LOGINA dor física na palma da minha mão cortada não era nada comparada ao rasgão queimante na minha alma. Levantando-me do chão de mármore do salão sob os risos abafados daquela elite nojenta e sob o olhar gélido de Dominic Vance, recusei-me a soltar uma única lágrima na frente deles. Segurei a barra do vestido manchado de vinho tinto, dei as costas a Bianca e marchei direto em direção à escadaria principal, subindo os degraus de mármore sem olhar para trás.
Assim que alcancei o corredor do segundo andar e atravessei a porta do meu quarto, o silêncio do cômodo pareceu desabar sobre mim como um bloco de chumbo. A tranca automática nem sequer teve tempo de soar; a fúria cega que estava contida no meu peito finalmente explodiu.
— Canalha! Filho da puta! — gritei a plenos pulmões, a voz embargada pelo ódio e pela vergonha sufocante.
Agarrei o primeiro vaso de porcelana chinesa que vi sobre a aparador e o arremessei com toda a minha força contra a parede oposta. O som do objeto se estilhaçando em mil pedaços ecoou pelo quarto, mas não foi o suficiente para aliviar o incêndio que queimava por dentro. Caminhei até a penteadeira de madeira nobre e, em um único movimento desordenado, varri com o braço todos os frascos de perfume importado, joias e maquiagens caras fornecidas por ele, mandando tudo direto para o chão.
O vidro se partiu, enchendo o ar com uma mistura enjoativa de fragrâncias florais e o cheiro metálico do meu próprio sangue, que pingava devagar da minha mão cortada sobre o tapete claro.
— Eu não sou seu brinquedo! Eu não sou sua propriedade! — continuei gritando para as paredes vazias, agarrando a gola do vestido verde-esmeralda manchado e puxando o tecido com desespero até ouvir a costura de alta-costura se rasgar de alto a baixo.
Foi exatamente nesse segundo que a porta pesada do quarto se abriu devagar.
Dominic Vance entrou. Ele não estava apressado, não estava afobado e sua expressão não carregava a menor sombra de culpa ou sobressalto. Ele fechou a porta atrás de si com um clique suave, ajustou os punhos da camisa social preta — já sem o paletó — e deu dois passos lentos sobre os cacos de vidro que estalavam sob as solas dos seus sapatos de couro italiano.
— Terminou o show? — perguntou ele, a voz num tom terrivelmente calmo e controlado que só fez minha raiva congelante se multiplicar por mil.
Voltei-me para ele com os olhos em chamas, o peito subindo e descendo desordenadamente, os cabelos despenteados caindo sobre o rosto e a pele do peito manchada de vinho e sangue.
— Você ficou olhando! — avancei um passo em direção a ele, apontando o indicador trêmulo contra o seu peito.
— Você ficou parado feito uma estátua de pedra enquanto aquela vadia jogava bebida na minha cara e me empurrava no chão! Você me deixou ser pisoteada por aquela gente nojenta!
— Eu avisei a você antes de descermos — Dominic respondeu com uma frieza cortante, sem sequer piscar. — Avisei que você deveria ser firme, inatingível e atenta. Bianca de Rossi é uma cobra que testa qualquer um que se aproxime do meu espaço. Se você caiu na provocação primária de uma mulher mimada e acabou de joelhos no chão, a culpa é exclusivamente da sua incompetência em manter a postura.
— Incompetência?! — soltei uma risada histérica, caindo na gargalhada enquanto lágrimas de pura raiva finalmente escorriam pelas minhas bochechas quentes.
— Você acha que isso é um teste de postura?! Eu achei que essa farsa seria simples, Dominic! Eu achei que seria fácil vir para cá, engolir o meu orgulho e fingir que era a noivinha mimada e fútil de um riquinho esnobe até meu irmão ficar bom! Eu achei que daria para suportar esse teatro ridículo!
Dei mais um passo, encarando-o de baixo para cima, deixando toda a repulsa que guardava desabar sobre ele.
— Mas eu nunca fui tão humilhada em toda a minha vida! Eu nunca me senti tão lixo, tão suja e tão insignificante quanto me senti naquela varanda, vendo você e aqueles parasitas rindo da minha cara! Eu prefiro voltar para a miséria, eu prefiro catar papelão na rua, eu prefiro morrer a passar mais um único segundo servindo de piada para você e para os seus amigos! Acabou! O contrato, essa farsa, essa casa... acabou tudo! Eu vou embora agora!
