LOGINBill viu o zelador entrar no quarto e deixar algumas chaves atrás da porta, em um suspensor. Ele prendeu a respiração. Já havia se passado cerca de quarenta minutos e naquela altura ninguém estaria mais em um colégio onde não havia eletricidade. A instituição era fria e escura. Um dia inteirinho ali, naquelas condições, poderia adoecer qualquer pessoa. Bill sentiu um movimento estranho em seus pés, como se algo estivesse se mexendo. Ele não quis pensar muito no que poderia ser. Porque se pensasse que fosse um rato, isso poderia deixá-lo preocupado. Os ratos que tinham no colégio eram do tamanho de raposas, e ainda por cima, havia boatos de que aquelas criaturas tinham o hábito de atacar humanos. Como fizeram com a cozinheira no verão passado. Primeiro ela teve um mal súbito e depois foi ao chão. A encontraram com um grande buraco em sua cabeça. Foi o estopim para o diretor Evans. Naquela mesma semana ele contratou uma empresa de dedetização. Eles fizeram o possível, mas o esgoto que passava debaixo de John Dalton e se ligava a grande rede de toda a Liontown, era como uma porta dos infernos, onde as mais horrendas criaturas passavam por ali, em meio à podridão.
Bill chutou a coisa e abriu a porta do armário. Ele saiu de dentro e quando estava do lado de fora, pôde perceber a mudança de temperatura. Estava mais frio. Ele não quis colocar a cabeça ali e ver o que era aquilo. Poderia ser pior que um rato. Poderia ser o mal que queria agarrá-lo pelos pés e levá-lo para o vale das almas perdidas.
O garoto sacudiu o corpo e o esticou, estalando os ossos, seguido de um bocejo libertador. Ele se sentiu inteiro. Bill foi até a porta e pegou o molho de chaves sem pensar duas vezes, colocando-o no bolso. Aquilo pesou, puxando um pouco de suas calças para baixo. Ele abriu a porta do quarto e colocou discretamente a cabeça para fora, observando o movimento caliginoso que havia ali. Era como ter parado em um filme de terror, onde todos haviam sido abduzidos por extraterrestres malvados. Lewis ouviu umas batidas distantes. Longe o suficiente para entender que o zelador não estava por perto e que tinha o caminho livre pela frente. Seria fácil? Nenhum pouco, mas ele poderia aproveitar os pequenos momentos de sortes que viam irregular, como ondas curtas de rádio.
Apressado e com pouca coragem de se colocar em situações de grande estresse, Bill andou até a porta da diretoria. Recolheu cuidadosamente as chaves de dentro do bolso e olhando para o grande número delas, pensou por um momento que levaria uma tarde inteira para encontrar a chave certa se elas não estivessem com adesivos que informam de onde eles eram. Bill olhou uma por uma. Banheiros masculino, sala dos professores, depósito… Ele olhava para os lados enquanto vasculhava as chaves, irritado por serem tão iguais… DIRETORIA. Bill deu um sorrisinho quando leu aquilo escrito em letras de forma e em negrito, do jeito que ele queria que fosse. Ele colocou a chave na fechadura e a virou tão depressa que temeu que ela quebrasse. A porta estava aberta. Dentro daquela sala escura, Bill conseguia se lembrar do pesadelo que vivenciou mais cedo na biblioteca e isso o fazia se sentir cada vez mais assustado. Mas ele sabia. Sabia que o medo era o alarme que indicava que ele tinha que fazer algo por ele. Lewis respirou fundo e puxou seu celular do bolso, iluminando o local. Foi até uma das prateleiras onde havia inúmeras gavetas e começou a vasculhá-las em busca de alguma informação que pudesse levá-lo até 1970. Acima da prateleira de gavetas, havia quadros com fotografias de alunos nos mais diversos momentos; formaturas, passeios e recordações. Eram inúmeras. Talvez se ele estivesse procurando por imagens, aquelas eram um prato cheio. Bill puxou uma cadeira e subiu em cima dela, passando a luz por todos os quadros, olhando-os devagar. O garoto viu um rosto familiar. Era sua mãe… Era o Smith também. Eles estudavam na mesma classe, mas… eram rostos de mais para afirmar que Samara pudesse estar ali. Ele não sabia como ela era. Bill fotografou o retrato dos alunos, focando no rosto de Daniel. Ele estava olhando para alguém.. Sim, ele olhava para uma garota. Bill seguiu a direção do olhar. Era uma menina de cabelos negros, tão tímida que era possível ler seu silêncio em seus olhos. Bill a fotografou também. 