Home / Romance / Coroada Pelo Povo / A Boca do Lobo

Share

A Boca do Lobo

Author: Nayara Correa
last update publish date: 2026-10-23 21:26:46

A lareira de mármore do Gabinete Real estalava suavemente, projetando sombras longas e alaranjadas sobre as paredes revestidas de carvalho escuro e os retratos a óleo dos antigos monarcas da dinastia Sterling. O aroma de madeira queimada, couro e papel antigo preenchia o ambiente imponente, mas o ar dentro da sala era tão rarefeito que Valeria sentia dificuldade em respirar.

Na mesa pesada de jacarandá, o papel amarelado do contrato repousava sob a luz de um candelabro de bronze. Valeria mantinha os olhos fixos nas letras cursivas e douradas do documento, sentindo o peso esmagador da escolha que estava prestes a fazer. Não era apenas a sua liberdade ou a sua carreira médica que estavam em jogo; eram as vidas das crianças na pediatria do St. Lúcia e a dignidade do seu pai e dos velhos operários da fábrica.

— Se eu assinar isto... — começou Valeria, a voz firme, embora o peito arfasse de indignação —, quero garantias jurídicas expressas e irrevogáveis de que a gestão do fundo fiduciário do hospital ficará completamente imune a qualquer interferência da Holding Real, do Conselho dos Doze e da Grã-Duquesa Eleonora. Não permitirei que o dinheiro do povo seja manuseado pelos seus auditores de Viena.

Julian ergueu uma sobrancelha, os olhos cinzentos absorvendo a precisão técnica e a postura inabalável da mulher à sua frente. Havia um brilho contido de respeito na maneira como ele a observava, embora a sua expressão permanecesse gélida.

— Elias — chamou Julian, sem tirar os olhos de Valeria. — Redija o adendo de blindagem orçamentária imediatamente e anexe à página final.

Elias Thorne assentiu em silêncio, aproximando-se da escrivaninha e digitando rapidamente as cláusulas no seu notebook criptografado. O som do teclado ecoou pelo gabinete até a impressora embutida emitir a nova folha. Elias aplicou o selo seco do principado no rodapé e anexou o adendo ao contrato principal.

Antes que Valeria pudesse pegar a caneta, o silêncio da sala foi quebrado pelo som violento de passos no corredor.

As portas duplas de jacarandá foram abertas de golpe, batendo contra os batentes de madeira.

A Grã-Duquesa Eleonora von Sterling entrou no gabinete. Aos setenta anos, vestindo um conjunto impecável de veludo escuro, com um colar de pérolas duplas no pescoço e apoiando-se em uma bengala de mogno com cabo de prata escupido, a matriarca da família real exalava uma aura de aristocracia inflexível, fria e absolutamente cruel. Atrasados alguns passos, dois guardas da Casa Real permaneciam postados na entrada, em sinal de alerta.

— O que significa esta farsa indigna, Julian? — bradou a Grã-Duquesa, a voz cortante e aveludada reverberando pelas paredes do salão. Ela nem sequer se dignou a olhar diretamente para Valeria, tratando a presença da médica como um obstáculo invisível. — Trazer esta plebeia agitadora para o coração da dinastia? O Conde Maximilian acabou de me ligar de Viena furioso! As ações da Holding despencaram mais três pontos na Bolsa de Frankfurt por causa do circo que vocês estão montando!

Julian não se sobressaltou. Ele manteve as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria, a postura militar impecável enquanto contornava a mesa com calma exasperante.

— O Conde Maximilian não governa este principado, minha avó — respondeu Julian, a voz grave e cortante como aço temperado. — E esta "plebeia agitadora", como a senhora se refere, é a única razão pela qual a Baixa Richenburg não ateou fogo nos portões da Ala Leste esta tarde.

Eleonora travou a caminhada, o rosto enrugado contorcendo-se em uma expressão de profundo desdém. Ela finalmente virou o olhar gélido para Valeria, medindo-a lentamente dos pés à cabeça — desde os sapatos práticos de plantão até o jaleco manchado sob o casaco de lã.

— Uma médica de emergência da Baixa Richenburg... — murmurou Eleonora, gotejando um desprezo aristocrático em cada sílaba. — Mãe falecida em uma cama de caridade por falta de linhagem, pai um ex-operário doente que lidera greves contra as nossas instalações... Você realmente acredita que tem o direito de se sentar à mesa da família Sterling, garota? Acha que um pedaço de papel fará de você algo além de uma camponesa vestida de seda?

Elias Thorne deu um passo atrás, apreensivo com a escalada do confronto. Julian deu um passo à frente, pronto para intervir, mas Valeria foi mais rápida.

Valeria deu um passo firme em direção à matriarca, erguendo o queixo e encarando os olhos pequenos e astutos da Grã-Duquesa sem recuar um único milímetro. A sua presença preencheu o espaço com uma dignidade tão magnética que até a guarda real pareceu prender a respiração.