Girei sobre os calcanhares e tentei passar por ele em direção à porta aberta, mas não dei nem dois passos.
A mão de Dominic disparou como uma cobra de aço. Seus dedos longos e impiedosos fecharam-se ao redor do meu braço esquerdo com uma força brutal, truncando meu movimento no ar. Antes que eu pudesse gritar ou tentar golpeá-lo, ele me puxou de volta com uma violência controlada e me prensou de costas contra a parede fria ao lado da porta.
O impacto fez o ar fugir dos meus pulmões. Os cacos de vidro no chão rangeram sob seus pés enquanto ele se projetava sobre mim, prendendo meu corpo entre o seu terno e a parede rígida. A proximidade era sufocante; eu conseguia sentir o calor opressor que emanava da sua pele e o ritmo pesado de sua respiração contra a minha testada.
— Você não vai a lugar nenhum, Maya — sussurrou ele, a voz caindo para um tom perigosamente grave, rasgado por uma ameaça tão sombria que fez cada nervo do meu corpo congelar.
— Você não entendeu absolutamente nada do que aconteceu ontem à noite, não é? Você acha que isso é um jogo de caprichos onde você pode pedir demissão quando o seu orgulhozinho ferido machuca?
— Me solta! — esbravejei, tentando empurrar o peito dele com a minha mão boa, mas ele sequer se moveu. Ele era uma muralha inabalável.
— Me solta, seu monstro!
— Escute com muita atenção o que eu vou te dizer agora — Dominic aproximou a boca da minha orelha, e o tom da sua voz baixou ainda mais, virando uma promessa mortal.
— Se você der mais um único passo em direção àquela porta, se você ousar erguer a voz para mim mais uma vez ou balançar a cabeça recusando as minhas ordens... eu pego o telefone no meu bolso e faço uma única ligação para a equipe médica do hospital.
Meu coração deu um baque seco no peito e pareceu parar de bater. Parei de me contorcer na hora.
— O que você... o que você tá dizendo? — perguntei, a voz falhando, diminuindo para um fio de som aterrorizado.
— Em menos de trinta segundos — continuou Dominic, olhando bem no fundo dos meus olhos com uma determinação gélida e impecável.
— O financiamento do tratamento de Léo é cancelado. A medicação experimental de ponta que mantém o coração e o sangue dele estáveis é suspensa imediatamente. A equipe de especialistas que eu paguei é retirada do leito dele. E o seu irmãozinho é colocado em uma maca no corredor do hospital público para esperar pela morte, que não vai demorar mais de quarenta e oito horas para chegar.
— Não... — comecei a tremer descontroladamente, sentindo as pernas perderem totalmente a força.
— Você não faria isso... você não é tão cruel... ele é só uma criança, Dominic! Ele é um garotinho doente!
— Teste a minha paciência para ver — ele apertou ainda mais o meu braço, seu olhar azul-acinzado brilhando com uma insanidade possessiva e sem limites.
— Eu não sou um "riquinho esnobe", Maya. Eu sou o homem que manda nesta cidade. Eu sou o homem que comprou você. Para mim, a vida do seu irmão vale exatamente os dois milhões de dólares que eu depositei na sua conta. Se a mercadoria que eu comprei não serve para me obedecer, a manutenção dela deixa de existir. Ficou claro para você agora?
A ameaça era real. Não havia blefe naqueles olhos frios. Ele mataria o Léo sem piscar os olhos, apenas para me ensinar uma lição de controle. A percepção da minha impotência absoluta caiu sobre mim como um soco no estômago, tirando-me o chão.
— Você é um demônio... — sussurrei, enquanto lágrimas volumosas e quentes de puro desespero finalmente transbordavam pelos meus olhos, descendo pela minha pele manchada. — Um demônio nojento...
— Eu sou o único demônio que mantém o seu irmão respirando — corrigiu ele, sem soltar o meu braço.
— A partir deste momento, as regras mudaram. Você provou que não tem maturidade nem disciplina para andar solta pela propriedade. O seu tempo de "noiva mimada" acabou antes mesmo de começar.
