ANMELDENMARIANAEu aceitei o capacete. Não houve nenhuma grande decisão escondida no gesto. Eu estava numa calçada sob uma tempestade, não havia carro disponível no aplicativo e o Hotel Valmont ficava perto o bastante para parecer uma solução razoável.Foi isso que repeti mentalmente enquanto seguia Dorian até a garagem. A moto era a Ducati. É claro que era. Depois de quatro meses sem vê-lo, descobrir que algumas coisas continuavam absolutamente previsíveis chegou a ser ofensivo.Dorian abriu um compartimento e tirou o segundo capacete. Colocou-o na minha mão sem tentar ajudar com o cabelo, com a bolsa ou com qualquer outra coisa que eu não tivesse pedido.— Ainda serve?Olhei para ele.— Minha cabeça não cresceu durante a tua ausência.O canto da boca dele se moveu no que parecia um sorriso contido.Prendi o cabelo de qualquer jeito, coloquei o capacete e subi atrás dele. A chuva atravessava parte da lateral da cobertura e já tinha molhado a barra do meu vestido. Segurei na alça traseira.Do
MARIANAÀs nove e trinta e dois da noite, Caio mandou uma fotografia do painel do carro acompanhada de uma mensagem dizendo que estava contabilizando meus dois minutos de atraso.Eu ainda estava diante do espelho da CEU tentando decidir se repetir o vestido preto da semana anterior configurava falta de criatividade ou apenas responsabilidade financeira quando Valentina pegou meu celular sobre a cama e respondeu por mim.— O que você escreveu?— Que você está descendo.Virei tão rápido que quase enfiei o aplicador de rímel no olho. Valentina não demonstrou nenhum arrependimento, apenas me entregou o telefone e pegou minha bolsa.— Eu não estou descendo.— Agora está.Dez minutos depois, eu entrava no carro de Caio com um olho possivelmente mais maquiado do que o outro e a certeza de que ter amigas era uma forma socialmente aceita de perder autonomia.Caio me examinou assim que fechei a porta.— Dois minutos.— Você sobreviveu.— Por pouco.Ele se inclinou para me beijar, uma das mãos a
MARIANAEntre o primeiro domingo de novembro e a última sexta-feira do mês, Caio entrou na minha rotina sem que nenhum de nós anunciasse isso.Não houve conversa sobre o que éramos. Também não teve pedido de exclusividade, fotografia de casal, apresentação oficial ou qualquer uma dessas coisas que costumavam transformar duas pessoas em um casal oficialmente definido. Ele simplesmente começou a aparecer com mais frequência. Às vezes me esperava depois da academia porque já estava por perto. Em duas quartas-feiras levou café até a Antunes quando tinha reunião com Henrique na região. Numa noite ficamos quase uma hora dentro do carro discutindo se uma pizza com milho podia ser considerada comida digna até eu perceber que já tinha passado o último ônibus e ele precisar me levar até a CEU.Nós também nos beijamos.Bastante.Eu ainda não sabia exatamente onde colocar aquela informação dentro da minha vida, mas meu corpo parecia menos preocupado com classificação. Já conhecia a pressão da mão
DORIANQuando a ligação terminou, eu continuei com o telefone junto ao ouvido por alguns segundos, como se Mariana ainda pudesse dizer alguma coisa depois do silêncio.A tela já mostrava a chamada encerrada.Eu tinha conseguido falar dessa vez. Alemanha. Tratamento. Clínica psiquiátrica. Hospital no Brasil. Palavras que, semanas antes, pareciam impossíveis tinham saído da minha boca com uma eficiência quase clínica.Até Mariana perguntar:— Você correu risco?Eu sabia a resposta.Sim.Uma sílaba. Nada além disso.Mesmo assim, eu fiquei em silêncio.Baixei o telefone e apoiei os cotovelos nas pernas. A sala de chamadas estava vazia, iluminada apenas por duas luminárias de parede e pela claridade fraca que ainda entrava pela janela. Novembro tinha começado naquela semana, e a Alemanha já escurecia cedo o bastante para me irritar.Quando eu cheguei ali, no início de agosto, ainda precisava de ajuda para atravessar alguns corredores sem transformar a caminhada numa prova de resistência. A
MARIANANo primeiro domingo de novembro, Henrique queimou a primeira leva de pão de alho e tentou culpar Gustavo pela churrasqueira.Setembro e outubro tinham passado sem qualquer grande anúncio. Acho que foi justamente por isso que demorei a perceber o quanto minha vida tinha mudado dentro deles. Eu continuava indo para a psicóloga, trabalhando, pegando ônibus, treinando, pagando cento e dezenove reais de academia com uma dor bastante concreta no bolso e aprendendo que alguns dias conseguiam terminar sem que eu soubesse absolutamente nada sobre Dorian.Eu ainda estava tirando o chinelo na porta dos fundos quando ouvi a discussão. Cecília atravessou a cozinha carregando uma travessa de salada, ignorou os dois homens e me apontou com o queixo para a bancada onde havia refrigerante, cerveja, suco e uma garrafa de água com gás que provavelmente custava mais do que eu costumava gastar num almoço inteiro no RU.— Pega o que quiser antes que eles comecem a agir como se assar carne fosse alg
DORIANEu tinha preparado três frases.Nada particularmente brilhante. Não pretendia fazer uma declaração, pedir que Mariana me esperasse nem transformar quase um mês de silêncio em alguma coisa aceitável através de uma ligação internacional. Queria começar pelo que ela tinha direito de saber e, se conseguisse manter a conversa em pé, descobrir o resto enquanto falávamos.Estou na Alemanha.Estou fazendo tratamento.O que aconteceu não foi culpa sua.Escrevi as três numa folha da agenda naquela manhã porque, aparentemente, aos trinta e cinco anos, depois de conduzir reuniões com dezenas de pessoas, comunicar diagnósticos difíceis a famílias e entrar em salas cirúrgicas sabendo exatamente qual era a minha função, eu precisava de um roteiro para ligar para uma mulher de vinte e três anos.Passei o dia inteiro achando aquilo ridículo.Mesmo assim, não joguei o papel fora.A diferença de horário com o Brasil me obrigara a deslocar meu acesso ao telefone naquele dia. A equipe não fazia que







