FAZER LOGINQuerido diário,Eu senti falta disso. Senti falta de ouvir uma pessoa desconhecida sentar diante de mim e, em menos de uma hora, entregar voluntariamente pedaços da própria vida que provavelmente esconderia de qualquer outra pessoa. Senti falta daquela sensação deliciosa de receber uma história pela metade e precisar decidir o que existe por trás das palavras, de observar a maneira como alguém cruza as pernas quando mente, o instante exato em que desvia os olhos quando toca em alguma coisa que realmente dói, a pausa antes de responder uma pergunta simples demais e, principalmente, daquela pequena diversão que existe em tentar imaginar o que uma pessoa seria capaz de fazer quando ninguém estivesse olhando. Talvez isso seja uma coisa horrível para uma psicóloga admitir, mas eu sempre gostei dessa parte da profissão, porque existe algo quase irresistível em conhecer os segredos dos outros enquanto eles acreditam que estão apenas fazendo terapia.E a garota de vinte e quatro anos de hoje
Chego ao consultório antes do horário, cedo o suficiente para que o corredor ainda esteja praticamente vazio e o movimento do prédio seja composto apenas por funcionários começando a rotina, portas sendo abertas e passos apressados de pessoas que parecem ter alguma urgência que eu ainda não consigo sentir. Na mão direita, carrego um copo de café que comprei na cafeteria ao lado do prédio e que já está começando a esfriar porque, nos últimos dez minutos, fiz tudo ao mesmo tempo e nada direito. Coloco a bolsa sobre a cadeira, procuro as chaves enquanto seguro o café entre dois dedos, quase deixo o celular cair quando tento abrir a porta e, quando finalmente consigo entrar, bato o quadril na lateral da mesa, fazendo o líquido dentro do copo se agitar perigosamente. Paro imediatamente, olhando para a tampa como se pudesse convencê-la, apenas com a força do pensamento, a não deixar uma única gota escapar.— Não hoje — murmuro, respirando fundo enquanto entro.Talvez seja ridículo, mas sint
Eu passo a manhã inteira limpando o consultório como se estivesse tentando apagar alguma coisa que não consigo enxergar. Abro as janelas, deixo o ar entrar, retiro os objetos da mesa, limpo uma superfície que já está limpa e depois volto a passar o pano sobre ela porque ainda encontro alguma coisa para corrigir, algum detalhe mínimo que me incomoda, uma marca quase invisível no vidro, uma pequena quantidade de poeira escondida atrás de um porta-canetas, um livro ligeiramente desalinhado na estante. Tudo precisa estar no lugar. Tudo precisa parecer exatamente como antes. Talvez seja isso que esteja me deixando tão inquieta: o consultório está igual, mas eu não estou. Durante meses imaginei este momento, imaginei a sensação de voltar a entrar aqui sem precisar me perguntar se alguém estava observando meus movimentos, sem precisar explicar por que eu estava afastada, sem precisar suportar os olhares atravessados de pessoas que acreditavam saber exatamente o que havia acontecido. Agora qu
Diário de ClariceQuerido diário,Eu senti falta disso. Senti falta de ouvir uma pessoa desconhecida sentar diante de mim e, em menos de uma hora, entregar voluntariamente pedaços da própria vida que provavelmente esconderia de qualquer outra pessoa. Senti falta daquela sensação deliciosa de receber uma história pela metade e precisar decidir o que existe por trás das palavras, de observar a maneira como alguém cruza as pernas quando mente, o instante exato em que desvia os olhos quando toca em alguma coisa que realmente dói, a pausa antes de responder uma pergunta simples demais e, principalmente, daquela pequena diversão que existe em tentar imaginar o que uma pessoa seria capaz de fazer quando ninguém estivesse olhando. Talvez isso seja uma coisa horrível para uma psicóloga admitir, mas eu sempre gostei dessa parte da profissão, porque existe algo quase irresistível em conhecer os segredos dos outros enquanto eles acreditam que estão apenas fazendo terapia.E a garota de vinte e qu
Chego ao consultório antes do horário, cedo o suficiente para que o corredor ainda esteja praticamente vazio e o movimento do prédio seja composto apenas por funcionários começando a rotina, portas sendo abertas e passos apressados de pessoas que parecem ter alguma urgência que eu ainda não consigo sentir. Na mão direita, carrego um copo de café que comprei na cafeteria ao lado do prédio e que já está começando a esfriar porque, nos últimos dez minutos, fiz tudo ao mesmo tempo e nada direito. Coloco a bolsa sobre a cadeira, procuro as chaves enquanto seguro o café entre dois dedos, quase deixo o celular cair quando tento abrir a porta e, quando finalmente consigo entrar, bato o quadril na lateral da mesa, fazendo o líquido dentro do copo se agitar perigosamente. Paro imediatamente, olhando para a tampa como se pudesse convencê-la, apenas com a força do pensamento, a não deixar uma única gota escapar.— Não hoje — murmuro, respirando fundo enquanto entro.Talvez seja ridículo, mas sint
Eu passo a manhã inteira limpando o consultório como se estivesse tentando apagar alguma coisa que não consigo enxergar. Abro as janelas, deixo o ar entrar, retiro os objetos da mesa, limpo uma superfície que já está limpa e depois volto a passar o pano sobre ela porque ainda encontro alguma coisa para corrigir, algum detalhe mínimo que me incomoda, uma marca quase invisível no vidro, uma pequena quantidade de poeira escondida atrás de um porta-canetas, um livro ligeiramente desalinhado na estante. Tudo precisa estar no lugar. Tudo precisa parecer exatamente como antes. Talvez seja isso que esteja me deixando tão inquieta: o consultório está igual, mas eu não estou. Durante meses imaginei este momento, imaginei a sensação de voltar a entrar aqui sem precisar me perguntar se alguém estava observando meus movimentos, sem precisar explicar por que eu estava afastada, sem precisar suportar os olhares atravessados de pessoas que acreditavam saber exatamente o que havia acontecido. Agora qu







