로그인Liontown. Residência dos Lewis, verão de 1994.
Todos os verões, Eva e Larry tiravam férias de uma semana, de seus trabalhos monótonos para aproveitar a estação que se iniciava vívida. Eles costumavam ir para a casa dos pais da matriarca da família, que era em uma fazenda na cidade vizinha, quase que em divisa com Liontown, se não fosse separada pelo rio Wax, que se encontrava com outro famoso rio da região (Warmwater), e que vinha do leste do Estado. Bill amava isso. Gostava de ir para a fazenda, ver bichos e insetos que ele acreditava que só existiam nos programas de tevê. O jovem garotinho de quatro anos, tinha as melhores habilidades quando o assunto era, insetos e desenhos. Se ele pudesse criar seus próprios besouros, certamente faria. A criatividade dele estava no ápice. Entretanto, o passatempo dele era mesmo rabiscar tudo que enxergava pela frente. Eva o presenteou com um caderno de desenho e uma porção de lápis de colorir, na esperança que ele mantivesse sua atenção e criatividade nos papéis e esquecesse de suas lindas paredes.
A família Lewis começou a ser formada em 1987, quando Larry trabalhava como vendedor de veículos na Ben’s Cars. Larry acreditava que sua vida fora de ladeira abaixo, desde que decidiu largar os estudos na universidade estadual de Idaho para ir morar em uma pequena comunidade em Montana — impulsionado pelo velho sonho de conhecer a região e se conectar com algo que nem ele sabia ao certo o que era, mas que pulsava dentro dele —. Não demorou muito para que ele retornasse para Liontown, sem esperanças, sem grana e sem a resposta para o que ele queria compreender. Ele prometeu a si mesmo que faria o que teria de ser feito desde então. Aceitou, após grande esforço, que a busca pela resposta para a vida, não estava por aí, embrenhada em alguma floresta nas montanhas de Montana, ou pouco provavelmente, nos quilos de erva que consumira em um único ano. Talvez a resposta para as questões da vida, aquelas que a maioria das pessoas tem, e que muitas das vezes nem para para dar ouvidos, seja mesmo continuar questionando, porque se você tiver todas as respostas, certamente compreende tudo, e se assim for, então não há espaço para seguir evoluindo.
Larry gostava de trabalhar para o senhor Ben. Para ele, era até agradável. O velho empresário tinha um problema de memória e Larry aproveitava isso, de maneira um tanto desonesta, para escapar das últimas horas do turno noturno, pois sabia que ele esqueceria no dia seguinte. Vender carros nunca foi seu grande dom, mas, ou fazia, ou teria que trabalhar com o tio Austin na velha estofaria em troca de alguns trocados. Larry ficava com dor de estômago só de lembrar, porque se recordava da adolescência, onde tinha que fazer o serviço por favor. Seu ego estava inflado demais para querer voltar a fazer aquilo após anos. Para um jovem de vinte e dois anos, ainda havia muito a ser vivido e ele concordaria com isso, na última escapadinha noturna daquela mesma noite. Quando estava tudo pronto para fechar as portas e fugir daquele turno tedioso, duas horas antes do combinado, um fusca ano 1960, cor-de-abacate, parou frente a loja, deixando Larry irritado. Não costumava chegar ninguém depois das sete e se isso acontecesse, como naquele caso, seria o tipo de cliente que estaria ali por horas, todo enfeitado de perguntas, para então, no final da grande apresentação, colocar o melhor sorriso no rosto e dizer que voltaria outro dia. Larry arrumou os cabelos que caíam sobre os olhos e acendeu a luz que tinha recém-apagado. Uma parte dele queria fugir pelos fundos, e a outra gritava: comissãooo! Ele decidiu dar ouvidos à segunda voz. Estava precisando de dinheiro e se tivesse sorte, bateria a meta pela primeira vez em três anos. Ben era justo com seu único vendedor. Do velho VW Beetle cor-de-abacate