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PARTE 19: MICRO MISSÃO

Autor: MAGNO NOVAES
last update Fecha de publicación: 2022-01-22 19:30:23

No corredor vazio e quente, devido ao sistema de calefação que aquecia o ambiente, ele andou apressado pelos corredores, mas não queria ir ao banheiro. A desculpa era uma maneira dele sair e executar uma micro missão: chegar à biblioteca. Bill sabia haver computadores e impressoras lá. Não sabia ao certo porque queria imprimir a foto de Daniel Smith, mas faria, como parte de sua investigação.

Havia dois corredores principais e ambos davam acesso aos banheiros, contudo, na ala esquerda era o banheiro masculino e na direita, o feminino. Na ala direita também havia a entrada principal para a biblioteca. Era uma grande sala inserida no coração da instituição. Um local, como um quarto secreto, sem janelas. Havia apenas fileiras e mais fileiras de estantes de livros de todos os gêneros, tamanhos e cores. Bill encostou em um armário quando ouviu passos ecoantes de alguém que parecia vir em sua direção. Não havia desculpa para ele estar naquele corredor, exceto se desejasse acessar a biblioteca, mas sem permissão, isso seria difícil. Uma das secretárias da diretora passou por ele, enquanto olhava uma pilha de papéis em seus braços. Eram exames. Ela passou por Bill como se passasse do lado de um arbusto seco e estático e parece não ter percebido a presença dele. Ele se sentiu orgulhoso de sua sutil invisibilidade. Havia outro corredor, com uma porta de empurrar, que dava acesso ao pátio, mas naquele corredor de meio metro de comprimento havia um bebedouro, estrategicamente colocado ali, para receber os alunos sedentos das aulas de educação física que aconteciam na quadra da zona norte. Bill se apressou e foi até o bebedouro, observando enquanto passava, o interior da biblioteca. Ele viu a bibliotecária atrás do grande balcão, e sabia ser difícil que ela fizesse um favor para ele sem uma ordem ou autorização Ele tinha que invadir o local e fazer por ele mesmo. Bill tomou um gole d’água e pensou no plano. Se ele se arrastasse, como uma cobra, frente ao balcão e acessasse um dos corredores de estantes de livros, certamente a bibliotecária não o enxergaria. Vai ser isso. Pensou ele. Bill chegou ao canto da parede, e se agachou, colocando as mãos e joelhos no chão, como um bebê prestes a fugir da sala-de-estar para a área de serviços, na esperança de mexer na maior quantidade de objetos que encontrar pela frente, mesmo que sua mãe o alerte que não era permitido. Bill levantou a cabeça devagar e viu ela, lendo algo, como uma sábia sentinela do mundo do conhecimento. Ele tornou a abaixar a cabeça e quando já estava com parte do corpo na biblioteca, colocou seu peito no chão, que estava gelado, mas limpo, e se arrastou devagar. Ele sabia que ela não tinha uma boa audição, mas a visão da mulher era melhor que a de uma águia e um pequeno movimento em seu campo de visão poderia chamar a atenção facilmente. Bill se arrastou com dificuldade, ficando vermelho. Culpou a si mesmo por ter uma péssima coordenação motora e desempenho. Talvez se desse mais atenção às aulas de atividade física do senhor Lins, assim pensou, não estaria mais empacado que uma vaca no brejo. Bill colocou os antebraços no chão e começou a puxar seu corpo para a frente, cada vez mais perto do corredor e da infinidade de livros. Uma vez ali dentro, seria mais fácil de se esconder dela, até que a mulher pudesse sair e ele fizesse o que tinha que ser feito. Não parecia demorar muito. A bibliotecária pegou algumas folhas que estavam saindo de uma impressora, as bateu sobre o balcão para deixá-las por igual e saiu de trás de sua fortaleza, indo em direção à porta e saindo. Ela passou a chave na porta antes de ir, na intenção de bloquear o acesso aos alunos. Bill sentiu uma leve dor de barriga por estar fazendo algo de errado. Ele se apressou, foi até o computador mais próximo, que tinha em uma parte, onde apenas equipamentos eletrônicos, como computadores, impressoras e materiais de estudo, existiam, e se sentou à cadeira de uma das mesas, colocando o pendrive em uma das portas USB do computador. Os arquivos carregaram lentamente, enquanto ele batia o pé no chão, olhando para a porta. Bill abriu as três imagens e fez o comando de impressão, apertando as teclas de atalho de “CTRL” e “P”. A impressora deu um pulo, seguido de um barulho seco. Ela começou a puxar as folhas de papel, lenta, mas eficazmente. Bill cambaleava os dedos sobre a mesa, desejando que aquilo fosse rápido o suficiente para ele sair dali. Já estava no meio da folha quando o inesperado aconteceu. A fonte de energia do colégio caiu. Ele estava no escuro. Foi possível escutar um urro dos alunos, empolgados com o fenômeno que era comum naquela época do ano, principalmente quando se estava nevando muito, mas Bill lembrou-se que era um dia de sol e que algo além poderia ter acontecido. Ele chacoalhou a cabeça e se desfez das teorias da eletricidade e voltou sua atenção à folha de papel pela metade. Ele a puxou com força e sentiu ela emperrada à máquina. Com algumas sacudidas, ela deslizou para fora. Bill não conseguia ver muito bem. Estava escuro. Ele puxou o fino aparelho celular que carregava em seu bolso e apertou qualquer das teclas, acendendo uma luz fraca da tela. Ele apontou a luminosidade do dispositivo para a folha e viu que a foto estava pela metade, mas que mesmo assim, ainda era possível ver o rosto de Daniel, do busto para cima. O jovem sorriu quando sentiu ter cumprido a missão. Agora precisava sair dali. Bill puxou o dispositivo de armazenamento e tornou a colocá-lo no bolso. Ele se levantou com menos cuidado, não se importando em fazer barulho. Caminhou até outro corredor e olhou mais uma vez para a folha de papel, que parecia brilhar no escuro. Ele tirou do seu campo de visão e a sua frente, Bill conseguiu ver o inesperado. O que não era possível ser explicado, senão sentido na alma, com requintes de medo e ansiedade. Era o Pirulito. Ele estava bem diante dele, em pé e o encarando. A luminosidade que vinha da porta, fazia com que os únicos raios de luz, fraca, mas vívidos, atingissem e o deixasse mais visível. Bill esfregou os olhos, não acreditando no que via.

