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Danger: Colisão fatal
Danger: Colisão fatal
Author: AUTORA_A. VELLATRIX

PRÓLOGO💌

last update publish date: 2026-10-19 04:49:45

Música sugerida: Friends, Chase Atlantic

🏁 DIMITRI 🏁

A primeira vez que vi Nyra, ela estava deitada no capô de um Skyline R34 preto, mordendo a ponta do canudo de um refrigerante.

Ela era o tipo de mulher que não precisava dizer absolutamente nada para chamar atenção.

Eu tinha dezessete anos e já estava com o nome mais sujo que galinheiro. Minha família tinha se mudado para aquela cidade fazia apenas três meses, e eu estava tentando não arrumar problemas novos.

Tentando.

Fazia três meses que eu não roubava um carro, não fumava maconha e não levava um tapa da polícia. Um recorde pessoal, considerando meu histórico.

Naquela noite, fui com alguns amigos conhecer as famosas corridas ilegais da região. Adrenalina, fumaça, dinheiro fácil e, claro, confusão.

Eu estava andando na linha. Afinal, se saísse da regra de novo, provavelmente teria que mudar de cidade outra vez.

Os motores roncavam, o cheiro de gasolina se misturava à fumaça dos pneus e a multidão gritava em volta da pista. Era um caos organizado, um universo paralelo onde ninguém parecia se importar com as consequências.

Ninguém, exceto eu.

Ou pelo menos era o que eu tentava fingir.

Porque nada, absolutamente nada, chamou mais minha atenção do que aquela garota.

Cabelos cacheados, botas de couro marrom e uma expressão de quem não estava nem aí para nada, embora parecesse ter tudo sob controle.

Fiquei observando de longe até ela perceber.

— Tá perdido, gatinho?

Nyra ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços.

Nossos olhos se encontraram. Ela abriu aquele sorriso torto, e eu pensei uma coisa que, provavelmente, deveria ter mantido para mim mesmo.

Eu nunca mais vou querer sair do seu pé, mulher.

E, infelizmente, eu estava certo.

A gente virou amigo.

Quer dizer, amigo no sentido mais torturante da palavra.

Porque cada vez que ela sorria para mim, batia no meu ombro ou me chamava de parceiro, eu precisava me lembrar de que ainda não tinha o direito de puxá-la para perto e acabar com aquela palhaçada.

Então, aguentei.

Por um tempo.

🏁 UM ANO DEPOIS 🏁

No aniversário de dezessete anos dela, a gente já não era exatamente amigo.

Também não era um casal.

Éramos aquela coisa irritante que todo mundo percebia, menos os dois idiotas envolvidos.

Ou talvez a gente percebesse, mas nenhum dos dois tivesse coragem de admitir.

Naquele dia, decidi fazer uma loucura.

Fui até um estúdio velho, de um cara que fazia tatuagens para metade dos pilotos da região. Não precisei pensar muito para escolher o desenho.

Eu já sabia o que queria.

Saí de lá com uma tatuagem no lado esquerdo da barriga, rente às costelas. Doeu para caramba, mas não me arrependi nem por um segundo.

Tatuei um tigre.

Selvagem, intenso, com os olhos brilhantes e as garras expostas, como se estivesse pronto para rasgar o mundo inteiro se alguém ousasse tocar naquilo que era importante para ele.

Quando mostrei a Nyra, ela ficou muda.

Os olhos se arregalaram. Ela levou a mão à boca e me encarou como se eu tivesse acabado de arrancar o próprio coração e entregá-lo nas mãos dela.

— Você é maluco, Dimi — sussurrou, com a voz embargada.

Passei a mão pela nuca.

— Eu sei. E a culpa é sua, Tigresa.

Ela me abraçou com tanta força que, por alguns segundos, esqueci como respirar.

E juro que achei que fosse me beijar.

Mas ela apenas escondeu o rosto no meu peito.

A gente nunca foi bom em dizer o que sentia.

Talvez porque, se dissesse em voz alta, não teria mais como fingir que aquilo não significava nada.

🏁🏎️🏁

A gente achava que a vida era sobre acelerar, cruzar linhas de chegada e viver perigosamente.

Até descobrir que algumas consequências alcançam você, mesmo quando está a duzentos quilômetros por hora.

Quando fiz vinte anos, meu passado voltou para cobrar a conta.

Eu tinha feito muita merda com as pessoas erradas. E, quando aqueles caras ficavam putos, não se contentavam em acabar com você. Eles encontravam alguém que você amava e faziam questão de mostrar que também podiam destruí-lo.

Nyra estava em uma fotografia sobre a mesa.