— Eu não tenho o menor interesse em me sentar à sua mesa, Vossa Alteza — declarou Valeria, a voz pausada, límpida e afiada como um bisturi. — A sua mesa foi construída sobre a exploração do trabalho do meu pai e mantida com o dinheiro que a sua família desviou da saúde pública deste principado por quatro décadas. Eu não estou aqui para fazer parte da sua nobreza decadente. Estou aqui unicamente para limpar a sujeira que a sua dinastia deixou no meu país.

Eleonora entreabriu os lábios, chocada com a ousadia e a frieza da resposta. Ninguém nos últimos quarenta anos ousara falar com a matriarca da Casa Sterling naquele tom dentro do Schloss Sterling. A bengala de prata tremeu levemente sob a mão da Grã-Duquesa.

— Você é uma insolente... — sibilou Eleonora, os olhos faiscando de raiva contida. — Julian, ordene que a Guarda Real remova esta mulher do palácio agora mesmo! Nós usaremos a lei de emergência para decretar a intervenção no hospital!

— A lei de emergência exige a aprovação de dois terços do Conselho dos Doze, minha avó — interveio Julian, a sua voz impondo autoridade absoluta sobre o recinto. — E o Barão von Kappel já informou ao meu gabinete que não votará a favor da intervenção. Se não assinarmos este acordo agora, o meu título de regente será impugnado pelo Maximilian na reunião de segunda-feira.

O silêncio que se seguiu foi pesado e sufocante. Eleonora encarou o neto, percebendo a armadilha política na qual a família estava encurralada.

Julian aproximou-se da mesa de jacarandá, pegou uma caneta-tinteiro de ouro com o brasão do principado gravado na tampa e estendeu-a na direção de Valeria. Os seus olhos cinzentos fixaram-se nos dela com uma intensidade crua, transmitindo um aviso e um desafio silencioso.

— Assine, Dra. Solis — disse Julian, a voz descendo para um tom baixo e grave. — Mostre à minha avó e ao Conselho que o nosso acordo começa agora.

Valeria olhou para a caneta de ouro e depois para a figura altiva e arruinada da Grã-Duquesa Eleonora. Ela sabia que, ao tocar naquela caneta, estaria entrando de cabeça na boca do lobo — uma gaiola de ouro cercada por inimigos implacáveis, intrigas de corte e conspirações de estado. Contudo, pensou na sorrisinho da pequena Clara na pediatria e nas mãos calejadas do seu pai na associação de operários.

Sem hesitar mais um segundo, Valeria pegou a caneta das mãos de Julian. O toque breve dos seus dedos enviou uma faísca quente pela pele de ambos.

Valeria debruçou-se sobre a mesa e firmou a sua assinatura com traços decididos e impecáveis em todas as vias do contrato.

Ao terminar, ela ergueu o olhar para a Grã-Duquesa, pousando a caneta de ouro ao lado do documento.

— O contrato está assinado, Vossa Alteza — disse Valeria, o tom calmo e triunfante ecoando pela sala. — Vejo vocês no palácio.

A porta da gaiola de ouro acabara de se fechar perante os seus pés, mas a guerra contra a dinastia Sterling estava apenas começando.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Coroada Pelo Povo   Veneno na Mesa Real

    A Sala de Jantar da Ala Oeste do Schloss Sterling era o santuário intocado do poder dinástico e milenar de Richenburg. Sob os imensos afrescos do teto do século XVIII que retratavam as glórias militares da família Sterling e o brilho frio de candelabros de prata maciça, a mesa de nogueira maciça para vinte pessoas estava disposta seguindo os códigos mais rígidos e implacáveis da alta nobreza da Europa central. Porcelana fina da Saxônia, taças de cristal Baccarat e talheres de prata pesada com o brasão gravado da coroa compunham a encenação de um teatro onde cada palavra era um cálculo político e cada gesto, um teste de sobrevivência.Valeria vestia um suntuoso vestido de corte impecável em tom azul-noturno, com mangas longas e uma gola alta estruturada que lembrava uma armadura elegante. Ela recusara deliberadamente todos os enfeites e ornamentos excessivos sugeridos pela equipe de imagem do palácio, mantendo apenas a sua postura naturalmente erguida, altiva e inabalável. Ao seu lado,

  • Coroada Pelo Povo   A Gaiola da Grã-Duquesa

    A manhã seguinte ao Baile da Primavera amanheceu cinzenta, com uma neblina espessa que cobria os pinheiros e as torres góticas do Schloss Sterling. No entanto, o frio de lá fora era insignificante se comparado ao rigor gelado dos corredores da Ala Leste.​Valeria despertou sobressaltada em sua suíte com o som ríspido e repentino de cortinas pesadas de veludo sendo abertas de golpe, permitindo que a claridade branca e cortante da neve invadisse o quarto.​Três damas de companhia com uniformes pretos e irrepreensíveis, encabeçadas pela governanta-mor da corte, a Senhora Hannelore — uma mulher de feições rígidas, lábios finos e cabelos cinzentos presos em um coque severo —, postavam-se ao pé da cama com pranchetas e caixas revestidas de veludo.​— Bom dia, Doutora Solis — anunciou Hannelore, com uma voz totalmente desprovida de calor humano, ecoando pelo quarto. — Por ordem expressa de Sua Alteza Real, a Grã-Duquesa Eleonora, o seu cronograma oficial de adequação protocolar e de imagem i

