LOGINA manhã seguinte ao Baile da Primavera amanheceu cinzenta, com uma neblina espessa que cobria os pinheiros e as torres góticas do Schloss Sterling. No entanto, o frio de lá fora era insignificante se comparado ao rigor gelado dos corredores da Ala Leste.
Valeria despertou sobressaltada em sua suíte com o som ríspido e repentino de cortinas pesadas de veludo sendo abertas de golpe, permitindo que a claridade branca e cortante da neve invadisse o quarto. Três damas de companhia com uniformes pretos e irrepreensíveis, encabeçadas pela governanta-mor da corte, a Senhora Hannelore — uma mulher de feições rígidas, lábios finos e cabelos cinzentos presos em um coque severo —, postavam-se ao pé da cama com pranchetas e caixas revestidas de veludo. — Bom dia, Doutora Solis — anunciou Hannelore, com uma voz totalmente desprovida de calor humano, ecoando pelo quarto. — Por ordem expressa de Sua Alteza Real, a Grã-Duquesa Eleonora, o seu cronograma oficial de adequação protocolar e de imagem inicia-se exatamente às sete horas da manhã. Valeria sentou-se lentamente na cama, afastando os cabelos escuros do rosto e sentindo o peso do cansaço dos últimos dias. — Cronograma? — questionou Valeria, a voz ainda rouca de sono, mas com um toque de alerta. — A minha agenda profissional não foi alterada. Tenho uma reunião marcada com a junta diretora do Hospital St. Lúcia às dez horas da manhã. O Dr. Elias Thorne garantiu que a minha autonomia médica seria preservada conforme os termos do acordo. Hannelore deu dois passos à frente, estendendo uma folha amarelada de papel de alta gramatura com o brasão em relevo da Coroa. — A Grã-Duquesa redefiniu as prioridades da Casa Real — respondeu a governanta, impassível. — De acordo com as diretrizes de segurança da Alta Richenburg, visitas externas de cunho não oficial estão suspensas durante os primeiros trinta dias de noivado público. Todas as ligações telefônicas, correspondências e rascunhos de e-mails passarão obrigatoriamente pela auditoria do gabinete de assessoria da Coroa. Além disso... — Hannelore fez um gesto breve para a mesa de cabeceira — o seu aparelho celular pessoal foi recolhido pela equipe de segurança durante a madrugada para fins de atualização de criptografia. Valeria ergueu-se da cama de um único salto, o sangue fervendo em suas veias. Ela caminhou até a mesinha e viu que o espaço onde seu telefone repousava estava vazio. — Isso é um sequestro! — exclamou Valeria, os olhos castanhos faiscando de fúria. — Vocês não têm o direito de me isolar do mundo exterior ou de mexer nos meus pertences! — Isso é simplesmente a vida dentro da dinastia Sterling, minha cara — uma voz cortante e autoritária soou na entrada do quarto. A porta dupla abriu-se lentamente. A Grã-Duquesa Eleonora entrou, apoiando-se em sua bengala de prata, com o olhar mais aristocrático, desdenhoso e impiedoso que Valeria já vira. Ela fez um sinal imperceptível com a mão, e Hannelore e as damas retiraram-se em silêncio, fechando as pesadas portas de madeira atrás de si. Eleonora caminhou até a mesa de centro, onde o exemplar do jornal matutino do principado repousava aberto. Na capa, em destaque absoluto, estava a foto da valsa da noite anterior entre Julian e Valeria, acompanhada pela manchete espalhafatosa: “A Plebeia Que Dobrou o Príncipe Herdeiro”. A matriarca ergueu o jornal com dois dedos, como se a página estivesse suja, e jogou-o de volta sobre a mesa. — Você acha que interpretou muito bem o seu papel de heroína romântica ontem à noite, não é, garota? — disse Eleonora, um sorriso ácido nos lábios finos. — Usa o sentimentalismo barato da saúde pública para fazer o meu neto parecer um monstro diante da Europa, enquanto veste prata barata para desafiar o protocolo da nossa família. — Eu não fiz nada além de recusar a corrupção que a sua família ostenta — retrucou Valeria, mantendo a postura ereta, vestida apenas com uma camisola de algodão cinzenta, mas exalando tanta dignidade quanto a própria rainha. — A verdade sobre a história deste país não precisa de adornos de ouro para incomodar a senhora. Eleonora deu mais um passo à frente, encostando a ponta da bengala no chão de madeira com um baque seco. — Ouça com muita atenção, Valeria — sibilou a matriarca, a voz descendo para um tom de pura ameaça. — Você assinou um contrato para comprar tempo e dar estabilidade à imagem do meu neto perante o Parlamento. Mas nesta casa, você não passa de uma peça descartável em um tabuleiro de xadrez. Se você der um único passo fora da linha, se tentar usar a sua posição para incitar os sindicatos da Baixa Richenburg ou se recusar a seguir o cronograma de Hannelore, eu farei com que a transferência da verba de vinte milhões para o St. Lúcia fique presa em auditorias burocráticas e judiciais por dois longos anos. O seu hospital vai apodrecer até fechar as portas. — Você não teria coragem — rosnou Valeria, os punhos fechados com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Julian assinou a cláusula de autonomia irrevogável do fundo! — Julian é o Príncipe Herdeiro, mas eu controlei a mesa do Conselho de Estado por quarenta anos — sorriu Eleonora com uma crueldade gélida. — Ele não moverá um único dedo para te defender se isso custar a aprovação da regência dele. Quer mesmo testar os limites do meu poder? Antes que Valeria pudesse descarregar toda a sua fúria contra a matriarca, a porta de comunicação lateral entre o quarto e os aposentos do Príncipe abriu-se com firmeza. Julian entrou. Ele vestia um terno impecável de três peças em tom chumbo, a gravata perfeitamente alinhada e a expressão completamente neutra, fria e distante. Ele olhou da avó para Valeria, notando de relance a atmosfera eletrizante e carregada de tensão que dominava o quarto. — Vossa Alteza — disse Julian para a avó, mantendo um tom de voz perfeitamente cortês e burocrático. — O Conselho de Estado e os delegados austríacos aguardam a sua presença na Ala Oeste para a leitura das pautas de transição orçamentária. Eleonora olhou para Julian e depois de volta para Valeria, um triunfo mal disfarçado brilhando em seus olhos enrugados. — Estava apenas ensinando a nossa nova convidada a se comportar de acordo com os padrões da dinastia, Julian — disse a matriarca, virando-se lentamente. — Certifique-se de que ela entenda o seu devido lugar nesta casa antes que os meus métodos se tornem ainda mais rígidos. A Grã-Duquesa retirou-se, o som ritmado de sua bengala ecoando pelo corredor até que as portas se fechassem com um baque abafado. Assim que o silêncio se restabeleceu no quarto, Valeria virou-se bruscamente para Julian, os olhos faiscando de uma raiva pura e descontrolada. — O meu celular foi confiscado da minha mesa! Minhas visitas estão proibidas e a sua avó acabou de ameaçar congelar os fundos do hospital de novo! — exclamou Valeria, avançando na direção dele com o peito arfando. — Você sabia disso? Você estava ouvindo tudo atrás daquela porta? Julian caminhou lentamente até a janela ampla, enfiando as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria e mantendo os olhos voltados para a paisagem nevada do lado de fora, de costas para ela. — O palácio possui protocolos de segurança extremamente rígidos para qualquer pessoa que entre na linha de sucessão direta, Valeria — disse ele, a voz fria, mecânica e completamente vazia de emoção. — A minha avó supervisiona a administração interna da ala residencial. Você concordou formalmente em seguir as normas da casa ao assinar a página doze do nosso acordo. Valeria travou os passos no meio do quarto, sentindo um frio na espinha muito mais intenso do que o vento dos Alpes. A frieza súbita de Julian era um golpe devastador. Onde estava o homem que a segurara com tanta intensidade e calor na noite anterior no Salão dos Espelhos? Onde estava o aliado estratégico da véspera? — O acordo garantia a minha liberdade profissional e a integridade do hospital! — gritou ela, indignada, forçando-o a se virar ao segurar a lapela do paletó dele. — Você mentiu para mim? Usou o St. Lúcia apenas como isca para me arrastar para esta prisão e me entregar de bandeja para a sua avó me esmagar? Julian encarou-a fixamente. Por trás da máscara perfeita de gelo que ele vestia, os olhos cinzentos faiscaram por uma fração de segundo com uma dor contida, mas a sua voz permaneceu implacavelmente dura e cortante: — Eu não menti, Valeria. O dinheiro será liberado exatamente como prometido, assim que a assessoria de imprensa confirmar que você é uma noiva cooperativa e não uma ameaça constante à estabilidade da Coroa. Se você realmente quiser salvar o seu povo e o seu hospital, aprenda a jogar pelas regras da Coroa. E a primeira regra que você precisa gravar na cabeça é esta: jamais desafie a Grã-Duquesa em solo dela. Julian deu meia-volta com um movimento brusco, desvencilhou-se do toque dela e caminhou a passos largos em direção à saída, sem olhar para trás sequer uma vez. A porta pesada fechou-se com força, deixando Valeria sozinha no vasto, luxuoso e gélido quarto da Ala Leste. O ar da gaiola de ouro parecia rarefeito demais para respirar. Mas, em vez de se render ao desespero ou derramar lágrimas de frustração, o calor de uma raiva incontrolável e indomável espalhou-se por todo o seu peito. Eles podiam confinar seu corpo e trancar suas portas, mas a alma de Valeria Solis jamais seria quebrada por nenhuma coroa da terra.A Sala de Jantar da Ala Oeste do Schloss Sterling era o santuário intocado do poder dinástico e milenar de Richenburg. Sob os imensos afrescos do teto do século XVIII que retratavam as glórias militares da família Sterling e o brilho frio de candelabros de prata maciça, a mesa de nogueira maciça para vinte pessoas estava disposta seguindo os códigos mais rígidos e implacáveis da alta nobreza da Europa central. Porcelana fina da Saxônia, taças de cristal Baccarat e talheres de prata pesada com o brasão gravado da coroa compunham a encenação de um teatro onde cada palavra era um cálculo político e cada gesto, um teste de sobrevivência.Valeria vestia um suntuoso vestido de corte impecável em tom azul-noturno, com mangas longas e uma gola alta estruturada que lembrava uma armadura elegante. Ela recusara deliberadamente todos os enfeites e ornamentos excessivos sugeridos pela equipe de imagem do palácio, mantendo apenas a sua postura naturalmente erguida, altiva e inabalável. Ao seu lado,
A manhã seguinte ao Baile da Primavera amanheceu cinzenta, com uma neblina espessa que cobria os pinheiros e as torres góticas do Schloss Sterling. No entanto, o frio de lá fora era insignificante se comparado ao rigor gelado dos corredores da Ala Leste.Valeria despertou sobressaltada em sua suíte com o som ríspido e repentino de cortinas pesadas de veludo sendo abertas de golpe, permitindo que a claridade branca e cortante da neve invadisse o quarto.Três damas de companhia com uniformes pretos e irrepreensíveis, encabeçadas pela governanta-mor da corte, a Senhora Hannelore — uma mulher de feições rígidas, lábios finos e cabelos cinzentos presos em um coque severo —, postavam-se ao pé da cama com pranchetas e caixas revestidas de veludo.— Bom dia, Doutora Solis — anunciou Hannelore, com uma voz totalmente desprovida de calor humano, ecoando pelo quarto. — Por ordem expressa de Sua Alteza Real, a Grã-Duquesa Eleonora, o seu cronograma oficial de adequação protocolar e de imagem i
Três dias após a assinatura do contrato, o Schloss Sterling abriu os seus portões colossais de ferro fundido para o Baile Anual da Primavera. Mais de quinhentos convidados da altíssima nobreza europeia, embaixadores, grandes empresários da Holding Real e os jornalistas mais influentes do continente lotavam o Salão dos Espelhos sob o brilho monumental dos lustres de cristal Baccarat. O som de taças de champanhe tinindo e o murmúrio de conversas em francês e alemão preenchiam o ar, mas a verdadeira expectativa da noite concentrava-se em um único ponto: a estreia pública da "Aspirante a Rainha" da Baixa Richenburg.Nos bastidores da Ala Leste, em uma suíte privada ornamentada com afrescos dourados e espelhos venezianos de corpo inteiro, Valeria observava seu reflexo em absoluto silêncio.Ela vestia um suntuoso vestido de seda pesada em tom verde-esmeralda, com mangas longas transparentes, gola alta estilizada e um corte impecável que desenhava a sua silhueta com elegância aristocrática e
A lareira de mármore do Gabinete Real estalava suavemente, projetando sombras longas e alaranjadas sobre as paredes revestidas de carvalho escuro e os retratos a óleo dos antigos monarcas da dinastia Sterling. O aroma de madeira queimada, couro e papel antigo preenchia o ambiente imponente, mas o ar dentro da sala era tão rarefeito que Valeria sentia dificuldade em respirar.Na mesa pesada de jacarandá, o papel amarelado do contrato repousava sob a luz de um candelabro de bronze. Valeria mantinha os olhos fixos nas letras cursivas e douradas do documento, sentindo o peso esmagador da escolha que estava prestes a fazer. Não era apenas a sua liberdade ou a sua carreira médica que estavam em jogo; eram as vidas das crianças na pediatria do St. Lúcia e a dignidade do seu pai e dos velhos operários da fábrica.— Se eu assinar isto... — começou Valeria, a voz firme, embora o peito arfasse de indignação —, quero garantias jurídicas expressas e irrevogáveis de que a gestão do fundo fiduciário
O trajeto até o Schloss Sterling foi feito sob um silêncio denso. No banco traseiro do veículo blindado, Valeria manteve o olhar fixo na janela enquanto a paisagem urbana e empobrecida da Baixa Richenburg dava lugar aos portões de ferro fundido, aos pinheiros cobertos de neve e aos jardins impecáveis da Alta Richenburg.Ao desembarcar na entrada de carruagens da Ala Leste, Julian foi imediatamente abordado por dois diplomatas austríacos do Conselho de Estado. O Príncipe lançou um olhar breve a Elias Thorne antes de se afastar.— Garanta que a Dra. Solis acomode-se no Gabinete de Apoio — ordenou Julian, a voz neutra e distante. — Estarei lá em vinte minutos.Elias guiou Valeria por corredores vastos revestidos de carvalho e tapeçarias históricas até uma sala reservada, com uma lareira de mármore acesa e uma mesa pesada de jacarandá. Assim que a porta se fechou, deixando os dois a sós, Elias suspirou e pousou a pasta de couro sobre a mesa.— Você não deveria ter vindo sem um advogado, V
Apenas duas horas após a declaração inflamada de Valeria na televisão, três limusines pretas blindadas cortaram a névoa espessa da Baixa Richenburg, escoltadas por batedores da Guarda Real. O comboio abriu caminho entre os manifestantes indignados que se aglomeravam na entrada e parou exatamente em frente ao pátio da emergência do Hospital St. Lúcia.O silêncio tenso tomou conta do pátio quando a porta do veículo central se abriu.Príncipe Julian von Sterling desceu. Aos trinta e dois anos, com sua postura impecável, terno escuro sob medida e um olhar cinzento e frio como o inverno alpino, ele exalava a autoridade inquestionável de séculos de absolutismo. Ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa, vinha o advogado do principado, Elias Thorne.Julian caminhou pelos corredores lotados e barulhentos da emergência sem vacilar. Seu olhar clínico e atento absorvia cada detalhe: as macas improvisadas nos corredores, os rostos exaustos dos enfermeiros e o desespero velado das famílias.V







