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PARTE 16: O DIABO DE LIONTOWN

Author: MAGNO NOVAES
last update Petsa ng paglalathala: 2021-12-24 21:12:15

The Liontown Post, 27 de Janeiro de 1995.

PARANORMALIDADE OU HISTERIA?

No último domingo, 22 de janeiro (95), a jornalista Brenda J. Boudreau acompanhou o investigador particular Robert Phillips, do departamento de segurança pública do condado de Delaware, na reabertura do caso "Chama". Coletaram então, por entrevistas, os boatos confirmados mais tarde, por duas ex-estudantes do colégio Doctor John Dalton, de que Samara, a filha dos Morris, teria envolvimento direto com o acidente na instituição em 10 de setembro de 1977.

"Ela sempre foi muito isolada do resto dos alunos do colégio," diz Patricia, uma das ex-alunas que presenciou os eventos em 1977. É agora, uma mulher de meia-idade, com filhos da mesma idade que tinha quando tudo aconteceu. "Teve certa vez que senti pena dela. Pena de verdade. Uma menina mal arrumada, sem amigos e com um olhar. Aquele olhar parecia de medo e raiva. Contudo, a raiva parecia se sobrepor. Se ela estava na fila do refeitório e alguém falava algo com ela, ela simplesmente gritava como um animal. Diziam que ela era louca. Bruxa, talvez. Mas eu não acreditei em nada disso. Ela só era uma garota que precisava de ajuda de algo. Algo que nem ela conseguia explicar com suas ações."

"Eram as roupas," Brandie, a outra ex-estudante, inicia seu depoimento, atônica e ainda eufórica com o que acontecera. A informação parecia viva em sua mente, mesmo depois desses anos todos. "As roupas dela eram diferentes e os meninos tiravam sarro dela. A chamavam "noviça do celeiro''. Gritavam aos berros que ela comia fezes de cavalos do estábulo da fazenda onde morava. Assim eles diziam, sem um pingo de amor por ela. "Samara come bosta de cavalo". Teve um dia que queimei um dos meninos com um cigarro. Eu juro que não aguentei as insanidades que eles lhe falavam. Era tão desumano e imoral que me incomodava de verdade. Mas eu não conseguia fazer nada por ela. Ela era como uma carniça que costumava atrair urubus"

"Sim. As roupas eram sempre claras e limpas. Quase sempre branca ou bege. Como se ela tivesse acabado de sair da lavanderia. Nenhuma outra jovem se vestia como uma freira e isso era o que mais se destacava nela. Foi naquela mesma semana que os meninos jogaram ela numa poça de lama. Puseram lama nos ouvidos e nariz dela. Eu temia que ela morresse sem ar ou cega. Acho até justo o que ela fez com eles," Patricia completa, olhando para Brandie. "Ela sabia o que estava fazendo."

As meninas ficam em silêncio, enquanto Robert, o investigador, certifica-se de que o gravador está funcionando. Ele põe sobre a mesa, próximo a elas. "E o que exatamente Samara fez na semana seguinte?" pergunta Robert, dando impulso para o assunto que mais lhe interessa naquele momento. Eu apenas fiz anotações. Como jornalista, não sabia o que renderia, mas o caso dos Morris era muito conhecido e apesar de todos contarem as mesmas coisas, assuntos exclusivos também ganhavam destaque.

As meninas se ajeitaram na cadeira, meio desconcertadas Talvez sobre o que poderiam falar em seguida.