  • Coroada Pelo Povo   O Anúncio e Primeira Dança

    Três dias após a assinatura do contrato, o Schloss Sterling abriu os seus portões colossais de ferro fundido para o Baile Anual da Primavera. Mais de quinhentos convidados da altíssima nobreza europeia, embaixadores, grandes empresários da Holding Real e os jornalistas mais influentes do continente lotavam o Salão dos Espelhos sob o brilho monumental dos lustres de cristal Baccarat. O som de taças de champanhe tinindo e o murmúrio de conversas em francês e alemão preenchiam o ar, mas a verdadeira expectativa da noite concentrava-se em um único ponto: a estreia pública da "Aspirante a Rainha" da Baixa Richenburg.Nos bastidores da Ala Leste, em uma suíte privada ornamentada com afrescos dourados e espelhos venezianos de corpo inteiro, Valeria observava seu reflexo em absoluto silêncio.Ela vestia um suntuoso vestido de seda pesada em tom verde-esmeralda, com mangas longas transparentes, gola alta estilizada e um corte impecável que desenhava a sua silhueta com elegância aristocrática e

  • Coroada Pelo Povo   A Boca do Lobo

    A lareira de mármore do Gabinete Real estalava suavemente, projetando sombras longas e alaranjadas sobre as paredes revestidas de carvalho escuro e os retratos a óleo dos antigos monarcas da dinastia Sterling. O aroma de madeira queimada, couro e papel antigo preenchia o ambiente imponente, mas o ar dentro da sala era tão rarefeito que Valeria sentia dificuldade em respirar.Na mesa pesada de jacarandá, o papel amarelado do contrato repousava sob a luz de um candelabro de bronze. Valeria mantinha os olhos fixos nas letras cursivas e douradas do documento, sentindo o peso esmagador da escolha que estava prestes a fazer. Não era apenas a sua liberdade ou a sua carreira médica que estavam em jogo; eram as vidas das crianças na pediatria do St. Lúcia e a dignidade do seu pai e dos velhos operários da fábrica.— Se eu assinar isto... — começou Valeria, a voz firme, embora o peito arfasse de indignação —, quero garantias jurídicas expressas e irrevogáveis de que a gestão do fundo fiduciário

  • Coroada Pelo Povo   A Armadilha do Contrato

    O trajeto até o Schloss Sterling foi feito sob um silêncio denso. No banco traseiro do veículo blindado, Valeria manteve o olhar fixo na janela enquanto a paisagem urbana e empobrecida da Baixa Richenburg dava lugar aos portões de ferro fundido, aos pinheiros cobertos de neve e aos jardins impecáveis da Alta Richenburg.Ao desembarcar na entrada de carruagens da Ala Leste, Julian foi imediatamente abordado por dois diplomatas austríacos do Conselho de Estado. O Príncipe lançou um olhar breve a Elias Thorne antes de se afastar.— Garanta que a Dra. Solis acomode-se no Gabinete de Apoio — ordenou Julian, a voz neutra e distante. — Estarei lá em vinte minutos.Elias guiou Valeria por corredores vastos revestidos de carvalho e tapeçarias históricas até uma sala reservada, com uma lareira de mármore acesa e uma mesa pesada de jacarandá. Assim que a porta se fechou, deixando os dois a sós, Elias suspirou e pousou a pasta de couro sobre a mesa.— Você não deveria ter vindo sem um advogado, V

  • Coroada Pelo Povo   A Resposta da Coroa

    Apenas duas horas após a declaração inflamada de Valeria na televisão, três limusines pretas blindadas cortaram a névoa espessa da Baixa Richenburg, escoltadas por batedores da Guarda Real. O comboio abriu caminho entre os manifestantes indignados que se aglomeravam na entrada e parou exatamente em frente ao pátio da emergência do Hospital St. Lúcia.O silêncio tenso tomou conta do pátio quando a porta do veículo central se abriu.Príncipe Julian von Sterling desceu. Aos trinta e dois anos, com sua postura impecável, terno escuro sob medida e um olhar cinzento e frio como o inverno alpino, ele exalava a autoridade inquestionável de séculos de absolutismo. Ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa, vinha o advogado do principado, Elias Thorne.Julian caminhou pelos corredores lotados e barulhentos da emergência sem vacilar. Seu olhar clínico e atento absorvia cada detalhe: as macas improvisadas nos corredores, os rostos exaustos dos enfermeiros e o desespero velado das famílias.V

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status