saiu uma bela jovem de cabelos ruivos como a tocha flamejante do cigarro que ela fumava e por um momento, Larry a viu como um anjo descendo do céu, corrompida instantaneamente pelas drogas e vícios humanos. Os cabelos dela, brilhavam e balançavam com o vento, na medida que caminhava até a porta do Ben’s Cars. Ele saberia ali, naquele momento em que a saliva que escorria de sua boca, pingava sobre seu uniforme abatido, que ela seria sua esposa. Isto é, se ela aceitasse se casar com um cara babão como Larry Lewis. — Espero não estar incomodando — foi a frase que Eva usou no primeiro momento com ele, seguido de um sorriso inocente e sem muitas intenções. Ela buscava uma oficina. O carro que era de seu pai apresentava falha no motor. Se Larry tivesse aceitado as aulas de mecânica que o senhor Bens o ofereceu anos atrás, teria agora, a oportunidade de impressionar aquela garota, mas a única coisa que Larry pôde dizer naquele momento, foi as coordenadas da oficina mecânica mais próxima, com a sensação estranha de que seria a última vez que a viria, então, como se ele tivesse recebido uma intuição da quinta camada de sua mente infante mais sutil, ele se ofereceu a levá-la até lá, já que estava de saída. Ela aceitou com o mesmo sorriso que se apresentara e daquele dia em diante a vida de Larry e Eva mudariam para sempre.
— Aposto que você comeu o lápis azul, não foi? — o pequeno Bill rodopiou no tapete, se abaixando e procurando entre as patas de seu cão, Pirulito, o lápis que faltava para completar a caixa. Pirulito soltou um pum em resposta, afastando-se dele e se deitando em outro lugar. Bill conseguiu ver o lápis. Ele soube de imediato que o cão estava em cima do mesmo quando pegou o objeto e sentiu que ele estava febril. Lápis com febre são raros, pensou ele. A tevê que ainda estava ligada, era a única coisa que propagava som no ambiente. Os desenhos animados dividiam espaço com comerciais de produtos infantis. O garotinho puxou de sua mochila, uma folha branca e quase transparente, mas firme o bastante para aguentar os longos rabiscos. Em seguida, ele foi até a tevê e colocou a folha sobre a tela, observando a imagem quase opaca, através do papel. Sorriu quando percebeu poder usar a trapaça para desenhar algo, mas as imagens não paravam quietas. Bill olhou para o controle remoto e se lembrou haver uma função, em que era possível congelar a imagem da tela ao clicar em um botão. Ele decidiu testar. Com o controle em mãos, e com os dedos mais finos que minhocas de quintal. Bill apertou o botão desejado, congelando a imagem. Ainda era possível ouvir o som. Rapidamente, colocou o controle remoto no chão, pegou a folha de papel e pôs novamente sobre a tela da tevê, enquanto ouvia a música conhecida aos seus ouvidos. Era um comercial de cereal matinal, do famoso personagem Tommy-balão, estrelando Tommy na Terra dos Doces Perdidos, uma série animada onde o personagem com cabeça de balão e rosto sorridente, precisava achar os doces mais raros antes do final do outono, ou viraria estátua de pedra.
“Se você ver um esquilo feliz, pule uma vez…” Bill cantarolava a canção, enquanto imaginava alegremente, como seria viver na Terra dos Doces Perdidos, onde crianças podem comer guloseimas à vontade. Ele cobriu a silhueta do rosto de Tommy-balão e seu longo sorriso de felicidade. Ele tinha a impressão de que aquele, de longe, era o melhor desenho que fizera. Com a ajudinha da tecnologia, claro.
— Bill… — Larry entrou na sala, procurando pelo filho, que retirou a folha da tela no momento em que o pai o avistou.
— Olha o que eu fiz! — O garotinho foi até ele, erguendo a folha —, eu desenhei!
— Uau! Ficou incrível, filho! Agora junte suas coisas e se prepare, pois, estamos indo para a casa da vovó em dez minutos — disse Larry, saindo da sala e o deixando com o Pirulito.
