LOGINTrês dias após a assinatura do contrato, o Schloss Sterling abriu os seus portões colossais de ferro fundido para o Baile Anual da Primavera. Mais de quinhentos convidados da altíssima nobreza europeia, embaixadores, grandes empresários da Holding Real e os jornalistas mais influentes do continente lotavam o Salão dos Espelhos sob o brilho monumental dos lustres de cristal Baccarat. O som de taças de champanhe tinindo e o murmúrio de conversas em francês e alemão preenchiam o ar, mas a verdadeira expectativa da noite concentrava-se em um único ponto: a estreia pública da "Aspirante a Rainha" da Baixa Richenburg.
Nos bastidores da Ala Leste, em uma suíte privada ornamentada com afrescos dourados e espelhos venezianos de corpo inteiro, Valeria observava seu reflexo em absoluto silêncio. Ela vestia um suntuoso vestido de seda pesada em tom verde-esmeralda, com mangas longas transparentes, gola alta estilizada e um corte impecável que desenhava a sua silhueta com elegância aristocrática e sóbria, desenhado às pressas por alfaiates franceses a mando do palácio. Contudo, em seu pescoço, não havia diamantes ou esmeraldas da dinastia. Valeria recusara categoricamente qualquer joia trazida pela equipe de imagem da Coroa. No centro do seu colo, repousava apenas um simples pendente de prata polida com uma pequena pedra de quartzo bruto — o único bem que herdara de sua mãe. A porta pesada de carvalho do camarim abriu-se sem que o cerimonialista anunciasse. Príncipe Julian von Sterling entrou. Ele vestia o uniforme militar de gala da Guarda Real em tom azul-noturno, adornado com dragonas de ouro reluzentes, a faixa encarnada de herdeiro e medalhas de honra ao mérito no peito. O seu porte alto e imponente exalava uma autoridade quase sufocante. Julian travou os passos a três metros de Valeria. Por uma fração de segundo imperceptível, a sua máscara habitual de gelo e impassibilidade falhou. Os seus olhos cinzentos absorveram a imagem de Valeria: a beleza altiva, a postura firme e o contraste impressionante da seda verde contra a pele alva e os cabelos escuros presos em um coque elegante. — O pendente... — disse Julian, a voz grave quebrando o silêncio da sala enquanto ele se aproximava a passos lentos. — A minha avó enviou o colar de esmeraldas históricas da dinastia para esta noite. As damas de companhia informaram que você se recusou a vesti-lo. Valeria virou-se devagar, ajeitando as dobras da saia com uma calma provocativa antes de encarar o Príncipe nos olhos. — O colar de esmeraldas da sua família foi comprado em 1990 com o fundo desviado das obras de saneamento básico e água potável da Baixa Richenburg, Vossa Alteza — respondeu Valeria, a voz límpida e aveludada. — Eu li os relatórios orçamentários do seu pai. Não usarei a corrupção e a miséria do meu povo penduradas no meu pescoço como se fossem um troféu. Julian encarou-a fixamente. Em vez de irritação, um brilho sombrio de admiração incontida e perigosa cruzou o seu olhar cinzento. — Você vai transformar este baile em um campo de batalha, não vai? — murmurou ele, parando a menos de um passo dela, o aroma marcante de sândalo e névoa alpina envolvendo os sentidos de Valeria. — Eu não procurei este campo de batalha, Julian. Você me arrastou para ele — combateu ela, erguendo o queixo e sustentando a proximidade intimidadora. — Eu apenas garanto que não lutarei com as suas armas falsas. Julian olhou para o pendente de prata no peito dela por um segundo antes de voltar os olhos para o rosto de Valeria. — Perfeito — disse ele, a voz descendo para um tom baixo e intimidador, oferecendo o braço dobrado em um gesto impecável de protocolo real. — Os tubarões de Viena e a imprensa internacional estão nos esperando no Salão dos Espelhos. Vamos dar a eles o espetáculo perfeito pelo qual pagaram. Quando as