Share

Capítulo 5

Author: Yanira Fey
O rosto de Floriana mudou na hora.

Ela bateu com força na mesa e se levantou de um pulo.

— Tatiane!

Tatiane nem se deu ao trabalho de responder. Virou-se e foi embora.

De volta à sua mesa, tirou um pequeno espelho da bolsa e examinou o corte fino na lateral do rosto.

Não era profundo.

Passou um lenço umedecido com cuidado.

Não precisava de mais nada.

Afinal, num rosto como aquele, uma cicatriz a mais não fazia diferença alguma.

Ao pensar novamente na garota, sentiu um leve estranhamento.

Havia algo familiar nela.

Como se já a tivesse visto antes.

Perto do fim do expediente, o celular de Tatiane tocou.

Era seu pai, Marcos.

— O Cristiano voltou. — Disse ele. — Venha jantar em casa hoje.

— O Cris voltou? Não era só no dia quinze? — Tatiane se animou de imediato.

— Terminou o trabalho antes e decidiu voltar. — Respondeu Marcos.

— Então eu passo aí depois do trabalho.

Tatiane dirigiu até a casa da família Oliveira.

Eles moravam na zona oeste da cidade, em um condomínio de padrão médio, num apartamento grande, comprado recentemente no mercado de segunda mão.

Marcos administrava uma empresa imobiliária de porte médio.

Não eram uma família realmente rica, mas viviam com conforto.

Tatiane crescera cercada de boas condições.

Mas o setor imobiliário entrara em crise.

Há cerca de meio ano, uma decisão de investimento equivocada levara a empresa a uma grave crise financeira, à beira da falência.

Quando Marcos soube que ela estava grávida de Henrique, não a pressionou a ir até a família Barbosa exigir explicações ou compensações.

Tatiane lembrava-se bem do quanto o pai parecia envelhecer dia após dia.

Cansado.

Consumido.

A situação chegara ao ponto de vender bens da família para pagar dívidas.

Foi então que ela tomara a decisão de ir até a família Barbosa.

Naquele momento, havia egoísmo em seu coração.

Não fora apenas pelo pai.

Também fora por ela mesma.

Ela conseguira o que queria.

Graças ao dote generoso da família Barbosa, a família Oliveira quitara todas as dívidas.

Mas o preço fora alto.

Ela pagara com a própria vida emocional.

Por isso, tudo o que sofria agora era consequência das próprias escolhas.

Não havia a quem culpar.

Ao chegar à casa da família Oliveira, Mônica saiu da cozinha.

— Tati, você chegou.

Quando Tatiane tinha nove anos, os pais se divorciaram.

A mãe levou o irmão mais velho com ela e a abandonou.

Mais tarde, Mônica conheceu seu pai.

Os dois nunca chegaram a registrar o casamento.

Viviam juntos como companheiros.

No começo, Tatiane não a aceitava.

Chegou até a sentir rejeição.

Mas, com o tempo, foi percebendo a gentileza sincera de Mônica.

Cristiano também sempre a tratara muito bem.

Depois de perder o irmão de sangue, ela acabara ganhando outro.

— Mô, cadê o meu pai e o Cris? — Perguntou Tatiane.

— Devem estar a caminho. — Respondeu Mônica, com um sorriso tranquilo. — Já devem chegar. Vai descansar um pouco primeiro.

— Tá bom.

Tatiane voltou para o quarto.

Mesmo depois de se casar, o pai nunca deixara de manter um quarto só para ela.

Tudo fora redecorado exatamente do jeito que ela gostava.

Ao voltar para aquele espaço que ainda lhe pertencia, todo o cansaço e toda a mágoa acumulados ao longo do dia pareceram desaparecer num instante.

Ela se sentou na beira da cama.

Sobre o criado-mudo, havia um álbum de fotos.

Tatiane estendeu a mão, pegou-o e o abriu.

A primeira foto era um retrato de família incompleto.

A imagem estava antiga, amarelada pelo tempo.

Naquele ano, ela tinha apenas oito anos.

Na foto, um pai jovem e bonito a segurava nos braços.

Ao lado dele estava o irmão mais velho. Naquele ano, ele tinha quatorze anos.

Do outro lado, a mãe.

Aquela parte da foto fora arrancada por ela mesma.