1976. Havia uma data no canto inferior. Não era uma foto de formandos. Era uma imagem de excursão para algum lugar. Bill desceu rapidamente da cadeira e tornou a buscar mais pistas nas gavetas, agora focado no ano de 1976. Havia pastas mas só tinham letras de A à Z. Bill deu um passo para trás e viu que as gavetas estavam numeradas. Ele estava olhando a de 1980. Ele levou os olhos como uma viagem ao tempo, sobre as gavetas da parte de cima. 1979, 78, 77… 1976. Bill empurrou a cadeira para o lado e subiu nela, puxando a maçaneta da gaveta. Estava trancada. Ele quase se desequilibrou com o sopapo surpresa. Olhou para os lados e bateu os olhos na mesa do diretor Evans. Certamente poderia ter alguma chave ali. Pensou rápido como o fogo que consome um milharal. Ele foi até lá, ainda tentando fazer o máximo de silêncio. Bill vasculhou a gaveta com a sensação de que estava cometendo um crime e aquilo perdurou até o momento em que ele puxou o que seria uma calcinha. Ele arregalou os olhos e começou a procurar. Viu um novo molho de pequenas e curtas chaves. Haviam etiquetas, como as outras. Ele agradeceu à direção pelo desempenho e organização. Bill subiu novamente na cadeira e abriu a gaveta, ao virar a chave Ele colocou seu celular na boca — sabendo ter em seus lábios algo que era mais sujo que um assento sanitário, e tão imundo quanto uma esponja de lavar louça —. Concentrado, ele foi direto na pasta com o grande “S”. Se Samara estivesse estudando naquela instituição naquele ano, ele certamente a encontraria. Sabrina, Samantha, SAMARA. Bill puxou a pasta para fora da gaveta. Samara Morris, estudante do terceiro ano. Havia uma foto dela. Era a garota que Daniel admirava. — Teriam uma ligação? — Bill sussurra para si mesmo, fotografando a ficha de informações dela. Um detalhe chamou a atenção. O nome do responsável dela estava riscado e havia um novo nome na frente; Dora M. Keith. Bill também fotografou o nome. Bill escutou alguns passos nos corredores externos que indicavam uma aproximação. Ele precisava ter pressa. Ele dobrou a ficha da Samara e colocou dentro de seu casaco, fechando a gaveta em seguida. Bill caçou um lugar para se esconder, mas o único provável esconderijo foi a mesa do diretor. Se ele ficasse parado debaixo dela, possivelmente não seria descoberto. Bill se agachou e entrou debaixo da mesa quando a porta abriu abruptamente. O silêncio que se estendeu era tão intenso quanto o nervosismo dele. Ele sabia que seria descoberto e que isso poderia deixá-lo em apuros. O zelador andou devagar, com uma lanterna em mãos. Ele iluminou os cantos da diretoria e parou em frente à mesa. Bill colocou a mão sobre a boca e tapou sua respiração irregular, sentindo uma desconfortável sensação de asfixia.
O homem ficou parado ali por cerca de três segundos. Ele saiu da sala, fechando a porta. Bill agora estava preso. O jovem saiu debaixo da mesa com a mesma sensação de asfixia. A sala parecia pequena, apertada e estranha. Bill acendeu a lanterna de seu telefone celular e iluminou as paredes, na esperança de encontrar alguma janela que poderia haver, mas não havia nada, senão uma grande maciça parede de concreto. Do lado esquerdo, havia uma estante com gavetas de arquivos. No canto superior, uma tubulação antiga e imponente. Um alívio percorreu o peito de Bill, por aquela ser uma tubulação antiga, pois os exaustores funcionavam na instituição desde quando ela fora fundada, e por sorte, eram largas. O jovem puxou a cadeira que usara antes e colocou no canto. Subiu com mais nervosismo que o habitual — suas pernas tremiam —. Esticando os braços, as alcançou com uma esperança falida. Estava fechada. Talvez ele já soubesse disso, só não queria concordar. Bill respirou fundo e começou a se controlar quando uma pequena crise se iniciava em seu peito. Era um medo de estar ali. Medo de não sair daquele local. Ele sacudiu novamente a grade de metal da tubulação e percebeu a movimentação estranha. Os parafusos estavam folgados. Com o celular novamente na boca, ele usou os finos e trêmulos dedos para retirar os parafusos que estavam só colocados em buracos frouxos e desgastados. Eles saíram como dente-de-leite de criança. Bill mediu o espaço daquela tubulação com uma única olhada. Seus ombros caberiam, mas seria tão claustrofóbico quanto estar ali. Bill se pendurou e entrou na tubulação, como um rato rato esperto. Talvez o maior rato de toda a instituição. Havia um longo corredor de metal à sua frente. Ele sabia que chegaria a algum lugar se começasse a se arrastar agora. Ele fez.
