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PARTE 22: APENAS UM PLANO

Author: MAGNO NOVAES
last update publish date: 2022-02-07 00:28:44

Um vento frio e tímido era a única coisa que parecia se mover naquele momento, onde o silêncio era o grande ator da peça de horror que se iniciava.

— Talvez tenha. Eu estou tentando entender, tá legal… — respondeu Bill, tão sério quanto assustado. Adam se enraivou ainda mais e Melissa ficou apenas como um balão ao vento, sem rumo, prestes a encontrar a mais bonita cerca de arame farpado. Ela procurava nos olhos de Bill respostas que os lábios dele, não pareciam querer contar, mas ele fez, para sua surpresa — Daniel Smith. Há alguns dias, Edward me entregou este anel — ele retirou o objeto do bolso — disse-me que o encontrou no dia do ritual. Justamente próximo ao carro, que fora escondido nos arbustos que havia na estrada, talvez propositalmente para atrasar nossa saída ou para pregar uma peça. Acontece que esse anel é muito parecido com um anel que Daniel costuma usar. E antes que me perguntem como sei disso, eu respondo; minha mãe… ela é muito próxima a ele, e eu já estive com Daniel uma porção de vezes.

— Daniel, o carteiro? — perguntou Melissa. Adam ainda estava em silêncio. Se parecia muito com um vulcão prestes a entrar em erupção.

— Sim. E, eu sei que existem muitos boatos e histórias sobre muitas pessoas, mas não podemos seguir apenas uma teoria, mas fatos — Bill acrescentou.

— A droga do anel parece pouco fato para você? — Adam tomou o objeto da mão de Bill, como se toma o controle remoto da mão de uma criança que insiste com birra, assistir mais um pouquinho ao programa de tevê. — Você sabe que a bicicleta de seu amigo foi encontrada, não é mesmo? A essa altura eu não quero nem imaginar o que está acontecendo com ele. 

— Ele tem razão, Bill. Deveríamos contar para a polícia — Melissa, que estava triste e com dor na cabeça, ficou mais melancólica ainda. Se Adam não conseguia imaginar o que acontecera com Edward, ela podia e não era nada agradável.

— Não! — Adam exclamou, olhando para os lados e vendo os alunos que entravam na quadra de esportes. — Vamos pegar esse arrombado.

— Você está ficando maluco? Você acha que é detetive? — rebateu Melissa. — É a vida de um garoto em jogo. Não podemos brincar. Eu não sei qual o problema de vocês, garotos.

— Daqui que a polícia abra um processo de investigação contra o homem, seu amiguinho magrelo estará azul sob o rio Wax e vocês irão se culpar por não ter feito nada. É isso que você quer, Lewis? Que seu namoradinho seja morto por aquele filho da mãe?

O diretor Evans passou por eles enquanto comia uma maçã e olhou fixamente para os fedelhos — o que estão fazendo aí? Entrem no ginásio, agora!

Eles fizeram, desmanchando seus planos e caras de reflexão.

No centro da quadra havia um auditório e ali estavam reunidos alguns professores. Os alunos se espalharam sobre as arquibancadas, procurando seus lugares, como formigas em uma grande caixa de donuts. Bill, Adam e Melissa se sentaram ali mesmo, nas primeiras fileiras. Era uma mistura heterogênea improvável, que nem o professor de química poderia explicar, mas estavam em união, mesmo que não tivessem percebido ainda.

Bill olhou para o outro lado da quadra e viu Julia e Frank sentados e abraçados. Ela olhava para o trio com cara de desgosto. Talvez pensando no que Bill estava pensando em fazer. Ela podia observar a cara de um menino que pensava em algo. Pensava em algo estranho.  

— Alunos do Doctor John Dalton — o diretor Evans anunciou, tão alto que sua voz ecoou no teto do ginásio, como um trovão. Ele sentiu o comichão na garganta instantaneamente. Não havia energia para equipamentos de som. Aquele discurso natural era mais que necessário. Evans agradeceu mentalmente por fazer aulas de teatro quando mais novo, e que lhe proporcionaram potência vocal e presença. — Houve um corte na distribuição de energia de quase toda a região e não sabemos ao certo quando irão retomá-la. Eu não posso mantê-los aqui por muito tempo. Não para a vossa segurança. Vou pedir para retornarem para suas casas, com cuidado. Mas antes, quero informá-los sobre o caso do Edward Bailey, o nosso aluno. Ele desapareceu no último dia e apesar dos esforços da equipe de buscas e investigadores do departamento de segurança pública de Liontown, ainda não há novidades. Peço a todos que fiquem alerta. Qualquer informação é válida. Não hesitem em contribuir, mas aconselho; deixem as autoridades fazerem o que precisa ser feito.

