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PARTE 18: O CARTEIRO

Author: MAGNO NOVAES
last update publish date: 2022-01-21 20:38:27

Na biblioteca, Melissa olhava impaciente as olhas no relógio, acompanhando com ansiedade o discurso amarrado de Bill Lewis e sua teoria de homem-do-saco.

— São quase sete da noite, Bill. Você pode ir direto ao ponto. O que você pensa que aconteceu com o Edward? Se você sabe onde ele está, é melhor você falar agora — Melissa disse, interrompendo Bill e levantando-se da cadeira. O ambiente estava aquecido. Era agradável estar ali, mas ela desejaria, mais que qualquer coisa, estar do lado de fora, procurando pelo amigo.

Bill enfiou a mão novamente no bolso, engolindo o nó que se destacava em sua garganta, ainda meio indeciso e confuso. Ele olhava para os lados com medo. Um grande e incessante estado de alerta, sobre a criatura que o perturbava, como um demônio de filmes de terror toscos e grotescos.

— Eu recebi uma carta… — Ele começou o novo assunto, despertando o interesse de Melissa. Julia e Frank pareciam cada vez mais distantes, mas aquilo também os despertou —, uma carta da Samara… Eu não sei se é justamente desta pessoa que se diz ser Samara. Mas era uma carta esquisita. E eu suponho que tem relação com o desaparecimento de Edward.

Melissa moveu o corpo e se sentou novamente à mesa, ao ponto da cadeira fazer um barulho algo ao arrastar as pernas no piso de porcelanato. A atendente olhou para ela, mas retomou sua atenção para o livro que lia.

— Você disse carta?

— Sim, um envelope amarelo com uma carta estranha assinada por Samara — concluiu ele, notando que ela também parecia interessada.

— Espera! Do que vocês estão falando? — Julia tentou acompanhar a conversa que, para ela, não fazia nenhum sentido. Frank parecia compartilhar da mesma dúvida.

— Eu também recebi uma carta estranha e eu não sei exatamente o que significava, mas eu acredito que alguém esteve em minha casa. Foi assustador — Melissa recordou o fato aterrorizante do último dia, focando a atenção no novo mistério que nascia ali — e se você estiver certo, talvez seja do mesmo remetente.

— Vocês estão dizendo que receberam cartas assinadas por Samara? A Samara Morris? A lenda de Liontown? Vocês estão ligados que estiveram naquele lugar bizarro e agora, pode ter um maníaco pregando uma peça bizarra com vocês? — Frank jogou todas as questões emergentes de sua mente, para fora, alertando-os para algo que eles já sabiam bem, mas que era de difícil compreensão. 

— Eu não deveria ter colocado vocês nessa. Eu sinto tanta…

— Culpa? — Completou Julia, amarga —, acho que fizeram mal em ter ido até lá.

— Paraí, pega leve com ele. Não sabemos o que rolou lá — Frank tentou defender o Bill, mas ele também estava confuso em relação às atitudes do jovem rapaz.

Bill afundou-se na cadeira, num reflexo ainda maior de vergonha e culpa, enquanto procurava internamente a melhor palavra para tentar manter aquela conversa saudável.

— Se alguém escreveu essa carta, só pode ser algum conhecido… — Completou Frank, inquieto —, talvez seja uma pegadinha do Adam.

— Então precisamos falar com ele. Ele não tem o direito de invadir a minha casa, e se descobrirmos que ele está por trás dessas cartas bizarras, ele estará em uma grande enrascada — Melissa olhou para o relógio, batendo o pé no chão, enquanto imaginava mil e um motivos para aquilo.

— Amanhã o encontraremos no colégio e iremos tirar isso a limpo — Bill falou, com as mãos no bolso. Ele apertou o anel e sabia ter outra teoria, mas estava confuso demais para expressá-la naquele momento.

_____________________

No dia seguinte, em uma manhã clara e iluminada, onde as poucas nuvens que apareciam no céu, desapareciam tão rápido quanto a paciência de Bill, o garoto se preparava para mais um dia de aula. Ele se jogou na cama e colocou sua cabeça para baixo, olhando debaixo da cama. Ele esticou os braços e dedos para pegar os sapatos que pareciam se esconder dele, todas as manhãs, principalmente quando ele estava atrasado. Bill os puxou assim que os sentiu. O jovem colocou rapidamente nos pés e foi até a janela, para fechá-la, quando viu através da mesma, Daniel Smith. Ele estava colocando algumas correspondências na caixinha dos correios. Bill correu até seu guarda-roupa e pegou uma câmera, que havia adquirido na última liquidação do feriado de páscoa. Era simples, mas tinha uma boa ampliação (zoom). Bill fotografou Daniel, uma porção de vezes. Sempre reparando através do visor da câmera, se as imagens obtidas estavam boas. Em seguida, removeu o cartão de memória da máquina e inseriu em seu computador, transferindo as imagens para um pendrive. Sua mãe chega à porta de seu quarto no mesmo instante.

