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Capítulo 4

Author: Rúbia
Lavínia se lembrou do sangue escorrendo pelo rosto de Gabriel e tornou a olhar para Dante.

Ele parecia tranquilo demais para alguém que, poucos minutos antes, tinha quebrado várias garrafas na cabeça de outro homem.

Por um instante, ela chegou a pensar que ele só havia parado porque não restava mais nenhuma inteira.

Só então entendeu que a fama de Dante Vasconcelos não tinha nada de exagerada.

Ele parou diante dela e ergueu levemente uma sobrancelha.

— Ficou com medo?

Lavínia balançou a cabeça.

— Também não esperava menos de você. Coragem nunca te faltou. Uns dias atrás, por exemplo, dormiu comigo e foi embora sem dizer nada.

Ela respondeu sem hesitar:

— Eu sou sua mulher. Como é que isso pode ser considerado fugir depois de dormir com você? Só não quis te acordar.

Lavínia sabia se defender com as palavras.

Dante ergueu uma sobrancelha, tragou o cigarro e lançou a ela um olhar de lado.

— Eu sei brincar. Só espero que você também saiba.

Lavínia entendeu perfeitamente o aviso.

Tinha sido ela quem começara aquele jogo.

Quando jogava sozinha, podia parar quando quisesse. Agora, porém, Dante também havia entrado na brincadeira.

E, a partir dali, ela já não podia decidir sozinha quando tudo terminaria.

Ainda mais depois de ter sido a primeira a provocá-lo.

Alguém bateu à porta.

Dante olhou para a entrada.

— Entra.

A porta se abriu, e Rafael apareceu com uma caixa de primeiros socorros e uma bolsa de gelo nas mãos.

— Lavínia, você se machucou em algum outro lugar? Quer ir ao hospital fazer uns exames?

Ela balançou a cabeça.

— Não precisa. Estou bem.

— Então coloca isso no rosto.

— Obrigada.

Rafael voltou-se para Dante e tratou de assumir a culpa antes mesmo que ele precisasse dizer alguma coisa.

— Dante, o que aconteceu com a Lavínia hoje foi responsabilidade minha. Não vai se repetir.

Lavínia segurava a bolsa de gelo e ia levá-la ao rosto quando Dante fez um gesto com os dedos, chamando-a.

Ela hesitou por um segundo antes de se aproximar.

Um dos pés doía, mas Lavínia fez questão de andar normalmente, sem demonstrar nada.

Dante apagou o cigarro, puxou-a para se sentar e segurou seu ombro, virando-a um pouco em sua direção.

Depois pegou a bolsa de gelo de sua mão e a encostou com cuidado na bochecha esquerda.

O frio contra a pele, misturado ao cheiro discreto de cigarro que ainda permanecia nele, fez Lavínia ficar rígida por um instante.

Dante examinou a marca avermelhada deixada pelo tapa.

— Rafael, você não quis desagradar o Gabriel e achou melhor deixar a minha mulher passar por isso?

Rafael perdeu um pouco da cor no rosto.

Baixou a cabeça.

— Desculpa.

Lavínia ficou surpresa.

Já tinha visto muita gente se desdobrar para agradar Rafael.

Mas nunca o vira pedir desculpas daquele jeito, sem sequer tentar se justificar.

Dante continuou olhando para a marca no rosto dela.

A expressão permanecia fria, embora seus movimentos fossem cuidadosos.

Se não fosse pela ausência completa de carinho em seus olhos, Lavínia quase poderia acreditar que aquele homem realmente se importava com ela.

— Se isso acontecer de novo, o Lume Bar vai precisar de outro dono.

O tom de Dante era quase casual.

Ainda assim, Rafael abaixou ainda mais a cabeça.

A ameaça não precisava ser repetida.

Dante jogou a bolsa de gelo no lixo e passou a mão pelo rosto de Lavínia.

— Ainda bem. Não estragou esse rostinho.

A palma dele estava quente.

Assim que seus dedos tocaram sua pele, Lavínia se retesou.

Ela realmente não conseguia entender aquele homem.

Lavínia havia usado o nome dele porque precisava daquela proteção para continuar circulando naquele meio.

Mas Dante?

Por que não a desmascarava?

Por que continuava sustentando a mentira diante de todos?

E, mais estranho ainda, por que fazia questão de protegê-la como se aquela mentira fosse verdade?

— Vai continuar trabalhando? — Perguntou ele.

Lavínia assentiu.

Ia.

Enquanto ainda conseguisse ficar de pé, não via motivo para faltar.

Sua vida não lhe dava o luxo de ser delicada demais para trabalhar, muito menos de se permitir caprichos.

Rafael, que observava os dois, interveio rapidamente:

— Lavínia, vai para casa descansar. Daqui a pouco eu peço para o financeiro depositar na sua conta o que você ganharia hoje.

Ela olhou para ele.

— O valor do dia?

— Você se machucou enquanto estava trabalhando. É justo receber por isso.

Rafael fez uma pausa.

— Fica em casa uns dois dias. Só volta quando estiver melhor.

Lavínia entendeu na hora.

Aquela consideração não era exatamente por ela.

Era por Dante.

— Já que o dono do Lume Bar mandou, então vamos.

Dante se levantou.

Antes que Lavínia entendesse o que ele pretendia fazer, ele passou um braço por sua cintura e o outro por baixo de suas pernas, tirando-a do chão.

Ela soltou um pequeno suspiro de surpresa e, com medo de cair, envolveu rapidamente o pescoço dele com os braços.

De tão perto, conseguia enxergar cada detalhe daquele rosto bonito.

Também sentia o perfume discreto e agradável de Dante, misturado ao leve cheiro de cigarro.

Seu coração acelerou sem permissão.

Rafael correu para abrir a porta e acompanhou os dois até a saída.

Por onde passavam, atraíam olhares.

Um homem bonito carregando uma mulher bonita no colo já seria suficiente para chamar atenção.

Quando esse homem era Dante Vasconcelos, ninguém conseguia fingir desinteresse.

E a mulher em seus braços parecia, aos olhos de qualquer um, uma das mais sortudas do mundo.

Já dentro do carro, Lavínia percebeu que havia uma pergunta que não conseguia mais engolir.

Observou Dante pelo canto dos olhos.

Ele estava ao volante com a expressão fria, distante, tão diferente do homem que poucos minutos antes segurava gelo em seu rosto com cuidado que quase parecia outra pessoa.

— Onde você mora?

Lavínia apontou para a frente.

— Tem um ponto de ônibus ali. Pode me deixar lá.

Dante encostou o carro junto ao meio-fio e parou diante do ponto.

Lavínia soltou o cinto.

Antes de abrir a porta, porém, acabou perguntando:

— Por que você me ajudou?

Dante virou o rosto para ela.

Havia um brilho divertido em seus olhos.

— Está esperando que eu diga que gosto de você?

O coração de Lavínia pulou.

Ela manteve o sorriso.

— Então o Dante gosta de mim?

Dante apenas a encarou.

Não respondeu.

Nem sorriu.

Sob aquele silêncio, Lavínia começou a se sentir desconfortável.

No fim, foi ela quem desistiu primeiro.

Abriu a porta.

— De qualquer forma, obrigada.

Assim que colocou os pés no chão, percebeu que a dor havia piorado depois de ficar algum tempo sentada.

Fechou a porta, tirou os saltos e os segurou em uma das mãos.

Depois contornou a frente do carro e seguiu até a calçada.

Dante continuou sentado ao volante, acompanhando-a com os olhos.

Lavínia usava um vestido preto, preso por alças finas. Os cabelos balançavam suavemente a cada passo.

As pernas finas e claras se destacavam sob a iluminação da rua. Com os saltos pretos de sola vermelha pendurados na mão, ela seguia descalça pela calçada quase vazia.

Havia algo solitário naquela figura.

Mas não frágil.

Dante desviou o olhar.

Ligou o carro e foi embora.

Naquela mesma noite, uma história se espalhou por toda Santa Bruma:

Dante Vasconcelos tinha aberto a cabeça de Gabriel Silva por causa de uma mulher.

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