LOGINO tempo dentro daquele quarto deixou de ser medido pelo relógio de parede e passou a ser contado pelas sombras que cruzavam o teto a cada pôr do sol. Sete dias inteiros haviam se passado desde a noite catastrófica do jantar no salão principal. Sete dias em que a minha existência fora reduzida a quatro paredes luxuosas, um silêncio sufocante e a vigilância ininterrupta de homens armados posicionados do outro lado da porta de carvalho.
A rotina era milimetricamente controlada, quase mecânica em sua frieza. Três vezes ao dia, a governanta, uma mulher de meia-idade chamada Marta, que mantinha os olhos sempre fixos no chão, entrava para trazer refeições que eu mal tocava. Ela nunca vinha sozinha. Gabriel permanecia a um passo da entrada, a mão direita repousando casualmente sobre o coldre da arma sob o terno, lembrando-me constantemente da minha condição de prisioneira. Minha mão direita, cortada pelo vidro da taça de cristal que se partira no chão da varanda, fora limpa e enfaixada por uma enfermeira particular no segundo dia. A mulher trocou os curativos com uma destreza rápida, sem responder a uma única pergunta minha. Ninguém falava comigo. Ninguém me dava notícias sobre o estado de saúde de Léo. A falta de informações sobre o meu irmão era a pior das torturas, uma lâmina afiada e invisível que Dominic mantinha suspensa sobre o meu pescoço sem precisar disparar um único tiro.
Eu passava a maior parte das horas sentada na beirada da cama king-size, encarando a madeira escura da porta ou olhando através da grande janela de vidro duplo reforçado. O jardim dos fundos era patrulhado vinte e quatro horas por dia. A cada duas horas, dois homens vestindo jaquetas escuras e portando rádios de comunicação faziam a ronda completa, contornando a piscina de borda infinita e o caminho de pedra que levava ao heliponto privado. Não havia brechas. Não havia atalhos. Eu era uma prisioneira trancada em uma gaiola adornada com lençóis de seda de mil fios, carpetes aveludados e móveis de grife.
Na noite do oitavo dia, contudo, o padrão gélido e previsível do meu confinamento foi quebrado.
Eu estava encolhida na poltrona do canto do quarto, vestindo uma calça de moletom cinza e uma blusa de algodão simples, roupas neutras e sem graça que eu havia exigido no lugar dos vestidos caros enviadas ao closet. Mantinha os joelhos abraçados contra o peito e a cabeça apoiada no braço, perdida em memórias do riso de Léo antes da doença avançar. Foi quando ouvi o bipe duplo da tranca eletrônica ecoar pela porta.
Esperava ver Gabriel trazendo a bandeja do jantar, mas a figura que atravessou a soleira foi a do próprio Dominic Vance.
Ele vestia uma camisa social preta de linho, com os dois primeiros botões abertos e as mangas dobradas com desleixo até a metade dos antebraços. Não trazia o paletó alinhado do trabalho, mas mantinha intacta a mesma aura pesada, dominante e sufocante que parecia diminuir o ar de qualquer ambiente onde ele pisava. Seus olhos azuis, frios e calculistas, percorreram cada canto do quarto, que fora limpo e completamente restaurado de todas as coisas que quebrei durante o meu surto inicial, antes de pousarem diretamente sobre mim.
— Você não tocou na bandeja do almoço — disse ele, a voz num tom baixo, calmo e profundo que ressoou pelo cômodo silencioso. Ele deu dois passos lentos para dentro do quarto, os sapatos de couro não produzindo som algum sobre o tapete espeso.
Permaneci em silêncio. Mantive a postura rígida, ajeitando as pernas contra o peito e escondendo o queixo atrás dos joelhos. Recusava-me a dar a ele a satisfação de uma resposta imediata ou de mostrar qualquer sinal de vulnerabilidade que ele pudesse usar contra mim.
— Se continuar se recusando a comer, terei que mandar a equipe médica subir para aplicar soro e sondas de nutrição forçada — continuou ele, parando a menos de dois passos da minha poltrona. A sombra do seu corpo alto cobriu a iluminação fraca do abajur de cabeceira, projetando uma penumbra sobre mim.
— E não acho que você queira transformar este quarto na ala de um hospital.
— Como está o meu irmão? — perguntei, a voz saindo rouca e falhada pela falta prolongada de uso. Levantei o rosto para encará-lo, sustentando seu olhar com toda a firmeza que consegui reunir do fundo do meu peito despedaçado.