portas duplas de bronze do Salão dos Espelhos se abriram e o cerimonialista da corte bateu o bastão de ouro contra o piso de mármore, o burburinho de quinhentas pessoas cessou instantaneamente. — Sua Alteza Real, o Príncipe Herdeiro Julian von Sterling, e a Dra. Valeria Solis! — ecoou a voz grave do arauto. Uma onda frenética de flashes de câmeras fotográficas disparou simultaneamente, iluminações brancas cortando o salão. Valeria sentiu o impulso de piscar diante da cegueira momentânea, mas manteve a cabeça erguida, os ombros alinhados e um caminhar sereno e majestoso ao lado de Julian. Ao fundo do salão, junto à balaustrada de ouro, a Grã-Duquesa Eleonora observava a cena com o olhar cerrado, apoiada em sua bengala de prata. Ao seu lado, o Barão von Kappel e diplomatas austríacos trocavam sussurros exaltados. — Ela não está usando as joias da Casa Sterling... — murmurou o Barão von Kappel, ajustando o monóculo. — Aquilo no pescoço dela é prata popular. É uma declaração política em pleno baile oficial! — Ela é insolente e perigosa — sibilou a Grã-Duquesa entredentes. — Mas olhe para a imprensa. Os repórteres estão fascinados. No centro do salão, a grande orquestra sinfônica do principado deu início aos primeiros acordes de uma valsa lenta e envolvente de Strauss. Os casais da nobreza abriram espaço em um círculo perfeito, deixando o centro do salão vago para a dança de abertura dos noivos. Julian virou-se para Valeria no centro do salão sob o foco de todas as luzes. Ele fez uma breve e impecável mesura de príncipe; Valeria respondeu com uma mesura elegante, o tecido de seda verde farfalhando sobre o mármore. Quando Julian deu um passo à frente e envolveu a cintura de Valeria com a mão direita, o toque firme e quente atravessou o tecido do vestido, fazendo uma onda de eletricidade percorrer a espinha de Valeria. Ela prendeu a respiração por uma fração de segundo, pousando a mão esquerda sobre o ombro fardado e rígido de Julian, enquanto a outra mão era mantida com firmeza na dele. Eles começaram a deslizar pelo salão em passos perfeitamente sincronizados. — Sorria, Dra. Solis — murmurou Julian, a voz grave e baixa rente ao ouvido dela, o hálito quente arrepiando a pele sensível do pescoço de Valeria enquanto giravam sob o lustre central. — Há vinte câmeras de alta resolução focadas no contorno do seu rosto neste exato momento. — Eu estou sorrindo, Vossa Alteza — respondeu Valeria entredentes, mantendo um sorriso radiante e congelado para os fotógrafos enquanto os seus olhos castanhos faiscavam de rivalidade crua a milímetros dos dele. — Estou sorrindo enquanto conto mentalmente cada segundo dos oito meses deste contrato para poder ir embora e nunca mais ter que olhar para a sua cara de estátua de gelo. Julian apertou a cintura dela com um pouco mais de firmeza, trazendo o corpo de Valeria sutilmente mais perto do seu, colando os torsos de uma forma que desafiava a distância estrita do protocolo real. O calor do corpo dele era avassalador. — Não seja ingênua, Valeria — sussurrou Julian, o olhar cinzento descendo por uma fração de segundo para os lábios avermelhados dela antes de voltar a cravar-se nos seus olhos. — Você acha que sairá ilesa desta casa? Oito meses no Schloss Sterling sob o meu comando podem parecer uma eternidade inteira. — Você esquece com quem está dançando, Príncipe — rebateu ela, acompanhando a volta rápida da valsa com uma graciosidade natural que deixou os convidados surpresos. — Eu passei a minha vida lidando com emergências, sangue e paradas cardíacas. Eu não tenho medo de joguinhos de autoridade de um homem que precisa de uma farda cheia de medalhas para se sentir poderoso. Julian soltou uma risada baixa, rouca e masculina — um som tão raro e autêntico que fez até os diplomatas mais próximos se entreolharem espantados. A mão