— O café está na mesa. Você está atrasado, Bill — disse ela, naturalmente, sem ao menos perceber a reação de suspeita que ele estava naquele momento.

— Certo! Eu já vou descer, mãe — foi sua resposta. Bill respirou fundo. Queria perguntar algo, mas não queria chamar a atenção da mãe, mas fez mesmo assim —, mãe.

— Sim! — respondeu ela, voltando à porta e o encarando.

— Onde a senhora conheceu o senhor Smith — perguntou ele, concentrando-se em não mover muitos músculos faciais. Sua mãe era ótima em descobrir coisas suspeitas.

— Mm… Um amigo do colegial — ela sabia muito bem que respostas curtas, poderiam desmotivá-lo às questões complexas —, algum problema?

— Problema? Não! Só curiosidade mesmo — Bill sorriu, se levantando da cadeira e retirando o pendrive com os arquivos de imagem —, estou descendo em seguida.

— Quando tivermos a oportunidade, te conto melhor sobre como foi nosso primeiro contato — disse ela, sabendo que não importava o motivo, falar sobre aquilo não teria importância. Ela sabia que o filho estava crescendo e certas questões que antes não eram tão frequentes, vez ou outra, estavam sempre em circulação —, te espero lá embaixo.

Quando Bill terminou seu café da manhã, ele foi imediatamente impulsionado a acessar a caixa dos correios. Tinha um pensamento corriqueiro, que lhe dizia que ali, poderia encontrar mais um envelope misterioso e se assim fosse, ele tinha agora, provas de que Daniel poderia estar envolvido com aquilo e com algo a mais… 

Bill puxou a porta da caixa, colocando a mão, como uma criança que rasga os papéis de presentes. Correspondências, publicidade, conta de Internet… pelo visto não havia nada de especial ali o que o deixou aborrecido, mas ele não desistiria. 

Assim que Bill chegou ao colégio Doctor John Dalton, ele foi direcionado para a aula de biologia da adorável senhora McGee. Diferente da professora de artes, ela era tão tímida quanto uma marmota cega, mas sabia quando era a hora de falar e se abria a boca, absolutamente conseguia transmitir a mensagem com maestria. Bill se sentou no final da sala. Não era de seu costume, mas é que lá, ele poderia viajar em seus próprios pensamentos sem ser interrompido por ninguém. Melissa, Frank e Julia estavam a duas fileiras, e pareciam dizer telepaticamente para que ele se juntasse a eles. A aula de artes da professora seria logo em seguida, e ele não tinha relação nenhuma para ser entregue, muito menos, ânimo para estar ali. A vontade do Bill naquele momento, era de ir até à sala vizinha, procurar pelo Adam, puxá-lo de lado e pressioná-lo a falar o que ele sabe acerca das cartas ou do desaparecimento de Edward Bailey. 

— Senhor Lewis? Você parece pálido. Estava falando sobre o processo de osmose. Você compreendeu? — perguntou a professora, olhando-o de baixo para cima, como se procurasse entender o que tinha de errado com o esguio garoto. 

— Eu sinto muito. Eu estava pensando… — Respondeu Bill, tranquilo. 

Todos riram. 

— Ora. Então desligue essa cachola pensante e volte para à terra. Temos um exame na semana que vem — ela o repreendeu. 

— Sim, senhora. 

Bill olhou para Melissa, que estava de costas, observando-o, como se visse um bicho enjaulado. Ela tinha pena. 

— Senhora McGee… — Continuou Bill, fazendo-a parar e se virou para sua direção —, preciso ir ao banheiro. 

Ela revirou os olhos ajustando os óculos na ponta do nariz. 

— Não demore… — respondeu ela, retornando a atenção ao quadro-negro. Bill se levantou, passando apressado pelos amigos que o acompanhavam com os olhos penosos. Bill não disse uma palavra.

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