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PARTE 13: ESTRANHA SENSAÇÃO

Penulis: MAGNO NOVAES
last update Tanggal publikasi: 2021-12-24 21:11:49

"Aqueça-se com o calor do bem e jamais sentirá o frio da maldade."

— Magno Novaes

Bill apertou a mão de John de maneira firme, no fim daquele dia de aula, como se quisesse realmente passar a impressão de que ele desconsiderava qualquer tipo de atitude que o comparsa de Adam Wason, fizera com ele e com os fracotes do colégio Doctor John Dalton. Se ele pudesse dizer em palavras, mandava ele ir tomar banho no rio Wax, e depois mandava ele ir tomar lá mesmo, por ser cuzão por tanto tempo. Bill só esboçou um meio sorriso antes de sair e admirar o céu acinzentado que fazia fora da instituição. O frio se intensificou, mas ainda que ele procurasse, não conseguiu ver um floco de neve cair do céu e tocar sua pele. Ele gostava da sensação da neve tocando sua pele, pois de certa maneira, lembrava do Pirulito, quando ele encostava o nariz gelado em sua canela.

— Bill! — gritou Edward, correndo pelos corredores, enquanto suas botas faziam barulhos desagradáveis aos ouvidos do diretor Evans. Ele atravessou a porta e sentiu a mudança de temperatura, puxando em seguida a touca e cobrindo suas finas orelhas. — Eu não vou poder levá-lo hoje em sua casa, porque preciso correr para encontrar o vovô August. Ele precisa dos remédios que meu pai mandou comprar.

— Está tudo bem... Na verdade, eu queria levá-lo desta vez — respondeu Bill, voltando a olhar o tempo, mas contemplando a generosidade do amigo. Ele não achava que seria um fardo. Edward fazia por pura vontade. — Como está o seu avô?

— Talvez com gases, ou insone. Ou até mesmo insone e com gases, o que é pior — retrucou ele, ajustando a mochila nas costas e estendendo a mão para Bill. — Pega! Se você sabe de quem é esse anel, então fica com ele, mas você quase me matou de ansiedade, que tal você contar agora de quem é?

— Agora não é um bom momento. Se ficarmos aqui parados, vamos virar sorvete. Sorvete de meninos fracos. — Bill pegou o anel, colocando no bolso. O objeto estava gelado. — Se eu pedir para você guardar segredo, você faria?

— Sim. Com toda certeza!

— Ei pessoal! — Frank apareceu por trás deles, interrompendo o assunto. Ele estava abraçado a Julia. — Falei com o pai da Melissa ontem à noite, e ela está bem melhor.

— Suas palavras são como o vento que sopra a tensão que há em meu coração — Bill disse em poesia, dando um leve soco no braço de Frank. — Mas ainda me sinto culpado.

— Ei... Não se sinta assim. Você não teve culpa — Julia retrucou, mas ela não parecia falar a verdade e Bill percebeu, mas isso não o deixava incomodado. Seus amigos poderiam ser os melhores conselheiros, mas reconheciam um erro.

— Onde você estava Frank? — Edward, perguntou, sabendo que ele não apareceu lá, para resgatá-los do plano maluco de Bill contra Adam Wason.

— Eu estava bem atrás de vocês, mas o sinal da última rua fechou e vocês se distanciaram. Aí, bem... Eu não sabia qual era o caminho — se Frank pudesse pelo menos tê-los alcançado, assim ele pensou, talvez o que ocorrera naquela noite tivesse tomado um rumo diferente.

Bill engoliu a saliva, suspirando em desaponto pelos fatos que ocorreram, mas apesar de estar levemente aliviado por sua amiga, existiam espaços vazios onde eram preenchidos de perguntas das quais ele não tinha respostas claras.

— Eu preciso ir. Até depois, pessoal! — Edward falou, se distanciando deles e indo em direção a onde estava sua bicicleta. Bill o observou ir, sabendo internamente que Edward estava se sentindo culpado também.

— Eu também já vou indo. Até mais — BIll completou, cumprimentando Frank e sorrindo para Julia, que retribuiu o gesto.

— Até mais então — Frank deu alguns tapinhas na nuca de Bill. — Você não teve culpa. — Bill apenas saiu, caminhando até a calçada, fora dos portões do colégio.

_____________________

13:21 - Tarde de segunda-feira, 1 de novembro de 2007.

Edward estava pedalando em grande velocidade, cruzando ruas e avenidas, ao norte de Liontown, para chegar até a farmácia onde seu avô tinha convênio. Era um prédio alto e velho que ficava quase no fim da cidade, próximo aos bairros populares. Ali ele também compraria uma porção de balas, onde passaria a tarde devorando-as, e não podia faltar os remédios do vovô, mas... Edward mal sabia que ele também precisaria de medicação.

Assim que ele atravessou a ponte que passava por cima do rio Wax, Edward entrou por uma trilha em meio a um parque repleto de árvores altas — apesar de a maioria delas estarem sem folhas, ou com algumas folhagens, o ambiente ali era mais escuro —. O objetivo era cortar caminho, no seu atalho favorito, mas o pneu de sua bicicleta bateu com força em uma pedra amolada como um machado. Ele caiu ao chão, estalando num tombo feio. Edward sentiu o impacto de seu corpo fino bater contra as pedras que haviam no chão, lesionando seu peito e costelas. As coisas que haviam em sua mochila, que estava despercebidamente aberta, caíram no chão, rolando uma pequena ladeira e repousando em uma poça d'água. Edward viu a bombinha rolar uma porção de vezes antes de mergulhar na água suja e afundar, o deixando sem ar instantaneamente. Enquanto ele tomava consciência do que de fato aconteceu, contava em choramingo, as contusões pelo corpo, olhando em volta e parando os olhos no pneu empenado de sua bicicleta. Ele chorou baixo, ao sentir a ardência se espalhar pelo seu corpo e por saber que não conseguia respirar direito. Edward dobrou os joelhos e se levantou devagar, mancando. As calças que ele usava, estava rasgada no joelho, e ele percebeu o arranhão ardido que sangrava, como um pequeno rio vermelho-vivo. Aquela imagem o deixou tonto. Ele não gostava de sangue, especialmente se fosse seu sangue.