A foto tinha sido tirada naquela mesma pista. Ela aparecia ao lado da moto, sorrindo para alguém fora do enquadramento.

No verso, havia apenas uma frase:

VOCÊ SABE O QUE PRECISA FAZER.

Passei horas olhando para aquelas palavras, tentando encontrar uma saída que não envolvesse perdê-la.

Não encontrei.

Consegui um acordo para mantê-la a salvo. Em troca, teria que desaparecer da vida dela e cumprir as condições que me impuseram.

Eu não podia contar a verdade. Não sem colocar um alvo ainda maior nas costas dela.

Então, fiz o que achei que fosse a única coisa possível.

Fingi que estava tudo normal.

E marquei uma última corrida com a garota que eu estava prestes a abandonar.

🏁 A ÚLTIMA CORRIDA. A ÚLTIMA NOITE. 🏁

O ronco do motor vibrava no meu peito. Mantive as mãos firmes no volante, apertando os dedos como se aquilo fosse impedir o inevitável.

E ela estava ali.

Encostada na moto, com os cabelos soltos e bagunçados pelo vento da madrugada. Os olhos faiscavam, e aquele sorriso parecia não ter a menor ideia do estrago que estava fazendo comigo.

Linda.

Linda pra caralho.

Nyra girou o guidão, bateu o pé no chão e me encarou.

— Pronto para perder, Dimitri? — gritou, tentando vencer o barulho dos motores.

Ri e abaixei o vidro.

— Nem nos seus sonhos mais molhados, Tigresa.

Ela sorriu.

Aquele riso ainda era mais viciante do que qualquer droga que eu já tinha experimentado.

Nyra ajustou as luvas e acelerou a moto só para me provocar. O motor rugiu, e eu senti a vibração atravessar o carro.

— Três! — gritou o organizador.

Ela assumiu a posição, concentrada na pista.

Antes de olhar para a frente, porém, voltou os olhos para mim.

Sorriu.

Piscou.

— Dois!

Meu coração martelou contra as costelas. Apertei o acelerador, sentindo o motor responder sob meus pés.

Por que o inferno inteiro quer tirar você de mim?

— UM!

O pano caiu.

A gente disparou.

Meu carro rasgou a pista, e a moto dela avançou ao meu lado. Nyra se inclinou sobre o tanque, os cabelos voando atrás dela.

Ela tinha nascido para aquilo.

Para correr, desafiar limites e fazer o mundo inteiro parecer pequeno demais.

A cada marcha que trocava, olhava para o lado e a encontrava ali. Paerto o suficiente para que, por um segundo, eu esquecesse tudo o que estava esperando por mim depois daquela noite.

O velocímetro subiu.

Cento e oitenta.

Duzentos.

Duzentos e quarenta.

Ela acelerou mais.

Eu acompanhei.

Os motores se misturaram, e por alguns segundos não pensei no acordo, na fotografia ou no que aconteceria quando eu deixasse aquela cidade.

Só existia a pista.

Eu e ela.

A linha de chegada apareceu à frente.

Cruzamos quase juntos, mas Nyra chegou alguns segundos antes.

Claro que chegou.

Quando os motores silenciaram, estacionei e saí do carro. Apoiei as costas na lataria, cruzando os braços enquanto tentava recuperar o fôlego.

Ela se aproximou batendo a chave da moto contra a palma da mão.

— É... tá ficando bom, hein, Dimitri. — Abriu um sorriso convencido. — Cheguei a achar que hoje você ia ganhar.

Soltei uma risada.

— Confesso que você me pegou.

— Finalmente reconhecendo meu talento?

— Calma. Não vamos exagerar. Eu corro para te impressionar. Você só precisa me avisar quando começar a funcionar.

Nyra gargalhou e pulou no capô do meu carro, cruzando as pernas como se fosse dona do mundo.

— Você é insuportável, cara.

Me aproximei e parei entre as pernas dela, apoiando as mãos no capô.

— E você é impossível, Nyra.

Abaixei a voz.

— Mas é meu tipo favorito de impossível.

O sorriso dela diminuiu um pouco. Por um instante, a provocação deu lugar a algo que eu não sabia como enfrentar.

— Sabia que, às vezes, acho que você é completamente rendido por mim? — perguntou, tentando manter o tom debochado.

Segurei o queixo dela com cuidado, passando o polegar pela linha da mandíbula.

— Às vezes? Você anda muito generosa comigo.

Ela prendeu a respiração.

Eu também.

Meu olhar desceu até a boca dela. Bastava diminuir a distância. Um movimento, uma escolha, e finalmente poderíamos parar de fingir.

