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PARTE 17: CULPA

Author: MAGNO NOVAES
last update publish date: 2022-01-15 04:34:45

A porta da casa do Smith estava aberta e uma fria brisa, percorreu pelos cômodos até atingir o homem deitado no sofá. Daniel deu um longo suspiro e despertou, como se fosse beijado pela própria morte. Seus olhos giraram em um grau nada convencional, até pararem fixamente apontados para o teto e sua grande mancha de umidade. Quando ele olhava para aquilo, sempre imaginava que a mancha formava a imagem de um coala. Um coala gordo e feio. Sentado, retomou a consciência do que estava acontecendo. Puxou a garrafa de uísque que ainda repousava em uma mesinha de centro e lamentou-se ao perceber estar vazia, se levantou rápido, num pulo de gato, ainda tremendo com o frio que entrava sem permissão pela porta aberta. Xingou a si mesmo mentalmente por sempre fazer isso e olhou com um breve movimento de olhos, as horas no relógio de pulso que tinha sob a manga da camiseta amassada que costumava usar diariamente, como uniforme. O homem se apressou para seu próximo destino. Aquele que ele sabia muito bem.

A van estava estacionada do lado de fora da cerca que rodeava sua casa. Ele não costumava dirigir embriagado, mas naquele momento se sentiu obrigado a fazer, por pura emergência. Ele foi até a cozinha, pegou uma caixa e colocou nos braços, em seguida, estendeu o braço ainda tentando equilibrar o peso que parecia forçá-lo a pender ao lado, e puxou as chaves do carro que estavam sobre a mesa. Do lado de fora, olhou para o clima severo que parecia dizer em bom som, que aquela noite seria uma grande tortura, e entrou no carro, batendo a porta com força, na intensidade do frio que sentia, na intenção pouco compreendível de se sentir melhor.

As ruas da pequena Liontown ainda estavam vazias. Não havia uma alma viva perambulando por aí, e se existisse, certamente estava em busca de abrigo.

Daniel resmungou mais um pouco sobre o tempo, mas aliviou a tensão ao sintonizar a sua estação de rádio preferida; a rádio da polícia. Com a mão, rodou o botão que sintoniza as estações na frequência exata, até ouvir com nitidez a voz metálica de uma mulher, era a policial Colin e ele sabia disso, afinal, foi a única viatura em que conseguiu acesso ao sistema de rádio. Pela qualidade do som, ela não estava longe.

“Encontramos uma bicicleta às margens do rio Wax… Estamos encerrando a investigação por hoje”. Daniel pisou no acelerador e saiu pela rodovia principal, passando frente a casa dos Backson e vendo os automóveis envolvidos no acidente de mais cedo. Eles estavam cobertos de neve. Daniel não ficou surpreso. Acidentes de carro naquela época do ano eram mais comuns que os ratos ladrões de grãos que costumam aparecer religiosamente toda primavera, e a cada ano, mais famintos e agressivos.

Smith virou o volante rapidamente, enquanto reduzia a velocidade, entrando em uma estrada de terra. Se levantasse um pouco da cabeça e olhasse para o final do monte da rodovia principal, ainda conseguia ver a placa que dizia: “Você está deixando Liontown”. Mas não necessariamente. Era a zona rural da cidade. Daniel gostava de zonas como aquela, pois se lembrava da feliz infância com os pais, mas algo o deixava incomodado em certos momentos. Ele recordava que viver no campo foi o motivo de brigas na casa onde ele morava. Sua mãe estava farta de morar na zona rural e desejava poder viver na cidade, mas o senhor Smith não queria isso. Acreditava ficar doente toda vez que passava mais de uma semana em centros urbanos. As brigas aconteciam sempre quando os planos davam errado e Amanda, reclamava mais uma porção de vezes, que era tudo culpa do maldito campo, onde nada de especial poderia acontecer. Ela acabou fugindo com um caipira do oeste de Kentucky, para a surpresa do marido. Talvez ela detestasse mesmo o campo, ou o velho Smith. A segunda opção soou verdadeira até o dia de sua morte, há dois anos.

