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A Resposta da Coroa

Author: Nayara Correa
last update publish date: 2026-10-23 21:19:28

Apenas duas horas após a declaração inflamada de Valeria na televisão, três limusines pretas blindadas cortaram a névoa espessa da Baixa Richenburg, escoltadas por batedores da Guarda Real. O comboio abriu caminho entre os manifestantes indignados que se aglomeravam na entrada e parou exatamente em frente ao pátio da emergência do Hospital St. Lúcia.

O silêncio tenso tomou conta do pátio quando a porta do veículo central se abriu.

Príncipe Julian von Sterling desceu. Aos trinta e dois anos, com sua postura impecável, terno escuro sob medida e um olhar cinzento e frio como o inverno alpino, ele exalava a autoridade inquestionável de séculos de absolutismo. Ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa, vinha o advogado do principado, Elias Thorne.

Julian caminhou pelos corredores lotados e barulhentos da emergência sem vacilar. Seu olhar clínico e atento absorvia cada detalhe: as macas improvisadas nos corredores, os rostos exaustos dos enfermeiros e o desespero velado das famílias.

Valeria saiu da sala de trauma após estabilizar um paciente, limpando as mãos em uma toalha descartável. Ao ver a figura imponente do Príncipe no meio da sua emergência, ela parou no meio do corredor, bloqueando a passagem dele.

— O senhor está em um setor de acesso restrito a funcionários, Vossa Alteza — disse ela, a voz gélida sobrepondo-se ao ruído contínuo dos monitores cardíacos.

Julian parou a pouco menos de um metro dela. Ele era consideravelmente mais alto, e a proximidade física entre os dois no corredor apertado gerou uma eletricidade pesada e quase palpável.

— Dra. Valeria Solis — disse ele, a voz grave, pausada e calculada. — A sua declaração irresponsável na televisão há duas horas provocou uma queda de quatro por cento nas ações da Holding Real e desencadeou um protesto ilegal que bloqueou a ponte principal entre a Alta e a Baixa Richenburg.

— A sua falta criminosa de oxigênio provocou a parada cardíaca de uma criança de seis anos há vinte minutos, Vossa Alteza — rebateu Valeria sem hesitar, dando um passo à frente e sustentando o olhar cinzento dele sem piscar. — O que vale mais na sua escala de valores? A vida dos seus súditos ou os dividendos dos seus acionistas em Viena?

Julian manteve a expressão esculpida em pedra, embora uma veia sutil na sua mandíbula tenha se contraído.

— Elias — disse o Príncipe, sem tirar os olhos do rosto de Valeria. — Apresente os documentos de suspensão.

Elias Thorne deu um passo à frente, abrindo uma pasta de couro nobre e entregando a notificação oficial.

— Por ordem da administração central — anunciou Elias —, a licença médica da Dra. Valeria Solis está suspensa temporariamente por insubordinação, e a verba emergencial desta noite permanecerá bloqueada até a conclusão da auditoria.

Valeria sentiu o sangue congelar nas veias, mas recusou-se a recuar.

— Vocês estão condenando este hospital à morte!

— Nós estamos restaurando a ordem — respondeu Julian, a voz descendo para um tom intimidador e calmo. — Pense nas suas próximas ações, Dra. Solis. Cada palavra que você diz contra a Coroa custa caro para a sua instituição.

Sem dar margem para trégua, Julian virou-se sobre os calcanhares e deixou o prédio sob o olhar furioso de Valeria.

Quarenta minutos depois, no Schloss Sterling, a tempestade política atingia o seu ápice. No Gabinete da Matriarca, o som da bengala de prata da Grã-Duquesa Eleonora ecoava contra o piso de mármore.

— As agências de notícias de Viena já estão replicando o vídeo daquela médica, Julian! — bradou Eleonora, os olhos faiscando de raiva contida. — O Conde Maximilian está usando a comoção popular para convencer os moderados do Conselho dos Doze de que você perdeu o controle do principado! Se o Conselho aprovar a moção de censura, o seu título de regente será revogado no final do ano!

Julian permanecia de pé junto à janela, observando os jardins da Ala Oeste, o copo de uísque intocado na sua mão

.

— Maximilian quer que entremos em pânico e fechemos o St. Lúcia com uso de força policial — disse Julian, a voz fria e analítica. — Se fizermos isso, transformaremos a Dra. Solis em uma mártir e daremos ao meu tio o pretexto perfeito para intervir.

Eleonora aproximou-se do neto, a expressão dura e aristocrática.

— Então o que você sugere? Aquela garota é filha de um operário rebelde da Baixa Richenburg, não tem linhagem, não tem compostura e desafiou a dinastia em rede nacional!

Julian virou-se devagar, os olhos cinzentos brilhando com um cálculo cirúrgico.

— A Dra. Solis tem o que nós não temos neste momento: a lealdade cega do povo e a simpatia da imprensa local — explicou Julian. — Se a combatermos, perderemos o Parlamento. Mas se a trouxermos para o nosso lado... se a amarrarmos à dinastia sob um contrato público rigoroso, neutralizaremos o Maximilian e mostraremos ao Conselho que a Coroa se importa com a Baixa Richenburg.

Eleonora entreabriu os lábios, medindo as palavras do neto.

— Você quer colocar uma ativista da plebe dentro do palácio?

— Um noivado estratégico — decretou Julian. — Oito meses de noivado de fachada e dois anos de casamento civil. Em troca, financiamos o hospital dela através de um fundo fiduciário controlado. Nós nos salvamos, blindamos a regência contra o meu tio e mantemos a Dra. Solis sob vigilância absoluta nesta casa.

Eleonora olhou para o neto por longos segundos, um sorriso gélido e maquiavélico surgindo em seus lábios.

— Ela vai recusar.

— Ela não terá escolha — respondeu Julian, tomando um gole do uísque. — O hospital dela não sobrevive até segunda-feira sem o meu dinheiro. Mande o Elias preparar o contrato. Eu mesmo trarei a Dra. Solis para a gaiola de ouro amanhã.

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