"Não foi justamente o que ela fez... mas, teria ela feito?" inicia Brandie. Eu pude vê-la arrepiar toda, só de lembrar. Ela passa a mão no braço esquerdo, aquecendo-o. "Foi um acidente e todos nós sabemos, mas talvez um acidente intencional. Samara estava eufórica naquele dia. Ela chegara ao limite. Não aguentava mais ouvir piadas de ninguém. Alison, a menina considerada a mais bonita do colégio e namorada de Edmund, o cara que vivia fodendo com a autoestima de Samara, simplesmente colocou um chiclete no cabelo dela. Mas colou pra valer. A massa gosmenta e com cheiro de morango estava tão encrostado no cabelo da Samara, que a diretora Emilly Dust, teve que cortar um tufo de cabelo da cabeça dela. Daí o que aconteceu em seguida foi o que levou a escola fechar por duas semanas." Brandie fez uma pausa. Patrícia olha para ela, como se pedisse que ela não continuasse, mas ela fez mesmo assim. "Alison estava na aula de química. Ela sempre foi boa em química. Usava essa habilidade para se gabar e transar com os caras do time de futebol americano. A tarefa era simples. Juntar elementos e formar outros novos. Alison estava na mesa ao lado da nossa. Patricia e eu estávamos do lado de Samara. Éramos uma espécie de barreira entre as duas. Eu juro por Deus que eu conseguia sentir a energia de Samara. Era como se ela estivesse pensando maldade sobre Alison, como se desejasse que ela explodisse ali mesmo. E foi quase isso que aconteceu." Brandie arruma a saia e os cabelos, tomando fôlego e continuando. "Alison derramou um agente químico sobre a mesa e um pouco sobre a roupa. Estava tudo sob controle. Essas coisas acontecem. Mas como se ela estivesse coberta de álcool e alguém chegasse com um palito de fósforo aceso, ela começou a pegar fogo. Eu vi com os meus próprios olhos. A chama sair da pele dela. Estava por todo seu corpo. Ela entrou em combustão espontânea, assim disse o professor depois de todo o circo de horror. Alison tentou apagar, mas ela era o fogo. Eu olhei para Samara. Eu conseguia ver no olhar dela. As chamas. As chamas estavam no olhar de Samara. Ela sustentava um sorrisinho de prazer. Orgulho. Esta era a palavra escrita nas costas do que era o corpo de Alison. Era o único pedaço de carne intacto. Era como um castigo superior. Ninguém acreditou naquilo. O professor tentou explicar dias depois, que ela tinha uma tatuagem ali com aquela palavra e isso era o motivo por ser o único lugar onde a carne não queimou, mas era a teoria dele contra todos os crentes do colégio Doctor John Dalton."

Robert faz algumas anotações e ainda cético, pergunta, "mas houve uma histeria coletiva, o que podem comentar sobre isso?"

Patricia se levanta, pega um copo d'água e toma. Ela está nervosa Parecia tentar se lembrar do que aconteceu naquela fatídica tarde do dia 10 de outubro de 1977.

"Os bombeiros estavam lá, meia hora depois. Recolheram o que seriam os restos mortais de Alison. Uma caveira, para ser mais precisa. O velho Austin, chefe do departamento de bombeiros de Liontown, comentou mais tarde que o corpo era tão leve quanto uma carteira. Os alunos estavam em choque. Alguns desmaiaram, vomitavam uns nos outros. Dá pra entender porque eles dizem ter visto o diabo. Naquela altura eles estavam pirando de medo. Eu mesma vomitara duas vezes. Estava péssima. O boato começou com Adriano, O Estrangeiro, assim chamavam ele. Ele disse que viu o próprio satã tomando água no bebedouro. Imagina aí, você vai tomar água e vê o diabo dos infernos lá, abaixado tomando água fresca e de repente ele te olha com a cara feia. Os gritos histéricos de Adriano foram o suficiente para o resto dos alunos verem a mesma coisa. Eu não via nada." Patricia pensa por um momento, talvez ainda inquieta com essa velha história, mas é Brandie que dá continuidade ao boato. "Eu vi Edmund mijar nas calças. Se um vagabundo daquele, metido a valentão se borrou todo, algo teve, mas Samara sumiu. Ela não estava mais lá depois de tudo. A diretora Dust liberou todo e decretou o fechamento do colégio até que os policiais pudessem investigar melhor o caso. Nunca entenderam o que aconteceu e o caso foi dado como acidente fatal. Nossa, foi notícia em tudo que é lugar." Robert suspira fundo, pegando o gravador. Me falou mais adiante que pensou em desistir da entrevista, mas voltou ao assunto com uma pergunta. "Samara Morris supostamente cometeu suicídio dias depois, você consegue dar alguma pista do que a motivou a isso?" Brandie ri um pouco, limpa as lentes de seu óculos e pega o gravador da mão do investigador Phillips, colocando mais próximo de sua boca. "Será que não está tão claro assim? A garota vivia um escárnio todo santo dia. Até eu piraria e me mataria. Mas esse lance de suicídio não me convenceu, em particular. Samara era muito religiosa, duvido que tentaria algo contra si mesma, mas... Ela tinha uma paixonite. As meninas acharam uma cartinha de amor que ela escreveu para Frederick Boutte. Ela falava até em ter filhos com ele. Alguém que planeja essas coisas não quer se matar. Olha, não sou psicóloga, mas é isso que eu penso."

"Obrigado pelo seu depoimento, Brandie e Patricia."

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