dele na cintura dela subiu um centímetro, os dedos cravando-se com uma posse sutil e quente no tecido da seda. — A sua língua é afiada como um bisturi, Dra. Solis — disse Julian, a respiração de ambos tornando-se entrecortada à medida que a orquestra acelerava o ritmo do violino. — Mas a sua mão está trêmula no meu ombro. — É raiva, Vossa Alteza — mentiu Valeria, sentindo o próprio coração bater desordenado no peito, incapaz de ignorar a atração física brutal e perigosa que queimava entre os dois a cada giro da dança. — Tem certeza de que é apenas raiva? — provocou ele, o tom descendo para uma ameaça intimamente perigosa. A música atingiu o seu clímax final com um acorde potente de cellos. Julian finalizou a dança inclinando o corpo de Valeria com maestria e firmeza no centro do salão, mantendo-a suspensa por um segundo eterno sobre o seu braço forte, os rostos a poucos centímetros de distância, as respirações misturando-se no ar aquecido do salão. Por aquele segundo suspended no tempo, o ódio, a política e as estratégias desapareceram, dando lugar a uma tensão sexual devastadora que deixou ambos imóveis. O salão explodiu em aplausos entusiasmados e flashes de câmeras. Julian puxou Valeria de volta à postura ereta com elegância impecável, sem soltar a mão dela imediatamente. Ele curvou-se levemente sobre a mão de Valeria, roçando os lábios quentes na pele das costas da mão dela em um beijo protocolar que fez cada poro da pele dela arder. A primeira batalha pública da farsa real fora vencida, mas o fogo incontrolável que acabara de ser aceso entre o Príncipe e a médica ameaçava consumir as regras de ambos.A Sala de Jantar da Ala Oeste do Schloss Sterling era o santuário intocado do poder dinástico e milenar de Richenburg. Sob os imensos afrescos do teto do século XVIII que retratavam as glórias militares da família Sterling e o brilho frio de candelabros de prata maciça, a mesa de nogueira maciça para vinte pessoas estava disposta seguindo os códigos mais rígidos e implacáveis da alta nobreza da Europa central. Porcelana fina da Saxônia, taças de cristal Baccarat e talheres de prata pesada com o brasão gravado da coroa compunham a encenação de um teatro onde cada palavra era um cálculo político e cada gesto, um teste de sobrevivência.Valeria vestia um suntuoso vestido de corte impecável em tom azul-noturno, com mangas longas e uma gola alta estruturada que lembrava uma armadura elegante. Ela recusara deliberadamente todos os enfeites e ornamentos excessivos sugeridos pela equipe de imagem do palácio, mantendo apenas a sua postura naturalmente erguida, altiva e inabalável. Ao seu lado,
A manhã seguinte ao Baile da Primavera amanheceu cinzenta, com uma neblina espessa que cobria os pinheiros e as torres góticas do Schloss Sterling. No entanto, o frio de lá fora era insignificante se comparado ao rigor gelado dos corredores da Ala Leste.Valeria despertou sobressaltada em sua suíte com o som ríspido e repentino de cortinas pesadas de veludo sendo abertas de golpe, permitindo que a claridade branca e cortante da neve invadisse o quarto.Três damas de companhia com uniformes pretos e irrepreensíveis, encabeçadas pela governanta-mor da corte, a Senhora Hannelore — uma mulher de feições rígidas, lábios finos e cabelos cinzentos presos em um coque severo —, postavam-se ao pé da cama com pranchetas e caixas revestidas de veludo.— Bom dia, Doutora Solis — anunciou Hannelore, com uma voz totalmente desprovida de calor humano, ecoando pelo quarto. — Por ordem expressa de Sua Alteza Real, a Grã-Duquesa Eleonora, o seu cronograma oficial de adequação protocolar e de imagem i