Dominic puxou-me bruscamente para frente e soltou meu braço, fazendo-me cambalear e cair sentada na beirada da cama desfeita. Ele caminhou até a porta, pisando firme nos cacos de vidro espalhados pelo carpete, e se virou para mim uma última vez antes de sair.
— Você vai ficar trancada neste quarto — declarou ele, a voz soar como uma sentença definitiva.
— Sem acesso à varanda, sem visitas ao hospital e sem ver a luz do dia até que eu decida o contrário. Gabriel ficará postado do lado de fora da porta vinte e quatro horas por dia. Refeições serão trazidas para você. Se tentar fugir, se tentar quebrar mais alguma coisa ou se tentar ferir a si mesma, o tratamento de Léo é suspenso na mesma hora.
— Dominic, por favor! — me levantei em um impulso de desespero, correndo em direção à porta enquanto chorava alto.
— Por favor, não faz isso! Me deixa ver o Léo! Não tira o tratamento dele! Dominic!
Ele não respondeu. Passou pela porta e a fechou com força.
O som pesado da trava eletrônica sendo acionada por fora ecoou pelo quarto como um tiro no meu peito. Segundos depois, ouvi o som abafado de uma tranca mecânica adicional sendo virada por Gabriel no corredor.
— Dominic! Abre essa porta! — comecei a esmurrar a madeira com os dois punhos, sem me importar com o corte na minha mão direita que agora sangrava abertamente, sujando a pintura branca da porta com marcas vermelhas.
— Me tira daqui! Por favor! Léo! Léo!
Esgotada, sem forças e completamente destruída por dentro, deslizei de costas contra a porta trancada até me sentar no chão frio. Abracei meus próprios joelhos, encolhendo-me em meio aos cacos de vaso, aos frascos de perfume quebrados e ao vestido verde rasgado que eu ainda vestia.
O silêncio daquela gaiola de ouro voltou a me engolir, quebrado apenas pelo som dos meus próprios soluços convulsivos. Eu estava completamente trancada, isolada do mundo e nas mãos de um sociopata que usava a vida do meu irmão como rédea para a minha escravidão. A partir daquela noite, não havia mais ilusão de controle ou esperança de uma saída fácil: a minha guerra contra Dominic Vance tinha acabado de começar.
O final da tarde passou em um ritmo tranquilo e silencioso. Conforme Dominic prometera durante o almoço, Marta bateu à porta do meu quarto por volta das dezessete horas, acompanhada por duas funcionárias que traziam capas de proteção com três opções de vestidos de alta-costura, além de caixas aveludadas com joias discretas e sapatos de salto alto. Escolhi um modelo em tom azul-noite, confeccionado em seda fluida, com um decote sutil em V e alças finas que contornavam minhas costas. O corte era elegante, sóbrio e perfeito para a ocasião: sem exageros ostensivos, mas com uma presença inquestionável. Prendi os cabelos em um coque elegante, deixando apenas duas mechas suaves emoldurando o rosto, e apliquei uma maquiagem leve que destacava meus olhos. Quando olhei no espelho em tamanho real antes de descer, mal reconheci a imagem refletida. A garota assustada e exausta que chorava pelos corredores do hospital parecia ter sido substituída por uma mulher serena, dona de seus gestos e a
A mão de Dominic continuou firme na minha cintura, os dedos cravando-se com uma pressão quente contra o tecido da minha blusa. O toque dos seus lábios no meu pescoço era lento, quase doloroso de tão denso, subindo devagar pela minha pele até o contorno da minha saboneteira.Fiquei completamente sem jeito. Minha respiração falhou, o copo de água na minha mão direita pareceu pesar uma tonelada e meus ombros se tencionaram de imediato. A proximidade excessiva do seu corpo, o aroma amadeirado do seu perfume e o calor sufocante que emanava dele pareciam paralisa os meus sentidos, criando uma paralisia confusa no meu peito.Percebendo a minha rigidez, Dominic afastou o rosto do meu pescoço devagar. Sua mão livre subiu do meu quadril até o meu rosto, os dedos compridos e firmes envolvendo o meu maxilar com uma autoridade calculada, forçando o meu queixo para cima até que eu fosse obrigada a olhar diretamente no fundo dos seus olhos azuis-acinzentados.— Não desvie o olhar, Maya — ordenou ele