— Você prometeu que o tratamento dele continuaria se eu ficasse quieta. Eu quero saber como o Léo está, Dominic.
Dominic inclinou a cabeça levemente para o lado, estudando meu rosto com uma curiosidade quase clínica, como se avaliasse a resistência de um material submetido a uma pressão extrema.
— O quadro dele é estável — respondeu ele com uma naturalidade desarmante.
— A primeira sessão da nova medicação experimental foi administrada ontem de manhã. A equipe de especialistas do St. Jude enviou o relatório há poucas horas. A contagem de leucócitos no sangue dele caiu cinco por cento e a febre cedeu. Os médicos estão satisfeitos com a resposta inicial do organismo dele.
Um suspiro involuntário e trêmulo de alívio escapou dos meus lábios. Fechei os olhos por um segundo inteiro, sentindo as lágrimas contidas queimarem a parte de trás das minhas pálpebras. Saber que Léo ainda estava vivo, respirando e lutando contra aquela doença maldita era a única coisa que me mantinha sã no meio daquela escuridão.
— Obrigado... — murmurei, odiando a mim mesma no instante em que as palavras saíram da minha boca. A ideia de ter que agradecer ao homem que me mantinha como refém fazia meu estômago embrulhar de repulsa.
— Não me agradeça — rebateu ele, o tom de voz endurecendo na hora.
— Essa é apenas a contraprestação do nosso contrato. Você cumpre o seu papel de forma adequada, e o seu irmão continua recebendo a melhor medicina que o meu dinheiro pode comprar neste país. Mas para que essa troca continue existindo sem sobressaltos, as coisas aqui em cima precisam mudar a partir de hoje.
Ele estendeu a mão direita na minha direção. Não era um gesto agressivo, mas sim um comando imperativo e claro.
— Levante-se. Você vai jantar comigo na sala de jantar esta noite.
Hesitei, encarando a palma da mão dele — grande, firme, marcada por pequenas cicatrizes sutis nas juntas dos dedos.
— Eu prefiro jantar aqui no quarto. Sozinha.
— Não foi uma opção, Maya — disse ele, e a voz dele baixou para aquela gravidade letal que fazia cada nervo do meu corpo entrar em alerta de perigo.
— A partir de hoje, você não vai mais se esconder neste quarto como um bicho assustado que se tranca em uma toca. Você vai descer, vai sentar à mesa ao meu lado e vai se comportar exatamente como a mulher que vive sob o meu teto.
Senti um nó amargo se formar na minha garganta. A lembrança das palavras dele na noite do meu surto, a ameaça de ligar para o hospital e mandar desligar os aparelhos de Léo em trinta segundos, ecoou na minha mente com uma clareza aterrorizante. Eu não tinha poder de barganha. Eu não tinha armas. Enquanto a vida do meu irmão estivesse presa aos dedos daquele homem, eu não podia me dar ao luxo de desafiá-lo abertamente.
Devagar, descolei as costas da poltrona, descruzei as pernas e me coloquei de pé. Ignorei a mão estendida dele, dando um passo para o lado por conta própria e mantendo o queixo erguido para encará-lo de frente.
— Ótimo — murmurei com desdém.
— Vamos acabar com essa farsa de uma vez.
Dominic esboçou um meio sorriso frio, um contorno quase imperceptível nos lábios que não trouxe o menor calor aos seus olhos azuis, e deu um passo para trás, indicando a porta aberta com um aceno de cabeça.
Descer a grande escadaria de mármore da mansão sob a escolta pessoal de Dominic foi uma experiência perturbadora. A vasta propriedade, que na noite do jantar de gala parecia fervilhar de figuras influentes e murmúrios da elite, agora estava mergulhada em um silêncio sepulcral. As luzes amareladas dos lustres de bronze projetavam sombras longas sobre os corredores altos, enquanto seguranças armados permaneciam postados em silêncio nas extremidades das portas e nas saídas para os jardins, parecendo estátuas de vigilância.
A sala de jantar principal era dominada por uma mesa monumental de madeira de jacarandá polida, capaz de acomodar confortavelmente mais de vinte convidados. No entanto, havia apenas dois lugares postos na cabeceira principal, dispostos lado a lado sobre um trilho de mesa de linho branco, sob o brilho suave de um candelabro de prata.