Três dias após a assinatura do contrato, o Schloss Sterling abriu os seus portões colossais de ferro fundido para o Baile Anual da Primavera. Mais de quinhentos convidados da altíssima nobreza europeia, embaixadores, grandes empresários da Holding Real e os jornalistas mais influentes do continente lotavam o Salão dos Espelhos sob o brilho monumental dos lustres de cristal Baccarat. O som de taças de champanhe tinindo e o murmúrio de conversas em francês e alemão preenchiam o ar, mas a verdadeira expectativa da noite concentrava-se em um único ponto: a estreia pública da "Aspirante a Rainha" da Baixa Richenburg.Nos bastidores da Ala Leste, em uma suíte privada ornamentada com afrescos dourados e espelhos venezianos de corpo inteiro, Valeria observava seu reflexo em absoluto silêncio.Ela vestia um suntuoso vestido de seda pesada em tom verde-esmeralda, com mangas longas transparentes, gola alta estilizada e um corte impecável que desenhava a sua silhueta com elegância aristocrática e
A lareira de mármore do Gabinete Real estalava suavemente, projetando sombras longas e alaranjadas sobre as paredes revestidas de carvalho escuro e os retratos a óleo dos antigos monarcas da dinastia Sterling. O aroma de madeira queimada, couro e papel antigo preenchia o ambiente imponente, mas o ar dentro da sala era tão rarefeito que Valeria sentia dificuldade em respirar.Na mesa pesada de jacarandá, o papel amarelado do contrato repousava sob a luz de um candelabro de bronze. Valeria mantinha os olhos fixos nas letras cursivas e douradas do documento, sentindo o peso esmagador da escolha que estava prestes a fazer. Não era apenas a sua liberdade ou a sua carreira médica que estavam em jogo; eram as vidas das crianças na pediatria do St. Lúcia e a dignidade do seu pai e dos velhos operários da fábrica.— Se eu assinar isto... — começou Valeria, a voz firme, embora o peito arfasse de indignação —, quero garantias jurídicas expressas e irrevogáveis de que a gestão do fundo fiduciário
O trajeto até o Schloss Sterling foi feito sob um silêncio denso. No banco traseiro do veículo blindado, Valeria manteve o olhar fixo na janela enquanto a paisagem urbana e empobrecida da Baixa Richenburg dava lugar aos portões de ferro fundido, aos pinheiros cobertos de neve e aos jardins impecáveis da Alta Richenburg.Ao desembarcar na entrada de carruagens da Ala Leste, Julian foi imediatamente abordado por dois diplomatas austríacos do Conselho de Estado. O Príncipe lançou um olhar breve a Elias Thorne antes de se afastar.— Garanta que a Dra. Solis acomode-se no Gabinete de Apoio — ordenou Julian, a voz neutra e distante. — Estarei lá em vinte minutos.Elias guiou Valeria por corredores vastos revestidos de carvalho e tapeçarias históricas até uma sala reservada, com uma lareira de mármore acesa e uma mesa pesada de jacarandá. Assim que a porta se fechou, deixando os dois a sós, Elias suspirou e pousou a pasta de couro sobre a mesa.— Você não deveria ter vindo sem um advogado, V
Apenas duas horas após a declaração inflamada de Valeria na televisão, três limusines pretas blindadas cortaram a névoa espessa da Baixa Richenburg, escoltadas por batedores da Guarda Real. O comboio abriu caminho entre os manifestantes indignados que se aglomeravam na entrada e parou exatamente em frente ao pátio da emergência do Hospital St. Lúcia.O silêncio tenso tomou conta do pátio quando a porta do veículo central se abriu.Príncipe Julian von Sterling desceu. Aos trinta e dois anos, com sua postura impecável, terno escuro sob medida e um olhar cinzento e frio como o inverno alpino, ele exalava a autoridade inquestionável de séculos de absolutismo. Ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa, vinha o advogado do principado, Elias Thorne.Julian caminhou pelos corredores lotados e barulhentos da emergência sem vacilar. Seu olhar clínico e atento absorvia cada detalhe: as macas improvisadas nos corredores, os rostos exaustos dos enfermeiros e o desespero velado das famílias.V