A sexta-feira passou em um ritmo arrastado, marcada pelo silêncio dos corredores e pela expectativa que consumia meus pensamentos. Cada segundo parecia uma eternidade enquanto eu contava as horas para a manhã de sábado. A mansão Vance, em sua imponência fria, tornara-se o cenário de uma espera angustiante, onde minha única âncora de sanidade era a promessa de Dominic.Quando o sol de sábado finalmente despontou no horizonte, cobrindo o céu de tons acinzentados e alaranjados, eu já estava de pé. Vesti uma calça de alfaiataria em tom azul-marinho e uma blusa de seda branca de mangas compridas, simples e sóbria, exatamente como ele exigia. No espelho do quarto, os sinais de cansaço ainda permaneciam em meus olhos, mas havia também uma chama renovada de determinação.A porta do quarto destravou às sete e meia da manhã. Ao cruzar o batente, encontrei Dominic no corredor, vestindo um terno cinza-chumbo sob medida. Ele não disse uma palavra de início; apenas me avaliou da cabeça aos pés co
Os dias seguintes não trouxeram reviravoltas dramáticas, mas sim uma mudança lenta, quase imperceptível, na textura do meu confinamento. O tempo parecia ter desacelerado, escorrendo como mel espesso. A ordem de Dominic para que eu deixasse o isolamento do quarto não significava liberdade, mas sim a transição para uma cela maior, cujas grades agora abarcavam a rotina silenciosa da prisã... obs, da mansão.Minhas manhãs começavam cedo. O sol mal surgia no horizonte quando a porta do quarto era destravada sem o alarde dos dias anteriores. Gabriel já não ficava de pé no corredor com a mão no coldre; em vez disso, ele permanecia posicionado no final do corredor do segundo andar, lendo relatórios em um tablet ou conversando em voz baixa ao rádio.Conforme prometido por Dominic, o acesso aos jardins dos fundos fora liberado, desde que eu mantivesse o trajeto restrito à área da piscina e ao pequeno orquidário de vidro nos limites do gramado.Caminhei pelo gramado úmido de orvalho por volta da
O tempo dentro daquele quarto deixou de ser medido pelo relógio de parede e passou a ser contado pelas sombras que cruzavam o teto a cada pôr do sol. Sete dias inteiros haviam se passado desde a noite catastrófica do jantar no salão principal. Sete dias em que a minha existência fora reduzida a quatro paredes luxuosas, um silêncio sufocante e a vigilância ininterrupta de homens armados posicionados do outro lado da porta de carvalho.A rotina era milimetricamente controlada, quase mecânica em sua frieza. Três vezes ao dia, a governanta, uma mulher de meia-idade chamada Marta, que mantinha os olhos sempre fixos no chão, entrava para trazer refeições que eu mal tocava. Ela nunca vinha sozinha. Gabriel permanecia a um passo da entrada, a mão direita repousando casualmente sobre o coldre da arma sob o terno, lembrando-me constantemente da minha condição de prisioneira. Minha mão direita, cortada pelo vidro da taça de cristal que se partira no chão da varanda, fora limpa e enfaixada por um
A dor física na palma da minha mão cortada não era nada comparada ao rasgão queimante na minha alma. Levantando-me do chão de mármore do salão sob os risos abafados daquela elite nojenta e sob o olhar gélido de Dominic Vance, recusei-me a soltar uma única lágrima na frente deles. Segurei a barra do vestido manchado de vinho tinto, dei as costas a Bianca e marchei direto em direção à escadaria principal, subindo os degraus de mármore sem olhar para trás.Assim que alcancei o corredor do segundo andar e atravessei a porta do meu quarto, o silêncio do cômodo pareceu desabar sobre mim como um bloco de chumbo. A tranca automática nem sequer teve tempo de soar; a fúria cega que estava contida no meu peito finalmente explodiu.— Canalha! Filho da puta! — gritei a plenos pulmões, a voz embargada pelo ódio e pela vergonha sufocante.Agarrei o primeiro vaso de porcelana chinesa que vi sobre a aparador e o arremessei com toda a minha força contra a parede oposta. O som do objeto se estilhaçando