Me aproximei.

Nyra não recuou.

Mas, quando nossos lábios estavam quase se tocando, perdi a coragem.

Encostei a testa na dela e fechei os olhos.

Merda.

— Covarde — ela sussurrou, dando um tapinha no meu peito.

Forcei um sorriso.

— Só quando se trata de você.

Ela revirou os olhos, mas continuou perto de mim.

Por um momento, quis esquecer tudo. Quis dizer que a amava, contar sobre a fotografia e pedir que fugisse comigo.

Mas eu sabia que não podia.

— Então... — Ela desceu do capô e cruzou os braços. — Vai querer revanche ou vai fugir, como sempre faz?

Fingi pensar.

— Depende. Se eu fugir, você vem atrás?

Ela deu dois passos na minha direção e segurou os lados do meu colarinho.

— Você corre, Dimitri, mas não corre tão rápido assim. Uma hora eu te alcanço.

Olhei para ela e sorri, embora sentisse alguma coisa se partir dentro do meu peito.

— Eu sei, Tigresa. Você sempre me alcança.

Nyra estreitou os olhos.

— Tá me encarando desse jeito por quê? Quer tirar uma foto? Vai durar mais.

Soltei uma risada baixa.

— Foto? E desperdiçar espaço na galeria?

— Idiota.

Ela sorriu, mas eu já não conseguia continuar brincando como antes.

Segurei sua mão.

— Você é a melhor coisa que me aconteceu, Tigresa.

O sorriso dela desapareceu.

— Que papo é esse? Tá ficando sentimental agora?

Tentei rir.

— Talvez você tenha me deixado mole.

Ela não riu dessa vez.

— Aconteceu alguma coisa?

Nyra me conhecia bem demais. Era uma das coisas que eu mais amava nela e, naquela noite, também era uma das que mais me assustavam.

Balancei a cabeça.

— Você me deixa fraco. Só isso.

— Dimitri...

O jeito como ela disse meu nome quase acabou comigo.

Eu podia mentir mais uma vez. Podia fazer uma piada, beijar sua testa e fingir que no dia seguinte estaria tudo igual.

Era o que eu vinha fazendo havia anos.

Mas, naquela noite, precisava ao menos deixar alguma coisa para ela levar consigo.

Segurei sua mão com mais força.

— Promete uma coisa?

Ela franziu a testa.

— O quê?

Respirei fundo.

— Nunca para de correr. Não deixa ninguém te dizer até onde você pode ir. Você nasceu para isso, Tigresa. Para ir além. Sempre além.

Nyra me observou em silêncio.

O olhar dela mudou. A desconfiança apareceu devagar, ocupando o lugar do sorriso.

— Que papo estranho é esse? Tá parecendo despedida.

Por um segundo, quase contei tudo.

Quase.

Em vez disso, puxei-a para perto e a envolvi pela cintura. Beijei o topo da cabeça dela e fechei os olhos, tentando guardar aquele instante na memória.

— Desculpa — sussurrei contra seus cabelos.

Ela ficou imóvel por um momento.

— Desculpa pelo quê?

A pergunta me atingiu em cheio.

Afastei o rosto apenas o suficiente para olhar para ela.

— Por ser um idiota.

Nyra soltou uma risada curta e bateu no meu peito.

— Isso eu já sabia.

Sorri.

Era tudo o que eu ainda podia dar a ela: mais uma mentira disfarçada de brincadeira.

Dei dois passos para trás, obrigando minhas mãos a soltá-la.

— A gente se vê na pista — falei.

Ela sorriu, como se aquela promessa fosse tão certa quanto todas as outras que eu já tinha feito.

— Tchau, grandão.

Joguei a chave para o alto e a peguei no ar. Minha mão tremia.

Eu precisava ir embora antes que ela percebesse que eu não conseguiria fazer aquilo por muito mais tempo.

Olhei para Nyra uma última vez e forcei meu sorriso torto.

— Cuida desse teu coração de pedra, Tigresa.

Apertei os olhos, tentando esconder o que estava sentindo.

— Porque ele ainda é meu. Mesmo que você não queira admitir.

— Metido! — ela gritou, rindo.

Entrei no carro.

Liguei o motor.

Por um segundo, fiquei olhando para ela pelo retrovisor. Nyra ainda estava ali, sorrindo, sem saber que aquela seria a última vez que me veria partir daquela maneira.

Então engatei a marcha e fui embora.

Sem olhar para trás.

Deixei para trás as corridas, aquela cidade e a única garota que fazia toda aquela merda de vida valer a pena.

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