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PARTE 23: JOHN ACORDA

Author: MAGNO NOVAES
last update Petsa ng paglalathala: 2022-02-12 22:58:59

Todo garoto sabe que deve enfrentar seus medos algum dia, cedo ou tarde. Alguns medos são como pequenas pedras que carregamos na mochila, que pesa com o tempo. Muitas das vezes você tem duas opções: ou as usa como arma para atacar suas ameaças ou deixa com que elas te levem para o fundo do rio. Quando Bill atravessou uma das portas do Colégio Doctor John Dalton naquela manhã estranha e fria de um princípio de inverno rigoroso, talvez ele não soubesse ainda, mas estava iniciando uma guerra contra seus maiores medos.

____________________

Tem um local em quase toda instituição, seja ela de ensino ou não, esquecido e inabitável. Um pedacinho de espaço onde nada de extraordinário poderia acontecer, mas que de alguma forma parece atrair certas criaturas que buscam um lugar como aquele para ficar. Pessoas como Bill Lewis. Se ele pudesse se esconder por toda eternidade, e não ser alcançado por Adam, Tommy-balão ou qualquer outro ser que tivesse a intenção de machucá-lo ou assustá-lo, ali seria o esconderijo perfeito (o canto do quarto de limpeza). No canto de todo quarto de limpeza há um armário vazio. Um armário que parece que foi criado por um deus que misericordioso queria que meninos medrosos e fugitivos se escondessem ali quando as coisas costumam apertar. Um armário cuja as proporções eram tão certas, que até um dos mais rechonchudos garotos poderia caber. Bill sabia da existência dele. Já usara mais de uma vez e sabia como permanecer ali, pois não bastava estar lá, você deveria ser o armário. Estar tão imóvel e quieto, que nem as baratas que perambulavam por ali, poderiam notar a sua presença.

Bill fez o que sua mente vinha reproduzindo, enquanto caminhava pelos corredores vazios do colégio. As imagens mentais ajudavam a executar planos, mas o deixava aéreo, o que é perigoso quando se está se escondendo. É necessário prestar atenção ao redor, no que se está fazendo. Bill chegou à porta do quartinho de limpeza e matutou mais um pouco sobre o plano e pensamento estranho que tivera enquanto caminhava até lá: primeiro você dobra à esquerda na ala dos corredores que ligam à diretoria, então, para ereto atrás de alguns armários que têm na esquina do corredor. Conta até três antes de olhar se alguém está por perto e dá uma espiadinha, bem discreta. Depois você corre, mas não tão forte, apenas uma breve corrida, como um gato, quase flutuando. Você não pode fazer barulho, jamais! Nenhum maldito barulhinho, nem um arroto, suspiro, ou pum. Por Deus, um pum não. E quando estiver no meio do caminho, estique os braços, eles devem chegar tão rapidamente à maçaneta da porta daquele quarto, quanto seu corpo. Por fim você a abre, porque geralmente ela está aberta. É para estar aberta… e quando você puxar a porta, ao ponto de sentir o cheiro de mofo e água sanitária com desinfetante de eucalipto, você apenas entra e a tranca atrás de você… Mas… E se… Bill tornou a pensar antes de virar a maçaneta. Um pensamento que ele não podia evitar, como uma diarreia traiçoeira: e se ele estiver lá. E se o Tommy apenas se sentir sortudo por eu ir até ele. Ele tem cara de alguém que gosta de desinfetante de eucalipto. Vai ser ali que eu vou morrer ou ficar doido. Vai ser na merda do quartinho de limpeza, com algumas baratas olhando. Primeiro ele vai me segurar pelos ombros, depois abrir a bocarra com aqueles dentes afiados como facas e comer o que seria minha cabeça, porque eu não sei se eu poderia chamar assim depois que ele a arrancasse, numa bocada só. 

Tic… Tac…

Havia um relógio na parede e os ponteiros pareciam conversar com Bill. Ele abriu a porta do quartinho e entrou, fechando-a. Tommy não estava ali. Era escuro, mas perfeito para se esconder. Bill sabia que o zelador costumava deixar algumas coisas ali, mas não no armário. O armário era o local criado pelo deus. Era quase invisível. O garoto abriu uma das portas que fez um barulho estranho, como se reclamasse mais uma vez, por ter que abrigá-lo ali. Bill colocou primeiro os pés, depois jogou seu corpo. O armário agora parecia um pouco apertado. Ele estava crescendo. Quando por fim colocou a cabeça para dentro, ele puxou a portinha e a trancou, deixando apenas uma fresta que exibia o lado externo, a porta do quarto. Ele teria que esperar.