HOTEL HUSTER - CELEBRANDO A VIDAO Hotel Huster foi palco de grandes eventos durante os anos oitenta e costumava receber muitos hóspedes durante a alta temporada, mas os anos de glória do Huster estavam com os dias contados. Administrado pelo ex-banqueiro de Liontown, Chad J. Graham, os negócios pareciam ter atrofiado. Os moradores costumavam chamar o Chad de dedo de ouro, por ser bom nos negócios, mas aquele em especial, fora sua primeira e última investida no ramo da hotelaria. O hotel perdeu capital por 20 anos, antes de fechar as portas há dez anos. Agora, era uma construção inútil à beira da rodovia Clyde. Clyde era conhecida por cortar toda a cidade e ser um dos principais pontos de entrada e saída do município. Mas não tinha um ser humano sequer que saísse ou entrasse em Liontown e não reparasse o hotel. Ele ainda par
4 de novembro de 1977 - 16:30— Se você não falar para onde foi aquela retardada, pode ter certeza que eu tiro todos os dentes de sua boca e te mando para o céu, santinho — disse James, dando um soco na barriga de Paul. Tony segurava-o pelos braços, como alguém que segura um porco para o abate. — Fala!Paul puxou o ar para os pulmões e olhou para a floresta que havia logo depois da rua atrás do colégio. Era um aglomerado de árvores altas e densas. Era o caminho mais rápido se quisesse chegar à rodovia principal da cidade.— Ela foi para lá…— Maldita hora para ir pela floresta, aberração — falou James. Tony soltou Paul, que
4 de novembro de 2007Quando o opala preto que Adam Wason estava dirigindo parou frente a antiga casa dos Morris. Ele teve uma intuição esquisita de que Edward não estaria ali. O tipo de intuição que ele não poderia compartilhar com os outros. Ele achava que essas coisas só eram sentidas por mulheres. Sua intuição se intensificou ao perceber haver rastros de pneu de carro por toda parte. Se Edward estivesse ali, não estaria mais.— Será que chamamos a atenção? — perguntou Melissa, com uma preocupação evidente. — Aqui é muito silencioso.— Se chamamos, quero estar preparado e saber que estou armado — retrucou Adam, com orgulho. Um orgulho quase doentio.
4 de novembro de 1977.Ninguém quer morrer. Pelo menos é assim que a maioria das pessoas pensa. Temos um instinto de defesa e sobrevivência que evoluiu há milhares de anos e nos preparou para os piores cenários. Algo que Bill Lewis sabia muito bem. Lutar ou fugir, estas eram as duas opções interessantes quando a questão era apenas sobreviver, e Bill estava usando-as. Já Samara Morris, em seu íntimo, tinha uma certeza que era assustadora. O tipo de certeza que ela tinha medo de verificar para ver se era realmente aquilo tudo, pois sabia que poderia ser muito pior. Ela ia morrer. Assassinato talvez. Só não sabia quando, como e porquê, o que era péssimo também. Entretanto, ela tinha esperança, do tipo que a fazia viver e esquecer o inevitável. A esperança que ela encontrou t
Liontown. 4 de novembro de 2007Bill achou fácil convencer sua mãe a sair depois do almoço, pelo fato de que haviam prendido o suspeito do desaparecimento de duas crianças na região e de… Ele se esforçou para manter a imagem de Edward em um lugar seguro, mas ele só conseguia vê-lo flutuando de barriga para baixo, às margens do rio Wax. Isso o deixava mal. Mas era difícil de deixar de pensar em coisas ruins. Sua mente estava viciada em possibilidades negativas e ele se odiava por isso. Bill cruzou a avenida principal da cidade e se encontraria com Melissa e Adam depois dos trilhos da estação ferroviária de Liontown e ficariam ali debatendo as investigações. E entre fatos verdadeiramente concretos e imaginários, Bill e Adam estariam sempre divididos nas opiniões. Era o que cos
Edward estava algemado à cama em um quarto escuro com paredes azuis. Suas roupas eram elegantes e pareciam ser da década passada. Um suéter de lã de cor vermelha-escura cobria seu torso — na vestimenta havia um broche. Era uma pombinha dourada. — O jovem olhou para os lados quando acordou novamente de seu sono nada agradável e viu, agora que seus olhos se adaptaram à escuridão, que o ambiente estava repleto de fotos de uma garota. Era Samara? Edward sabia que sim. Até onde ele se lembrava, ele veio para a casa dos Morris e sabe-se lá o motivo, ele estava no quarto que intuitivamente soava ser de uma garota. De uma garota morta. Os olhos do garoto varreram o quarto, observando cada canto e com um receio que estava no centro de sua garganta, como uma bola de muco quando se está muito gripado. Edward então escutou alguns passos que faziam as madeiras do piso rangerem