciso voltar pra festa — falei.

Passei por ele.

— Mariana.

Parei.

Olhei por cima do ombro.

— Sim?

Dorian abriu a boca.

Nada.

Seu olhar caiu por um segundo sobre meus lábios.

Voltou aos meus olhos. Sem respostas.

Assenti.

Continuei andando.

Esperei treze meses por aquele beijo.

Levei menos de dez segundos para me arrepender.

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