— Pode deixar comigo! — ele sacudiu a folha no ar, correndo em direção a sua mochila e colocando tudo o que estava espalhado no tapete, no interior da mesma. Pirulito apenas levantou um pouco da cabeça, na esperança de Bill estar mexendo em algo saborosa, mas se desmotivou ao perceber serem os velhos e ásperos lápis.
A família Lewis tinha um Buick Estate Wagon 1990, popularmente chamado de Perua Americana. Larry adquirira quando recebeu o primeiro salário de contador do departamento de transportes rodoviários. Sempre que se lembrava como acabou entrando para o ramo, recordava vividamente sobre aquela noite, onde sua vida se cruzou com a de Eva. Ele poderia acreditar em milhares de hipóteses, mas só aquela que o fez pensar diferente sobre o futuro. Ele prometeu a si mesmo, buscar algo que pudesse garantir um bom futuro para sua possível família. Bem, ele conseguiu.
— Se eu me comportar posso tomar sorvete de morango? — Bill fez a pergunta que sabia que motivaria o pai a dar-lhe o que desejava. Entretanto, Larry estava esperto em relação aquele velho truque de persuasão.
O homem riu com a questão, pegando a mochila do garoto e colocando no porta-malas do carro, fechando-o em seguida — bem… — iniciou ele, pegando Bill no colo e o colocando em uma cadeira de segurança no banco de trás — se você for um bom menino, poderá ter até mesmo sua própria fábrica de sorvetes.
Bill ficou em êxtase, o que era duas míseras bolas de sorvete de morango perto de uma fábrica inteirinha? Salivava só de contemplar a imagem mental. — Verdade?
— Sim! Mas quando você estiver grande e com responsabilidades… — respondeu Larry. Bill pensou e interrogou quando viu que não sabia o que aquilo significava.
— Papai… O que é responsabilidade?
Larry se abaixou à altura da janela do carro e o encarou —, é a virtude dos responsáveis. E uma pessoa responsável, sempre responde por suas próprias ações.
— Acho que sou responsável — refletiu ele.
— Acredito que está no caminho certo — Larry disse, enquanto ligava mais uma vez para Eva, que estava em uma reunião do trabalho. Ela teria que ficar aquela tarde para levar o Pirulito no veterinário. Eles adiaram a visita ao doutor dos pets por semanas. Não tinha como adiar mais uma vez.
— Acho que sua mãe está realmente ocupada — completou ele. Desligando a chamada não correspondida —, iremos agora e esperaremos a mamãe para o jantar, combinado?
— E o Pirulito?
— Ele terá que esperar um pouco mais. Ele vai ao veterinário tomar as vacinas necessárias — Larry respondeu, entrando no carro e dando partida.
— Coitado dele! Acho que ele merece um sorvete também — assentiu o pequeno Bill. O menino puxou o desenho que fizera mais cedo antes de sair e analisou com orgulho — será que a vovó vai preparar algo?
— Acho que sim, Bill — Larry respondeu, dividindo perigosamente sua atenção entre a estrada que se estendia à sua frente e a lista de registro telefônico. Ele estava preocupado com a Eva. Havia mais de três horas que ele não conseguia contato com ela. Ele sabia que Eva costumava ligá-lo quando deixava o trabalho. Se ele estivesse certo, ela estaria atrasada em quarenta minutos. Larry estava se odiando por ser tão apegado e por se preocupar com algo que poderia ocorrer naturalmente —, cante algo, querido — continuou Larry, tornando a olhar o registro de chamadas. Haviam treze chamadas.
— Pai! — Bill gritou. A voz do garoto soou tão alto que Larry foi sugado abruptamente para a realidade, e a única coisa que ele fez naquele microssegundo foi, deixar o celular cair ao piso do automóvel e rolar o volante por completo, para a direita, na intenção de livrar o carro do que seria a traseira de um caminhão. Estava próximo demais. Eles colidiram em cheio.
HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par
4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que
4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t
Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos
Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem