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Capítulo 5

Author: Luna Valença
Henrique ficou parado diante da casa vazia, sentindo uma irritação difícil de explicar crescer dentro dele.

Pegou o celular e ligou para Cecília.

— Desculpe, não foi possível completar a sua chamada. Tente novamente mais tarde.

Ele ficou imóvel ao ouvir a gravação.

Cecília tinha bloqueado o número dele?

A incredulidade durou apenas alguns segundos.

Logo deu lugar à raiva.

Com que direito ela o bloqueava?

Ele tinha até comprado flores para agradá-la.

O que mais Cecília queria?

Henrique se virou, decidido a ir embora.

Já estava perto da porta quando parou.

Pegou o celular novamente e ligou para Valentina.

A chamada foi completada, mas tocou por um longo tempo antes que ela atendesse.

— O que você quer?

A impaciência na voz dela fez Henrique cerrar a mandíbula.

Ele conteve a raiva e perguntou:

— A Cecília está com você?

Valentina soltou uma risada cheia de desprezo.

— Depois de mais de um mês, você finalmente voltou para casa? Finalmente lembrou que tem esposa?

Henrique não respondeu.

Ela continuou:

— Pena que já é tarde. Assina logo os papéis do divórcio. Vocês não vivem dizendo que a Ceci se agarrou a você e fez de tudo para conseguir esse casamento? Pois agora ela está te libertando.

A voz de Valentina ficou ainda mais ácida.

— Parabéns. Você está livre. Pode ficar se agarrando com a sua querida amiga à vontade. Ninguém vai mais te incomodar.

Antes que Henrique pudesse dizer qualquer coisa, ela desligou.

Ele ficou olhando para a tela.

Seus dedos se fecharam em torno do celular.

Por pouco não esmagou o aparelho.

Se Cecília queria fazer drama, tudo bem.

Que fizesse até cansar.

Henrique tinha mais de uma maneira de obrigá-la a voltar e procurá-lo.

Do outro lado da cidade, Valentina jogou o celular no sofá e fez uma careta de nojo.

— Aquele canalha ainda tem coragem de procurar você!

Cecília estava deitada ao lado dela, coberta por uma manta.

O cansaço ainda marcava seu rosto.

— Até agora ele acha que eu só estou fazendo birra.

Valentina franziu a testa.

— E se ele continuar se recusando a assinar?

Cecília soltou um sorriso amargo.

— Ele nem gosta de mim. Só não se acostumou ainda com a ideia de perder alguém que vivia correndo atrás dele.

Fez uma pausa.

— Quando se acostumar, vai assinar.

Valentina sentiu o peito apertar ao vê-la daquele jeito.

— Ceci, vamos viajar.

Cecília virou o rosto para ela.

— Viajar?

— Eu compro as passagens agora e a gente vai amanhã. Você precisa sair daqui, respirar outros ares. Vai que ainda encontra um romance de viagem?

Dessa vez, Cecília deixou escapar um sorriso de verdade, ainda que pequeno.

Ela também queria ir embora por alguns dias.

— Você decide para onde a gente vai.

Valentina se animou na mesma hora e começou a procurar passagens e montar o roteiro.

Na manhã seguinte, ainda estava escuro quando ela praticamente arrancou Cecília da cama.

Depois de se arrumarem e tomarem café, pegaram um carro até o aeroporto.

Já estavam na fila para embarcar quando o celular de Cecília tocou.

Era sua mãe, Helena Nogueira.

— Ceci, aconteceu alguma coisa entre você e o Rique?

Cecília estranhou a pergunta.

Uma sensação ruim surgiu dentro dela.

— O que aconteceu?

A voz de Helena veio carregada de preocupação.

— Ontem à noite, o Grupo Ferraz cancelou de repente todas as parcerias com a nossa empresa. E hoje ainda pressionou outras empresas a não fazer negócios com a gente.

Cecília ficou em silêncio.

Helena prosseguiu:

— Para piorar, aquele empréstimo que o banco tinha aprovado há poucos dias foi recusado hoje. Disseram que encontraram problemas na documentação. Seu pai e seu irmão estão enlouquecendo tentando resolver tudo. Saíram ontem e ainda não voltaram para casa.

O peito de Cecília se apertou.

— Mãe, não se preocupa. Eu estou voltando agora.

Assim que desligou, tirou a passagem das mãos da funcionária e saiu às pressas em direção à saída.

Valentina correu atrás dela.

— O que aconteceu?

— O Henrique está atacando o Grupo Almeida. Eu preciso voltar agora!

— Porra! Como ele consegue ser tão baixo?

Valentina não hesitou.

— Ceci, eu vou com você.

As duas pegaram um táxi e seguiram direto para a casa da família Almeida.

A residência inteira parecia mergulhada numa tensão sufocante.

Assim que Cecília entrou, Helena veio depressa ao seu encontro e segurou suas mãos.

Os dedos dela tremiam.

— Ceci, ainda bem que você voltou.

Cecília olhou ao redor.

— Onde estão o papai e o Leo?

Helena enxugou as lágrimas.

— Seu pai está no banco tentando resolver o problema do empréstimo. Seu irmão foi procurar o Rique para falar sobre as parcerias...

Ela fez uma pausa.

— Mas, desde ontem à noite, ele não conseguiu nem ver o Rique.

Helena hesitou por alguns segundos.

Talvez não fosse a melhor hora para perguntar, mas a preocupação falou mais alto.

— O que aconteceu entre você e o Rique? Por que ele resolveu atacar a nossa empresa de repente?

Cecília cerrou os dentes.

Então entendeu.

Henrique tinha feito tudo de propósito.

Estava usando a família Almeida para ameaçá-la.

Se ela insistisse no divórcio, ele isolaria o Grupo Almeida até não restar saída.

A família tinha dinheiro e posição, mas ainda estava longe de poder enfrentar um conglomerado do porte do Grupo Ferraz.

Era exatamente nisso que Henrique estava apostando.

Ao perceber o silêncio da filha, Helena entendeu que havia algo muito mais grave por trás daquilo.

— Ele fez alguma coisa com você?

Cecília baixou a cabeça. Demorou alguns segundos até conseguir falar.

— Mãe, eu quero me divorciar do Henrique.

A frase caiu sobre Helena como um raio. Por um instante, tudo pareceu girar, e ela quase perdeu o equilíbrio.

— Divórcio? Por quê?

Cecília ficou em silêncio.

Por um instante, quase contou tudo.

Quase falou sobre o bebê.

Sobre Isadora.

Sobre o sangue.

Sobre a possibilidade de nunca mais conseguir engravidar.

Mas engoliu cada palavra.

Se seus pais descobrissem que Isadora havia provocado o aborto e que Cecília talvez tivesse muita dificuldade para engravidar novamente, prefeririam enfrentar Henrique até as últimas consequências a ceder a ele.

E Cecília não podia permitir que o trabalho de uma vida inteira de seu pai fosse destruído por causa dela.

— Não aconteceu nada demais. A gente só teve uma discussão.

Helena claramente não acreditou, mas Cecília não lhe deu espaço para insistir.

— Eu vou falar com o Henrique agora. Não importa o que tenha acontecido entre nós, ele não tem o direito de envolver a empresa nisso.

Então se virou para Valentina.

— Val, fica com a minha mãe para mim. Eu volto logo.

Depois de deixar Helena aos cuidados da amiga, Cecília pegou as chaves do carro e foi direto ao Grupo Ferraz.

Na sala de espera, Leonardo Almeida estava sentado sozinho.

Sobre a mesa diante dele havia uma xícara de café já completamente fria.

Depois de passar a noite inteira sem dormir, seus olhos estavam vermelhos, uma sombra de barba cobria seu queixo e o terno, normalmente impecável, estava amarrotado.

Ao vê-lo naquele estado, tão diferente do irmão confiante e cheio de energia de sempre, Cecília sentiu o nariz arder e os olhos se encherem de lágrimas.

— Leo...

Leonardo ergueu a cabeça.

A surpresa apareceu em seu rosto assim que a reconheceu.

Ele se levantou e foi até ela.

Segurou o rosto da irmã entre as mãos e enxugou com o polegar a lágrima que escapava pelo canto de seus olhos.

— O que você está fazendo aqui?

— O Henrique passou de todos os limites!

Ver o irmão naquele estado só aumentava a culpa e a raiva dentro dela.

Com as mãos trêmulas, Cecília pegou o celular e ligou para Henrique.

Na primeira tentativa, ele recusou.

Na segunda, fez o mesmo.

Na terceira, finalmente atendeu.

Sem pressa.

— O que foi?

Cecília perdeu a paciência.

— Eu estou na sala de espera da sua empresa. Vem para cá agora. Se você não aparecer, eu juro que ponho fogo neste lugar!

Desligou antes que ele pudesse responder.

Leonardo a observou, preocupado.

— Você acha que ele vem?

Ele sabia melhor do que ninguém que Henrique nunca tinha amado Ceci de verdade.

Naquele casamento, sua irmã sempre fora a única a insistir.

Henrique apareceria só porque ela havia ligado?

Cecília guardou o celular.

— Ele fez tudo isso justamente para me obrigar a procurar por ele.

Sua expressão estava fria.

— Agora que conseguiu o que queria, é óbvio que vai aparecer.

Mal terminou de falar, a porta da sala se abriu.

Henrique entrou com uma das mãos no bolso.

No rosto, trazia a tranquilidade arrogante de quem acreditava já ter vencido.

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