Tatiane odiara a mãe por tê-la abandonado, por levar o irmão e deixá-la para trás com o pai.

Mas o tempo passou.

E, agora, a dor dilacerante daquele gesto já não existia mais.

Ela virou a página.

Na foto seguinte, uma adolescente surgia sob a luz dourada do outono. Vestia um vestido branco longo e usava um pequeno chapéu quadrado de palha, em tom castanho-claro, de pé sob um ginkgo de folhas amarelas.

O sol caía exatamente sobre o sorriso aberto da garota. Os cabelos negros e longos emolduravam um rosto pequeno e delicado, de formato oval, com traços vivos e claros. Especialmente os olhos, que brilhavam como estrelas no céu.

Era uma beleza suave e pura, como a lua cheia refletida na água.

Mas depois…

Ela adoecera gravemente e passara a tomar medicamentos à base de hormônios. O corpo começara a ganhar peso de forma irreversível. Não importava o quanto tentasse emagrecer, nada funcionava. Só conseguia evitar que engordasse ainda mais à custa de fome e exercícios exaustivos.

De repente, Tatiane lembrou-se da garota que vira naquele dia. Os traços do rosto eram parecidos, muito parecidos. Sobretudo os olhos.

Continue to read this book for free
Scan code to download App
Comments (1)
goodnovel comment avatar
Irlaine Soares
kkkkkk bingo. esse imbecil do Henrique gosta dela. Mas ñ admite. Por isso encontrou uma versão dela mais nova. Ñ interessa, continua sendo escroto
VIEW ALL COMMENTS

Latest chapter

  • Ela Nunca Volta: Quando o Marido Frio Implora   Capítulo 986

    Henrique passou a manhã inteira no soro e, ao final do tratamento, já aparentava estar bem melhor. O médico ajustou a medicação e reforçou as orientações que ele deveria seguir durante os próximos dias.Tomás levou o almoço até o hospital. Depois de comerem, deixaram o local, e Henrique se preparou para seguir direto ao aeroporto.— O papai não pode esperar até ficar completamente bom antes de viajar?Bia o encarava com preocupação.Henrique segurou a mão da filha.— Assim que eu terminar o que preciso fazer, volto o mais rápido possível.— Então você tem que comer direitinho, dormir bem e não pode ficar doente de novo.— O papai sabe.Depois de responder, Henrique ergueu os olhos para Tatiane.Ela sustentou o olhar, mas ele permaneceu em silêncio, claramente esperando que dissesse alguma coisa.— Tome cuidado durante a viagem.Henrique continuou encarando-a. Evidentemente, aquilo não bastava.Tatiane soltou um suspiro discreto.— Você ouviu as recomendações do médico. Tome os remédios

  • Ela Nunca Volta: Quando o Marido Frio Implora   Capítulo 985

    Bia correu até Henrique e tentou apoiá-lo com as mãozinhas.— A Bia ajuda o papai.Henrique desviou o olhar de Tatiane. Ao encarar a filha, a ternura em seus olhos era impossível de esconder.— Só a Bia se preocupa com o papai.Ele acariciou a cabeça da menina.— O papai consegue andar sozinho.— Então toma cuidado, papai.Henrique lançou um olhar de lado para Tatiane.— Você também.Tatiane revirou os olhos.Henrique esboçou um sorriso, claramente divertido.Ao chegarem ao banheiro, Tatiane pendurou a bolsa de soro no gancho ao lado.— Quando terminar, me chame.Henrique continuou olhando para ela.Tatiane sustentou o olhar e perguntou, já sem a menor paciência:— Por que está me encarando? Quer que eu abra seu cinto também?— Eu disse alguma coisa?Tatiane nem se deu ao trabalho de continuar discutindo. Virou-se, saiu do banheiro e fechou a porta.Bia permanecia sentada comportadamente no banco do quarto, acompanhando tudo com atenção. Ao olhar para a filha, Tatiane sentiu a irritaçã

  • Ela Nunca Volta: Quando o Marido Frio Implora   Capítulo 984

    Tatiane tomou apenas uma tigela de mingau de arroz salgado com legumes.Henrique lançou um olhar para ela.— Você ainda está tentando emagrecer?Tatiane entendeu de imediato a insinuação e respondeu com indiferença:— Só não estou com muita fome de manhã.— No almoço, você também quase não comeu.Ela continuou comendo sem olhar para ele.Ultimamente, vinha evitando qualquer tipo de carne ou alimento com cheiro forte. Já não conseguia comer nem mesmo ovos.Agora que Henrique estava por perto, precisava ter ainda mais cuidado para não demonstrar nenhum sinal de enjoo. Por isso, limitava-se ao arroz e aos legumes, provando o mínimo possível de carne.— Com esse calor, fico sem apetite.Tatiane ergueu os olhos e acrescentou com a maior naturalidade:— Ao contrário de você, eu não vivo entrando e saindo do hospital. É melhor cuidar de si mesmo antes que seu corpo pare de funcionar de vez.O olhar de Henrique se tornou mais atento.— Parar de funcionar como?Tatiane ficou imóvel por um insta

  • Ela Nunca Volta: Quando o Marido Frio Implora   Capítulo 983

    Bia insistiu em acompanhá-los. Sem alternativa, Tatiane pediu a Neide que colocasse o café da manhã em recipientes térmicos.Assim que chegaram ao hospital, Henrique foi encaminhado à emergência para fazer alguns exames.Bia ficou sentada em um banco no corredor, sem ânimo nem para comer.Tatiane tentou tranquilizá-la.— Seu pai está só com dor no estômago. Daqui a pouco ele melhora. Não precisa ficar preocupada.Mas Bia continuava aflita. Baixou a cabeça e murmurou:— O papai acabou de sair do hospital. O médico disse que ele precisava comer direito e descansar bastante, mas ele não descansou. Eu queria que ele ficasse na casa da mamãe até melhorar, só que ele já estava querendo ir embora de novo.Tatiane acariciou a cabeça da menina.— Seu pai vai ficar bem.Bia ergueu o rosto para ela.— Mamãe, você pode pedir para o papai ficar aqui até se recuperar?— Isso também depende do que ele quiser.— Se a mamãe pedir, ele vai ficar. Tenho certeza.A convicção da menina era tanta que Tatian

  • Ela Nunca Volta: Quando o Marido Frio Implora   Capítulo 982

    Até poucos minutos antes, Henrique estava tomado pela raiva. Em outras circunstâncias, jamais teria cedido daquela maneira.Só depois que ele entrou no quarto Tatiane conseguiu relaxar de verdade. Baixou os olhos, pegou a bolsa que havia deixado sobre o sofá e seguiu para a suíte principal.Abriu a porta com cuidado e entrou sem fazer barulho.O quarto estava banhado por uma luz quente e suave. Bia dormia profundamente no meio da cama quando, de repente, chutou a coberta e se virou de lado.Tatiane pendurou a bolsa atrás da porta, aproximou-se e se sentou na beirada da cama. Tornou a cobrir a menina e ficou observando seu rostinho de perfil, tão delicado e tranquilo que seu coração logo se enterneceu.Permaneceu ali por um longo tempo. Depois, levantou-se, tomou banho e se preparou para dormir.Na manhã seguinte, Bia acordou mais cedo do que de costume. Sabia que o pai iria embora logo pela manhã.Pouco depois, alguém trouxe um conjunto de roupas limpas para Henrique.Neide preparou o

  • Ela Nunca Volta: Quando o Marido Frio Implora   Capítulo 981

    Tatiane ergueu levemente o queixo e respirou fundo, tentando recuperar a calma. Em seguida, voltou a se sentar no sofá e encarou o homem à sua frente, ainda com o rosto fechado.— Henrique, será que você consegue conversar como uma pessoa razoável? Eu não quero discutir com você.Ele a fitou com frieza.— Primeiro, responda à minha pergunta.Só então Tatiane percebeu que Henrique não era apenas autoritário e controlador. Também era teimoso a ponto de não admitir qualquer argumento que contrariasse sua vontade.— Se vou me casar de novo ou não, é algo em que só vou pensar mais para a frente.— Então você pretende se casar de novo?A acusação em seu tom era evidente.Tatiane sustentou o olhar dele, e sua voz também ganhou firmeza.— Henrique, nós já nos divorciamos. Se um dia eu decidir me casar novamente, não haverá nada de errado nisso.Um sorriso frio surgiu nos lábios dele.— Nesse caso, eu também deveria começar a procurar outra mulher. Alguém mais adequada para ser mãe da Bia.Tati

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status