Mag-log inBill chegou em sua casa andando tranquilamente. Ele estava aéreo. Pensava sobre o anel, tanto quanto qualquer outra coisa. Incluindo o envelope que recebera. Mas desta vez, a caixinha dos correios foi como dar um sopro de memória. Ele puxou sua mochila para a frente e abriu o zíper, pegando o envelope amarelo e o analisando com mais atenção. Ele o abriu.
"Levei tempo demais pensando se escreveria esta carta ou não. Talvez tempo suficiente para comprovar que o que sinto é real, mas a verdade é que eu possa, até certo ponto, compreender o que você faria se soubesse disso. Então... bem, eu não sei se eu chegarei a entregar esta correspondência, mas caso aconteça, peço que tente entender. Eu gosto de você. Desde aquele dia no colégio... Bom, você sabe onde me encontrar.
Com amor, Samara."
Bill sorriu. Era estranho receber cartas assim. Todavia, ele ficou preocupado com aquele nome. Ele amassou a carta e o envelope, colocando-os em um cesto de lixo que havia ali próximo de sua casa e que sua mãe costumava depositar os resíduos às sextas-feiras. Ele não entendeu o que aquilo dizia, mas foi o suficiente para deixá-lo incomodado. Ainda que sua mente buscasse, ele não se lembrava de nenhuma Samara a não ser... Ainda parado do lado de fora, enquanto os finos flocos de neve caiam em sua touca e casaco, ele puxou o anel que estava em seu bolso e o olhou com atenção. "O que você fazia lá?", perguntou para si mesmo antes de entrar em sua casa. Naquela altura, Bill apenas assimilou tudo, mas ainda que Daniel, Samara e seja lá quem estivesse por trás daquilo, fossem os nomes que permeavam sua mente, ele sentia que nada daquilo fazia total sentido.
Bill subiu para seu quarto, tão rápido que sua mãe nem percebeu que ele havia chegado. Ele colocou sua mochila sobre uma cadeira e retirou sua touca e casaco, ficando com poucas roupas. Em seguida, se virou para a cômoda que havia ganhado do seu avô — o vovô Casey que o fez há anos —. Entretanto, sobre o belo mobiliário de madeira, havia uma velha pulseira. Era a mesma que Bill colocou junto ao corpo de seu amigo-cão Pirulito, na última semana. Aquela azeda, estranha sensação de angústia por duvidar de que fizera algo, que possivelmente não fez, se instalou dentro dele novamente. Bill se aproximou e pegou a pulseira, confirmando. Era ela.
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Avenida Clyde, 340 — 1 de novembro, 20:15. Residência dos Bayer.
Melissa chegou até sua mãe, abraçando-a, com a mesma dor de cabeça que parecia persistir, como uma intrometida e inconveniente visita. A senhora Bayer era bonita o que explicava a beleza exótica de Melissa. Estava na cozinha preparando o jantar. Comiam esparguete às segundas. Era um velho ritual, que ela fazia desde que conseguiu um emprego como secretária na prefeitura de Liontown. Acreditava ter sorte na entrevista de emprego graças ao esparguete que comera na noite anterior.
— Como você se sente? — Amanda perguntou, apertando o abraço.
— Melhor... — talvez para Melissa, aquela foi a mais justa das respostas, ainda que ela se sentisse esquisita. Desde mais cedo, ela se sentia inquieta, como se o que ela vivera na manhã fosse algo real e para ela, acreditar nesta última hipótese ainda a deixava menos incomodada.
— Tratarei de comprar mais medicamentos para a dor, mas já vejo que está melhor. — Amanda estava cortando algumas cebolas e tomates. O cheiro da cebola, em específico, deixava Melissa meio zonza, mas ela tinha uma grande paixão por cozinhar. — Logo poderá voltar a estudar...
— Ainda está chateada comigo?
— Não diria chateada, mas... decepcionada — disse Amanda, fazendo uma pausa para colocar as cebolas em uma panela —, você só não deveria ter saído tão tarde.
— Eu sei... — naquele instante onde a mente de Melissa devaneava entre o que aconteceu na última sexta-feira e o cheiro ácido de cebola cortada bem na sua frente, o telefone que havia na parede da cozinha, tocou baixinho — ele estava com problema há dias, mas foi alto o suficiente para que Amanda ouvisse.
— Você poderia bater aqueles tomates no liquidificador para mim, por favor, enquanto eu vou atender o telefonema? — ela secou as mãos em uma toalha e foi até o telefone, puxando-o do gancho. — Alô?
— Sim, mãe. Sem problema — Melissa respondeu baixinho, mas sua mãe não ouviu. Ela foi até o liquidificador e observou a porção de tomates que tinham no recipiente. Eram cerca de quatro, mas estavam cortados ao meio e descascados. O liquidificador estava sem a tampa, e Melissa apenas colocou meio copo de água fervente, com uma colher de margarina. Ela olhou para a tomada para se certificar de que estava plugada e pôde confirmar que sim. Melissa olhou para a mãe, mas não prestou muita atenção na conversa, apenas como a boca dela se mexia irregular quando parecia estar apreensiva. Ela só aguardava o momento perfeito para tapar o liquidificador e ligá-lo, mas uma mosca caiu na água fervente, se debatendo em meio aos tomates cortados. Melissa resmungou mentalmente e enfiou o dedo no liquidificador, na intenção de retirá-la. Parecia uma tarefa difícil. O inseto não parava quieto. Ela mergulhou ainda mais seu dedo, sentindo as lâminas no fundo do liquidificador, quando sua mãe gritou.
— Melissa! — A garota puxou a mão de dentro do liquidificador e a encarou, assustada. — O que pensa que está fazendo? O liquidificador está na tomada! Quer perder a mão?
— Desculpe-me. Só queria retirar a... — a mosca estava na ponta de seu dedo. Ela bateu suas asas com pressa, e voou para longe — mosca. Essa mal agradecida nem me disse obrigada.
— Não faça isso novamente — Amanda falou baixinho, tapando o microfone do telefonema, ela ainda estava em uma chamada — agora me responda algo, você falou com o filho dos Bailey hoje?
— Edward Bailey?
— Sim, filha.
— Não o vi e nem falei com ele desde... — A dor na cabeça apertou, fazendo-a franzir a testa —, o que aconteceu com ele?
— Só um momento — sua mãe pediu, voltando a falar ao telefone e se despedindo. Ela colocou o telefone no gancho, com uma sensação de angústia. Pessoas costumavam desaparecer a todo o momento, mas Liontown era pequena e quando isso acontecia, era como se um familiar estivesse em apuros.
— O que aconteceu com o Edward? — Melissa perguntou novamente, mas dessa vez associando a cara de preocupação da mãe com algo terrível.
— Ele não apareceu na casa dele. Nem na casa do avô. Ele não foi visto por ninguém desde quando saiu do colégio hoje mais cedo — Amanda disse, preocupada, sentando-se à mesa e refletindo.
— Eu preciso falar com os meninos... — Melissa falou, determinada.
HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par
4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que
4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t
Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos
Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem