LOGINO trajeto até o Schloss Sterling foi feito sob um silêncio denso. No banco traseiro do veículo blindado, Valeria manteve o olhar fixo na janela enquanto a paisagem urbana e empobrecida da Baixa Richenburg dava lugar aos portões de ferro fundido, aos pinheiros cobertos de neve e aos jardins impecáveis da Alta Richenburg.
Ao desembarcar na entrada de carruagens da Ala Leste, Julian foi imediatamente abordado por dois diplomatas austríacos do Conselho de Estado. O Príncipe lançou um olhar breve a Elias Thorne antes de se afastar. — Garanta que a Dra. Solis acomode-se no Gabinete de Apoio — ordenou Julian, a voz neutra e distante. — Estarei lá em vinte minutos. Elias guiou Valeria por corredores vastos revestidos de carvalho e tapeçarias históricas até uma sala reservada, com uma lareira de mármore acesa e uma mesa pesada de jacarandá. Assim que a porta se fechou, deixando os dois a sós, Elias suspirou e pousou a pasta de couro sobre a mesa. — Você não deveria ter vindo sem um advogado, Valeria — disse Elias, o tom profissional dando lugar a uma preocupação genuína de quem a conhecia desde os tempos de faculdade. — Esta casa é um ninho de víboras. — Eu não tinha escolha, Elias — respondeu Valeria, caminhando até à janela e observando a neve cair sobre as estufas reais. — O Julian ameaçou lacrar o St. Lúcia na segunda-feira. Ele sabe que os meus pacientes não sobrevivem três dias sem o oxigênio e os insumos da Holding. Elias tirou os óculos e massageou a ponte do nariz, parecendo subitamente cansado. — O Julian não está agindo por maldade pura, Valeria. Ele está encurralado. O Conde Maximilian e a Grã-Duquesa estão usando o orçamento da saúde para forçar a renúncia dele. Mas o que me preocupa é o seu pai. Valeria virou-se bruscamente, o olhar ficando tenso. — O meu pai? O que o meu pai tem a ver com esta reunião? — A Holding Real abriu um processo de despejo compulsório contra a associação de aposentados da fábrica onde o seu pai trabalhou a vida inteira — revelou Elias, baixando a voz. — O Conde Maximilian quer demolir o alojamento dos antigos operários da Baixa Richenburg para expandir o parque industrial de Viena. O seu pai é o líder da comissão de resistência. Se você bater de frente com a Coroa hoje de forma imprudente, o Maximilian usará a ordem de despejo contra o seu pai amanhã. Valeria sentiu um nó apertar-se na sua garganta. O pai, debilitado por anos de trabalho pesado na fábrica e por complicações respiratórias, era o seu único vínculo familiar. A lembrança do sacrifício dele para pagar os seus estudos de medicina sempre fora a sua maior força. — Eles querem destruir tudo o que a minha família construiu — murmurou Valeria, os punhos fechados ao lado do corpo, os olhos ardendo de indignação. — É por isso que você precisa ser fria — alertou Elias, aproximando-se. — Se o Julian te propor um acordo formal, use a influência do cargo para exigir a blindagem jurídica do hospital e a proteção dos Direitos de Aposentadoria dos operários da fábrica. O seu pai não aguentará um despejo no meio do inverno. A porta dupla do gabinete abriu-se com firmeza antes que Valeria pudesse responder. Príncipe Julian entrou, despido da farda militar de transição e vestindo agora um fato escuro impecável. Ele caminhou até à escrivaninha de carvalho, serviu-se de um copo de uísque e encarou Valeria com o olhar cinzento e calculista. — Presumo que o Dr. Thorne já tenha atualizado você sobre o cenário, Dra. Solis — disse Julian, pegando o documento assinado e deslizando-o sobre a mesa na direção dela. — Esta é a única saída para a Baixa Richenburg e para a sua carreira. Valeria encarou o papel sobre a mesa. No topo da folha, lia-se em letras douradas: Acordo de Consórcio Matrimonial e Representação Pública. — Um contrato de noivado de oito meses e dois anos de casamento civil — disse Valeria, a voz pausada e gélida, lendo as cláusulas com atenção cirúrgica. — Em troca de vinte milhões de euros para o fundo do hospital e a suspensão imediata de todas as ordens de despejo contra os operários da fábrica da Baixa Richenburg. Julian ergueu uma sobrancelha, surpreso com a adição precisa e firme da cláusula sobre os operários. Ele olhou de relance para Elias, que manteve a expressão impassível de advogado. — A cláusula dos operários não estava no rascunho original — notou Julian, os olhos cinzentos voltando-se para Valeria com um brilho de admiração e aviso. — É a minha condição inegociável, Vossa Alteza — combateu Valeria, dando um passo à frente e apoiando as mãos na mesa de jacarandá, encarando-o a poucos centímetros de distância. — Se o senhor quer que eu interprete o papel da sua noiva perfeita perante o Parlamento e a imprensa, o meu pai e os companheiros de fábrica dele continuarão nas suas casas. Caso contrário, pode mandar a sua Guarda Real me prender agora mesmo, porque eu prefiro a cela do palácio a assinar a ruína do meu povo. Julian sustentou o olhar desafiador de Valeria em absoluto silêncio. Por um segundo, a tensão na sala tornou-se tão densa que até Elias prendeu a respiração. — Elias — disse Julian, sem tirar os olhos de Valeria. — Redija o adendo dos operários e anexe ao contrato.A Sala de Jantar da Ala Oeste do Schloss Sterling era o santuário intocado do poder dinástico e milenar de Richenburg. Sob os imensos afrescos do teto do século XVIII que retratavam as glórias militares da família Sterling e o brilho frio de candelabros de prata maciça, a mesa de nogueira maciça para vinte pessoas estava disposta seguindo os códigos mais rígidos e implacáveis da alta nobreza da Europa central. Porcelana fina da Saxônia, taças de cristal Baccarat e talheres de prata pesada com o brasão gravado da coroa compunham a encenação de um teatro onde cada palavra era um cálculo político e cada gesto, um teste de sobrevivência.Valeria vestia um suntuoso vestido de corte impecável em tom azul-noturno, com mangas longas e uma gola alta estruturada que lembrava uma armadura elegante. Ela recusara deliberadamente todos os enfeites e ornamentos excessivos sugeridos pela equipe de imagem do palácio, mantendo apenas a sua postura naturalmente erguida, altiva e inabalável. Ao seu lado,
A manhã seguinte ao Baile da Primavera amanheceu cinzenta, com uma neblina espessa que cobria os pinheiros e as torres góticas do Schloss Sterling. No entanto, o frio de lá fora era insignificante se comparado ao rigor gelado dos corredores da Ala Leste.Valeria despertou sobressaltada em sua suíte com o som ríspido e repentino de cortinas pesadas de veludo sendo abertas de golpe, permitindo que a claridade branca e cortante da neve invadisse o quarto.Três damas de companhia com uniformes pretos e irrepreensíveis, encabeçadas pela governanta-mor da corte, a Senhora Hannelore — uma mulher de feições rígidas, lábios finos e cabelos cinzentos presos em um coque severo —, postavam-se ao pé da cama com pranchetas e caixas revestidas de veludo.— Bom dia, Doutora Solis — anunciou Hannelore, com uma voz totalmente desprovida de calor humano, ecoando pelo quarto. — Por ordem expressa de Sua Alteza Real, a Grã-Duquesa Eleonora, o seu cronograma oficial de adequação protocolar e de imagem i
Três dias após a assinatura do contrato, o Schloss Sterling abriu os seus portões colossais de ferro fundido para o Baile Anual da Primavera. Mais de quinhentos convidados da altíssima nobreza europeia, embaixadores, grandes empresários da Holding Real e os jornalistas mais influentes do continente lotavam o Salão dos Espelhos sob o brilho monumental dos lustres de cristal Baccarat. O som de taças de champanhe tinindo e o murmúrio de conversas em francês e alemão preenchiam o ar, mas a verdadeira expectativa da noite concentrava-se em um único ponto: a estreia pública da "Aspirante a Rainha" da Baixa Richenburg.Nos bastidores da Ala Leste, em uma suíte privada ornamentada com afrescos dourados e espelhos venezianos de corpo inteiro, Valeria observava seu reflexo em absoluto silêncio.Ela vestia um suntuoso vestido de seda pesada em tom verde-esmeralda, com mangas longas transparentes, gola alta estilizada e um corte impecável que desenhava a sua silhueta com elegância aristocrática e
A lareira de mármore do Gabinete Real estalava suavemente, projetando sombras longas e alaranjadas sobre as paredes revestidas de carvalho escuro e os retratos a óleo dos antigos monarcas da dinastia Sterling. O aroma de madeira queimada, couro e papel antigo preenchia o ambiente imponente, mas o ar dentro da sala era tão rarefeito que Valeria sentia dificuldade em respirar.Na mesa pesada de jacarandá, o papel amarelado do contrato repousava sob a luz de um candelabro de bronze. Valeria mantinha os olhos fixos nas letras cursivas e douradas do documento, sentindo o peso esmagador da escolha que estava prestes a fazer. Não era apenas a sua liberdade ou a sua carreira médica que estavam em jogo; eram as vidas das crianças na pediatria do St. Lúcia e a dignidade do seu pai e dos velhos operários da fábrica.— Se eu assinar isto... — começou Valeria, a voz firme, embora o peito arfasse de indignação —, quero garantias jurídicas expressas e irrevogáveis de que a gestão do fundo fiduciário
O trajeto até o Schloss Sterling foi feito sob um silêncio denso. No banco traseiro do veículo blindado, Valeria manteve o olhar fixo na janela enquanto a paisagem urbana e empobrecida da Baixa Richenburg dava lugar aos portões de ferro fundido, aos pinheiros cobertos de neve e aos jardins impecáveis da Alta Richenburg.Ao desembarcar na entrada de carruagens da Ala Leste, Julian foi imediatamente abordado por dois diplomatas austríacos do Conselho de Estado. O Príncipe lançou um olhar breve a Elias Thorne antes de se afastar.— Garanta que a Dra. Solis acomode-se no Gabinete de Apoio — ordenou Julian, a voz neutra e distante. — Estarei lá em vinte minutos.Elias guiou Valeria por corredores vastos revestidos de carvalho e tapeçarias históricas até uma sala reservada, com uma lareira de mármore acesa e uma mesa pesada de jacarandá. Assim que a porta se fechou, deixando os dois a sós, Elias suspirou e pousou a pasta de couro sobre a mesa.— Você não deveria ter vindo sem um advogado, V
Apenas duas horas após a declaração inflamada de Valeria na televisão, três limusines pretas blindadas cortaram a névoa espessa da Baixa Richenburg, escoltadas por batedores da Guarda Real. O comboio abriu caminho entre os manifestantes indignados que se aglomeravam na entrada e parou exatamente em frente ao pátio da emergência do Hospital St. Lúcia.O silêncio tenso tomou conta do pátio quando a porta do veículo central se abriu.Príncipe Julian von Sterling desceu. Aos trinta e dois anos, com sua postura impecável, terno escuro sob medida e um olhar cinzento e frio como o inverno alpino, ele exalava a autoridade inquestionável de séculos de absolutismo. Ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa, vinha o advogado do principado, Elias Thorne.Julian caminhou pelos corredores lotados e barulhentos da emergência sem vacilar. Seu olhar clínico e atento absorvia cada detalhe: as macas improvisadas nos corredores, os rostos exaustos dos enfermeiros e o desespero velado das famílias.V