— Pirulito?

O cachorro começou a rosnar, e a latir. O animal deu mais alguns passos à frente enquanto Bill deu outros para trás. Ele arrastava em uma das patas, um lençol branco, como a neve e o garoto pôde se lembrar do que ouvira há alguns dias naquela chamada perturbadora.

— Você não é real — Bill esfregou os olhos mais uma vez e pegou um livro de sobre a prateleira e jogou na direção do animal. Ele continuou a rosnar e o pior estava por vir. O animal começou a ficar cada vez maior, se deformando na medida que crescia. Bill caiu de bunda no chão, perplexo com o que via. O bicho agora era uma grande besta canina de grandes e afiados dentes, com orelhas compridas e olhos extremamente claros, que pareciam brilhar, como dois vagalumes —, mas que porra é essa?

Bill virou-se e correu, tão rápido que sentiu seus pés atingirem seu traseiro. A fera o perseguiu. Havia muitos corredores dos quais se enfiar e se esconder, mas se ele não fosse rápido o bastante, a fera poderia pegá-lo. Bill imaginou-se sendo devorado por aquilo, como se soubesse que aquilo era real, não uma imaginação, mas duvidou de si mesmo. O garoto entrou como uma flecha em um dos corredores e continuou no pique. Tinha agora adrenalina suficiente para dar-lhe força e energia para correr até seu quarto, mas a intenção de Bill era se esconder da fera. Ele escutava as patas bater sobre o chão de porcelanato, em um som fino de ranger, como se as unhas estivessem sendo arrastadas no chão. Unhas tão grandes e afiadas que poderia rasgar sua pele como uma folha de papel. Bill entrou em mais um corredor, esbarrando-se em uma filha de livros que caiu ao chão. Ele mudou o curso e entrou em outro corredor. Eles pareciam infinitamente longos. Ainda era possível escutar o rosnado e o som do bicho correndo e caçando-o. Bill viu uma escada de madeira que dava acesso ao mezanino da biblioteca onde havia mais livros. Era uma escada como a de um sótão e que se puxasse, poderia ser dobrada. Bill pensou, se ele fosse rápido o bastante para subir a escada, acessar o andar de cima e puxar a escada, poderia deixar o bicho lá embaixo. Era alto demais para a fera escalar. O garoto calculou o plano, tão rápido que seu professor de matemática se orgulharia. Sem avaliar as possibilidades de falha, Bill correu naquela direção, mas uma coisa colocou-se à sua frente, vinda de um corredor e o agarrou com as mão. Era Tommy-balão.

— Oi, Bill! Não quer brincar com seu cãozinho? — A coisa perguntou, apertando-o forte pelos braços. Bill não conseguia escapar. Ele estava diante do seu pior pesadelo. Ele cheirava a podridão, tão podre quanto todos os bueiros e esgotos de Liontown. Bill temia enlouquecer só de olhar aquela grande cabeça semi-transparente de olhos e dentes afiados. O jovem fechou os olhos e rezou que aquilo fosse só um pesadelo. Tommy o virou de costas e mostrou a grande besta, que vinha devagar, salivando de fome e sede de sangue de meninos medrosos como ele —, ele está tão sozinho sem você.

Tommy empurrou Bill, que caiu de joelhos no chão e a fera correu em direção do garoto, rosnando. O garoto fechou seus olhos, enquanto choramingava. Esperando o pior. Mas algo aconteceu… O urro dos alunos cobriu o ar, e Bill rezou que fosse a energia que tivesse sido restaurada. Ele falava devagar, para si mesmo, algo que pudesse deixá-lo bem, enquanto esperava o ataque, mas nada aconteceu. Ainda de olhos fechados, ele esperou mais um pouco o ataque. Mas a única coisa que ele ouvia era o falatório dos outros alunos. Bill abriu seus olhos devagar. A eletricidade havia sido restaurada. Não havia monstros da escuridão, nem feras das trevas. Tudo estava em seu lugar. Bill virou-se rapidamente, olhando em volta. Acontecera de novo.

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