Edward se deslocou para o lado e pegou algumas coisas, mas escutou um rosnado de um cão e quando levantou a cabeça, confirmou o que sua mente associou quase que instantaneamente. Era um Rottweiler. Ele babava como um cão dos infernos. Seus dentes afiados e longos, sobressaiam os lábios de sua boca e pareciam alimentar em Edward, a ideia de perfurar qualquer tipo de coisa, incluindo seus finos braços e pernas.

Edward prendeu a respiração e se fingiu de estátua, ainda que suas pernas tremessem sem parar, como se ele estivesse tendo uma convulsão. O grande cão deu alguns passos à frente e começou a latir, alertando a Edward, que ali era seu território e que invasores deveriam ser punidos. Punidos com uma grande mordida.

— Vá embora! — gritou Edward, colocando para fora a dor que adormecia seu corpo. Ele olhou para os lados e pegou um graveto. Era curto, mas grosso o suficiente para apagar o animal, se ele soubesse onde atingi-lo, mas ele só calculou. Edward estava tenso demais para pensar no que fazer. — Eu tenho uma arma. — O cão parecia rir de seu vergonhoso discurso. Edward deu um pequeno passo para trás e tropeçando em uma pedra, foi novamente ao chão. A dor das feridas já criadas se intensificaram.

O animal deu mais alguns passos, como se os movimentos que Edward fazia com o pedaço de madeira, estivesse deixando-o mais estressado e furioso. Ele correu na direção do menino, que fechou os olhos, protegendo o rosto com as mãos. Edward contou os segundos para o ataque, mas a única coisa que sentiu foram flocos de neve cair sobre seu rosto. Logo em seguida o som de um tiro. Edward abriu os olhos rápido e ávido. Ele viu o cão correr como se tivesse visto o próprio capeta do mundo canino e se enfiou debaixo de uma cerca do outro lado da rua. Edward deu risada do desespero do bicho e voltou sua atenção à pessoa que espantou o animal. Era Daniel, e ele estava em pé, bem na frente de Edward. Ele estendeu a mão para o garoto.

— Você quase foi atacado pelo cão da Glória — disse Daniel, assim que Edward agarrou sua mão e se levantou do chão, ainda com dificuldade.

— Pelo menos você sabe quem é o dono do cão — Edward falou aliviado. Ele mancava, mas a adrenalina ceifou sua dor. Edward recolheu a sua bicicleta do chão e Daniel o ajudou a arrastá-la. — Você tem uma arma.

— Nunca se sabe quando estaremos em apuros — Daniel respondeu baixo, olhando para os lados e colocando a arma em sua cintura. — Vem. Vou te ajudar com esses ferimentos.

— Eu estava indo justamente para a farmácia — Edward acrescentou, olhando para a rua que se estendia até o bairro popular. Ela estava tranquila e vazia. Todos estavam focados em suas vidas e protegidos contra o frio em suas residências.

— Você é o filho dos Bailey. Amigo do pequeno Bill. Agora eu posso reconhecê-lo — Daniel falou com alegria, como se estivesse vendo um famoso em sua frente.

— Isso mesmo — Edward riu, mas desmanchou a cara quando os ferimentos doeram. — Eu preciso ir.

— Eu te dou uma carona. O meu carro está logo ali. — Daniel apontou para o furgão, em seguida, pegou na bicicleta do Edward, como se quisesse levantá-la. — Não posso deixar um menino machucado andar com isso por uma longa distância.

Edward entendia a dor que sentia e sabia ser verdade que ele não aguentaria mais dez metros. A dor estava ficando cada vez mais incômoda.

— Eu não deveria...

— Anda! Vamos lá! Acho que tenho medicamentos para isso — Daniel ergueu a bicicleta dele do chão e carregou nas costas, indo em direção ao carro que estava a alguns metros do fim do parque. Edward olhou mais algumas vezes para os lados, como se buscasse encontrar alguém que pudesse ver o que estava acontecendo. Ele tinha uma má sensação.

Ele acompanhou o homem que chegou no carro, já abrindo o fundo e colocando sua bicicleta. Ele trancou com força, batendo as portas num som seco que fez Edward dar um pequeno espasmo.

— Quando eu era da sua idade, eu tinha uma bicicleta como a sua... Meu Deus! Ela era linda — Daniel contou um pouco de sua história, completando com um caso em específico, que ele detestava. — Mas sabe como são os valentões... Eles jogaram a minha linda Brisa no rio Wax. Sim, assim eu a chamava. Brisa.

— Eu sinto muito... — Edward lamentou.

— Tá tudo bem! Faz muito tempo — Daniel sorriu, abrindo a porta do carro e fazendo um gesto para que Edward entrasse no veículo. Ele ficou parado por dois segundos, como se estivesse pensando se faria ou não aquilo. Mas seu corpo obedeceu de maneira involuntária. Ele entrou no automóvel.

Daniel deu a volta no veículo e entrou pela porta do motorista. Ele deu partida no carro e saiu.

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