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Querido diário

last update Data de publicação: 2026-10-04 08:36:53

Diário de Clarice

Querido e vagabundo diário,

Hoje eu cheguei à conclusão de que a solidão é uma amante cruel. Ela não b**e à porta, não pede licença e nem anuncia sua chegada. Ela simplesmente se instala. Senta-se ao seu lado durante o café da manhã, acompanha você durante o almoço e se deita ao seu lado quando a noite chega, ocupando um espaço tão grande que às vezes parece ser a única presença real dentro da casa. O mais curioso é que passei anos dizendo a todos que gostava de ficar sozinha. Passei anos repetindo que precisava de silêncio, de espaço e de distância das pessoas, como se isso me tornasse mais interessante, mais inteligente ou mais independente. Agora, sentada à mesa da cozinha com uma xícara de café frio e uma pilha de louças que estou fingindo não ver, começo a suspeitar que talvez eu tenha confundido independência com isolamento.

É engraçado observar como as pessoas imaginam a vida de uma psicóloga. Elas acreditam que somos cercadas de amigos, emocionalmente equilibradas e dotadas de uma capacidade quase sobrenatural de lidar com os próprios sentimentos. Se ao menos soubessem. A verdade é que passo meus dias ouvindo pessoas falarem sobre seus medos mais profundos, seus traumas mais dolorosos e suas inseguranças mais vergonhosas, mas quando volto para casa encontro apenas o silêncio me esperando. Nenhum paciente pergunta como foi meu dia. Nenhum deles quer saber se eu dormi bem ou se estou feliz. Eles entram, despejam suas dores sobre a mesa, recebem minhas palavras cuidadosamente calculadas e vão embora acreditando que sou uma espécie de porto seguro emocional. Mal sabem que alguns portos também afundam.

Talvez o pior da solidão não seja a ausência de pessoas. Talvez seja perceber que ninguém pensa em você quando você não está presente. É olhar para o celular e encontrar apenas notificações automáticas, propagandas irritantes e lembretes de compromissos. É perceber que o mundo continua funcionando perfeitamente sem a sua participação. Hoje fiquei vários minutos encarando a tela do telefone como uma idiota, esperando que alguém me enviasse uma mensagem. Qualquer mensagem. Um "como você está?", um "estava pensando em você" ou até um pedido de favor descarado. Qualquer coisa que servisse como prova de que existo fora da minha própria cabeça.

Mas nada aconteceu.

E talvez seja isso que esteja me incomodando.

Porque gosto de observar as pessoas. Gosto de estudá-las. Gosto de entender o que sentem, o que escondem e o que tentam desesperadamente negar. Entretanto, às vezes me pergunto se alguém já olhou para mim com o mesmo interesse. Se alguém já se perguntou como foi meu dia, quais são meus medos ou por que tenho a estranha sensação de estar assistindo à minha própria vida através de uma janela.

Talvez eu esteja sendo dramática.

Na verdade, tenho quase certeza de que estou.

Mas você é um diário. Seu trabalho é ouvir minhas reclamações sem me interromper, sem me julgar e sem sugerir exercícios de respiração para controlar a ansiedade. Honestamente, isso já faz de você uma companhia melhor do que boa parte dos seres humanos que conheço.

Por isso continuarei escrevendo.

Porque falar sozinha ainda parece menos vergonhoso do que admitir que estou cansada de me sentir invisível.

Com carinho,

Clarice.

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