Daniel voltou a atenção na estrada e como era difícil percorrer aquelas regiões durante o inverno. Ele olhou para a frente, até onde sua vista alcançava, e uma velha casa surgiu em seus olhos, como um borrão que ficava cada vez mais nítido. Aquela casa.... Era a antiga fazenda dos Morris. A ligação com a família foi sutil, mas extremamente importante para entender o que aconteceu. O homem estacionou o carro antes da cancela que limitava a entrada principal e observou com atenção a ex propriedade da família Morris — ex, pois, agora ela era de Daniel. Comprara há dez anos, onde viveu meia década com o pai até o dia em que ele foi conhecer o céu —. Os Morris tinham um velho conhecido da família que tomava conta de tudo, mas estava velho demais para continuar ali e as lendas por volta da propriedade atraíam muitos curiosos e isso estava deixando-o pirado, então, passar aquela propriedade para a frente foi a melhor coisa que ele poderia ter feito e assim o fez.

O homem desligou o motor do carro e abriu a porta, sentindo o frio congelante assar a ponta do seu nariz quase que instantaneamente. Ele puxou a caixa que estava sobre o banco do passageiro e saiu do automóvel. A casa parecia falar algo que só os ouvidos culposos poderiam ouvir, e Daniel parecia entendê-la.

Na propriedade e a alguns metros da casa, ele virou de leve a cabeça para o lado, evitando olhar para as janelas, pois temia ver algo que justamente parecia ficar ali. É estranho afirmar o motivo da repudia, mas sentia-se no dever de cuidar do lar, ou, pelo menos, estar lá.

Daniel subiu a curta escada que ligava à varanda pouco empoeirada e foi até a porta principal. Meteu a mão no bolso e puxou um molho de chaves, tão geladas quanto as pontas avermelhadas de seus dedos. Equilibrando a caixa na coxa, destrancou a porta, enquanto orava mentalmente algo inaudível e entrou, fechando-a. O interior parecia ser mais frio que o exterior e ele não se importou. Um grunhido miúdo e abafado, seguido de alguns barulhos ecoou no ar e parecia sair de um quarto distante, mas Daniel não demonstrou medo. Ele seguiu o som. Vinha do porão. Ao chegar na porta do ambiente, ouviu-se com mais nitidez pequenos gritinhos, abafados.

— Calma! Eu trouxe comida — Daniel falou brevemente, sem abrir muito a boca. Colocando a caixa no chão e empurrando a porta destrancada.

Ele desceu as escadas até chegar a pessoa deitada ao chão, coberto por um velho cobertor. Era Edward. Daniel retirou do bolso um isqueiro e acendeu uma luminária a gás, que estava sobre uma mesinha ao canto do final da escada. — Está ficando realmente frio — Daniel disse, acendendo a luminária e colocando-a do lado de Edward que exibia um olhar de desprezo e raiva. — Deixa-me tirar essa mordaça, mas já adianto, gritar não vai adiantar. Não tem vizinhos a 2 quilômetros daqui. Vai começar uma grande tempestade de neve e com certeza, não haverá carros perambulando por aí, então, peço que colabore.

Edward balançou a cabeça em uma afirmação, enquanto uma lágrima escorria pelo seu rosto. Daniel retirou a mordaça que cobria a boca do garoto e apertava o aparelho extrabucal que usava. Aquilo o impossibilitava de respirar direito Ele sempre foi alérgico a poeira e seu nariz estava mais entupido que pia de banheiro público. Ele puxou o ar com gosto, antes de olhar para Daniel e xingá-lo tão fortemente, que toda a geração da família Smith poderia ser amaldiçoada.

SEU GRANDE BOÇAL FILHO DA… — Daniel tapou a boca dele, com força.

— O que eu falei sobre não gritar, hein? Você quer ficar sem comer? Se você quiser, eu posso deixar você morrer de fome. — Daniel ameaçou, retirando a mão de sobre a boca de Edward, assim que percebeu que o garoto havia entendido o recado.

— Por que você me trouxe aqui? O que você quer? — O garoto fez suas indagações. Ele estava com medo e assustado — você disse que iria me ajudar. Eu confiei em você!

Daniel se levantou e andou em círculos, ainda meio zonzo da bebida que tomou mais cedo, porém, ele só estava se sentindo mais culpado, toda vez que imaginava na loucura que estava fazendo.

— Eu preciso ser honesto com você… Eu sinto muito. Não vou te machucar, mas você é muito importante para um grande evento — Daniel falou com esperança, com o mais profundo olhar de insanidade.

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