Bill olhou novamente para Julia e ela estava olhando profundamente nos olhos dele, como se estivesse acessando a alma do garoto. Como se ela fosse alguém que lesse mentes e agora, estaria lendo os pensamentos de Bill e vendo como ele agiu erroneamente sem hesitar. Julia não estava muito longe. Estavam quase emparelhados, se não fosse os quase dezenove metros de quadra que os dividiam. Mas Bill, ele podia ver sua boca se mexer, como se estivesse dizendo algo: tic tac… tic tac… Ele podia ler os lábios dela. Não tinha certeza, mas sabia ser isso. Ele ficou tão arrepiado que precisou passar a mão nos braços mais de três vezes para abaixar os pelos que pareciam interagir com a energia de medo que ele sentia. Os olhos de Julia estavam vidrados, e o som no ambiente, enquanto o diretor Evans dava seu discurso, parecia cada vez mais distante. Agora Bill ouvia muito bem. Não havia sombra de dúvida para o que estava falando. Ela estava na cabeça dele; tic tac… tic tac… era possível ouvir até o som de um velho relógio, que roçava os ponteiros sobre seu eixo e fazia um barulho que o alertava para um tempo que se esgotava. Bill se levantou rapidamente de seu local, batendo suas pernas em Adam e saindo dali. Adam e Melissa foram atrás dele. Eles escaparam por uma das entradas que estavam abertas. Outros alunos já faziam o mesmo. 

— Você sabe o que fazer, não é mesmo? — perguntou Adam, enquanto tentava acompanhar os passos apressados de Bill em direção ao colégio. Ele estava tão atordoado com o que aconteceu há alguns segundos que não entendeu muito bem o que ele perguntara e apenas balançou a cabeça para o lado, buscando em Melissa confirmação sobre o que ele falara. — sabe ou não sabe?

— Daniel estudou aqui… — afirmou ele, depois de alguns segundos em silêncio. Agora ele parara frente à instituição, observando a grande porta de madeira que havia no topo da curta, larga escada de concreto. — Se você calcular as datas, verá que a maioria dos nossos pais e até mesmo conhecidos, possivelmente estudaram aqui. Incluindo, Samara Morris.

— O que a lenda da Samara tem a ver com Daniel? — perguntou Melissa, descrente. Ela tremia de frio e medo. Muito mais medo que frio. Era uma tremedeira dupla.

— Não é só uma lenda… — rebateu ele, olhando novamente para a porta. Ela era rígida como a mente de Bill naquele momento de confusão. — Se nós entendermos quem foi Daniel naquela época, talvez tenhamos alguma informação de quem ele é hoje.

— Estamos perdendo tempo — desabafou Melissa.

— Vocês não entendem… — Bill falou com choramingo nas palavras. O que poderia ser pior que um psicopata? Talvez um psicopata e um espírito sanguinário. — Existe algo sobrenatural nisso tudo. Nós despertamos algo quando fomos lá naquela m*****a fazenda. Agora essa coisa está atrás de nós e está usando pessoas para concluir seus atos.

Adam riu de nervoso, tentando equilibrar o sorriso com a cara de preocupação. — É por isso que te chamo de Bill Maluco — disse Adam, colocando as costas da mão frente a boca e dando uma mordida.

— Certo… — Melissa tentava ser a mais justa possível com a ideia, se lembrando agora, o que acontecera naquele dia. — Se realmente existe algo sobrenatural, a polícia não pode nos ajudar, mas não acho que um fantasma deu sumiço no Edward.

— Eu não disse que um fantasma sequestrou o Edward. Eu disse haver algo muito além do que vemos e está em curso. Se queremos entender isso, precisamos entrar agora no colégio e buscar informações reais sobre a vida de Samara e Daniel, ou de qualquer outro que possa ter ligação com isso — falou Bill, dando mais alguns passos e deixando-os para trás. Eles o acompanharam.

— Beleza! Vamos fazer isso então, depois, vamos procurá-lo — Adam estava disposto ao caos e desejava fazer algo que nem suas frustrações mais internas poderiam ser usadas como desculpa. Adam se lembrava onde estava a espingarda. Pensava bobagens enquanto falava. Ele estava tão perdido quanto Daniel Smith.

— Simples assim — disse Melissa, tornando a seguir seus passos —, não é mesmo? Só entrar, invadir a diretoria e procurar por algo.

— É melhor vocês ficarem — pediu, Bill. Ele sabia ser arriscado demais todos estarem ali. — Logo o colégio irá fechar e eu, sei por onde sair.

— Daremos cobertura, então. Só não demora muito. Estou ansioso para meter bala naquele desgraçado — Disse Adam, fazendo Melissa embrulhar o estômago. Havia repudia.

— Sossega o faixo, tá legal? — Melissa o cortou, e Adam apenas recolheu sua empolgação, sabendo que não valeria a pena discutir sobre aquilo. — Ninguém vai matar ninguém. Bill, se apresse. O discurso está acabando. Você precisa encontrar um esconderijo e aguardar todos saírem da instituição.

— O zelador estará aqui… Ele será minha passagem de retorno — acrescentou Bill, olhando para os lados e entrando no colégio. Melissa e Adam se afastaram.

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