Dominic caminhou até a cadeira à esquerda e a puxou ligeiramente para mim. Sentei-me em silêncio, sentindo a rigidez do meu próprio corpo contra o estofado de veludo. Ele ocupou o lugar imediatamente ao meu lado, a uma distância tão curta que eu conseguia sentir o calor que emanava do seu corpo e o aroma sutil e amadeirado do seu perfume importado.
Dois funcionários vestindo uniformes impecáveis surgiram da porta de serviço, servindo o jantar em pratos de porcelana bordados a ouro. A refeição era um prato elaborado de medalhões de filé mignon ao molho de vinho com risoto de açafrão. O cheiro da comida quente fez meu estômago roncar involuntariamente, lembrando-me de que eu realmente não comia nada consistente há mais de dois dias.
— Coma — ordenou Dominic, servindo uma taça de vinho tinto encorpado para si e preenchendo o meu copo com água mineral cristalina.
Agarrei os talheres de prata com as mãos ligeiramente trêmulas e comecei a cortar a carne. No início, levei pequenas garfadas à boca com hesitação, mas a fome acumulada acabou se impondo sobre o meu orgulho. Comi em silêncio, enquanto Dominic observava cada movimento meu com uma atenção silenciosa, mastigando devagar e bebericando o vinho sem tirar os olhos do meu rosto.
— Você aprende rápido quando quer — comentou ele após longos minutos de silêncio, pousando o pé da taça sobre a mesa com um som abafado.
— A compostura e o silêncio combinam muito mais com você do que os gritos e os vasos quebrados no chão do quarto.
Pousei o garfo e a faca sobre o prato com um estalo seco e metálico, virando meu rosto diretamente para ele.
— Eu não estou fazendo isso porque aprendi a ser dócil, Dominic — falei, mantendo a voz firme e baixa.
— Estou fazendo isso porque você está usando a vida do meu irmão como uma corda no meu pescoço. Não confunda a minha submissão forçada com qualquer tipo de respeito ou aceitação.
Dominic inclinou o tronco ligeiramente na minha direção. A proximidade física fez meu coração dar um salto de alarme, mas me recusei a recuar um único centímetro.
— Chame do que quiser, Maya — respondeu ele, a voz num sussurro que parecia vibrar diretamente contra a minha pele.
— O resultado prático é exatamente o mesmo. O contrato que você assinou no Velvet me dá direito à sua presença, à sua vida e ao seu corpo. Sou eu quem decido quando você come, quando você dorme, com quem você fala e quando você sai deste lugar.
— E por quanto tempo você pretende me manter trancada naquele quarto? — perguntei, sentindo uma onda de raiva contida queimar no meu peito.
— O contrato dizia "tempo indeterminado"... isso significa que você vai me manter como sua prisioneira para o resto da minha vida?
— Isso depende exclusivamente da sua conduta de agora em diante — Dominic estendeu a mão direita e, com a ponta dos dedos polegar e indicador, segurou a linha do meu queixo com uma firmeza calculada, erguendo meu rosto para obrigar-me a olhar diretamente nos seus olhos. O toque da sua pele era quente, um contraste assustador com a frieza de suas palavras.
— Se você me provar que entendeu as regras do jogo, que aprendeu o seu lugar e que não vai tentar nenhuma loucura ingênua novamente, o seu cativeiro pode se tornar significativamente mais confortável. Eu posso flexibilizar as restrições da casa.
— Flexibilizar como? — perguntei, minha respiração falhando ligeiramente sob a pressão do seu olhar azul e insondável.
— Posso permitir que você ande livremente pelos jardins da propriedade durante o dia. Posso liberar o acesso à biblioteca e à sala de cinema... — ele fez uma pausa proposital, aproximando o rosto do meu até que seus lábios estivessem a poucos milímetros da minha orelha.
— ... e, se o seu comportamento for impecável, posso até levar você pessoalmente ao hospital para ver o seu irmão.
Minha respiração parou completamente na garganta. O ar pareceu faltar no meu peito. A promessa de ver Léo com meus próprios olhos, de poder abraçá-lo, segurar a mãozinha dele e ouvir a voz dele novamente fez meu coração disparar em uma mistura desesperada de esperança e dor.
— Você... você me deixaria ver o Léo de verdade? — perguntei, minha voz perdendo toda a rigidez e falhando miseravelmente.