_____________________

John estava no hospital municipal, na ala de emergência. Era ali onde pessoas acidentadas permaneciam, enquanto recebiam um maior acompanhamento. O que aconteceu com ele foi um acidente — era o que as pessoas acreditavam —, mas na mente de John, ele sabia que aquilo tinha um significado diferente. A carta que ele recebeu deixou claro que algo ia acontecer, a qualquer momento, e ele entendeu isso, só não sabia que aconteceria tão rápido. Ele foi  colocado em coma induzido, e sairia aquela tarde, apesar do drama de Adam em relação ao estado do amigo.

O quarto em que John estava havia uma janela, larga e límpida, que exibia tudo que havia lá fora. O estacionamento, na verdade. Foi um carro branco, com uma placa de Connecticut, a primeira coisa que ele enxergou quando seus olhos se abriram devagar. A segunda foi extremamente perturbadora. Ele viu uma garota que flutuava, se é que isso era possível. Ela era extremamente distante de tudo o que poderia ser real. Era como a morte, sendo a mensageira de algo que estava prestes a acontecer, logo. Tão pior quanto um carro atingindo em cheio o corpo de um menino fraco, quebrando uma dúzia de ossos. Ali estavam anos de opressão e ódio.

— Me tira daqui! — Disse John, se sentando na maca e olhando para a enfermeira que estava em pé ao lado dele. Ela não demonstrou surpresa ao vê-lo acordar. Era esperado — preciso ir.

— Calma! Está tudo bem. Você deve estar confuso — ela lhe disse, mas não ajudou muito. Ele ainda olhava para fora da janela —, que tal você se deitar um pouco.

John sentiu a dor por todo o corpo se espalhar em seu sistema, como se mil agulhas estivessem inserindo metal em seu corpo. Ele se tremeu e caiu duro para trás, aparado pelo travesseiro.

— Você consegue se lembrar do acidente? — a enfermeira perguntou, ajudando-o a se endireitar na cama. Ele gemia. — Não é muito incomum isso acontecer, mas teve sorte de não ter virado sopa. — Acrescentou ela, enfiando a colher de sopa na boca dele, enquanto soltava um sorrisinho.

— Eu não me lembro de nada… — John choramingou, calado quando a colher entrou na boca mais uma vez. Um caldo quente desceu por sua garganta.

— Deus é sempre justo. Imagina se você se recordasse do que passou? Não teria juízo para continuar a vida. Já vi pessoas ficarem loucas após acidentes graves. Os seus corpos costumam se recuperar, mas suas mentes… — ela faz uma pausa, enfiando outra colher cheia de sopa de legumes na boca de John, ele recebeu com uma careta. Havia brócolis e ele detestava aquilo… — essas viraram uma sopa de informações desconexas. Você tem medo da loucura senhor Backson? Eu tenho um pânico só de ouvir falar nisso. Imagina estar preso dentro de si mesmo, fora da realidade das coisas.

— Eu preciso ir…

— Como iria? Andando que não é. Você está sem pernas — respondeu ela, e John imediatamente puxou o cobertor que o cobria. Suas pernas balançaram. Elas estavam ali. Ela riu de novo. — olha, você as achou.

— Que tipo de enfermeira você é? Eu acabei de acordar de um coma — falou ele, agitado. Não queria ser grosseiro, mas também não queria ser motivo de piada.

— Sinto muito senhor, Backson. É meu dever fazer os pacientes se sentirem felizes — ela acrescentou, colocando outra colher goela abaixo.

— Você… — ele quase se engasgou —, vo-você está fazendo um ótimo trabalho. — John mastigou algo duro que quebrou quase seu dente. Ele fez uma careta de dor e desgosto. Só faltava ter engolido uma pedra. — O que há nessa sopa?

— Ah! Você não gosta? — perguntou ela, mexendo a colher de metal no prato e fazendo um barulho seco. Ela mostra o prato para ele. O conteúdo agora era vermelho sangue. — Sopa de dentes, sua preferida senhor Backson — ela mostrou um sorriso banguelo e sem vida, enquanto babava como um São Bernardo de burguês.

John gritou. Ele acordou do pesadelo lúcido.

Uma enfermeira se aproximou do jovem, verificando os sinais vitais e ele afastou seu corpo. Dor foi a única coisa que sentiu, depois do medo que parecia parte dele. Ele só tivera um sonho ruim. Agora estava desperto, estava quase bem, pensou a enfermeira que o atendia. Mas ele se sentia mal… Muito mal.

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