Se connecterO céu de Londres estava cinzento e pesado, uma cortina de chumbo que parecia querer esmagar a cidade. Gabriel, no entanto, não se importava. Para ele, aquele cinza úmido era quase um abraço familiar, uma lembrança de uma infância que, embora não tivesse começado ali, havia se tornado a sua base. Ele ajustou o colarinho da camisa e saiu do táxi, o ar frio cortando seu rosto como uma lâmina suave. A casa de Anna Whitmore ficava em um bairro tranquilo de Wandsworth, com ruas ladeadas por árvores que insistiam em manter suas folhas verdes, desafiando o outono. Era uma casa de tijolos, aconchegante, com um jardim bem cuidado e uma cerca branca que precisava de uma nova demão de tinta. Gabriel sorriu. A mãe sempre prometia pintá-la e sempre encontrava algo mais importante para fazer. Ele tocou a campainha e, segundos depois, a porta se abriu. Anna Whitmore, uma mulher de cabelos loiros que o tempo havia pintado de um tom prateado elegante, abriu um sorriso que iluminou o dia cinzento.
O sol de sábado em Santos brilhava forte, mas dentro do apartamento de Gabriel, o clima era de tempestade. Ele estava de férias há duas semanas, mas não estava descansando. A mente dele vagava entre a briga com Louise, a mentira sobre Beatriz, e a sensação de que estava perdendo o controle de tudo. Valentina estava mais distante do que nunca. As conversas eram monossílabos, as refeições eram silenciosas, e a porta do quarto dela estava sempre fechada. Naquela manhã, ele estava na sala, fingindo ler um artigo médico, quando o celular de Valentina vibrou no sofá. Ela havia deixado ali, distraidamente, enquanto ia ao banheiro. Ele não era um homem de invadir a privacidade da filha. Nunca tinha sido. Mas a notificação na tela o fez parar. "Léo ❤️: Bom dia, meu amor. Sonhei com você." O sangue de Gabriel gelou. Ele olhou para a tela por um longo momento, o coração batendo pesado. Léo. Quem era Léo? Ele não sabia de nenhum Léo. Valentina nunca havia mencionado um Léo. A tentaç
Um mês se passou. Um mês inteiro sem uma palavra de Gabriel. No começo, Louise ainda esperava. A cada notificação no celular, o coração dela dava um salto. A cada passo no corredor do hospital, ela erguia os olhos, procurando a silhueta alta e os olhos escuros. Mas ele não estava lá. A sala de neurocirurgia permanecia fechada, a placa com o nome dele na porta parecia zombar dela. Camila comentou, de passagem, que o Dr. Gabriel havia tirado férias. "Um mês, eu acho. Ele nunca tira férias. Deve estar resolvendo algum problema pessoal." Louise não respondeu. Apenas assentiu, o rosto neutro, e voltou ao trabalho. Ela não mandou mensagem. Ele também não. O silêncio entre eles era um muro que nenhum dos dois parecia disposto a escalar. Ela se inscreveu nos Médicos Sem Fronteiras. O e-mail de confirmação da candidatura chegou três dias depois, com um prazo estimado de resposta: "de dois a três meses". Ela leu a mensagem, fechou o e-mail e não pensou mais no assunto. Ou tentou não pensar
Louise voltou ao hospital na quinta-feira com o coração aos pedaços e uma fúria que não cabia no peito.A conversa com Gabriel na sala vazia, o sexo na maca, a confissão de que ele não tinha mais noiva — tudo aquilo tinha sido real. Ou ela achou que tinha sido. Mas na manhã seguinte, ele estava diferente. Distante. As mensagens eram curtas, evasivas. "Estou com um problema familiar." "Depois a gente conversa."Ela tentou. Tentou dar espaço, tentou ser compreensiva. Mas quando viu a foto no Instagram de uma página de fofoca de São Paulo — Gabriel e Beatriz, de mãos dadas, sorrindo para as câmeras em um evento de gala —, algo dentro dela quebrou.Não era só a foto. Era a mentira. Ele tinha dito que o noivado havia acabado. Ele tinha dito que não havia mais nada. E ali estava ele, sorrindo ao lado da mulher que ele jurou que era passado.Louise ficou parada no corredor da pediatria, o celular na mão, a tela brilhando com a imagem. Uma enfermeira passou por ela e disse algo, mas ela não o
O sol da manhã em Santos entrava pelas cortinas do apartamento de Gabriel, pintando o chão de madeira clara com listras douradas. Ele estava na cozinha, preparando o café, o celular no ouvido, a voz baixa e controlada. Do outro lado da linha, a Dra. Regina confirmava os detalhes do plantão do dia. Ele desligou, suspirou e olhou para o corredor que levava ao quarto da filha. A porta estava fechada. A música alta vazava pelas frestas, um batidão de funk que fazia as paredes tremerem. Gabriel respirou fundo, preparou uma xícara de café com leite — do jeito que Valentina gostava — e caminhou até o quarto. Bateu duas vezes. — Valentina? Filha, preciso falar com você. Silêncio. A música continuou. Ele bateu de novo, mais forte. — Valentina. Abre a porta. A música baixou um pouco. A porta se abriu uma fresta, e o rosto da filha apareceu. Valentina tinha quinze anos, o cabelo black power solto em uma nuvem de cachos, os olhos escuros carregados de uma irritação que parecia perma
O retorno a São Paulo foi como um banho de água fria. A praia, o sol, a leveza dos dias com os pais, o encontro com Gabriel e Valentina... tudo aquilo parecia um sonho distante assim que Louise cruzou a porta do apartamento nos Jardins. O silêncio do lugar, que antes era um refúgio, agora parecia opressor. Mariana havia ficado. Márcio voltara para a Escócia, mas a mãe, com aquele instinto que só ela tinha, decidira prolongar a estadia. "Vou ficar mais uns dias, filha. Para te ajudar a organizar as coisas." Louise sabia que era um eufemismo para "vou ficar de olho em você", mas não se importou. A presença da mãe era um conforto. Na segunda-feira, Louise voltou ao hospital. Gabriel havia cumprido a promessa: a Dra. Regina lhe dera uma semana de folga. Louise usou os dias para dormir, para conversar com a mãe, para tentar organizar os pensamentos. Mas a verdade é que ela não conseguia parar de pensar em Gabriel. No beijo que quase aconteceu naquela noite no apartamento. No jeito como