— Se você for uma boa garota — sussurrou ele, os lábios roçando intencionalmente na pele sensível da lateral do meu pescoço, enviando um arrepio elétrico, confuso e terrivelmente indesejado por toda a minha espinha.
— Se você me mostrar que posso confiar em você ao meu lado sem que você tente dar um show de histeria ou fugir na primeira oportunidade.
Senti uma onda avassaladora de sensações conflitantes me invadir: a repulsa profunda pelo homem manipulador e impiedoso que segurava o destino da minha família nas mãos e, ao mesmo tempo, uma atração sombria, involuntária e aterrorizante por aquela autoridade absoluta. Dominic Vance era um monstro, mas era um monstro que sabia exatamente qual corda puxar para me desarmar e me curvar à sua vontade.
A mão dele subiu lentamente do meu queixo para a minha nuca, os dedos longos e fortes entrelaçando-se nos meus cabelos, puxando minha cabeça suavemente para trás para me forçar a encará-lo novamente.
— Entendeu quais são as minhas condições, Maya? — perguntou ele, o tom de voz baixo, denso e carregado de uma possessividade que me dava calafrios.
Engoli em seco, sentindo o peso esmagador da nova fase que se iniciava ali. Aquela não seria apenas uma prisão de portas trancadas e grades invisíveis; seria uma guerra psicológica diária, um jogo perigoso onde eu teria que medir cada palavra, cada olhar e cada respiro. Se para chegar até Léo e encontrar uma brecha real de fuga eu precisava fazer Dominic acreditar que havia me dobrado por completo, então era exatamente isso o que eu faria.
— Entendi — respondi, mantendo o olhar fixo no dele sem piscar.
— Diga as palavras — exigiu ele, a voz soando quase imperativa enquanto ele aproximava a boca da minha, o hálito quente com aroma de vinho tocando meus lábios.
— Diga a quem você pertence.
Sentindo o peito arfar e os lábios tremerem ligeiramente, celebrei o pacto da minha própria sobrevivência no submundo dele.
— Eu sou sua, Dominic — sussurrei.
Dominic esboçou um sorriso sombrio, um gesto lento, satisfeito e terrivelmente dominador —, antes de inclinar a cabeça e selar meus lábios em um beijo profundo, lento e incrivelmente possessivo. Não havia gentileza ali, apenas a imposição de um dono tomando posse daquilo que julgava ser seu por direito. E enquanto a língua dele invadia minha boca e suas mãos me puxavam contra o peito dele, percebi que o meu cativeiro naquela mansão não havia terminado; ele apenas havia mudado para uma forma muito mais perigosa.
O final da tarde passou em um ritmo tranquilo e silencioso. Conforme Dominic prometera durante o almoço, Marta bateu à porta do meu quarto por volta das dezessete horas, acompanhada por duas funcionárias que traziam capas de proteção com três opções de vestidos de alta-costura, além de caixas aveludadas com joias discretas e sapatos de salto alto. Escolhi um modelo em tom azul-noite, confeccionado em seda fluida, com um decote sutil em V e alças finas que contornavam minhas costas. O corte era elegante, sóbrio e perfeito para a ocasião: sem exageros ostensivos, mas com uma presença inquestionável. Prendi os cabelos em um coque elegante, deixando apenas duas mechas suaves emoldurando o rosto, e apliquei uma maquiagem leve que destacava meus olhos. Quando olhei no espelho em tamanho real antes de descer, mal reconheci a imagem refletida. A garota assustada e exausta que chorava pelos corredores do hospital parecia ter sido substituída por uma mulher serena, dona de seus gestos e a
A mão de Dominic continuou firme na minha cintura, os dedos cravando-se com uma pressão quente contra o tecido da minha blusa. O toque dos seus lábios no meu pescoço era lento, quase doloroso de tão denso, subindo devagar pela minha pele até o contorno da minha saboneteira.Fiquei completamente sem jeito. Minha respiração falhou, o copo de água na minha mão direita pareceu pesar uma tonelada e meus ombros se tencionaram de imediato. A proximidade excessiva do seu corpo, o aroma amadeirado do seu perfume e o calor sufocante que emanava dele pareciam paralisa os meus sentidos, criando uma paralisia confusa no meu peito.Percebendo a minha rigidez, Dominic afastou o rosto do meu pescoço devagar. Sua mão livre subiu do meu quadril até o meu rosto, os dedos compridos e firmes envolvendo o meu maxilar com uma autoridade calculada, forçando o meu queixo para cima até que eu fosse obrigada a olhar diretamente no fundo dos seus olhos azuis-acinzentados.— Não desvie o olhar, Maya — ordenou ele
A sexta-feira passou em um ritmo arrastado, marcada pelo silêncio dos corredores e pela expectativa que consumia meus pensamentos. Cada segundo parecia uma eternidade enquanto eu contava as horas para a manhã de sábado. A mansão Vance, em sua imponência fria, tornara-se o cenário de uma espera angustiante, onde minha única âncora de sanidade era a promessa de Dominic.Quando o sol de sábado finalmente despontou no horizonte, cobrindo o céu de tons acinzentados e alaranjados, eu já estava de pé. Vesti uma calça de alfaiataria em tom azul-marinho e uma blusa de seda branca de mangas compridas, simples e sóbria, exatamente como ele exigia. No espelho do quarto, os sinais de cansaço ainda permaneciam em meus olhos, mas havia também uma chama renovada de determinação.A porta do quarto destravou às sete e meia da manhã. Ao cruzar o batente, encontrei Dominic no corredor, vestindo um terno cinza-chumbo sob medida. Ele não disse uma palavra de início; apenas me avaliou da cabeça aos pés co
Os dias seguintes não trouxeram reviravoltas dramáticas, mas sim uma mudança lenta, quase imperceptível, na textura do meu confinamento. O tempo parecia ter desacelerado, escorrendo como mel espesso. A ordem de Dominic para que eu deixasse o isolamento do quarto não significava liberdade, mas sim a transição para uma cela maior, cujas grades agora abarcavam a rotina silenciosa da prisã... obs, da mansão.Minhas manhãs começavam cedo. O sol mal surgia no horizonte quando a porta do quarto era destravada sem o alarde dos dias anteriores. Gabriel já não ficava de pé no corredor com a mão no coldre; em vez disso, ele permanecia posicionado no final do corredor do segundo andar, lendo relatórios em um tablet ou conversando em voz baixa ao rádio.Conforme prometido por Dominic, o acesso aos jardins dos fundos fora liberado, desde que eu mantivesse o trajeto restrito à área da piscina e ao pequeno orquidário de vidro nos limites do gramado.Caminhei pelo gramado úmido de orvalho por volta da
O tempo dentro daquele quarto deixou de ser medido pelo relógio de parede e passou a ser contado pelas sombras que cruzavam o teto a cada pôr do sol. Sete dias inteiros haviam se passado desde a noite catastrófica do jantar no salão principal. Sete dias em que a minha existência fora reduzida a quatro paredes luxuosas, um silêncio sufocante e a vigilância ininterrupta de homens armados posicionados do outro lado da porta de carvalho.A rotina era milimetricamente controlada, quase mecânica em sua frieza. Três vezes ao dia, a governanta, uma mulher de meia-idade chamada Marta, que mantinha os olhos sempre fixos no chão, entrava para trazer refeições que eu mal tocava. Ela nunca vinha sozinha. Gabriel permanecia a um passo da entrada, a mão direita repousando casualmente sobre o coldre da arma sob o terno, lembrando-me constantemente da minha condição de prisioneira. Minha mão direita, cortada pelo vidro da taça de cristal que se partira no chão da varanda, fora limpa e enfaixada por um
A dor física na palma da minha mão cortada não era nada comparada ao rasgão queimante na minha alma. Levantando-me do chão de mármore do salão sob os risos abafados daquela elite nojenta e sob o olhar gélido de Dominic Vance, recusei-me a soltar uma única lágrima na frente deles. Segurei a barra do vestido manchado de vinho tinto, dei as costas a Bianca e marchei direto em direção à escadaria principal, subindo os degraus de mármore sem olhar para trás.Assim que alcancei o corredor do segundo andar e atravessei a porta do meu quarto, o silêncio do cômodo pareceu desabar sobre mim como um bloco de chumbo. A tranca automática nem sequer teve tempo de soar; a fúria cega que estava contida no meu peito finalmente explodiu.— Canalha! Filho da puta! — gritei a plenos pulmões, a voz embargada pelo ódio e pela vergonha sufocante.Agarrei o primeiro vaso de porcelana chinesa que vi sobre a aparador e o arremessei com toda a minha força contra a parede oposta. O som do objeto se estilhaçando







